Voltar para Página Principal
Blog
Clicando nos botões ao lado você aumenta o tamanho da fonte do textoDiminui FonteAumenta Fonte
»
Análise técnica do assalto Escrito em 27 de fevereiro de 2009
separador

O júri da Liesa, que (com muito boa vontade) é "apenas" despreparado e desqualificado para avaliar os desfiles das escolas de samba, fez muitas bizarrices neste ano, quase todas (que coincidência!) contra o Império Serrano. Observem o seguinte estudo de notas:

Total de 40 jurados. Império X co-irmãs que ocuparam as últimas posições + Mangueira, citada na mídia como tendo feito um desfile bem abaixo do padrão (e premiada, pasmem!, com o Desfile das Campeãs). Vejamos quantos jurados deram as notas mais baixas, as mesmas ou notas mais altas ao Império. E em que quesitos a disparidade foi absurda. Para facilitar, usamos uma terminologia do futebol. Vitórias (notas mais altas), Empates (em notas iguais de um julgador) e Derrotas (nas notas mais baixas atribuídas ao Império)

Império x Mocidade: 11 v, 11 e, 18 d
Império x Porto da Pedra: 12v, 7e, 21d
Império x Tijuca: 7v, 10e, 23 d
Império x Mangueira: 2v, 10e, 28 d

Ou seja, o Império foi goleado pelos jurados. Os casos de 'derrota' significam que, para aquele julgador, o Império foi a pior escola absoluta. Teve a nota mais baixa geral, sem sequer receber a mesma nota de uma concorrente.

No quesito Conjunto, novo espancamento:

Império x Mocidade: 4 derrotas (!)
Império x Porto: 1e, 3d
Império x Tijuca: 1e, 3d
Império x Mangueira: 4d

Será que o Conjunto da escola, tão elogiado pelas mais diferentes mídias, foi o PIOR das duas noites de desfile ? Que buraco houve? Que alegoria despencou? Que ala não cantava? Havia algum problema cromático?

O resultado choca-se com o do quesito Evolução, por exemplo, no qual encontramos o seguinte placar:

Império x Mocidade: 1v, 2e, 1d
Império x Porto: 3v, 1e
Império x Tijuca: 3v, 1e
Império x Mangueira: 1v, 3d

Muito se fala dos "carros pequenos" do Império. Nota-se uma clara tendência a premiar o gigantismo - ainda que imperfeito, incompleto. Senão, vejamos o quesito Alegorias e Adereços:

Império x Mocidade: 2e, 2d
Império x Porto: 4d
Império x Tijuca: 1v (9,2 a 9,1 grande vitória...), 1e, 2d
Império x Mangueira: 1e, 3d

Os carros inacabados da Mangueira, visíveis, foram melhores para TODOS os jurados do quesito do que os "carros pequenos" mas bem acabados do Império. Para nenhum dos jurados o conjunto alegórico imperiano foi superior ao da Mocidade e seus remendos de pano de chita, vai entender...

Fantasias:

Império x Mocidade: 1e, 3d
Império x Porto: 4d
Império x Tijuca: 1e, 3d
Império x Mangueira: 4d

As fantasias do Império eram as mais feias de todo o desfile? Não se adequavam ao enredo?

Enredo:

Os quatro jurados deram as notas mais baixas de Enredo ao Império Serrano. Um deles atribuiu 9,6 a Império, Beija-Flor, Mocidade e Porto da Pedra. Outro deu 9,7 para Império e Mocidade (um literal samba do crioulo doido que misturava Machado de Assis e Guimarães Rosa). Nenhuma escola desenvolveu o enredo de forma pior do que o Império, segundo os nobres juízes. Nem a já citada Mocidade, nem a Viradouro, que misturou orixás com biocombustível.

Harmonia:

Tiramos 9,8 em uma cabine. Na mesma cabine, a Mocidade levou 10. Cantou mais que o Império? Outro julgador deu 9,8. Tiramos apenas um 10, mesmo sendo nossa e3scola considerada pela cobertura especializada uma das agremiações que passaram mais animadas e tiveram mais comunicação com o público.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira:

Três dos 4 julgadores deram as notas mais baixas do quesito para o Império. A eleita revelação do Estandarte de Ouro Jacqueline é a mais fraca porta-bandeira de todas? Seria preconceito pelo fato de ela ter vindo de uma escola pequena (Lins Imperial) e por Diego ser um jovem. Os dois desfilavam pela primeira vez no Grupo Especial.

Para encerrar o 9,9 dado à Bateria Estandarte de Ouro de Mestre Átila. Isso, sinceramente, me recuso a comentar

Caímos por 0,8 ponto. Quantos décimos nos foram tungados injustamente? Houve, claramente, um balizamento. Ao Império a nota mais baixa. A partir daí, elas vão subindo. E depois os puxa-sacos da Liesa vêm falar em julgamento técnico.

