
Descobri esta preciosidade ontem, enquanto navegava pelo YouTube. É um curta-metragem sobre o grande João Nogueira, que tem a participação especialíssima de Sergio Cabral (o original) e no qual aparecem também bambas como Paulo César Pinheiro, Maurício Tapajós e Marçal, entre outros. Papa fina, meus amigos.
Sempre que ouço (ou vejo) o João, lembro do meu pai, Francisco, fã inveterado do cantor desde onde cabe a lembrança. Por coincidência, a música de encerramento do filme era uma das preferidas do velho, que, se ainda estivesse por aqui, completaria hoje 76 anos (e a quem música continua iluminando, além da morte).
"De repente, certa noite, todos mortos, Anatole compreendeu que estava só, completamente só no mundo, e sentiu essa sensação de extravio que se vive quando, no caminho, voltamos atrás e vemos o trecho percorrido, a via indiferente que se perde num horizonte que já não é o nosso"
Enrique Vila-Matas, no conto 'A arte de desaparecer' (in 'Suicídios exemplares')
Não tenho muita paciência para o Twitter (no gênero, prefiro o Facebook), mas é impossível resistir à página que o grande Millôr Fernandes estreou há dois dias. Gênio da frase curta, ele tem presenteado os leitores diariamente com pérolas como:
"Você está bêbado quando começa a sentir solidariedade e não consegue pronunciar essa palavra".
"A morte é hereditária".
"Todo homem nasce original e morre plágio".
"Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem".
Confira aqui.
Um grande artista, uma solidão maior ainda.
Michael Jackson merece os obituários, as matérias, as homenagens que vêm recebendo desde ontem. Mas que não o levem novamente, depois de morto, à (mesma) roda-gigante que ajudou a consumi-lo.
É hora de deixá-lo em paz. Enfim.
Não entendo o tempero de novidade que a imprensa colocou nas matérias sobre as 'vuvuzelas', as cornetas de plástico que tanto vêm suscitando polêmica nos estádios da África do Sul. Lembro que quando era pequeno tinha uma dessas, assim como várias pessoas que freqüentavam o Maracanã na época e infernizavarm os ouvidos alheios com a barulheira. Aliás, nisso os coleguinhas têm razão: as cornetas são chatas demais.
. Na próxima quinta-feira, vai rolar o lançamento do romance Avó Dezanove e o segredo do soviético, do Ondjaki. Será na Livraria da Travessa do Leblon, a partir das 19h;
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Adriana, Sérgio e Veríssimo: bate-papo na Casa do Saber
. Já na segunda, às 19h30, a Casa do Saber sediará o coquetel de lançamento da nova edição da revista Granta. Na ocasião, haverá um bate-papo entre a querida Adriana Lisboa, o tricolor Sérgio Sant'Anna e Luis Fernando Verissimo e Sérgio Sant'Anna, com mediação do Francisco Bosco;
. Com atraso, registro aqui que a amiga Rosana Caiado tem um novo blog, o Complete a frase. Lá, ela propõe uma espécie de jogo: inicia uma sentença, que deve ser terminada pelo leitor. Confira aqui;
. Em geral, as pessoas hesitam em me dar livros, achando que já comprei (ou recebi) todos. No entanto, dos vários novos títulos que ganhei de aniversário, não tinha nenhum. São eles: Suicídios exemplares (Enrique Vila-Matas), À mesa com o chapeleiro maluco (Alberto Manguel), O crime do restaurante chinês (Boris Fausto), Futebol ao sol e à sombra (Eduardo Galeano), A letra brasileira de Paulo César Pinheiro - Uma jornada musical (Conceição Campos), A última tragédia (Aedulai Sila) e Noturno do Chile (Roberto Bolano), além de uma genial coletânea de postais com caricaturas de escritores, feitas pelo Loredano, edição ainda não lançada mas já recomendada do Instituto Moreira Salles.
Washington (que perdeu pênalti na final de 2008), Arouca e Junior César saíram do Fluminense para o São Paulo porque "queriam ganhar a Libertadores".
Quem sabe no ano que vem.
