Voltar para Página Principal
Blog
Clicando nos botões ao lado você aumenta o tamanho da fonte do textoDiminui FonteAumenta Fonte
»
Viva favela Escrito em 31 de março de 2009
separador

Vai ter festa na Livraria Folha Seca. Hoje, a partir das 18h30, a querida lojinha da Rua do Ouvidor sediará o lançamento do livro Viva favela. Editada em parceria pelo Movimento Viva Rio e pela Editora Olhares, a obra reúne 50 imagens selecionadas do acervo de quase 50 mil fotografias de favelas cariocas produzidas desde 2001 por correspondentes comunitários do portal homônimo.

Como observa Zuenir Ventura no prefácio, as imagens do livro “substituem a velha atitude generosa, mas paternalista e distante, por um olhar natural, de dentro, sem estranhamento etnocêntrico”. Em sentido oposto, as lentes dos fotógrafos Deise Lane, Kita Pedroza, Nando Dias, Rodrigues Moura, Sandra Delgado, Walter Mesquita e Tony Barros (autor do registro acima) procuraram focar o dia a dia das comunidades que vivem nesses locais, de forma a mostrar que favela não é, necessariamente, sinônimo de violência.

Além das fotos, o livro conta com artigos do professor Peter Lucas, da New York University e da The New School University, e do diretor executivo do Viva Rio, Rubem César Fernandes, que conta a história dos recém-completados 15 anos do Viva favela.

Clique para deixar seu comentário

»
Covardia com Brizola Escrito em 30 de março de 2009
separador

Era minha intenção escrever aqui sobre a edição criminosa que O Globo nos fez ver ontem. Mas o Carlos Andreazza foi mais rápido lá no site Tribuneiros. Assim como o Andreazza, nunca reservei grandes simpatias pelo velho Briza, embora sempre lhe tenha respeitado. E não só por esse respeito, mas também - e sobretudo - pelo respeito ao primado ético que deve ser cláusula pétrea do jornalismo, é que repudio, enojado, os covardes ataques que o jornal desferiu contra a memória de Leonel Brizola.

Com o devido cuidado para evitar processos (valendo-se da cínica observação de que "não há provas"), O Globo 'esquentou' informações que não passam de mera especulação, a ponto de transformá-las em manchete de sua edição mais concorrida (a de domingo). A intenção disso, ao menos na visão daqueles que não vivem no mundo cor-de-rosa de Poliana, é bastante evidente.

Recomendo, portanto, a leitura do ótimo e duro artigo do Andreazza. Publico, abaixo, alguns trechos. Confira a íntegra aqui.

"Desagravo a Brizola, contra o jornalismo anão"

Carlos Andreazza

"Nunca gostei de Brizola, vivo ou mitificado - e sempre acreditei [como ainda hoje] que muito do que o Rio de Janeiro possui de pior tenha origem [ou profundidade] em suas administrações. (...)

Minha opinião, porém, em nada admite a barbárie que O Globo comete desde domingo [29 de março], em série nomeada “Arquivos da abertura”, por meio da qual, sem prova alguma e, portanto, baseando-se em investigações - ademais empreendidas por órgãos de espionagem militar - que jamais tiveram seguimento, associa [ou deixa associar, covardemente] o ex-governador ao crime organizado e ao movimento de propinas, o que é inaceitável e, sob mínima reflexão, muito perigoso.

Que se desconsidere, vá-lá, o mau [o péssimo] jornalismo… Pensemos apenas nos riscos [morais] de se tratar por verdadeiro, onde quer que seja, o que é mera especulação mal-intencionada, de resto francamente mergulhada na ideologia duma época em que o fanatismo conspiratório Direita x Esquerda, visto felizmente à distância, convida muito mais à desconfiança que à descoberta.

Por esta leitura difamadora e policialesca, a que nos oferece O Globo [jornal historicamente anti-brizolista], ninguém estará livre de ser enredado - em manchete - numa denúncia grave cuspida sem apuração; ninguém, cedo ou tarde, escapará desta forma hedionda de acusação, de disseminação da calúnia, que se vale do caráter até então secreto dos documentos para lhes dar, pela confidencialidade [assaz questionável, registre-se], tamanha legitimidade, ao que vem concorrer o tempo, a desmemória do tempo, os mais de vinte anos - e é este portanto outro perigo, imenso, da estupidez histórica corrente: conferir peso, verdade, sabedoria, a um papel simplesmente pela idade que o amarelado das suas bordas sugere".

Clique para deixar seu comentário

»
Que mistérios tem Clarice? Escrito em 27 de março de 2009
separador

Amanhã pela manhã vai rolar mais uma edição do projeto Livros na mesa, promovido pela Estação das Letras. Às 10h30, haverá a tradicional troca de livros. Na seqüência, às 11h30, Cláudia Nina, Suzana Schild e Bia Albernaz debaterão O universo de Clarice Lispector.

Cláudia, que foi minha professora num curso sobre a escritora, é autora de uma interessante tese de doutorado a respeito daquela que podemos chamar trilogia do exílio - os romances Cidade sitiada, O lustre e A maçã no escuro, escritos por Clarice enquanto vivia fora do Brasil, acompanhando o marido diplomata em seu périplo pelo mundo.

Como Cláudia observa, "são obras densas, soturnas, que falam de personagens solitários e estranhados em seus desertos pessoais, numa atmosfera totalmente diferente daquela que marcou a estréia (Perto do coração selvagem)". Os três livros não tiveram boa aceitação por parte da crítica. "E, por insondáveis razões, ainda hoje permanecem como 'patinhos feios' da ficção de Clarice", completa ela.

Esse e outros assuntos estarão em pauta durante o painel. A Estação das Letras fica na Rua Marquês de Abrantes, 177 - Lojas 107 e 108. A entrada é gratuita.