......................................................................................................................................................................................

P.S.1 - O Globo On Line fez uma enquete sobre qual teria sido a maior injustiça deste carnaval. Com 40,73%, mais de duas vezes o índice alcançado pela segunda resposta, os internautas apontaram a queda do Império Serrano para o Grupo de Acesso.

P.S. 3 - Leia mais um petardo do Carlos Andreazza sobre o assunto aqui.

P.S. 2 - O estudo acima foi desenvolvido pelo Departamento de Comunicação do GRES Império Serrano

Clique para deixar seu comentário

»
A pergunta que se impõe Escrito em 26 de fevereiro de 2009
separador

... foi feita pelo Hian no Fórum do site do Império Serrano:

"Uma escola que nasceu de um ato de valentia fará algo ao ser ultrajada e assaltada ou não?"

Clique para deixar seu comentário

»
O maior assalto do carnaval Escrito em 26 de fevereiro de 2009
separador

Quando caiu para o Acesso em 2007, o Império Serrano fez por merecer a queda. Neste ano, muito pelo contrário, a Serrinha passou leve, bonita e animada - foi, sem dúvida, a escola que mais levantou o público na Sapucaí (se não a única) - e se viu vítima de um assalto. Um vexaminoso assalto, praticado pelos célebres criminosos que comandam o carnaval carioca. Mais um crime se soma às suas longas folhas corridas.

O Império ficou entre as melhores escolas de 2009 segundo os espectadores da TV Globo, os ouvintes da Rádio Tupi e os críticos do site Carnavalesco. Nos jornais, o desfile foi unanimemente elogiado, inclusive pelo fato de a agremiação ter adequado o carnaval às suas condições financeiras. Exemplo: ao invés de apresentar carros imensos, mas defeituosos, como a Mangueira (a inclusão da velha Manga entre as campeãs é uma piada), levou à Avenida alegorias menores, porém perfeitamente acabadas e - o mais importante - alusivas ao enredo (o que não aconteceu na maioria das coirmãs - o caso da Mocidade Independente é apenas o mais flagrante).

Não vou me estender sobre a falta de critérios do júri medíocre e despreparado (corrupto?) da Liesa. Caso o carnaval continue nas mãos da corja de vagabundos que dirige a entidade, veremos o filme se repetir: a escola que sobe, cai no ano seguinte, ainda que se apresente melhor do que as demais. E há escolas intocáveis. Isso acontece diante de um poder público omisso e de uma imprensa subserviente - boa parte dos jornalistas que atuam na área não se incomoda em trocar a consciência crítica por uma porção de bolinhas de queijo, um prato de sushi e algumas doses de uísque nos camarotes da contravenção.

Passo a palavra à amiga Daniela Name, de quem recebi um e-mail tão indignado quanto verdadeiro: "Há anos, as escolas com menos padrinhos são penalizadas por não terem carros gigantescos. Carnavalescos vão aos jornais para disputar: "O meu é maior que o seu". So vale Golias nas alegorias e adereços. Nos outros quesitos, que privilegiam a música e a força cultural da folia, a lógica se inverte: uma escola com enredo louco, samba-enredo café com leite e bateria mediana muitas vezes leva a mesma nota ou nota maior do que a agremiaçao que tem ala de compositores poderosa e bateria irretocável. Este é o caso do Imperio, cuja bateria Estandarte de Ouro ganhou 9,9 de um dos jurados.

(...) Mangueira e Mocidade nunca foram rebaixadas. O Império veio do Grupo A. Isso parece ser o suficiente para mandá-lo para lá novamente"

A análise é precisa. O escândalo, porém, não mereceu um mísero espaço na imprensa. Os jornais (os mesmos que tanto elogiaram) limitaram-se a afirmar que o Império se transformou numa "escola iôiô". Por que será? Que tal investigar um pouco (obrigação do jornalista)? Que tal comparar as notas? Que tal tentar ser menos passivo diante da poderosa Liesa? Que tal um pouco de coragem, coleguinhas? Um pouco de vergonha na cara?

Ontem estava triste, hoje estou enojado. Mas gostaria muito que vocês lessem o ótimo artigo que o Carlos Andreazza escreveu lá no Tribuneiros (e publico a seguie). Concordo com ele do início ao fim.

"Império: um filho do verde esperança não foge à luta"

Carlos Andreazza

"Vi todos os desfiles e escrevo de peito aberto: apenas quatro escolas de samba desfilaram melhor que o Império Serrano em 2009 - as quatro primeiras, Portela inclusive.

O Império foi roubado; tungado pela canalha bandida que comanda o carnaval do Rio de Janeiro. (E o leitor pode se preparar: sinto-me um palhaço agora, um trouxa, é verdade, mas não abandonarei o barco; vestirei a camisa mais do que nunca, mais orgulhoso do que nunca, e isto aqui vai virar um inferno).