Sempre fui favorável à não obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Entendo que cientistas sociais, economistas, advogados, médicos etc. podem perfeitamente trabalhar como jornalistas. E mais: que enriquecem mesmo o ambiente da redação, que dão densidade aos veículos de informação. Cito apenas um exemplo, a título ilustrativo: um dos melhores repórteres da Folha de S. Paulo, o Rafael Cariello, é historiador.
Há muito tempo - e não raramente sob críticas - defendo que o jornalismo seja um curso de pós-graduação, no qual em um ano ou um pouco mais os interessados poderiam aprender as técnicas básicas do ofício. O atual modelo das faculdades de comunicação beira o patético: dois anos de matéria humanística (de resto, necessária, mas que pode ser aprendida em outros cursos) e dois anos da mais pura enganação, sob a alcunha de 'disciplinas práticas'.
Portanto, entendo que a decisão que o Supremo Tribunal Federal tomou ontem, tornando dispensável a formação específica, é digna de comemoração. O que não quer dizer que eu defenda o vale tudo. Certamente, algum tipo de regulamentação da profissão é necessária e espero, embora sem muita fé, que nossos parlamentares tratem disso (graças à inércia do Congresso, o Supremo é que está legislando no Brasil).
O site Tribuneiros (a favor do STF) e o blog do Fernando Molica (contrário) também se pronunciaram sobre o assunto e merecem a visita. A discussão, pois, continua.
O site oficial da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) informa:
"Casa de Cultura, sexta-feira, dia 3, às 10h30: O angolano Odjaki, autor de Bom dia, camaradas, e o brasileiro Marcelino Freire, autor de Balé ralé, trocam impressões a respeito do Acordo Ortográfico que entrou em vigência este ano e pretende uniformizar a ortografia de oito países falantes do português. Na mediação, o escritor Marcelo Moutinho, organizador do Dicionário amoroso da língua portuguesa".
Além disso, vamos promover uma tarde de autógrafos do Dicionário na Flip. Será no sábado, dia 4, às 13h30, no Che Bar. Com capirinha e feijoada.
Isso já faz algum tempo. Eu e o amigo Alberto Mussa bebíamos umas cervejas e conversávamos sobre duas de nossas paixões em comum - o carnaval e a literatura -, quando ele vaticinou: "Ter um samba meu cantado na Sapucaí seria mais importante para mim do que ganhar o Prêmio Nobel". Não hesitei em concordar, fazendo a devida observação: no meu caso, desde que fosse no Império Serrano.
Pois bem: ontem, por volta das dez e quinze da noite, participava da fundamental resenha pós-pelada lá no Clube dos Macacos quando o celular apitou, indicando a chegada de uma mensagem em SMS.
"Mussa virou enredo! O Império da Tijuca anunciou agora o Trono da Rainha Jinga".
Quem assinava a mensagem era o grande Luiz Antônio Simas. E nem precisa dizer como fiquei feliz.
Explico aos que não sabem do se trata. O Trono da Rainha Jinga é um dos livros do Mussa. Na obra, ele investiga a escravidão e esquadrinha com tintas ficcionais o trânsito de culturas entre Brasil e África a partir da história da guerreira angolana que atuou na resistência contra os colonizadores portugueses nos idos do século XVII. Segundo conta o Simas em seu blog, o enredo é baseado no romance e em manuscritos da época.
A verdade é que, a se tirar pelos enredos já escolhidos, o Grupo de Acesso promete muito para o ano que vem. O tema escolhido pelo Império da Tijuca honra a tradição da escola (já saudada aqui neste blog), que também destoa do coro dos contentes (e, assim como o Império Serrano, paga um alto preço por isso) e que ganhou um lugar especialíssimo no meu coração desde o memorável tributo a São Jorge, em 2006.
Tive a alegria de desfilar na escola do Morro da Formiga no carnaval passado, com a bela homenagem a Mestre Vitalino. Se tudo der certo, espero cerrar fileiras em 2010 ao lado do Mussa. E não tenho dúvidas ao afirmar: o Nobel chegou para ele.
Fico sabendo, através do blog Pendura essa, do querido Paulo Thiago de Mello, que o Villarino completou 56 anos ontem. A notícia me deixa feliz. Não só porque o Villarino, com suas paredes históricas, seus garçons à antiga, seu recato elegante, é meu lugar preferido para beber aqui perto da OAB, mas também pela capacidade de resistência.