Clique para deixar seu comentário

»
Elza, a garota Escrito em 26 de março de 2009
separador

Hoje, a partir das 19h, o jornalista e escritor Sérgio Rodrigues lançará, Travessa do Shopping Leblon, o seu novo livro. Em Elza, a garota (Nova Fronteira), Sérgio narra a polêmica (e esquecida) história do assassinato, pelo PCB, da jovem Elvira Cupello Calônio. Namorada de um dirigente do Partidão, ela foi acusada de traidora e a suspeita de que teria feito jogo duplo acabou redundando na sua 'eliminação' - estrangulada com uma cordinha de varal.

Segundo o Sérgio, o livro mistura de forma pouco convencional pesquisa jornalística, ensaio e ficção. "O assassinato ocorreu em março de 1936, quando o governo Vargas caía de sarrafo na oposição após o fracasso da chamada Intentona Comunista. Foi um erro histórico da esquerda e um momento de apoteose do anticomunismo canarinho, com conseqüências que marcariam os rumos do país por todo o século 20", afirma o autor.

Ele acrescenta que embora o caso Elza seja notícia velha, é "recalcadíssima". "Mais do que fechar o foco no crime em si, que alimentou sua cota de manchetes histéricas na época, o que me interessa no livro é investigar as décadas de silêncio que o Brasil lhe despejou em cima desde então. E o que esse silêncio, paradoxalmente, nos diz - grita, na verdade - sobre quem somos. Para isso a ficção me parece o melhor instrumento que existe por aí, resume.

Clique para deixar seu comentário

»
Bráulio Neto Escrito em 25 de março de 2009
separador

Conheci Bráulio Neto já faz alguns anos. Primeiro, como leitor de suas críticas sobre música em O Globo. Depois, pessoalmente, numa estranhíssima noite no Centro Cultural Carioca, quando aproveitei a apresentação feita por um amigo em comum para reclamar de uma pancada que ele havia desferido num disco do Lô Borges.

A discordância pontual rendeu um longo papo, muitas cervejas e uma amizade boa. Não foram poucas as vezes em que varamos noites em mesas de bar, trocando idéias sobre política, literatura, cinema, lugares, além de música, é claro. De um tempo para cá, porém, andamos longe um do outro. Circunstâncias da vida, em seu correr doido.

Na última vez em que o vi, há uns dois anos, ele estreava como poeta, lançando o livro Pálida Estação, pela 7Letras. Hoje, a estréia é em outro campo: a música. Uso o termo 'estréia' porque crítico agora dá lugar ao artista, a pedra vira vidraça. Bráulio estará, a partir das 21h, no palco do Cinematheke Jam Club, onde vai apresentar o show Sílaba.

O espetáculo é fruto de uma baita dedicação do agora cantor às aulas de preparação vocal dadas pela querida Luisa Saboya. E o eclético repertório de Bráulio junta Wilson Moreira e Bono Vox, Caetano Veloso e Stone Temple Pilots, incluindo também uma composição própria: Detalhe, letra que ganhou melodia de Celso Fonseca.

O espetáculo acontece hoje e na próxima quarta, com ingressos a R$ 20. O Cinematheke fica na Rua Voluntários da Pátria, 53 - Botafogo.

Clique para deixar seu comentário

»
Wilson e Zé Escrito em 24 de março de 2009
separador

Série de shows que, apesar do nome infeliz, parece bem promissora, o projeto Samba de raiz terá sua estréia amanhã, às 19h, com a reunião de Wilson Moreira e Zé Luiz do Império numa grande roda no Clube Santa Luzia. A idéia-base do projeto, que acontecerá todas as quartas-feiras, é promover o encontro entre dois sambistas de evidente afinidade.

Nas próximas semanas, as atrações serão Tantinho da Mangueira e Luiza Dionízio (dia 1º de abril), Ircéia Pagodinho e Toninho Geraes (dia 8), Iracema Monteiro e Maquinho PDQ (dia 15), Ana Costa e Leandro di Menor (dia 22) e Jorginho do Império, Andrea Caffé e Conceição de Almeida (dia 29).

O Clube Santa Luzia fica na Rua Almirante Silvio de Noronha, 300 (próximo ao Aeroporto Santos Dumont) e os ingressos custam R$ 12.

Clique para deixar seu comentário

»
Para F. Escrito em 19 de março de 2009
separador

"Branquinha"

Caetano Veloso

"Eu sou apenas um velho baiano
Um fulano, um caetano, um mano qualquer
Vou contra a via, canto contra a melodia
Nado contra a maré
Que é que tu vê, que é que tu quer,
Tu que é tão rainha?
Branquinha
Carioca de luz própria, luz
Só minha
Quando todos os seus rosas nus
Todinha
Carnação da canção que compus
Quem conduz
Vem, seduz
Este mulato franzino, menino
Destino de nunca ser homem, não
Este macaco complexo
Este sexo equívoco
Este mico-leão
Namorando a lua e repetindo:
A lua é minha
Branquinha
Pororoquinha, guerreiro é
Rainha
De janeiro, do Rio, do onde é
Sozinha
Mão no leme, pé no furacão
Meu irmão
Neste mundo vão
Mão no leme, pé no carnaval
Meu igual
Neste mundo mau"

Clique para deixar seu comentário

»
Polícia Estética Escrito em 18 de março de 2009
separador

No ótimo blog que mantém dentro do site da revista Bravo!, o Paulo Roberto Pires publicou hoje um texto absolutamente delicioso. Paulo defende a criação de uma "Política Estética", que zelaria por preservar nossos "olhos e ouvidos" de atentados às idéias e ao bom gosto. Seria "um serviço 24 horas, no estilo Disque-Denúncia – que não usará mensagens gravadas e proibirá o gerúndio – acolherá as reclamações e tomará as devidas providências", esclarece ele. Seguem os primeiros parágrafos do post. Confira a íntegra aqui.

"Meninos, eu vi. Uma revista da qual não lembro o nome, destas metidas a “sofisticada”, botou na capa Amy Winehouse e o título: “Amy-a ou Deixe-a”. Juro. O que despertou em mim sentimentos primitivos como, por exemplo, a criação de uma Policia Estética. No meu governo, aliás, vai ter uma.