O que se consolidou ontem, inequivocamente, não foi a absoluta rejeição ao tipo de carnaval desenvolvido pelo Império, mas a própria impossibilidade do carnaval. A negação.

E é duro, para quem viveu este desfile, para quem esteve lá, para quem se emocionou tanto e acreditou tanto, para quem sentiu a reação do público, para quem viu as lágrimas escorrerem do rosto daquela senhora, é duro receber [compreender] esta morte - este assassinato.

Gostaria, sinceramente, de falar que “chega“, que cansei, que escola de samba acabou pra mim, que doravante será só saudade - mas não. Eu ainda acredito. Não sei muito bem em quê, não sei como, mas ainda acredito. Eu acredito muito na força do Império Serrano - e preciso do Império Serrano.

Talvez fosse fácil escrever agora que, apesar de tudo, valeu; que o que importa nós fizemos, construímos no chão, no asfalto, como escola de samba. Isto, contudo, seria egoísmo. E mentira. Isto seria fechar entre os que desfilaram o sentimento de que o resultado, extraordinário, nós colhemos ali, na avenida, a cada passo e sorriso, a cada cadência de um momento raro. Mas não: quem esteve lá, quem rasgou aquela Sapucaí com o canto em riste, quem ladeou o miudinho de Felipe Moura Brasil, quem viu a minha Renata, linda, radiante de alegria, quem reparou no improvável passista em que se transformou João Paulo Duarte, brincando e se divertindo o tempo todo, quem foi tão feliz e inteiro quer ver a sua harmonia, a sua plenitude reconhecida e homenageada; quem esteve no desfile do Império Serrano, quem passou com ele ou o viu passar, sem nada ter com o julgamento, quer pedir - quer gritar - desculpas pelo décimo furtado à insuperável bateria da escola. Porque isso é dor.

Ao contrário de 2007, ano em que mereceu o tombo, este rebaixamento do Império Serrano é um golpe escandaloso contra o samba - e se deu, para delírio do dinheiro sujo [para a farra dos bicheiros sócios do poder público], nas mesmas bases que descrevi no artigo Vamos julgar os jurados?. (Aqui).

Ocorre que nós não vamos nos calar; não podemos. Não mais. E esta será, creio, a posição oficial do Império Serrano: romper com a contravenção - com o carnaval dos bicheiros obscuros, com o lixo chamado Liesa. Botar a boca no mundo; ir pro pau. Sem medo. O Império não é uma escola de bandidos - e não pode seguir de cabeça baixa ante as evidências de que é o boi-de-piranha desses vagabundos do crime organizado. O Império Serrano não faz jogo de carta-marcada. É hora de assumir a posição de grandeza que é historicamente imperiana. É hora de cobrar. E cobraremos da prefeitura, sem cessar, o controle urgente sobre um evento que se faz, em boa parte, com dinheiro público. O prefeito Eduardo Paes, se não quiser dar linha ao crime concebido e empreendido por Cesar Maia, precisa compreender que a Liga Independente das Escolas de Samba, esta imoralidade, é inimiga do Rio de Janeiro, cujos melhores valores insiste em derrubar.

Não é tempo de omissão.

(O tal Jorge Castanheira, presidente da Liesa, com sua pinta de síndico competente, nada mais é que marionete da cúpula do jogo do bicho; o carnaval do Rio de Janeiro, porém, segue comandado por assaltantes da laia de Capitão Guimarães, o torturador - e é lamentável que também a tevê Globo, encenando a farsa, legitime este grupo de contraventores como uma entidade administradora séria).

Tenho simpatia pela Mangueira e especialmente pela Mocidade Independente - mas, neste carnaval, em quesito algum do mundo, estas escolas poderiam aparecer à frente do Império. A Mangueira despencava pela avenida; Padre Miguel exercitava todas as possibilidades do mau-gosto… E o que dizer de Porto da Pedra, Viradouro e Unidos da Tijuca? O que essas agremiações fizeram pelo espetáculo senão o cultivo insolente da mediocridade?

As gentes - jurados sobretudo - dão-se com alegorias imensas e lotadas, que acumulam rococós sem sentido, e se impressionam, deslumbradas… É a leitura - a visão nouveau riche - do mundo cuspida no carnaval. Não interessa a clareza, a elegância, a leveza, a concisão sobre o que se quer passar. Eis o segredo do carnaval das escolas de samba, amplamente aplicado pela Grande Rio: na dúvida [ou na certeza da própria incompetência], entulha-se o carro de barroquismos e vamos que vamos. A estupidez valerá cada nota 10.

Custei muito a acreditar, ingênuo talvez, mas estou afinal convencido de que o resultado que a quarta-feira de cinzas nos trouxe estava estabelecido há exatos doze meses, quando o Império Serrano venceu o Grupo de Acesso. Ali, no instante em que subia, tão feliz e esperançoso, descia. (O mesmo se dará com a União da Ilha em 2010, escola que, de resto, não mereceu o acesso, beneficiada pela perseguição à Estácio de Sá).