Explico: como bem observa o Paulo, trata-se de um clássico representante do bar-uisqueria, modelo que vem desaparecendo. Penso no Villarino e lembro do saudoso Bico Doce, onde dividi boas conversas e muitos copos (eu, cerveja; ele, uísque) com o Antonio Torres. Ambos, espaços boêmios singulares, cheios de personalidade.
Paulo lembra do clássico primeiro encontro entre Tom e Vinícius, ocorrido no Villarino, e conta que o estabelecimento só não sumiu "graças à obstinada determinação de seu Antonio, que recusou inúmeras ofertas de compra do lugar, inclusive do Bradesco e da Drogaria Pacheco". Leia o texto do Paulo aqui. E vida longa ao Villarino!
A revista Veja desta semana traz um belo artigo do Roberto Pompeu de Toledo. Melhor colunista da publicação (ao lado, é claro, do Millôr), ele faz uma interessante conexão entre uma frase grafitada num muro de São Paulo e dois versos do poema La Luna, de Jorge Luis Borges. Confira, a seguir, o texto na íntegra.
"Palavras no muro"
Roberto Pompeu de Toledo
"O amor é importante, pombas. No original, não é "pombas". É um palavrão, que também começa com "po". A frase, desenhada com as letras angulosas e sem curvas dos grafiteiros, nas últimas semanas tomou conta de muros, paredes e beiradas de viadutos de São Paulo. Enfim, um grafiteiro inteligente. Ou poético, ou pungente, dependendo do estado de espírito de quem o lê. "O amor é importante, po", de autoria desconhecida, eleva o grafite paulistano da habitual indigência ao nível dos clássicos do ramo produzidos no maio de 1968 francês – "A imaginação no poder", "Seja realista: exija o impossível", "É proibido proibir".
O segredo da frase é a palavrinha que começa com "po" aposta à oração principal. É o que faz que um pensamento banal adquira vísceras e atinja o leitor. "O amor é importante", sozinho, seria uma bobagem. Ocorre que o grafiteiro queria dizer exatamente isso, que o amor é importante. Encontrou um jeito de driblar o lugar-comum ao socorrer-se do palavrão. O palavrão contrapõe-se à pieguice do desabafo sentimental e o redime. A violência do expletivo chulo compensa a moleza do pensamento central. Produz-se o inesperado. E o rabisco na rua alcança o patamar da beleza literária.
Esse mesmo fenômeno de uma expressão secundária, na frase, sobrepor-se ao principal e salvá-la encontra-se em… (em quê? em quem? …prepare-se o leitor para saltar dos clandestinos assaltos aos muros de São Paulo para os textos antológicos da literatura universal) …em Jorge Luis Borges. Não que se queira comparar o desconhecido grafiteiro com o criador do Aleph (ou melhor: é o que se quer, sim; prepare-se o leitor para o sublime encontro entre um autor anônimo, possivelmente sujo, talvez faminto, quase certamente desocupado, cuja diversão é vagar pelas ruas da cidade nas horas vazias da noite, e um dos luminares da literatura do século XX). O recurso empregado em "O amor é importante, po" é o mesmo de dois versos do poema La Luna, de Borges:
"Según se sabe, esta mudable vida
Puede, entre tantas cosas, ser muy bella".
A ideia central, a de que a vida pode ser bela, é simplória como a de que o amor é importante. A maravilha dos versos se deve ao "segundo se sabe" com que se abrem e ao "entre tantas coisas" que precede a qualificação da vida. Eis, de novo, a mágica de componentes secundários da frase – dois, neste caso – tomarem o lugar do principal e o modificarem a ponto de conferir-lhe estatuto de obra de arte. O "segundo se sabe" prepara o espírito para algo já muito repisado, e com isso ameniza a banalidade do que virá a seguir, mas não está aí seu efeito principal. Mais relevante é que se trata de uma expressão marcadamente prosaica, frequente em peças de argumentação, aquelas em que se procura defender um ponto, como um editorial de jornal, uma tese acadêmica ou um arrazoado de advogado. Encontrá-la num poema, a escorar um luminoso momento de encantamento com a vida, produz um contraste da mesma família do palavrão sacado pelo grafiteiro para sublinhar o recado de que o amor é importante.
