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O sumiço (e dois filmes) Escrito em 20 de abril de 2009
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Sim, sim, ando sumido. Os motivos são muitos: o fechamento do jornal, a encomenda de um conto para uma antologia, os últimos detalhes do Dicionário Amoroso e, claro, os preparativos para a viagem ao Canadá - passarei três semanas estudando (e escrevendo, espero) em Toronto.

Nessas duas semanas atribulados, vi dois filmes que gostaria de recomendar. O primeiro deles é Gran Torino, que sem favor incluo entre os melhores trabalhos de Clint Eastwood. Com a direção segura e uma atuação que só ele mesmo poderia nos oferecer, Clint presta reverência às formas clássicas do cinema hollywoodiano sem que seu filme perca o viço e a contundência. Mais que simplesmente o retrato do ocaso do típico herói 'eastwoodiano' (como se bem comentou por aí), Gran Torino é uma lente grande angular sobre o descompasso do homem envelhece com as coisas que o tempo (quase sempre) torna diferentes.

O outro filme é Persépolis, uma animação de traços elegantes e majoritariamente desenhada em preto e branco na qual a iraniana Marjane Satrapi conta a própria trajetória. A saber: a história de uma menina precoce, filha de pais ligados à esquerda, que cresce durante a Revolução Islâmica. Didático sem cair no didatismo, com uma abordagem crítica mas não maniqueísta, Persépolis faz uma viagem lírica (vá lá, algo tristinha) pelas dúvidas e pelos sentimentos da irresistível protagonista, que parece ser sempre estrangeira, onde quer que esteja.

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Joe Gould Escrito em 08 de abril de 2009
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Infelizmente não consegui ir ao primeiro debate do ciclo Jornalismo literário, comentado aqui o post anterior. O horário - 18h30 - não ajuda. Mas a notícia do evento me fez voltar a um livro delicioso, justamente o que abriu a série homônima que a Companhia das Letras vem lançando nos últimos anos.

Refiro-me a O segredo de Joe Gould, que reúne dois extensos perfis de escritos pelo jornalista Joseph Mictchel para a revista New Yorker. O protagonista das histórias: o tal Gould, um hilário personagem novaiorquino que Mitchel disseca com precisão de cientista e verve de bom escritor. A vida de Gould, aliás, chegou a virar filme, numa produção inspirada nos textos de Mitchel que foi dirigida Stanley Tucci e ganhou por aqui o título de Crônicas de uma certa Nova York.

Na época em que O segredo de Joe Gould foi lançado no Brasil, fiz sua resenha para suplemento Prosa & Verso (O Globo). Reproduzo o texto a seguir:

A nobre arte de ouvir

Marcelo Moutinho

Joe Gould, um "homenzinho alegre e macilento", era figura fácil nos bares mais ordinários do Village durante os anos 40 e 50. Gabava-se de ser o último dos boêmios e a maior autoridade dos EUA em privação: "Vivo de ar, auto-estima, guimba de cigarro, café de caubói, sanduíche de ovo frito e catchup". Sob tintas de ficção, Gould lembraria Pierre Menárd, célebre personagem de Borges, mas o notívago baixinho, com suas roupas invariavelmente grandes demais e seu ensebado portfólio repleto de rabiscos manuscritos, realmente existiu. E foi objeto de dois perfis produzidos pelo jornalista Joseph Mitchell para a revista New Yorker. Tais textos, publicados originalmente com um hiato de 22 anos, estão reunidos no livro "O segredo de Joe Gould", lançado pela editora Companhia das Letras como parte da coleção Jornalismo Literário.

Talvez somente um semanário do quilate da New Yorker pudesse bancar a demora que Mitchell em geral levava para apurar, redigir e burilar suas matérias. "O professor Gaivota" (1942), primeiro perfil de Gould, por exemplo, ficou pronto após meses e meses de conversas. A possibilidade de ouvir Joe por um longo período decerto foi fundamental para a excepcionalidade dos perfis. Colaborou para isto também a complexidade do personagem. Gould não chamaria a especial atenção de Mitchell caso fosse simplesmente mais um dos boêmios que vagavam pelas ruas da cidade. O "professor Gaivota" descendia de uma família de médicos, formara-se na Universidade de Harvard, estudara a eugenia dos índios americanos e trabalhara como jornalista. Cheio de si, malgrado a sujeira e a aparência desleixada, dormia em estações de metrô e albergues baratos. Para se proteger do frio rigoroso do inverno, valia-se de folhas de jornais entre as roupas. Mesmo nesses momentos exalava esnobismo: "Só uso o "Times".