Ouvi o notável idiota de nome Dudu Nobre, sujeito asqueroso, puxa-saco lastimável, sub-sambista que despreza o carnaval na mesma medida que o desconhece, dizer que faltou ousadia ao Império Serrano - e ousadia foi justamente o que sobrou, felizmente.

É preciso muita ousadia, coragem, muita confiança nas suas qualidades, para desfilar um carnaval de verdade hoje na Sapucaí; para botar uma escola no chão, para investir no samba, no peso do samba, nas características do samba, para dar vez e espaço aos seus. O Império Serrano acreditou - acredita - num carnaval direto, horizontal, franco, limpo, transparente; e por isso, claro, pela transparência absoluta, foi punido.

Mas o Império, que tem patente, voltará. O Império é patrimônio do Rio de Janeiro. E vamos à briga. E vamos à briga!

********

Grande campeão foi o Salgueiro. A academia, porém, merecia a honra de um samba-enredo melhor.

********

Há uma movimentação, anterior aos desfiles, para que nenhuma agremiação do Grupo Especial seja rebaixada. O Império nada tem com isso e, embora fosse o grande beneficiado com a transgressão, estou seguro de que jamais aceitaria qualquer virada de mesa."

********

P.S. Assim como o Andreazza, recomendo a leitura do artigo de Luis Carlos Magalhães no site O Dia. Confira aqui.

Clique para deixar seu comentário

»
Odoya Escrito em 20 de fevereiro de 2009
separador

Que Yemanjá proteja o Império Serrano no domingo.

Boa folia a todos e até quarta-feira.

Clique para deixar seu comentário

»
Exalta Rei Escrito em 19 de fevereiro de 2009
separador

Leio que neste carnaval vai sair pela primeira vez o bloco Exalta Rei, que homenageia Roberto Carlos. Leio também que o desfile será na próxima segunda-feira, que a idéia é tocar as canções compostas por Roberto em ritmo de samba e que o cortejo terá início na Rua João Luiz Alves e terminará na Avenida Portugal, perto da casa do cantor.

Deixo desde já minha sugestão para a fantasia: censor.

Clique para deixar seu comentário

»
A cumbuca das notas Escrito em 18 de fevereiro de 2009
separador

Recomendo a leitura da coluna do Eduardo Carvalho no site Tudo de Samba. Com muita pertinência, ele mete a mão na cumbuca do método elaborado pela Liesa para o lançamento das notas por parte dos jurados do Grupo Especial. Aliás, adianto que está para sair na imprensa um alentado artigo do Carlos Andreazza sobre outro ponto da questão: os critérios para as notas. Ambos, garanto a vocês, textos fundamentais. Segue um trecho da coluna do Eduardo, que pode ser conferida na íntegra aqui.

"(...) É o seguinte: o jurado só pode lançar a nota final do seu quesito depois que a última escola de samba tiver desfilado, na manhã da terça-feira de Carnaval. Com a palavra, o Manual do Julgador, que em seu item 5, chamado "Material de Trabalho", diz, sobre as coisas que o jurado recebe: "(...) Um exemplar do Caderno de Julgamento, contendo os originais dos Mapas de Notas, que só deverão ser preenchidos e assinados após a passagem da última agremiação desfilante na segunda-feira de Carnaval, transcrevendo, do rascunho para o Mapa, as notas definitivas e suas respectivas justificativas".

Determinação que é reforçada, mais adiante, em "Orientações sobre o Julgamento", na parte que trata de "Preenchimento e Entrega do Caderno de Julgamento": "O preenchimento do original do Caderno de Julgamento do Grupo Especial só deverá ser feito após o desfile da última agremiação a se apresentar na segunda-feira de carnaval".

Deu para perceber o problema? Não?

Pois vamos imaginar - só imaginar - que um julgador considere que, por exemplo, uma escola da primeira noite tenha sido perfeita, irretocável em relação ao quesito julgado por ele. Ele anota, rascunha e "guarda" aquilo que viu. Aí, na manhã do dia seguinte - e isso não é mais imaginação, é fato - ele vai para casa sem ter dado a nota.

No transporte a caminho do lar, vai conversando com o acompanhante que tem direito de levar à Sapucaí, de quem ficou separado no desfile, mas com quem, naturalmente, trocará idéias sobre os desfiles da noite. Nada mais natural. Depois, nosso jurado chega em casa e dorme. Acorda. Lê jornais, navega na internet, vê televisão. Recebe ligações - por favor, sejamos puros - de amigos que querem tão somente comentar o que viram (pessoalmente, na televisão, na internet...) e saber também o que ele achou. (...)"