O "entre tantas coisas" abre ao infinito o leque de feições que pode assumir a vida. Nenhuma surpresa. A vida pode ser bela, mas pode ser muitas outras coisas, feia inclusive. "Vida", como mulher fácil, pode ir com qualquer adjetivo. Mas aí que está. Se a vida pode ser também feia, trágica, cruel, frustrante e dura, além de agradável, surpreendente ou reconfortante, quando nos damos conta de que, "entre tantas coisas", ela pode também ser bela, aí sim é que se torna mais bela ainda. Se Borges tivesse apenas escrito que a vida pode ser bela, que decepção, para um escritor de sua estatura. Seria como se o grafiteiro afirmasse que o amor é importante, e ponto final. Ao escrever que a vida "puede, entre tantas cosas, ser muy bella", ele a torna extraordinariamente bela, ofuscantemente bela.
Se a frase do grafiteiro é digna de Borges, como aqui se procurou demonstrar, a recíproca é verdadeira. Borges é também digno do grafiteiro. Não. Não dá para imaginar o argentino, spray na mão, a esgueirar-se na noite, em busca do muro mais imaculado para aplicar sua marca, isso não. Mesmo porque enxergava mal e podia acidentar-se. Mas dá para imaginar o "Según se sabe, esta mudable vida…" aplicado a um muro, uma parede, uma beirada de viaduto. O efeito seria o mesmo do "O amor é importante, po". O de uma pausa, uma surpresa e um renovador respiro, em meio à selva da cidade".
. Do outro lado (foto), de Fatih Akin. Assisti ontem, por indicaçao do pessoal da Moviola. Algo triste, muito intenso, bonito demais. O diretor, que conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2004 com o filme Contra a parede, faz um mosaico de dramas individuais que se inteligam em determinado momento, tendo como pano de fundo do processo de globalização. Akin segue a linha de Paul Haggis, em Crash, e de Alejandro Gonzáles Iñarritu, em Babel - mas voa mais alto. Repasso, portanto, a indicação;
. Ontem conferi também a estréia do espetáculo Noivas de Nelson, que entrou em cartaz no Solar de Botafogo. São cinco esquetes baseadas em histórias da série A vida como ela e costuradas pelo áudio de depoimentos de Nelson Rodrigues. O adequação do figurino, o cenário simples mas extremamente funcional, a direção precisa de Marco Antônio Braz e, principalmente, a ótima atuação dos atores da Cia Paulista de Artes garantem a excelência da montagem. O riso é certo;
. A querida Lúcia Bettencourt é uma das entrevistadas de hoje no programa Espaço Aberto, da Globo News. Ela e Antonio Carlos Borges conversaram com o apresentador Edney Silvestre sobre a obra do grande Jorge Luis Borges. Às 21h30;
. Outro amigo, o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, acaba de estrear um novo blog. No Rastros de Carmattos, ele promete "falar um pouquinho mais alto que o habitual. E ouvir quem quiser comentar e trocar idéias". Ou seja, é um blog bem pessoal, diferente do outro que o Carlinhos mantém - o DocBlog, voltado exclusivamente para documentários. Isso embora, é claro, o cinema também vá estar presente no novo espaço, como comprova o primeiro post, sobre 3 macacos, do turco Ceylan.
Nos dias 12 e 13 de junho (sexta e sábado), o Real Gabinete Português de Leitura vai sediar o festival literário Artimanhas Poéticas. Com curadoria de Claudio Daniel, o evento reunirá escritores, críticos, editores e jornalistas em palestras, debates, recitais, lançamentos, performances musicais e de poesia sonora. Entre os nomes confirmados, estão Luiz Costa Lima, Sergio Cohn, Paulo Henriques Britto, Tavinho Paes, Arnaldo Brandão e Sylvio Back. Também participarão do Artimanhas os amigos Gabriela Marcondes e Luiz Roberto Guedes, este um querido parceiro de memoráveis saraus, a quem não vejo há muito tempo, não sem lamentar.
Confira a programação completa do evento aqui.
