
É não menos do que excepcional o ensaio que o artista plástico Nuno Ramos escreveu sobre Nelson Cavaquinho para a edição de número um da revista Serrote. Valendo-se de sua enorme erudição, mas sem soar pernóstico, Nuno avalia a obra de Nelson sob a perspectiva da história da música brasileira e à luz da tragédia grega, traçando ainda um interessante cotejo com o trabalho de outro mestre, o também mangueirense Cartola.
Um trecho do ensaio: “À diferença da tragédia grega, o coro em Nelson Cavaquinho funde o coletivo e o individual – não há duas vozes, sempre preservadas na tragédia grega, em que dois tempos diversos parecem conviver; nem oposição entre a ação trágica do herói e o inevitável rebarbativo cantado pela ‘testemunha julgadora’, o coro. O cantor e o coro nas canções de Nelson querem cantar juntos, numa espécie de conciliação cósmica que a entrada das vozes femininas e masculinas no fim de ‘Juízo Final’, na interpretação do próprio Nelson, exemplifica com perfeição. Ali, o cantor parece arrastado por essas vozes, que atuam no mesmo sentido que ele, elevando suas palavras a um patamar que não alcançariam sozinhas. Assim, os dois polos misturam-se, acalmam-se, consolam-se. A canção perde uma imparidade lírica quase insuportável, que tenderia talvez à dissipação, consolando-se com o ato mesmo de muitos estarem-na cantando agora”.
O melhor é que, além disso, a revista traz outros ótimos textos. Exemplos: uma análise de Rodrigo Naves sobre o ilustrador Saul Steinberg, um artigo de Tostão sobre a arte do passe, aforismos de Kafka traduzidos por Modesto Carone, uma carta de Mario de Andrade a Otto Lara Resende. Publicada pelo Instituto Moreira Salles, a Serrote estrou em altíssimo nível.
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