Clique para deixar seu comentário

»
Império da Tijuca Escrito em 17 de fevereiro de 2009
separador

Meu flerte com o Império da Tijuca - escola pela qual de resto sempre tive simpatia, sem prejuízo, é claro, do número um Império Serrano - começou a se intensificar em 2007, quando a agremiação do Morro da Formiga levou à Sapucaí o excepcional samba O intrépido Santo Guerreiro, no tributo a São Jorge. "Eu te sinto pelo ar / Eu te vejo no luar / O Morro da Formiga em procissão / Faz a sua homenagem ao santo de devoção", dizem os lindos versos do samba de Bola (um único autor!), que encantou o público do Grupo de Acesso na ocasião, provando que é perfeitamente possível, sim, embalar um desfile hoje com um hino em 'menor' e sem andamento marcheado.

Naquele ano, fiquei com muita vontade de sair na escola, mas a F. ainda se recuperava de uma séria operação no joelho e não fazia o menor sentido desfilar sem ela. A vontade, no entanto, ficou. E quando soube que, em 2009, o Império da Tijuca iria reeditar O mundo de barro de Mestre Vitalino, cantado originalmente em 1977, essa vontade se transformou em quase-obrigação.

A boa nova é que, graças à providencial ajuda do fotógrafo Diego Mendes, o que era vontade e virou quase-obrigação se tornará realidade no próximo sábado. Por volta de meia-noite, eu e F. engrossaremos com muita honra o corpo de componentes da escola, exaltando a vida e a obra de Vitalino Pereira dos Santos, que, nascido pobre na cidade de Caruaru (PE) em 1909, viria a se transformar no maior ceramista popular do Brasil.

Império no sábado, Império no domingo. Em resumo, um carnaval em verde e branco.

Segue a letra do samba tijucano, que pode ser ouvido aqui.

"O mundo de barro de Mestre Vitalino"

Biel Resa Forte / Adilson da Viola / Chipolechi

"Nordeste novamente é lembrado
Na figura de um humilde escultor

Vitalino, com seu mundo de barro
A terra que Deus criou, ele valorizou

Poeta no sentido figurado
De uma simplicidade sem igual
Que fascinado simplesmente
Retrata o Nordeste, sua gente
Grupo de bravos soldados
Camponês e lenhador (ôô ôô)
Boiadeiros e rendeiras
Lampião e seu amor
O caçador com seu cão a farejar

Tudo isso lá na feira
É louça de brincadeira
Feita de barro-tauá

Folguedo do maracatu
Uma festa tradicional
Onde o poeta
Se fez internacional

Olha o boneco de barro
Quem quer comprar
Leva boneco freguesa
Pras crianças alegrar"

P.S. Estou atrás de frisas para o Grupo de Acesso no setor 3. Quem souber como posso comprar, por favor entre em contato.

Clique para deixar seu comentário

»
Catar os cacos Escrito em 16 de fevereiro de 2009
separador

"Catando os cacos do caos"

Affonso Romano de Sant'Anna

"Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
............ - como se fosse flor.

Catar os restos e ossos
da utopia
............ como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.

Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
............ - do dia cão.

Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.

Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.

Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.

Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
............ - como era antes.

Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.

É um quebra-cabeça? ............ Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção

......Cacos de mim
......Cacos do não
......Cacos do sim
......Cacos do antes
......Cacos do fim

Não é dentro
............ nem fora
embora seja dentro e fora
..... no nunca e a toda hora
que violento
.....o sentido nos deflora.

Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora"

Clique para deixar seu comentário

»
Brega e chique Escrito em 13 de fevereiro de 2009
separador

Isso já faz algum tempo: num papo daqueles que rolam em festas de casamento nas quais a gente acaba dividindo a mesa com pessoas a quem nunca viu antes, tive uma longa conversa com uma senhora sobre as supostas diferenças da cultura brasileira nas décadas de 1960/1970 e nos incipientes anos 00. Ela, que vivera a juventude na Zona Sul daquela época ao mesmo tempo sombria, rica e agitada, argumentava que experimentamos hoje um enorme “esvaziamento cultural”, e baseava sua opinião sobretudo em exemplos da área musical.

Dizia, por exemplo, que artistas como Caetano Velloso, Chico Buarque, Maria Bethânia, Gal Costa, João Bosco, entre outras feras da chamada MPB, faziam sucesso, e que isso se dava porque tínhamos jovens politizados e interessados “no melhor” da arte e da cultura. Retruquei, salientando que lá em Madureira, onde passei minha infância, o balaio do “sucesso” incluía nomes como Lílian, Agnaldo Timóteo, Luiz Ayrão, Benito di Paula, Nelson Ned e Kátia.

Ou seja: eu queria mostrar a ela que existia um outro universo, talvez muito distante daquele no qual ela gravitava, mas que era composto por milhares, milhares de pessoas, com outros hits e outros ídolos. A questão é que essas largas fatias da população não faziam parte daquilo que se convencionou chamar de “formadores de opinião”, de maneira que seus gostos, seus hábitos e seu modo de vida se mantinham distantes das páginas dos jornais da hora, das discussões políticas e acadêmicas travadas nos bares em que a “inteligência” se reunia para refletir sobre a pauta do momento. Essas milhares de pessoas estavam simplesmente fora da pauta.