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Tia Maria e as meninas da Serrinha: jongo no Humaitá
Foi bonito: no sábado, o Espaço Cultural Sérgio Porto ficou superlotado e muita gente teve que ficar de pé para ver a apresentação do Jongo da Serrinha e da Velha Guarda do Império Serrano. Os dois grupos fizeram inclusive um set conjunto, com o Zé Luiz cantando jongos e as meninas da Serrinha, ao lado da sempre emocionante Tia Maria, ajudando a fechar o show ao som de Aquarela Brasileira. O público invadiu o palco para dançar.
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Novas de Nelson: a peça entra em cartaz na quinta-feira
Antes, na sexta-feira, e também como parte da programação do Viradão Carioca, mais de 120 pessoas compareceram (às onze da noite!) ao Teatro Carlos Gomes para acompanhar a leitura, pela atriz Cissa Guimarães, de textos de João do Rio e Drummond (selecionados por este que vos escreve), além conferir a (ótima) montagem de histórias da série A vida como ela é, de Nelson Rodrigues*.
Cissa leu Coração numeroso e um trecho de A rua, o preciso texto que abre o clássico A alma encantadora das ruas. É meu trecho preferido, e que agora divido com vocês:
"A rua"
João do Rio
"Eu amo a rua.
Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.
A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões – tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos... (...)
* A Cia Paulista de Artes apresentou duas das cinco esquetes que compõem o espetáculo As noivas de Nelson. A peça estará em cartaz na Solar de Botafogo a partir da próxima quinta e eu recomendo desde já.
É com imensa alegria que informo a vocês a confirmação de que, como eu havia especulado há pouco mais de uma semana aqui no blog, o enredo do GRES Império Serrano para 2009 será o melhor do carnaval (ao lado, é claro, da homenagem a Noel, feita pela Vila). Num tempo em que se anunciam com pompa temas como "o Camarote da Brahma", a querida escola da Serrinha levará à Sapucaí o enredo João das ruas do Rio.
Como se pode ver já pelo título, trata-se de um merecido tributo ao grande João do Rio, maior cronista carioca, a partir daquele que foi o assunto principal de sua obra: a encantadora alma das ruas da cidade. Imagine-se o que pode render um tema desses nas mãos competentes e criativas de Rosa Magalhães. E imagine-se que samba pode sair daí.
O enredo confirma a opção por privilegiar as coisas que marcam nossas singularidades, a remada contra a maré que diferencia e, em essência, cimenta a riqueza de uma cultura. É gauche, como o homenageado e como o próprio Império. É, em suma, cara da escola.
P. S: Por falar em samba, a notícia acaba de ser dada, em primeira mão, pelo site Tribuneiros: mestre Luiz Antonio Simas, historiador de alta estirpe, prosador de mão cheia, imperiano desde sempre, anunciou que vai concorrer na disputa de hinos do Império. A tirarmos pelo samba que compôs (com Alberto Mussa e outros bambas) para o Salgueiro em 2008 - injustamente derrotado na finalíssima -, vem coisa boa por aí.
"Vivo em Lisboa porque gosto da luz; e porque no Rio é impossível escrever. Você fica olhando o tempo inteiro"
António Lobo Antunes, em entrevista publicada hoje em O Globo
O evento promovido pela Secretaria de Cultura do Município do Rio de Janeiro, tão bacana quanto mal compreendido, vai possibilitar um religamento (rápido, eventual, ainda assim bastante simbólico) entre partes da cidade que não costumam se visitar. Jongo da Serrinha no Humaitá, esquetes de Nelson Rodrigues na Pavuna. Alceu Valença na quadra da Portela, Beth Cavalho na Praça 15. Dicró no Leblon, Marcos Sacramento em Bangu. Os saberes da Zona Norte na Zona Sul, e vice-versa.
Além disso, haverá atrações de dança, artes plásticas, literatura... A programação, intensa, variada, misturando artistas de grande sucesso com gente que ainda luta por espaço, está toda aqui. Gostaria, no entanto, de indicar quatro eventos:
1. Hoje, às 21h, haverá a projeção das fotos históricas de Augusto Malta na fachada da Castelinho, com show simultâneo do cantor Pedro Holanda.
2. Hoje, após o espetáculo Tom e Vinícius, o Teatro Carlos Gomes será palco para uma leitura feita pela atriz Cissa Guimarães de textos escritos por João do Rio e Carlos Drummond de Andrade, que falam sobre a cidade. Na seqüência, a Cia Paulista de Artes encenará duas histórias da série A vida como ela é..., do grande Nelson Rodrigues. Entrada gatuita.