O objetivo principal desta força da ordem e da lei é resguardar nossos olhos e ouvidos da cretinice geral da nação. Serão severamente punidos aqueles que, por déficit de inteligência, preguiça mental ou puro oportunismo ignorarem os bons modos com as idéias e o bom gosto. Um serviço 24 horas, no estilo Disque-Denúncia – que não usará mensagens gravadas e proibirá o gerúndio – acolherá as reclamações e tomará as devidas providências.

Um dos principais objetivos da policia estética é coibir o uso de trocadilhos. São passíveis de enquadramento: clínicas de depilação que façam jogos de palavras com “pelo”; botecos que usem “bar” como base para batismos infames (em Frankfurt há um Bar Celona (urgh!));cantores de vanguarda paulistas que se crêem concretistas.

A brigada estética também se ocupará de restaurantes com paredes multicoloridas, garçons bonitões vestidos de preto (que não sabem manobrar bandejas e copos, função precípua do garçom), enochatos em geral (“vinho amigável, de coloração agressiva e after taste de avencas chamuscadas”) e redatores de cardápios com pendores poéticos – do tipo “espuma de berinjela trufada levemente aspergida sobre um leito de corações de alface, harmonizadas com uma redução de maracujá envolvendo carinhosamente pétalas de atum”. (...)

Clique para deixar seu comentário

»
João Nogueira, 1972 Escrito em 17 de março de 2009
separador

Estou, desde ontem, completamente obcecado pelo disco João Nogueira, que a EMI acaba de lançar em CD. O álbum marcou a estréia do cantor e compositor em longplay depois do sucesso de duas de suas canções: Das 200 para lá, com Eliana Pittman, e Corrente de aço, com Elizeth Cardoso.

O LP, de 1972, nunca havia chegado ao formato digital. E é coisa fina. Arranjos (com acento nas cordas) do gênio Lindolfo Gaya, e canções de Wilson Batista, Paulo César Feital, Casquinha, Egberto Gismonti (!), além do próprio João. Tudo isso conduzido pelo timbre singularíssimo do cantor (para mim, ele e Roberto Ribeiro foram as vozes mais bonitas do samba de todos os tempos), que sobressai principalmente nos sambas-canção.

Como, por exemplo, Mãe solteira (Wilson Batista / Jorge de Castro), que João conduz num andamento dolente, deixando entrever a tristeza que a letra-crônica sugere. Nesta e nas outras 11 faixas, ele é acompanhado por um time de feras: Altamiro Carrilho (flauta), Dino (7 cordas), Dom Salvador (piano e órgão), Sidney da conceição (pandeiro) e Juqinha (bateria). A flauta de Altamiro, preciosa, plangente, parece chorar.

É emocionante escutar o registro de Heróis da liberdade, pontuado pela cuíca e pelo som de apitos, numa regravação de apenas três anos após sua apresentação na Avenida. Ou ouvir Tia Vicentina, à la Clementina, cantando o nome de seu bairro no coro de Alô, Madureira (João Nogueira).

A capa do CD reproduz a crítica que Carlos Jurandir publicou no jornal O Globo, em setembro de 72. Jurandir destaca a distinção batida do violão do artista. “Sua batida - ao contrário da de João Gilberto, que adianta os tempos fortes – se baseia nos tempos fracos, invertendo a marcação da bossa nova”, observa. Apesar do cuidado em incluir o bom texto do jornalista, o encarte lamentavelmente não traz as letras.

Vale dizer que a série de relançamentos da EMI inclui também o raro LP Andança, de Beth Carvalho, que comentarei em breve. Por ora, fiquemos com o João.

Clique para deixar seu comentário

»
À moda de Michel Laub Escrito em 16 de março de 2009
separador

Uma exposição - Roberto Burle Marx 100 anos - A permanência do instável, no Paço Imperial. Estive lá no sábado passado e garanto que a mostra é imperdível. Estão reunidos 335 trabalhos do artista, entre pinturas, desenhos, tapeçarias, gravuras, painéis, jóias, projetos paisagísticos, maquetes e fotografias. A parte dedicada ao paisagismo é especialmente deslumbrante - e altamente informativa. Os registros fotográficos (em plongée) de projetos como o do calçadão da Avenida Atlàntica e o do Parque do Flamengo, por exemplo, permitem uma visualização mais completa dos sinuosos desenhos criados por Burle Marx, que passeou pela arte abstrata, pelo concretismo e pelo construtivismo.

Uma peça - A última gravação de Krapp / Ato sem palavras, no Teatro Sesc Ginástico. Assisti ao espetáculo, que tem direção de Isabel Cavalcanti, na última sexta. A atuação de Sérgio Britto (justamente contemplado com o Prêmio Shell por esse trabalho) é comovente. E a conjugação dos dois diferentes textos de Samuel Beckett numa mesma encenação se mostrou coesa, coerente e orgânica. No primeiro deles, o velho Krapp grava os acontecimentos mais marcantes do ano que se passou e ouve passagens de anos anteriores, hábito cumprido religiosamente em todos os seus aniversários. No segundo, um homem isolado no deserto persegue em vão as sombras de uma árvore e de uma garrafa de água. Seja na palavra que sobra (na verborragia das gravações), seja na palavra que falta (no silêncio clownesco), retratos da solidão. A lamentar, somente a amplitude do teatro para uma peça tão íntima.

Um site - O Skoob, que foi objeto de matéria do suplemento Idéias (Jornal do Brasil) no sábado passado, é um porto irresistível para aqueles que têm uma relação obsessiva com os livros. Nessa espécie de Orkut composto apenas de leitores compulsivos, você pode registrar (e comentar) as obras que leu ao longo da vida, além de elencar as que ainda vai ler. A página permite também que os participantes confiram qual é sua compatibilidade literária com os amigos que integram a rede. Enfim, uma brincadeira tão inútil quanto deliciosa.