Pois bem. Ontem terminei de ler Eu não sou cachorro, não, de Paulo César Araújo. Comprei esse livro na época em que foi lançado, mas sei lá por que razões não tinha até agora retirado da estante. Quem perdia era eu. Porque se trata de uma grandiosa obra. Num texto claro e muito bem escrito, o historiador esmigalha conceitos cristalizados como a alienação dos artistas “cafonas” dos anos 1960/1970 (justamente o período mencionado pela senhora com quem eu conversava), evidencia que houve, sim, flertes da turma da MPB com os governos militares e revela que parte da produção “brega” tinha teor crítico, ao menos no campo da moral.


Benito e Agnaldo Timóteo: nomes apagados da história da MPB

Citando o sociólogo Michael Pollak, Araújo recorre ao conceito de “enquadramento da memória” (constituição de uma versão única e homogênea do passado) para demonstrar que, ao apagar dos relatos sobre aquela época os nomes de artistas de sucesso como Waldik Soriano e Paulo Sérgio, a historiografia oculta informações e pinta um cenário muito distante da realidade.

Um exemplo singelo: reportagens dando conta de que a primeira canção a abordar o problema dos meninos de rua foi Pivete, de Chico Buarque, que data de 1978. Dois anos antes, no entanto, o cantor Balthazar escrevera os versos “Um garoto de rua me pediu um trocado / para comprar um pão / Lamentou sua fome / e não me disse o seu nome”. Mas isso não foi levado em conta.

Araújo observa que os artistas “cafonas” também se viram excluídos de todas as coleções (de livros, discos ou CDs) dedicadas a contar a história da música brasileira. E aponta casos curiosos, como o livro MPB: A história de um século, organizado por Ricardo Cravo Albim. Nos verbetes elencados na obra, chegam a constar artistas como Tomaz Lima e Titane (“considerada por intelectuais como Ziraldo e Lélia Coelho Frota a cantora do ano 2000”!), mas não coube um Wando, ou um Odair José. Que história é essa, então? Araújo responde: é uma história que sonega o registro do caldo de cultura de um enorme contingente de brasileiros, que vela o que de fato aconteceu com uma máscara de "bom gosto", que - mais uma vez - exclui.

Clique para deixar seu comentário

»
Revista do Império Escrito em 12 de fevereiro de 2009
separador

Produzida pelo Departamento de Comunicação da escola com a ajuda de colaboradores especialíssimos, a Revista do Império Serrano 2009 foi lançada ontem, durante o show no Teatro Rival. A publicação, com 60 páginas em papel couché, traz artigos de imperianos de fé como João Bosco, Ruy Castro, Zuenir Ventura, Arlindo Cruz, Rosa Maria Araújo e Myriam Pérsia, além de depoimentos dos cantores Maria Rita, Serjão Loroza e Luiza Dionizio, dos compositores Nei Lopes e Delcio Carvalho, dos jornalistas Sérgio Cabral e Joaquim Ferreira dos Santos, do ex-jogador Júnior e do Dj Janot.

Além disso, há matérias sobre a história da agremiação, seus baluartes, sua excelência no quesito samba-enredo, os nove títulos, as velhas guardas, Dona Ivone Lara, o Jongo da Serrinha, a feijoada imperial, a tradição em revelar craques e o padroeiro São Jorge. A publicação conta também com entrevistas com Seu Molequinho, único fundador vivo, e Vicente Mattos, um dos autores do samba Lenda das sereias, e com um amplo panorama do que acontecerá no desfile de 2009: textos sobre o enredo, a bateria Sinfônica do Samba, a rainha Quitéria Chagas, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, o intérprete Nêgo e a nova ala de passistas.

Tive a honra de editar a revista, que tem projeto gráfico do designer Victor Marques e será distribuída gratuitamente na Sapucaí no domingo de carnaval. Como forma de agradecimento, nomino todos aqueles que ajudaram a fazer, desse projeto nascido durante uma reunião na casa da vice-presidente Rachel Valença, uma realidade. A nossa redação: Aloy Jupiara, Aydano André Motta, Bernardo Araujo, Carlos Andreazza, Carlos Gil, Cássia Valadão, Diego Mendes, Eraldo Leite, Felipe Moura Brasil, Guilherme Fernández, Hugo Sukman, Inês Valença, Luiz Antonio Simas, Mila Burns, Pedro Paulo Malta, Robson Aldir e Vitor Fraga.

Clique para deixar seu comentário

»
Enredo no samba Escrito em 10 de fevereiro de 2009
separador

Por encomenda do pessoal da Revista do Sesc, escrevi um artigo sobre o gênero samba-enredo para a edição de fevereiro, que já está circulando. Trata-se, tão-somente, de um texto introdutório (lembro que nosso professor Luiz Antonio Simas prepara, com Alberto Mussa, um livro sobre o assunto), que publico a seguir.