Gould assumira uma quixotesca missão: escrever a "História Oral de Nossa Época", reunindo em dezenas de volumes conversas travadas dia após dia com desvalidos como ele. Nas palavras de Mitchell, um "repositório de tagalerice, uma coletânea de disparates, mexericos, embromações, baboseiras, despautérios", cuja idéia surgira num dia prosaico. Gould passara por um sebo onde esbarrou numa coletânea de contos em cujo prefácio o poeta William Butler Yeats assinalava: "A história de uma nação não está nos parlamentos e nos campos de batalha, mas no que as pessoas dizem umas às outras em dias de feira e em dias de festa, e na maneira como trabalham a terra, como discutem, como fazem romaria". Foi o que bastou para que Gould decidisse a partir de então dedicar todo o tempo a colher informações necessárias ao monumental livro. Sem emprego fixo, custeava suas mínimas despesas pedindo contribuições pelos bares da cidade, em nome de um tal "Fundo Joe Gould", sempre detalhando seus nobres propósitos. Entre os colaboradores, além de bêbados anônimos e turistas curiosos, constavam nomes como e.e.cummings, que chegou a dedicar-lhe um poema.

A "História Oral", segundo cálculos do próprio Gould, alcançaria nove milhões de palavras, escritas por extenso em papéis manchados de gordura, cerveja e café, e guardados na casa de amigos e numa granja, em Long Island. Ele adorava falar sobre o livro, que incluía ensaios autobiográficos e hilários estudos eivados de sofisma, como o que ironiza o uso desmedido de estatísticas pela sociedade americana, relacionando o consumo de tomates por engenheiros ferroviários ao aumento do número de acidentes de trem. Freqüentemente, Gould invadia concorridas festas no Village, onde, após alguns copos de cerveja, punha-se a recitar poemas e trechos da "História Oral", ou simplesmente a imitar gaivotas. Quando alguém tentava classificá-lo de exibicionista, emergia outro de seus mais marcantes traços: o sarcasmo. Mitchell reproduz a resposta dada por Gould à jovem que criticara sua performance durante um coquetel. Disse-lhe: "Se minha informalidade a leva a pensar que sou um bêbado bobo (...), atenha-se firmemente a essa convicção, atenha-se firmemente, atenha-se firmemente, e mostre sua ignorância".

Graças à franqueza, ganhou muitos desafetos no meio artístico e intelectual novaiorquino. Gould debochava dos colegas poetas, de religiosos e pintores ditos de vanguarda. Numa ocasião, insistiu para participar do sarau de respeitada sociedade literária, que sempre lhe negara entrada e naquela oportunidade promovia a Noite da Poesia Religiosa. Pediu licença para ler "Minha religião", poema de sua autoria. Diante da concordância, disparou: "No inverno sou budista / E no verão sou nudista". Na Noite da Poesia da Natureza, implorou para declamar outro, chamado "A gaivota". Saltou, então, da cadeira, sacudindo os braços e gritando: "Sriiic! Scriic! Scriic!".

Seus pontiagudos comentários atingiram também um "promissor" pintor que atacara quadro feito por Alice Neel, amiga de longa data: "Fiquei muito contente (...), pois é um abstracionista de sucesso, está na linha de frente da vanguarda e só se impressiona com quadros totalmente sem sentido e concluídos em meia hora". A mordacidade ganhava relevo quando as vítimas eram gente ligada à arte engajada. Teriam perdido o senso de humor e, para irritá-los, Gould revezava-se pelos cafés a declamar o poema "As barricadas": "As barricadas / E, por trás destas barricadas, (...) / Os camaradas morrem - / De tanto comer."

Na tarefa de desenhar em palavras esse fascinante personagem - arrogante, caçoante, intrometido, politicamente incorreto, por vezes grosseiro – Mitchell corria o risco de recair no melodrama. Mas sua prosa límpida foca-se na análise psicológica e contextual do enigmático Gould. Mesmo no segundo perfil, veiculado somente após a morte do protagonista e no qual Mitchell reflete sobre o desenvolvimento da reportagem, explorando suas contradições, brilha a precisão do autor, que viria a revolucionar o jornalismo, remando na maré contrária ao meramente investigativo por revestir de técnicas literárias a narrativa.

Por intermédio de uma série de descobertas do próprio Mitchell, o leitor compreende que, apesar de lidar com prática que supõe total transparência - o jornalismo -, no fundo tanto o personagem quanto o autor dos perfis em algum instante vestem máscaras. Mitchell o escutou sóbrio, bêbado, depressivo, radiante, sempre com extrema paciência. Mais como ouvinte, menos como interlocutor. Observou em minúcias o ambiente que o rodeava, desenvolvendo certa intimidade, tentando captar através da topografia uma visão mais completa sobre quem enfim seria Gould. Porém, ante a desconfiança sobre a verdadeira existência da "História oral", absteve-se de desnudá-la.

Como observa o cineasta João Moreira Salles no posfácio do livro, a construção artesanal das matérias de Mitchell liga-se à necessidade de tempo para "entender" e "mostrar" a beleza que se esconde em universos aparentemente banais. Salles sublinha que Mitchell busca na alma encantadora das ruas e nos personagens urbanos "um grande semiparadoxo: a permanência – aquilo que não muda, ou muda pouco. Mais ainda: aquilo que resiste à mudança, às vezes militantemente". Ele quer ler as entrelinhas da cidade, não seus pontos de exclamação; e explorar o "elo secreto" que há entre "lentidão" e "memória", já apontado por Milan Kundera.