Clique para deixar seu comentário

»
Ele chegou Escrito em 16 de março de 2009
separador

Clique para deixar seu comentário

»
Obrigado Escrito em 13 de março de 2009
separador

Nos últimos tempos, o Pentimento vem registrando uma média de 10 mil acessos mensais. Como diria um comerciante de antanho, obrigado pela preferência.

Quem mais tem mandado leitores para cá, pela ordem: os blogs Histórias do Brasil, do Luiz Antônio Simas; Samba, boemia e vagabundos, do Eduardo Carvalho; os sites Agenda Samba e Choro e Tribuneiros; e os blogs Era o Dito, do Marcelino Freire; e Pseudônimos, da Rosana Caiado.

Clique para deixar seu comentário

»
Cesare Pavese Escrito em 12 de março de 2009
separador

"Os mares do sul"

Cesare Pavese

"Caminhamos à tarde na encosta de um monte,
em silêncio. Na sombra do lento crepúsculo
o meu primo é um gigante vestido de branco,
que se move tranquilo, queimado no rosto,
taciturno. Calar é a virtude da gente.
Algum velho ancestral se sentiu com certeza bem só
--ave rara entre tolos ou pobre maluco—
para ensinar aos seus tanto silêncio.

Nesta noite meu primo falou. Perguntou-me
se eu iria com ele: do pico se vê
nessas noites serenas brilhar o farol
distante de Turim. “Tu, que vives em Turim...”,
disse ele, “...tens razão. A vida só é vivida
distante de sua casa: se aproveita e se goza
e aí, quando se volta, aos quarenta como eu,
está tudo renovado. [...]

Vinte anos [ele] circulou por esse mundo
Foi embora quando eu ainda menino, no colo das moças,
e o deram por morto. [...]
Num inverno chegou a meu pai, que já havia morrido,
um postal com um selo em cor verde, de barcos num porto
e desejos de boa vindima. Foi enorme o espanto,
e menino crescido explicou num rompante
que o cartão procedia de uma ilha chamada Tasmânia
rodeada de um mar todo azul, com crués tubarões,
no Pacífico, ao sul da Austrália. E adiantou que decerto
seu primo pescava pérolas. E arrancou o selo.
Todos deram o seu parecer, concluindo
que, se ainda não morrera, morreria.
Muito tempo passou e esqueceram-no todos.

[...]
A cidade ensinou-me infinitos temores:
multidões, uma rua me sobressaltaram,
uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
dos milhares de postes nas grandes calçadas.

O meu primo voltou, terminada a guerra,
um gigante entre poucos. E tinha dinheiro.
Os parentes diziam baixinho: “Em um ano, se tanto,
já torrou tudo e retorna as viagens.
É assim que morrem os desesperados.”
Ele tem uma cara obstinada. Comprou um terreno
na aldeia e ergueu uma sólida garagem
que ostentava, brilhante, uma bomba para a gasolina
e na ponte, bem grande, na curva, um cartaz chamativo.
[...] saía sozinho. Vestido de branco,
com as mãos para trás e queimado no rosto,
de manhã percorria as tais feiras com ar displicente
e comprava cavalos. Depois me explicou,
falidos os projetos, que o seu plano
consistia em varrer deste vale animais de transporte
e fazer com que a gente comprasse motores.
“Mas a besta”, dizia, “a mais besta de todas
fui eu mesmo a pensar. Devia saber
que aqui bois e pessoas são todos iguais”.

[...]
Um perfume de terra e de vento nos cobre no escuro,
umas luzes ao longe: currais, automóveis
cujo som mal se escuta; e eu penso na força
que me trouxe este homem, arrancando-o ao mar,
às distâncias da terra, ao silêncio que dura.
O meu primo não fala de viagens já feitas.
Diz a seco que esteve em tal ponto e tal outro
e volta a seus motores. [...]

[...] Mas, quando lhe digo
que ele é um homem de sorte, que viu as auroras
sobre as ilhas mais belas que há na Terra,
ele ri na lembrança e responde que quando
o sol vinha a manhã já era velha para eles".

* Este belo poema faz parte de 'Trabalhar cansa', livro publicado pela Cosac Naify dentro da coleção Ás de Colete. Retirei do blog do Marcelo Coelho, que fez os cortes sinalizados nos colchetes, porque o texto é longuíssimo.

Clique para deixar seu comentário

»
Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa Escrito em 11 de março de 2009
separador

Como anunciou no sábado passado a coluna No Prelo, do Prosa & Verso (O Globo), a Casa da Palavra vai lançar em junho o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa. Projeto que eu e o escritor português Jorge Reis-Sá idealizamos e estamos tocando a quatro mãos, o livro reunirá 35 autores de Brasil, Portugal, países africanos lusófonos e Timor Leste. Cada um escolheu uma palavra e criou um texto (em prosa ou poesia) inspirado nela.

A seleção dos participantes obedeceu a um conceito básico: explorar as possibilidades da Língua Portuguesa. Dessa forma, há desde poetas mais afeitos às formas clássicas a outros que trabalham com o verso livre. Entre os prosadores, a variedade se repete. Ao lado de jovens para os quais a crítica especializada já chamou a atenção, estão escritores laureados com prêmios como o Portugal Telecom, o José Saramago, o Jabuti e o Machado de Assis, entre outros. Detalhe importante: por decisão dos organizadores e da editora, o livro obedecerá as antigas regras de ortografia.

Os autores do livro são:

Brasil: Adriana Lisboa, Alexei Bueno, Amílcar Bettega, Antônio Cícero, Antônio Torres, Armando Freitas Filho, Bruna Lombardi, Fabrício Carpinejar, Fernando Molica, Flávio Izhaki, Glauco Mattoso, Heloísa Seixas, Henrique Rodrigues, José Fernandes da Silveira, Marcelino Freire, Marcelo Moutinho, Mariana Ianelli, Paulo Henriques Britto, Raimundo Carrero e Tatiana Salem Levy

Portugal: António José Teixeira, Cláudia Galhos, Desidério Murcho, Francisco José Viegas, Jorge Reis-Sá, Jorge Rocha, José Luis Peixoto, Manuela Ribeiro, Paulo Brody e Rui Lage

Angola: Ana Paula Tavares, Luandino Vieira e Ondjaki

Moçambique: Guita Jr.