Componentes da Unidos da Tijuca, em 1961 (foto de Georges Racz)

Tem enredo no samba

Marcelo Moutinho

Muita gente desconhece que, quando as escolas começaram a surgir no carnaval do Rio, suas apresentações não se davam com um samba alusivo ao enredo, como ocorre hoje. No início dos anos 30, época em que agremiações como a Estação Primeira de Mangueira e a Oswaldo Cruz (futura Portela) passaram a levar sua arte para a Praça Onze, as agremiações desfilavam ao som dos chamados ‘sambas de terreiro’ – músicas compostas no âmbito do terreiro onde os componentes se reuniam e que retratavam o cotidiano da comunidade. Assim, embora as fantasias e os adereços tratassem do tema escolhido, não havia uma conexão direta entre o que se cantava e o que se exibia.

A controvérsia sobre qual teria sido o primeiro samba a exaltar especificamente o enredo definido pela escola é antiga e, aparentemente, interminável. Unidos da Tijuca, Mangueira, Portela e Prazer da Serrinha (futuro Império Serrano) disputam o papel de protagonistas, cada uma com argumentos pra lá de respeitáveis.

A Tijuca alega que o hino O mundo do samba, de 1933, já esboçava a relação entre música e assunto em desfile. A Mangueira retruca com a homenagem a Carlos Cachaça, no pré-carnaval de 1934. Sérgio Cabral, autor do livro As escolas de samba do Rio de Janeiro, defende que a Portela teria a primazia com Teste ao samba, de 1939. Já os imperianos entendem Conferência de São Francisco, no carnaval de 1946, é a primeira composição que efetivamente se aproxima do formato que viria a se consagrar e se transformar num gênero. Curiosamente, o samba assinado por Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola não chegou a ser cantado na Avenida, gerando a crise interna na Prazer da Serrinha que acabaria por suscitar o nascimento do Império Serrano.

Polêmicas à parte, a absoluta maioria dos analistas concorda que cabe justamente à dupla Silas e Mano Décio a formatação nos moldes clássicos. Aquarela brasileira (1964), considerado por muitos o melhor samba-enredo de todos os tempos, é um dos exemplos mais bem acabados dessa estrutura. Juntos ou separados, Silas e Mano Décio foram responsáveis por outros hinos de antologia, como Heróis da liberdade (parceria com Manuel Ferreira), dura e lírica crítica à tirania que a escola da Serrinha cantou em 1969, no ápice da ditadura militar.

A partir dos anos 70, a progressiva descaracterização das escolas como grêmios recreativos em prol de uma questionável espetacularização vai gerar mudanças também nos sambas-enredo, que passam a ser mais curtos e acelerados - adequados, portanto, à crescente velocidade do desfile. Mas é essa década plena de transformações que nos oferece o melhor exemplo de que, independentemente da colocação obtida pelas escolas, os grandes sambas perduram. Em 1974, a Em Cima da Hora prestou tributo a Os sertões, de Euclides da Cunha, e terminou em último lugar. O hino, porém, é até hoje lembrado nos versos que saúdam: “Sertanejo é forte, supera a miséria sem fim / Sertanejo, homem forte, dizia o poeta assim”.

Porque talvez o samba-enredo seja um pouco como a fantasia usada no carnaval e que ajuda, numa função temporã, a tornar a quaresma colorida (como cantou Martinho para a sua Vila Isabel, em 1984). A fantasia que, rasgada ou já sem brilho, “transformada em cortina ou bandeira”, restaura uma nesga de ilusão - e insiste em dar “razões pra vida tão real da quarta-feira”.

* Jornalista e escritor. Autor de “Memória dos barcos” (7Letras) e “Somos todos iguais nesta noite” (Rocco)

Clique para deixar seu comentário

»
Noite de sábado... Escrito em 09 de fevereiro de 2009
separador

... cheia de alegria e emoção em Madureira, com quadra lotada, na II Festa do Imperiano de Fé.


Tia Maria, linda, que se apresentou com as Meninas da Serrinha


Carlos Malta, imperiano de fé e flauta, com a camisa da festa


Delcio Carvalho e Elza Soares, duas das estrelas da noite imperiana


Diego, Jaqueline e a bandeira de 2009

P.S. As fotos são do Diego Mendes.

Clique para deixar seu comentário

»
Império no Teatro Rival Escrito em 09 de fevereiro de 2009
separador

No ano passado os ingressos se esgotaram um dia antes e foi uma noite inesquecível. Em 2009, teremos ainda mais atrações e a idéia é, no mínimo, repetir a dose. Estou falando do show do Império Serrano no Teatro Rival, que acontecerá na próxima quarta (dia 11), às 19h30.

