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Cesare Pavese Escrito em 12 de março de 2009
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"Os mares do sul"

Cesare Pavese

"Caminhamos à tarde na encosta de um monte,
em silêncio. Na sombra do lento crepúsculo
o meu primo é um gigante vestido de branco,
que se move tranquilo, queimado no rosto,
taciturno. Calar é a virtude da gente.
Algum velho ancestral se sentiu com certeza bem só
--ave rara entre tolos ou pobre maluco—
para ensinar aos seus tanto silêncio.

Nesta noite meu primo falou. Perguntou-me
se eu iria com ele: do pico se vê
nessas noites serenas brilhar o farol
distante de Turim. “Tu, que vives em Turim...”,
disse ele, “...tens razão. A vida só é vivida
distante de sua casa: se aproveita e se goza
e aí, quando se volta, aos quarenta como eu,
está tudo renovado. [...]

Vinte anos [ele] circulou por esse mundo
Foi embora quando eu ainda menino, no colo das moças,
e o deram por morto. [...]
Num inverno chegou a meu pai, que já havia morrido,
um postal com um selo em cor verde, de barcos num porto
e desejos de boa vindima. Foi enorme o espanto,
e menino crescido explicou num rompante
que o cartão procedia de uma ilha chamada Tasmânia
rodeada de um mar todo azul, com crués tubarões,
no Pacífico, ao sul da Austrália. E adiantou que decerto
seu primo pescava pérolas. E arrancou o selo.
Todos deram o seu parecer, concluindo
que, se ainda não morrera, morreria.
Muito tempo passou e esqueceram-no todos.

[...]
A cidade ensinou-me infinitos temores:
multidões, uma rua me sobressaltaram,
uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
dos milhares de postes nas grandes calçadas.

O meu primo voltou, terminada a guerra,
um gigante entre poucos. E tinha dinheiro.
Os parentes diziam baixinho: “Em um ano, se tanto,
já torrou tudo e retorna as viagens.
É assim que morrem os desesperados.”
Ele tem uma cara obstinada. Comprou um terreno
na aldeia e ergueu uma sólida garagem
que ostentava, brilhante, uma bomba para a gasolina
e na ponte, bem grande, na curva, um cartaz chamativo.
[...] saía sozinho. Vestido de branco,
com as mãos para trás e queimado no rosto,
de manhã percorria as tais feiras com ar displicente
e comprava cavalos. Depois me explicou,
falidos os projetos, que o seu plano
consistia em varrer deste vale animais de transporte
e fazer com que a gente comprasse motores.
“Mas a besta”, dizia, “a mais besta de todas
fui eu mesmo a pensar. Devia saber
que aqui bois e pessoas são todos iguais”.

[...]
Um perfume de terra e de vento nos cobre no escuro,
umas luzes ao longe: currais, automóveis
cujo som mal se escuta; e eu penso na força
que me trouxe este homem, arrancando-o ao mar,
às distâncias da terra, ao silêncio que dura.
O meu primo não fala de viagens já feitas.
Diz a seco que esteve em tal ponto e tal outro
e volta a seus motores. [...]

[...] Mas, quando lhe digo
que ele é um homem de sorte, que viu as auroras
sobre as ilhas mais belas que há na Terra,
ele ri na lembrança e responde que quando
o sol vinha a manhã já era velha para eles".

* Este belo poema faz parte de 'Trabalhar cansa', livro publicado pela Cosac Naify dentro da coleção Ás de Colete. Retirei do blog do Marcelo Coelho, que fez os cortes sinalizados nos colchetes, porque o texto é longuíssimo.

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