
Por encomenda do pessoal da Revista do Sesc, escrevi um artigo sobre o gênero samba-enredo para a edição de fevereiro, que já está circulando. Trata-se, tão-somente, de um texto introdutório (lembro que nosso professor Luiz Antonio Simas prepara, com Alberto Mussa, um livro sobre o assunto), que publico a seguir.
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Componentes da Unidos da Tijuca, em 1961 (foto de Georges Racz)
Tem enredo no samba
Marcelo Moutinho
Muita gente desconhece que, quando as escolas começaram a surgir no carnaval do Rio, suas apresentações não se davam com um samba alusivo ao enredo, como ocorre hoje. No início dos anos 30, época em que agremiações como a Estação Primeira de Mangueira e a Oswaldo Cruz (futura Portela) passaram a levar sua arte para a Praça Onze, as agremiações desfilavam ao som dos chamados ‘sambas de terreiro’ – músicas compostas no âmbito do terreiro onde os componentes se reuniam e que retratavam o cotidiano da comunidade. Assim, embora as fantasias e os adereços tratassem do tema escolhido, não havia uma conexão direta entre o que se cantava e o que se exibia.
A controvérsia sobre qual teria sido o primeiro samba a exaltar especificamente o enredo definido pela escola é antiga e, aparentemente, interminável. Unidos da Tijuca, Mangueira, Portela e Prazer da Serrinha (futuro Império Serrano) disputam o papel de protagonistas, cada uma com argumentos pra lá de respeitáveis.
A Tijuca alega que o hino O mundo do samba, de 1933, já esboçava a relação entre música e assunto em desfile. A Mangueira retruca com a homenagem a Carlos Cachaça, no pré-carnaval de 1934. Sérgio Cabral, autor do livro As escolas de samba do Rio de Janeiro, defende que a Portela teria a primazia com Teste ao samba, de 1939. Já os imperianos entendem Conferência de São Francisco, no carnaval de 1946, é a primeira composição que efetivamente se aproxima do formato que viria a se consagrar e se transformar num gênero. Curiosamente, o samba assinado por Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola não chegou a ser cantado na Avenida, gerando a crise interna na Prazer da Serrinha que acabaria por suscitar o nascimento do Império Serrano.
Polêmicas à parte, a absoluta maioria dos analistas concorda que cabe justamente à dupla Silas e Mano Décio a formatação nos moldes clássicos. Aquarela brasileira (1964), considerado por muitos o melhor samba-enredo de todos os tempos, é um dos exemplos mais bem acabados dessa estrutura. Juntos ou separados, Silas e Mano Décio foram responsáveis por outros hinos de antologia, como Heróis da liberdade (parceria com Manuel Ferreira), dura e lírica crítica à tirania que a escola da Serrinha cantou em 1969, no ápice da ditadura militar.
A partir dos anos 70, a progressiva descaracterização das escolas como grêmios recreativos em prol de uma questionável espetacularização vai gerar mudanças também nos sambas-enredo, que passam a ser mais curtos e acelerados - adequados, portanto, à crescente velocidade do desfile. Mas é essa década plena de transformações que nos oferece o melhor exemplo de que, independentemente da colocação obtida pelas escolas, os grandes sambas perduram. Em 1974, a Em Cima da Hora prestou tributo a Os sertões, de Euclides da Cunha, e terminou em último lugar. O hino, porém, é até hoje lembrado nos versos que saúdam: “Sertanejo é forte, supera a miséria sem fim / Sertanejo, homem forte, dizia o poeta assim”.
Porque talvez o samba-enredo seja um pouco como a fantasia usada no carnaval e que ajuda, numa função temporã, a tornar a quaresma colorida (como cantou Martinho para a sua Vila Isabel, em 1984). A fantasia que, rasgada ou já sem brilho, “transformada em cortina ou bandeira”, restaura uma nesga de ilusão - e insiste em dar “razões pra vida tão real da quarta-feira”.
* Jornalista e escritor. Autor de “Memória dos barcos” (7Letras) e “Somos todos iguais nesta noite” (Rocco)
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