
Acaba de ser relançado um livraço. Refiro-me a Filosofia da composição, de Edgard Allan Poe, que a 7Letras editou em volume que reúne o texto principal (tradução de Léa Viveiros de Castro), um curto (mas preciso) prefácio de Pedro Süssekind e duas 'transcriações' (por Fernando Pessoa e Machado de Assis) de O corvo, o poema cujo processo de criação é esquadrinhado na obra.
O que o autor aborda, no livro, é o modus operandi da composição de um poema. Remando contra a visão romântica do poeta que passivamente aguarda o surgimento espontâneo de suas musas (nome feminino da inspiração), ele deixa claro que a "impressão de espontaneidade" é algo duramente conquistado, demanda um trabalho - aristotélico - de estruturação. Passo a passo.
O primeiro deles, observa Poe, é a "consideração de uma emoção". "Eu digo para mim mesmo: das inúmeras emoções, ou impressões, a que o coração, o intelecto, ou (mais freqüentemente) a alma é suscetível, qual eu escolho nesse momento?", anota. Em seguida, são definidos a extensão (e sua relação com a perda de unidade), a escolha de um efeito a ser causado, o terreno e, finalmente, o tom da escritura. Valendo-se do exemplo de O corvo, o poeta salienta sua opção pela "melancolia", que, segundo ele, "é o mais legítimo de todos os tons poéticos".
Entre as tantas e fundamentais reflexões que o livro suscita, algumas me chamaram especialmente a atenção. A questão do clímax foi uma delas. Poe revela que começou a escrever o poema pelo fim, para que pudesse estabelecer a partir daí suas graduações, além do ritmo, da métrica e da organização geral das estrofes. "Se no decorrer da composição do poema eu tivesse construído estrofes mais vigorosas, eu as teria enfraquecido sem escrúpulos para que elas não interferissem com o efeito crucial", sublinha ele.
A lição é tão importante quanto àquela que trata a dose certa de "sugestão", a necessária "corrente oculta, mesmo que indefinida, de sentido". Poe afirma - e eu concordo - que é justamente esta "corrente" que confere a uma obra de arte grande parte de sua riqueza. E lembra que o excesso de sentido torna a "corrente" explícita, em vez de oculta, tornando a literatura vulgar.
Embora se detenha sobre o fazer poético, a Filosofia da composição de Poe serve tanto à poesia, quanto à prosa. E reitera com método e clareza que é com alguma inspiração, mas sobretudo com muito suor, que um escritor constrói seus universos ficcionais.
{3}