3. Amanhã, às 15h, teremos um memorável encontro entre o Jongo da Serrinha e a Velha Guarda do Império Serrano no Espaço Cultural Sérgio Porto, também com entrada franca.
4. Domingo (às 11h no Bairro Peixoto e às 15h no Parque dos Patins), componentes da bateria Estandarte de Ouro do carnaval carioca (precisa dizer qual é?) farão uma oficina de percussão especificamente voltada para as crianças.
1. Tudo o que eu queria dizer sobre o lamentável acordo ortográfico que promove a 'mcdonaldização' da Língua Portuguesa o Fernando Molica escreveu aqui.
2. Foi valente o time do Vasco no jogo de ontem. Merecia melhor sorte.
3. Hoje, às 16h, estarei no programa Sem Censura (TV Brasil), falando sobre o Dicionário Amoroso.
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Nélida e Chico são dois dos entrevistados no novo portal
A Saraiva acaba de colocar no ar um portal de conteúdo ligado à área da cultura. No site, há três seções: uma sobre música (com Mauro Ferreira), outra sobre cinema (com Cavi Borges), a terceira sobre literatura. O responsável pelo canal das letras é o Ramon Mello, que até pouco tempo mantinha um blog exclusivamente voltado a entrevistas com escritores.
No novo portal, ele tem dado prosseguimento a esse trabalho: já estão no ar conversas com Nélida Piñon e Francisco Bosco, ambas bem interessantes. "A literatura como que me guiou, foi uma luz que me fez pensar, ter paixão e olhar o outro – não como quem o olha como mirada passageira e volúvel –, me fez interpretar os códices antigos. Por isso, me tornou uma mulher arcaica e moderna ao mesmo tempo", diz Nélida, que comenta na entrevista o lançamento de seu mais recente livro, Coração andarilho.
Já o Chico Bosco fala sobre a seleta de ensaios Banalogias, a influência de Roland Barthes na sua formação intelectual, a produção poética (abandonada precocemente e em boa parte renegada), e - claro - o ofício de letrista. "Escrevo a partir de uma melodia que recebo", revela ele. para em seguida analisar a relãção letra/música: "O que considero importante é que minha formação teve uma relação com as formas fixas da poesia. O meu livro Florestado (que é um renegado) é todo em decassílabos. A experiência com a forma fixa possibilita agir melhor diante das coerções da melodia. Não é à toa que Antonio Cicero é um grande compositor. Considero uma impossibilidade teórica fazer uma letra para ser musicada. Uma letra só é letra se ela estiver atrelada a uma melodia. O que se faz é um texto, que pode se tornar uma letra se receber uma música. É uma tolice achar que um texto é mais musicável do que outro. Se fosse assim a Cecília Meireles seria sempre musicada. E, no entanto, Caetano Veloso pega o poema concreto "Pulsar", aparentemente imusicável, e faz uma canção belíssima".
Recomendo a leitura do site. Acesse aqui.
O angolano João Melo me ligou há pouco. Está no Rio e vai ao lançamento. Com ele, teremos 13 autores presentes.
O lançamento - marcado para hoje, às 19h30, na Livraria da Travessa de Ipanema - foi destaque nos blogs do Ancelmo Gois, da F., da Monica Ramalho, da Rosana Caiado, do Eduardo Cavalho, da Ana Cristina Melo, da Paula Cajaty, além do blog literário do jornal Extra, dos sites Tribuneiros, Publishnews e Zé Pereira, e das colunas do Fernando Calazans e Liquidificador (ambas do jornal O Globo). Agradeço a todos pela gentil menção.
Vai ter cerveja e caldinho de feijão. Vai ter vinho verde e bolinho de bacalhau. Além de vários autores: Heloisa Seixas, Antonio Cícero, Antônio Torres, Armando Freitas Filho, Fernando Molica, Marcelino Freire, Ondjaki, Adriana Lisboa, Alexei Bueno, Tatiana Salem Levy, Flávio Izhaki, Henrique Rodrigues e este que vos escreve.
Esperamos vocês lá!