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Tia Maria e as meninas da Serrinha: jongo no Humaitá
Foi bonito: no sábado, o Espaço Cultural Sérgio Porto ficou superlotado e muita gente teve que ficar de pé para ver a apresentação do Jongo da Serrinha e da Velha Guarda do Império Serrano. Os dois grupos fizeram inclusive um set conjunto, com o Zé Luiz cantando jongos e as meninas da Serrinha, ao lado da sempre emocionante Tia Maria, ajudando a fechar o show ao som de Aquarela Brasileira. O público invadiu o palco para dançar.
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Novas de Nelson: a peça entra em cartaz na quinta-feira
Antes, na sexta-feira, e também como parte da programação do Viradão Carioca, mais de 120 pessoas compareceram (às onze da noite!) ao Teatro Carlos Gomes para acompanhar a leitura, pela atriz Cissa Guimarães, de textos de João do Rio e Drummond (selecionados por este que vos escreve), além conferir a (ótima) montagem de histórias da série A vida como ela é, de Nelson Rodrigues*.
Cissa leu Coração numeroso e um trecho de A rua, o preciso texto que abre o clássico A alma encantadora das ruas. É meu trecho preferido, e que agora divido com vocês:
"A rua"
João do Rio
"Eu amo a rua.
Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.
A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões – tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos... (...)
* A Cia Paulista de Artes apresentou duas das cinco esquetes que compõem o espetáculo As noivas de Nelson. A peça estará em cartaz na Solar de Botafogo a partir da próxima quinta e eu recomendo desde já.
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