
Fiz uma entrevista com a jornalista Maurício Dias para o número de fevereiro da Tribuna do Advogado, jornal da OAB/RJ. Dias acaba de lançar um livro que reúne depoimentos dados ao longo de 23 anos pelo grande Raymundo Faoro a revistas com a Istoé e a Senhor. No bate-papo, ele fala a respeito da obra e também (e principalmente) sobre a atuação de Faoro como "profeta" e analista da vida brasileira. Segue a íntegra da entrevista.
Conversas com o profeta Faoro
Marcelo Moutinho
Autor de "Os donos do poder", acurado exame da formação de nosso patronato, e protagonista de alguns dos mais importantes capítulos do embate contra a ditadura militar, o advogado Raymundo Faoro foi também - e sobretudo - um atento analista da vida política brasileira. "Ele tinha um conhecimento monumental da história do Brasil e, mais do que isso, rastreava os movimentos da classe dominante", como afirma o editor da revista CartaCapital, Maurício Dias, que acaba de lançar uma seleta com 15 entrevistas concedidas por Faoro entre 1979 e 2002 a diferentes órgãos da imprensa. As conversas reunidas em "A democracia traída" permitem vislumbrar um pensador cético, mas não exatamente pessimista, e que não se furta em tentar compreender os fatos para além de sua dimensão primária. "O objetivo do livro é registrar a vertente publicista de um intelectual preponderante na segunda metade do século 20, um intelectual que interfere no tempo que passa", revela Dias.
No livro, o senhor observa que muitos dos vaticínios de Faoro anteciparam fatos. Nas entrevistas, porém, ele minimiza essa capacidade de ?profetizar?. A ?profecia? na verdade se originava da capacidade de análise?
A idéia do 'Profeta' é do Mino Carta. Uma fantasia que animava nossas conversas com Faoro. Entendo como uma ironia em relação a uma história, como a nossa, que se move puxada a carroça, como dizia o republicano Silva Jardim. Parece que nunca muda. Ou melhor, quando muda, em geral, muda para continuar igual. Fico tentado a dizer que esse veículo, de tração animal, é puxado por uma égua chamada 'conciliação'. Faoro 'adivinhava' porque conhecia os próximos passos do patronato político. Não era questão de bola de cristal e, sim, de análise, fundada no conhecimento profundo da história e municiada pelos saberes de um intelectual de longo curso como ele.
Em uma das entrevistas, Faoro reage diante da acusação de que a OAB teria sido usada pelo governo militar para "legitimar coisas que aconteceriam sem a sua presença". Que análise o senhor faz da atuação dele como presidente da Ordem?
Há uma parte da esquerda, notadamente a ligada ao PCB, que reage muito à atuação de Faoro, eleito pelo voto conservador e contra um adversário, supostamente de esquerda, chamado Josaphat Marinho, um advogado competentíssimo, apoiado pelo pessoal mais próximo ao velho Partidão. Mas o que aconteceu na seqüência da vida pública desses dois homens? Josaphat terminou os dias como 'afilhado político' de Antonio Carlos Magalhães.
Não me parece um final feliz. Faoro fez da OAB uma grande e influente trincheira da resistência democrática. E foi implacável na condenação da tortura. Ele não transigia com certas questões. Por exemplo, não admitia a anistia para os torturadores. Faoro percebeu que a abertura "lenta, gradual e segura" era uma armadilha dos conciliadores. Mas o lance formidável dele, no jogo político com o governo, foi fincar o pé no restabelecimento do habeas corpus. Com esse instrumento resgatado, ele sabia que desmoronava o mais importante pila que sustentava a repressão política. E foi o que aconteceu.
Nas entrevistas, Faoro dá a impressão de se decepcionar com a lentidão com que as mudanças políticas se efetivam no Brasil. Mas o tom é menos de pessimismo do que de ânsia por mais rapidez. O senhor acredita que ele estaria mais otimista hoje?
Faoro, por vezes, tinha uma reflexão pessimista. Mas era sempre otimista na ação. Ainda há pouco citei Silva Jardim que, decepcionado com a conciliação entre monarquistas e republicanos, viajou para a Itália e acabou engolido pelo Vesúvio. Suicídio?Acidente? Não se sabe. Mas antes de romper com os republicanos moderados enviou uma carta para Quintino Bocayuva e alertou: "Desse jeito vocês vão instituir o 3º Reinado, e não a República". Foi mais ou menos o que aconteceu. Faoro ficou feliz com a eleição de Lula, que o visitou no hospital após vencer e foi muito carinhoso. Passou a mão na cabeça dele. E brincou: "Se o senhor tivesse aceitado o convite para ser vice, a gente já tinha resolvido essa há muito tempo". Mas nos dias finais, no hospital, percebi certa desilusão política no que ele dizia. Não me arrisco a interpretar o humor dele se fosse vivo agora.
Machado de Assis, sobre quem Faoro escreve um estudo clássico, é citado em várias entrevistas. Sobretudo pelo conto O alienista, do qual Faoro se utiliza para ilustrar a tese de que as mudanças no Brasil são sempre feitas pela 'elite'. Machado ainda explica o Brasil?
Claro que sim. Não sou especialista em Machado. Mas ele fez péssimas avaliações sobre a nascente República brasileira. Desconfiava da plutocracia brasileira. Isto é, da influência das elites econômicas. O Brasil naturalmente mudou. Transformações incomodamente lentas. O estandarte da lentidão tem escrito nele a célebre frase: "O bolo deve crescer primeiro para, depois, ser distribuído". Machado ajuda muito a entender o Brasil de hoje. Mas devemos prestar atenção, como advertia Faoro, para o fato de que insinuava mais do que dizia.
Os donos do poder acaba de ser reeditado. A obra continua atual?
Respondo a sua pergunta com outra: por que um livro denso como esse já se aproxima da 30ª edição? Os donos do poder (aliás, um nome sugerido por Érico Veríssimo) é um dos livros de sociologia mais importantes já escritos no país. E arrisco uma profecia (estou sorrindo) sobre a obra do profeta Faoro: "Os livros realmente importantes duram sempre, porque são sempre atuais".
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