Timor Leste: Luís Cardoso

Clique para deixar seu comentário

»
Blog do Moa Escrito em 11 de março de 2009
separador

Quem estréia um blog hoje é o amigo Moacyr Luz. No Blog do Moa, ele escreve sobre os dois assuntos que melhor domina: música brasileira e comida de botequim. Os 20 anos do clássico Saudades da Guanabara, a experiência de uma degustação de espumante com jiló e uma hilária história ao lado de Beth Carvalho e Jorge Aragão são destaques dos primeiros posts, que têm a marca bem humorada do Moacyr. Leia aqui.

Clique para deixar seu comentário

»
Na Terrinha Escrito em 10 de março de 2009
separador

Meu conto Rosa noturna foi publicado na nova edição (número 28) da revista portuguesa 365, que acaba de ser lançado. Divido as páginas da revista com Alexandre Andrade, Ana Queiroz, Daniel Galera, Elizabete Patrícia Andrade, Izet Sarajilic, Luís Graça, Mário Bruno Pastor, Miguel Marques, Pedro Miguel, Pedro Santo e Rui Manuel Amaral. Saiba mais sobre a publicação aqui.

Clique para deixar seu comentário

»
História do pranto Escrito em 10 de março de 2009
separador

"Já na felicidade, bem como em qualquer dos seus satélites, não encontra nada além de artifício; não exatamente engano ou simulação, mas o fruto de um artesanato, a obra mais ou menos laboriosa de uma vontade, que pode entender e apreciar e que às vezes até compartilha, mas que por alguma razão, viciada que está por sua origem, sempre parece interpor entre ele e ela uma distância, a mesma, provavelmente, que o separa de qualquer livro, filme ou canção que representem ou girem em torno da felicidade (...) A felicidade é inverossímil por excelência. Não que não se possa fazer nada com ela..."

"Em tudo isso há sempre a vontade, quase a obsessão, que põe em prática com uma lucidez e um encarniçamento assustadores, de comprovar a suspeita de que toda felicidade se erige ao redor de um núcleo de dor intolerável, de uma chaga que a felicidade talvez esqueça, eclipse ou embeleze até torná-la irreconhecível, mas que jamais conseguirá apagar - pelo menos não aos olhos dos que, como ele, não se enganam, não se deixam enganar, e sabem muito bem de que subsolo sangrento provém essa beleza. E sua tarefa, a dele, que não de lembra de tê-la escolhido, mas que sem demora a adota como missão, é limpar as frondes que a ocultam, trazer o escuro ferimento à luz, impedir a todo custo que alguém, em algum lugar, caia na armadilha, para ele a pior que se possa imaginar, de acreditar que a felicidade é o que se opõe à dor, o que se dá ao luxo de ignorá-la, o que pode viver sem ela".

Clique para deixar seu comentário

»
Eric Nepomuceno Escrito em 09 de março de 2009
separador

Trégua fugaz entre memória e tempo

Contos de Eric Nepomuceno trafegam com serenidade por amarguras e pela dor da queda inexorável

Marcelo Moutinho

Num cenário como o atual, em que a literatura infelizmente se vê cada vez mais restrita a especialistas, é alvissareiro o lançamento de um livro como a “Antologia pessoal”, de Eric Nepomuceno. Isso porque, se variam em termos de qualidade, as 41 histórias reunidas na coletânea nunca abrem mão do vínculo com a matéria quente e caudalosa da vida, nunca se desapegam do mundo e de suas coisas para satisfazer o apetite intelectual de críticos ou vanguardismos de ocasião com auto-referências ou vazios jogos de metalinguagem.

Por oposto, a substância com a qual Nepomuceno preferencialmente trabalha é o barro pleno de esperança que moldaremos ao longo dos anos, desconstituindo promessas, colecionando perdas, somando amarguras, até que a morte faça a sua infalível recolha. A dor da queda inexorável, portanto.

Não à toa, alguns dos melhores contos da seleta são ambientados no universo da infância, quando a noção da decrepitude e do fim é frágil, apenas um leve esboço, quase imperceptível. Como destaca Alfredo Bosi no prefácio, Nepomuceno demonstra uma “sensibilidade aguda” na condução das tramas que envolvem personagens muito jovens.

Bom exemplo é o singelo “Telefunken”, centrado nas digressões de um garoto em torno do rádio que anima a casa dos pais. “Quanto eu era pequeno, achava que dentro do rádio tinha uns homens e umas mulheres bem pequeninos, e que a gente fazia a voz deles sair dando umas voltas no ponteiro. (...) Agora que eu cresci um pouco, quer dizer, que sou muito maior do que quando era pequeno, sei como é isso do rádio. Os homens e as mulheres em outra casa, longe daqui, e a voz deles vem pela tomada”, afirma ele, na ilusão de maturidade de quem começa a deixar para trás a meninice mais remota. Como o pai morreu logo depois de seu nascimento, o garoto imagina que essa é uma regra universal e decide que não quer ter filhos no futuro. Na mesma lógica embaralhada, lembra que o amigo Ivan “não tem rádio, mas tem pai”. E lamenta-se: “Eu acho que preferia ter pai do que ouvir rádio”.

Em diapasão semelhante, “Juramento” se inicia com quatro meninos que, sentados no chão de terra, lastimam o fim das férias, “as melhores”. Resolvem, então, fazer um pacto de eterna união, juntando os pulsos e talhando-os em forma de cruz. No entanto, a aliança entre o grupo se dá de forma menos espetacular: eles fazem um pequenino corte nos polegares, que se tocam por um instante. Anos mais tarde, ao recordar o episódio e pensar na honestidade “estupidamente traída”, não é afeição, ou ternura, que o narrador sente pulsar na ponta do dedo. É solidão.