A interseção de interesses entre Mitchell e Gould dá-se justamente neste anseio. Tanto um quanto o outro, cada qual a seu modo, desejou "escutar o mundo" - e registrá-lo, lutando contra o esquecimento. Após a morte de Gould num hospital psiquiátrico e a veiculação do segundo perfil, Mitchell curiosamente nunca mais publicou mais nada. Findo o misterioso Joe Gould, findo o que por anacrônico lhe era caro, Mitchell preferiu calar-se também.

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Jornalismo literário Escrito em 06 de abril de 2009
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Maciel e Matinas farão o primeiro debate do ciclo no CCBB

Programaço: na quarta-feira, às 18h30, o Centro Cultural Branco do Brasil dará início à série Jornalismo Literário, que vai rolar até novembro com encontros mensais mediados pelo homem de imprensa (alô, Simas!) Álvaro Costa e Silva, o nosso Marechal.. O debate de estréia, sobre O new journalism e as experiências inovadoras do jornalismo brasileiro, reunirá Luiz Carlos Maciel e Matinas Suzuki.

Matinas é o coordenador da coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras. Foi editor-executivo da Folha de S. Paulo, diretor do Grupo Abril e presidente do portal IG. Autor de Geração em transe, Maciel é escritor, jornalista, roteirista. Foi um dos fundadores do lendário Pasquim e trabalhou no Jornal do Brasil, na Última Hora e nas revistas Fatos e Fotos, Rolling Stone e Veja.

Segue a programação do ciclo, que tem entrada gratuita, para os próximos meses:

6 de maio - Os grandes livros-reportagem, com Gilberto Dimenstein e José Louzeiro
3 de junho - As biografias de mitos nacionais, com Ruy Castro e Sérgio Cabral
1 de julho - Os bastidores do poder, com Ricardo Kotscho e José Arbex
5 de agosto - Jornalismo e denúncia social, com Nirlando Beirão e Paulo Lins
2 de setembro - As biografias de mitos nacionais II, com Fernando Morais e Paulo César Araújo
7 de outubro - Fato e ficção: Os relatos da memória, com Heloísa Seixas e Zuenir Ventura
4 de novembro - A mídia em questão, com Luis Nassif e Sebastião Nery

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Os vizinhos Escrito em 02 de abril de 2009
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Cláudio Jorge, Luiz Brasil e Carlos Malta se apresentam hoje

Dia desses, os violonistas Cláudio Jorge e Marcos Amorim se encontraram casualmente na esquina da Rua das Laranjeiras com a Rua Almirante Salgado (onde, aliás, eu e Cláudio somos vizinhos). Do papo entre os dois, nasceu a vontade de reunir os músicos que moram em Laranjeiras e no Cosme Velho para “levar um som”. A idéia logo virou o projeto Os vizinhos, cuja apresentação inaugural aconteceu em fevereiro, no Casarão Austregésilo de Athayde.

Pois bem. As atividades do grupo terão seqüência na minitemporada que ocupará o Espaço Rio Carioca (Casas Casadas) nas quintas-feiras de abril, com shows sempre às 20h. Hoje, apresentam-se o próprio Cláudio Jorge, Luiz Brasil e Carlos Malta. No dia 9, será a vez de Agenor de Oliveira, Bruce Henri e Rodrigo Lessa e, na semana seguinte, de Ignez Perdigão, Domingos (Bilinho) Teixeira e Marcelo Caldi. No famoso Dia Nacional do Choro (23), Clara Sandroni, Bruno Abreu, Bruno Migliari, Carlos Cachaça e Luiz Flávio Alcofra comandarão os trabalhos. E, fechando o ciclo, o trio formado por Nilze Carvalho, Marcos Amorim e Raimundo Nicioli fará as honras no dia 30

"Desde os nossos primeiros encontros já havíamos combinado que nos apresentaríamos em vários pontos do bairro e o Espaço Rio Carioca é a bola da vez. Pretendemos voltar ao Casarão no meio do ano para promover uma festa junina”, diz Cláudio Jorge. O objetivo, que à princípio era apenas musical, foi crescendo durante os encontros de Os vizinhos. “Agora queremos que esses shows sirvam também para aglutinar os moradores da área em torno de ações de cidadania”, avisa Marcos Amorim.

O Espaço Rio Carioca fica na Rua Leite Leal, 45, em Laranjeiras. Os ingressos custam R$ 20.

P.S. A foto acima é de Monica Ramalho

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Os nomes da Flip Escrito em 01 de abril de 2009
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Gay Talese e Lobo Antunes: escrete gringo será forte em 2009

Com o anúncio do nome de Gay Talese, a edição de 2009 ao que parece confirmará as expectativas de ser uma das melhores da Flip desde a sua fundação. Autor do sensacional Fama e anonimato e ícone do chamado new journalism, Talese se soma aos ficcionistas António Lobo Antunes e Carlos Fuentes, à crítica de arte Catherine Miller e ao historiador Simon Schama num fortíssimo escrete internacional. Se a formação do time brazuca também se der em alto nível, vai ser difícil sair da tenda principal. A sorte é que haverá um debate sobre HQs para que a gente possa aproveitar e ir tomar umas cervejas.

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