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O dom Escrito em 19 de maio de 2009
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Foi o amigo Flavio Izhaki, então trabalhando na editora Record, quem me soprou: "Vai sair um ótimo livro de um autor português, bem novo ainda, chamado Jorge Reis-Sá". Ouvi a dica do Flavio e, assim como ele, fiquei encantando com a singeleza lírica de Todos os dias, o tal livro. Na época, cheguei a resenhar o romance para o Prosa & Verso (O Globo).

Depois disso, acabei conhecendo o Reis-Sá (com quem, aliás, organizo hoje o Dicionário Amoroso), que é também editor e publica em Portugal vários autores brasileiros. Há cerca de duas semanas, ele lançou por aqui o romance O dom, um livro em quase tudo distinto do anterior e cuja orelha tive a honra de escrever. Segue o texto:

De um instante para outro e sem razão aparente, os moradores de uma cidade começam a se transformar em contas como as que se usam na confecção de colares. Apenas um pequeno grupo, confinado ao centro comercial do lugar, parece ter se livrado da misteriosa peste. Seus membros pagam, no entanto, o preço da clausura.

Há uma exceção: o indivíduo que, também sem qualquer explicação, manifesta desde logo o poder de sair do prédio e respirar o ar que circula do lado de fora sem ser atingido. É o Homem do Dom.

No microcosmo imaginado por Jorge Reis-Sá, este homem funciona como o pêndulo que ora congrega, ora divide o grupo. À medida que os dias passam e tensionam ainda mais a situação-limite, os conflitos internos se multiplicam, a luta pelo poder se intensifica e, consequentemente, a violência aflora.

Nesse cenário, a extraordinária capacidade do Homem do Dom suscita inveja - e ao mesmo tempo veneração. Aos olhos dos demais, ele personifica o Bem, mas também o Mal. Encarna, sob perspectivas antagônicas, as figuras arquetípicas de Deus e do demônio. Enfumaça os limites entre paganismo e crença.

Se em 'Todos os dias', romance anterior, o autor apostou num registro reflexivo, lírico, muito próximo da poesia, neste livro a ação é a força-motriz. Ecos do célebre Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, ressoam nos personagens - identificados não pelos nomes, mas por sua condição - e no próprio enredo. Porém, diferentemente de seu conterrâneo, Reis-Sá abdica de dispensar um valor moral à sua história.

Embora o tom geral seja de parábola, 'O dom' move-se no terreno da dúvida, não no da certeza. Não há exatamente lição a tirar. Exceto, talvez, a de que a palavra é sempre escassa, sempre deficitária ante os intrincados labirintos da experiência humana.

Marcelo Moutinho

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