Movidos por essas reminiscências, os contos de Nepomuceno registram estreias (“Quando o mundo era meu”), encenam ritos de passagem (“Dizem que ela existe”), inventariam sonhos destroçados (“Aquela mulher”). Sua dicção não admite maneirismos – é enxuta, detém-se no essencial - e em muitos momentos remete ao trabalho de Eduardo Galeano, sobretudo em “O livro dos abraços”. Assim como o escritor uruguaio, Nepomuceno tenta recompor histórias estilhaçadas.

Ao organizar a antologia, o autor incluiu dois textos inéditos e dividiu os contos em cinco unidades temáticas, sem alterar as versões originais selecionadas a partir de livros como “Coisas do mundo”, “Quarta-feira” e “Antes del invierno”. Encerrando o volume, há um curto ensaio sobre o ofício daqueles que criam histórias tendo como ferramenta a palavra. É um testemunho de Nepomuceno a propósito de sua experiência como escritor e tradutor de mestres como Gabriel Garcia Márquez, Julio Cortázar, Juan Rulfo e Juan Carlos Onetti, além do próprio Galeano, ao longo de mais de três décadas.

Em certa passagem do conto “As cartas”, o narrador anota que “a memória continua viva, e devolve coisas quando quer”. O tempo, por sua vez, “não tem restituição alguma”, como lembra Bosi, em citação de Antonio Vieira. Pois é na zona imprecisa e movediça entre esses dois movimentos - a memória insistindo em trazer (e restaurar) o que é por natureza findo, e o tempo que leva embora, sempre, sem freio ou compaixão - que Nepomuceno trafega. Sem teorias, respostas, conclusões. Apenas a serena impressão de que a literatura é, nesse embate, uma trégua fugaz.

* Esta resenha foi publicada no sábado passado no caderno Prosa & Verso (O Globo)

Clique para deixar seu comentário

»
Ligações perigosas Escrito em 06 de março de 2009
separador

Publicado hoje na coluna Informe do Dia (O Dia), de Fernando Molica:

"O governo estadual e a prefeitura não pagaram pelos comes e bebes que serviram na Sapucaí. Segundo a prefeitura, foi mantida a tradição de o bufê ser oferecido por empresas que atuam no Sambódromo. Seu camarote foi servido pela Fabril Rio, que tem como diretor Jorge Castanheira, presidente da Liesa".

Clique para deixar seu comentário

»
Prévias (e recusas) da Flip Escrito em 06 de março de 2009
separador


Ishiguro e Steiner: dois nomes que estavam na lista de convidados

Graças ao Todo prosa, do Sérgio Rodrigues, cheguei ao blog do jornalista Flávio Moura, ex-editorialista da Folha de S. Paulo e hoje diretor de programação da Flip. Voltado, como era de se imaginar, para assuntos literários, o blog tem revelado um pouco dos bastidores dos preparativos para a festa de Paraty. E o tom, felizmente, é de reflexão, não de oba-oba.

Flávio fala sobre os autores confirmados no evento, mas não se furta em comentar também os "fracassos". No post mais recente, por exemplo, ele trata das recusas e de suas justificativas por parte de alguns dos escritores inicialmente convidados. "A recusa chama a atenção para um lado curioso da atividade de organizar festivais: o acesso a dimensões comezinhas do dia-a-dia dos escritores. Verdadeiros ou não, os motivos que os levam a recusar muitas vezes são divertidos e dizem algo a respeito da personalidade de cada um", afirma o diretor da Flip.

No blog do Flávio, fico sabendo também que o Kazuo Ishiguro, autor dos ótimos Vestígios do dia e Não me abandone jamais, estava na lista, e recusou alegando que fica "pouco à vontade para viajar para longe enquanto o filho não for crescido o bastante para ficar sozinho". Uma pena.

A história mais deliciosa, no entanto, tem como protagonista o crítico francês George Steiner. Conta Flávio que, ante do convite da Flip, Steiner enviou-lhe um envelope timbrado da Universide de Cambridge contendo uma carta com apenas duas linhas datliogradas. O texto: “Caro senhor: estou prestes a completar 80 anos e ir para o Brasil está, infelizmente, fora de questão”.

Leia a íntegra deste e de outros posts do blog do Flávio Moura aqui.

Clique para deixar seu comentário

»
Filosofia da composição Escrito em 05 de março de 2009
separador

Acaba de ser relançado um livraço. Refiro-me a Filosofia da composição, de Edgard Allan Poe, que a 7Letras editou em volume que reúne o texto principal (tradução de Léa Viveiros de Castro), um curto (mas preciso) prefácio de Pedro Süssekind e duas 'transcriações' (por Fernando Pessoa e Machado de Assis) de O corvo, o poema cujo processo de criação é esquadrinhado na obra.

O que o autor aborda, no livro, é o modus operandi da composição de um poema. Remando contra a visão romântica do poeta que passivamente aguarda o surgimento espontâneo de suas musas (nome feminino da inspiração), ele deixa claro que a "impressão de espontaneidade" é algo duramente conquistado, demanda um trabalho - aristotélico - de estruturação. Passo a passo.

O primeiro deles, observa Poe, é a "consideração de uma emoção". "Eu digo para mim mesmo: das inúmeras emoções, ou impressões, a que o coração, o intelecto, ou (mais freqüentemente) a alma é suscetível, qual eu escolho nesse momento?", anota. Em seguida, são definidos a extensão (e sua relação com a perda de unidade), a escolha de um efeito a ser causado, o terreno e, finalmente, o tom da escritura. Valendo-se do exemplo de O corvo, o poeta salienta sua opção pela "melancolia", que, segundo ele, "é o mais legítimo de todos os tons poéticos".

Entre as tantas e fundamentais reflexões que o livro suscita, algumas me chamaram especialmente a atenção. A questão do clímax foi uma delas. Poe revela que começou a escrever o poema pelo fim, para que pudesse estabelecer a partir daí suas graduações, além do ritmo, da métrica e da organização geral das estrofes. "Se no decorrer da composição do poema eu tivesse construído estrofes mais vigorosas, eu as teria enfraquecido sem escrúpulos para que elas não interferissem com o efeito crucial", sublinha ele.

A lição é tão importante quanto àquela que trata a dose certa de "sugestão", a necessária "corrente oculta, mesmo que indefinida, de sentido". Poe afirma - e eu concordo - que é justamente esta "corrente" que confere a uma obra de arte grande parte de sua riqueza. E lembra que o excesso de sentido torna a "corrente" explícita, em vez de oculta, tornando a literatura vulgar.

Embora se detenha sobre o fazer poético, a Filosofia da composição de Poe serve tanto à poesia, quanto à prosa. E reitera com método e clareza que é com alguma inspiração, mas sobretudo com muito suor, que um escritor constrói seus universos ficcionais.

Clique para deixar seu comentário

»
Com a palavra, Eraldo Leite Escrito em 05 de março de 2009
separador

Não, nós não vamos parar até que alguma providência seja tomada (qual seja, a intervenção do poder público da Liga da Bandidagem). Desta vez quem se manifesta é o grande Eraldo Leite, radialista que comanda o esporte na Rádio Globo e hoje preside a Associação dos Cronistas Esportivos do Estado do Rio de Janeiro. No artigo abaixo, publicado aqui no Pentimento numa co-edição com o bravo site Tribuneiros, Eraldo não perdoa os jurados do carnaval e faz coro ao nosso pedido por uma atuação digna e corajosa da Prefeitura.

"Linchamento"

Eraldo Leite

"Dizem que o tempo ajuda a curar as feridas. Nem sempre. O que fizeram com o Império Serrano no carnaval de 2009 foi covardia, uma literal execução sumária, sem direito a julgamento.

O Império fez sua melhor preparação em pelo menos dez, 12 anos. Caprichou no que tem de melhor: escolheu reeditar um enredo com samba impecável e arrebatou o público na Sapucaí; ensaiou novas bossas para a bateria que já é a melhor faz tempo; repatriou um dos melhores cantores da atualidade, Nêgo, chamado por Neguinho da Beija-Flor de 'Rei da Sapucaí'.

E tratou de corrigir os problemas que afligiam a escola nos desfiles de carnavais anteriores: trabalhou a harmonia, para não permitir buracos e correria de alas (como fez a Mocidade). Para isso multiplicou o número de ensaios. O Império foi a única escola a fazer quatro ensaios técnicos na Passarela; cuidou das alegorias e fantasias com sensibilidade de alma feminina (nenhuma alegoria apresentou carros com fita isolante aparecendo ou pedaços despencando, como na Mangueira); nenhum carro quebrou (como o da Porto da Pedra que desacoplou e ela não foi penalizada, desfilando com nove carros).

Tantas escolas erraram tanto e o Império Serrano não errou nada. Não fez o desfile mais luxuoso, mais portentoso, mas fez uma exibição bonita, correta e empolgante, coisa que pelo menos quatro outras escolas não fizeram. Quem caiu? O Império. Houve julgamento? Estavam na Sapucaí quarenta julgadores escolhidos por uma Liga que não tem princípios (aliás, nem meios e fins), que escolhe de antemão quem deve ficar e quem deve sair.

Deviam se envergonhar, senhores julgadores, porque a opinião pública está envergonhada. Enojada de vocês. Passou da hora de o poder público (alô, prefeito Eduardo Paes!!!) chamar pra si a responsabilidade e passar a limpo o carnaval, indicar os jurados, colocando gente renomada e descomprometida com a contravenção. Talvez, assim, não haja um novo linchamento público.

Ali-Babá perdeu esse carnaval. Mas os 40 ladrões estavam lá".

Clique para deixar seu comentário

»
Ferreira Gullar Escrito em 04 de março de 2009
separador

"Mau despertar"

Ferreira Gullar

"Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva"

Clique para deixar seu comentário

»
Correio da Lapa Escrito em 03 de março de 2009
separador


Alfredo (na foto, em primeiro plano) pergunta: Cícero ou Paiva?

Notório freqüentador da noite do Rio, o Alfredo Herkenhoff acaba de estrear na internet com o blog Correio da Lapa. No espaço, ele trata primordialmente de fatos da cultura carioca, da mudança da iluminação na (linda) Praça Paris ao Monobloco. O Correio traz também a enquete Tulipa de Ouro, na qual os leitores podem apontar quem é o melhor garçom numa disputa que coloca frente a frente o Cícero, do Nova Capela, e o Paiva, do Jobi. Confira tudo isso aqui.

Clique para deixar seu comentário

»
Vergonha Escrito em 03 de março de 2009
separador

Os principais sites que tratam de carnaval estão lotados de comentários indignados sobre o assalto que o Império Serrano sofreu (boa parte dos comentaristas, vale salientar, inclusive torce para outras escolas).

O deputado estadual Dionísio Lins está colhendo assinaturas para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a Liesa.

A diretoria do Império solicitou audiência ao prefeito Eduardo Paes para rediscutir o papel do poder público no carnaval.

A imprensa, porém, continua em silêncio. É constrangedor. Nunca fiquei tão envergonhado de ser jornalista.

Clique para deixar seu comentário

»
Freixo e as milícias Escrito em 02 de março de 2009
separador

Já que, desde a semana passada, estamos tratando de máfias e de crime aqui no Pentimento, reproduzo a entrevista que fiz com o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) para a edição de março da Tribuna do Advogado. No bate-papo, ele fala sobre seu trabalho à frente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou as milícias. Segue a íntegra do texto.

"As milícias são o embrião da máfia"

Por sugestão do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), a OAB/RJ encaminhará ao Conselho Seccional a proposta de criação de uma ouvidoria voltada especificamente a colher denúncias sobre as milícias que se espalharam pelo Rio de Janeiro. Freixo pretende dar continuidade à bem-sucedida experiência do Disque Milícia, que funcionou durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) comandada por ele na Assembléia Legislativa. Em quatro meses de trabalho, mais de 1.300 denúncias foram formalizadas através do serviço, que garante completo sigilo para quem telefona. “A população quer reclamar. Quem é extorquido, precisa pagar mais para ter gás, arcar com taxas para comprar ou vender imóveis, fica indignado com isso, mas tem medo de ir à delegacia, até porque os milicianos em geral são integrantes da própria polícia”, afirma o deputado. Na entrevista que segue, ele fala sobre algumas das propostas elencadas no relatório final da CPI e faz um alerta: “As milícias são o embrião da máfia”.

O que o levou a propor à OAB/RJ a implantação de uma ouvidoria sobre milícias?
As milícias são uma clara ameaça ao Estado de Direito. E o combate a esses grupos armados cabe ao Poder Público: ao Ministério Público, aos poderes Legislativo e Municipal, à Receita Federal, às polícias, à Prefeitura... Mas nossa experiência com o Disque Milícias na CPI demonstrou que os moradores das cerca de 200 comunidades dominadas por milicianos querem denunciar a opressão da qual são vítimas, ajudando nessa luta. O que impede é o medo. Acreditamos que a OAB/RJ, com a credibilidade que a atual gestão tem, pode servir como canal para que a sociedade dê sua contribuição, como vinha acontecendo no Disque Milícias, que terminou com a conclusão da CPI.

Que balanço o senhor faz do trabalho da CPI?
Foram 150 dias intensos de trabalho, que resultaram num relatório final que foi entregue ao governo federal, ao Congresso Nacional, à Secretaria de Segurança, ao Tribunal de Justiça, aos ministérios públicos Estadual, Eleitoral e Federal, à Policia Federal, à OAB e à ABI, entre outros órgãos. O relatório recomenda o indiciamento de 225 pessoas por envolvimento com as milícias e lista 58 propostas concretas para que se trave um combate realmente eficaz contra as milícias. Entre essas propostas, estão a instituição de um Código e de um Conselho de Ética da Câmara Municipal, a desmilitarização do Corpo de Bombeiros (para que bombeiro necessita de arma?), a tipificação das leis de milícias e de crime eleitoral, o controle sobre centros sociais, que muitas vezes são instrumentos de clientelismo político, e a criação da Câmara de Repressão ao Crime Organizado, que articularia os diversos segmentos do Poder Público numa atuação conjunta. Porque o enfrentamento não pode se dar apenas através da polícia. Mais do que simplesmente prender os líderes, é preciso quebrar o braço financeiro que sustenta esses grupos, e também a vertente ‘oficialista’ dos milicianos, já que eles dependem da ‘oficialidade’ para agir e usam o discurso da ordem para fazer seus negócios criminosos. O relatório da CPI foi um primeiro passo, uma vitória pedagógica, uma espécie de diagnóstico para entendermos o funcionamento das milícias. Agora é preciso agir.

Houve quem dissesse que as milícias são um mal menor, ao menos se comparadas ao tráfico de drogas. Essa impressão mudou?
É lamentável que o próprio Poder Público tenha sido muitas vezes condescendente, e até conivente. O ex-prefeito César Maia chegou a chamar as milícias de “defesa comunitária”. As comunidades não podem ter como critério a escolha entre duas tiranias. Essa concessão a um grupo que teoricamente seria menos prejudicial o Poder Público não pode abrir. O Estado de Direito tem que vigorar para todos e em todo o território.

Há risco de as milícias ocuparem progressivamente o Estado, legitimando-se através de eleições, como a máfia chegou a fazer no Sul da Itália?
Certamente. As milícias já chegaram à Câmara Municipal e à Assembléia Legislativa, e tinham planos de disputar prefeituras. E por isso mesmo esse deve ser um debate nacional, já que as condições que levam ao aparecimento de milícias – compra de votos, clientelismo, corrupção e projeto de poder – não são uma exclusividade do Rio de Janeiro. Esses ingredientes são encontrados em vários pontos do país. E o enfrentamento, repito, não pode se limitar à ação policial.

Por falar em ação policial: o líder miliciano conhecido como Batman fugiu pela porta da frente do presídio de Bangu 8 e, mais recentemente, veiculou um vídeo no You Tube desafiando as autoridades. Por que Batman ainda não foi preso?
Porque ele tem um cinto de mil e uma utilidades.

Clique para deixar seu comentário

»
O que fica Escrito em 02 de março de 2009
separador

O lindo e consciente e-mail que recebi de Quitéria Chagas comentando o assalto de que fomos vítimas só me faz renovar a certeza de que, inclusive neste tópico (rainhas de bateria), o Império Serrano é mesmo uma escola singular. Quitéria nada tem a ver com essas modeletes de ocasião que povoam outras agremiações, e muito menos com a aproveitadora que tentou comprar seu posto no Império em 2009 (conseguiu em uma coirmã vizinha) e ainda assim recebeu grande destaque nessa nossa imprensa acrítica e deslumbrada (Revista do Globo e Veja Rio que o digam).

O que fica disso tudo é essa frase aí de cima, na faixa que o amigo Eduardo Carvalho fotografou durante a concentração. Pouca coisa não vai nos jogar no chão.

P.S. Na carta que o site de O Dia publicou hoje, a Quitéria repete os argumentos utilizados no e-mail. Ótimos argumentos, aliás. "O samba está se vendendo por qualquer Real, apesar de ser um patrimônio, um patrimônio nosso por direito. As próprias pessoas do meio se vendem e vendem sua cultura, mas o Império, digo com absoluta certeza, está fora disso, nunca se vendeu. Só sou rainha de bateria por causa do meu trabalho, minha dedicação, minha paixão e porque sei que o Império não se vende. Agradeço muito a todos e sei o quanto é difícil, prncipalmente nos momentos de dificuldade, recusar dinheiro. Graças a Deus, os imperianos sabem que mais vale ter dignidade", afirma ela. Leia a íntegra da carta aqui.

Clique para deixar seu comentário