Com apresentação de Jorginho do Império e roteiro deste que vos escreve, a festa contará com apresentações da Velha Guarda Show e do Jongo da Serrinha, além de convidados como Arlindo Cruz, Delcio Carvalho, Dorinna, Nilze Carvalho, Cláudio Jorge, Luiza Dionizio, Andrea Caffe e Alex Ribeiro (que lembrará músicas do pai, o saudoso Roberto Ribeiro). No repertório, sambas de terreiro, canções de compositores historicamente ligados à escola e, claro, muitos sambas-enredo, inclusive o deste ano, Lenda das sereias e os mistérios do mar.

Também estarão no Rival a consagrada bateria comandada por Mestre Átila (com sua rainha, Quitéria Chagas), o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diego e Jaqueline, os intérpretes oficiais e a ala de passistas do Império. Os ingressos custam R$ 36 e já estão à venda. Espero vocês lá!

Clique para deixar seu comentário

»
Senhora da Canção Escrito em 09 de fevereiro de 2009
separador

No sábado passado, o suplemento Idéias (Jornal do Brasil) publicou resenha minha sobre o livro Nasci para sonhar e cantar - Dona Ivone Lara, a mulher no samba, de Mila Burns. Na mesma edição do Idéias, há um belo artigo do amigo Luiz Antonio Simas sobre a relação dos sambas-enredo com a literatura. O Simas disponibilizou o texto lá no Histórias do Brasil. Confira a minha resenha a seguir.

Um enredo de papel para Dona Ivone Lara

Pesquisa traça e analisa a biografia peculiar da grande dama

Marcelo Moutinho

É espantoso como as músicas de Dona Ivone Lara remetem a ancestrais cantigas de domínio público. Parece que suas sinuosas melodias estão imemorialmente gravadas no inconsciente coletivo e ela apenas as retira de lá para, como uma Iabá, fazer com que breves instantes de transcendência possam rasgar vez por outra a malha ordinária do dia-a-dia. A essa formidável capacidade, somam-se outras.

Foi Dona Ivone, por exemplo, a primeira mulher a assinar um samba-enredo – e não se trata de um samba qualquer, mas de Os cinco bailes da História do Rio, parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau, que o Império Serrano levou à Avenida em 1965. Foi ela, também, a responsável pela criação de pérolas como Sonho meu, Acreditar (ambas com Delcio Carvalho), Mas quem disse que eu te esqueço (com Hermínio Bello de Carvalho) e Enredo do meu samba (com Jorge Aragão), que integram sem favor o rol dos maiores clássicos do nosso cancioneiro.

Além disso, saindo de uma infância pobre e de um núcleo familiar iletrado, Dona Ivone formou-se assistente social e enfermeira, e trabalhou com a Dra. Nilse da Silveira na aplicação das terapias que revolucionaram, nos anos 1970, o tratamento psiquiátrico.

As tantas facetas que se amalgamam na singularidade dessa personagem que é mito e sinônimo de canção, referência e signo da ancestralidade africana, nunca haviam sido objeto de análise sob a forma de livro. Até agora. Pois a Record acaba de lançar Nasci para sonhar e cantar – Dona Ivone Lara: a mulher no samba, de Mila Burns. A obra é uma versão adaptada da dissertação de mestrado da autora em Antropologia Social.

Digno de elogios por preencher uma lacuna da bibliografia sobre a música popular – e, mais genericamente, sobre a cultura brasileira -, o livro narra a história de Dona Ivone da infância aos dias atuais, carreando, na trajetória da protagonista, as profundas mudanças por que passou o país durante o século passado. O ponto central do exame feito por Mila é a tentativa de compreender como uma menina negra e carente, moradora do subúrbio, transformou-se em diva do samba.

A antropóloga elenca algumas possibilidades: o fato de a família de Dona Ivone ser ligada ao gênero, o casamento com o filho do presidente de uma renomada escola (a extinta Prazer da Serrinha), a capacidade de se impor em um nicho – o dos compositores – majoritariamente masculino. Cada uma dessas ‘razões’ é investigada a fundo, à medida que a vida da protagonista se descortina.

Mila demonstra, entre outras coisas, como Dona Ivone experimentou em âmbito radicalmente íntimo o encontro entre popular e erudito que viria a dar contornos particulares à música brasileira. Provinda de uma família de sambistas e chorões – a mãe desfilava em ranchos, o pai tocava violão de 7 cordas -, a compositora estudou canto orfeônico no internato público, onde permaneceu dos 10 anos até a maioridade. Na escola, chegou a ser aluna de Dona Lucília Villa-Lobos, então casada com o maestro. Curiosamente, Dona Ivone também teve aulas de música com Zaíra de Oliveira, a primeira esposa de Donga. No universo próprio que aos poucos se esboçava, a ela operava a síntese entre dois polos: “Fui pro colégio interno, vi um mundo diferente. Voltava pra casa, via outra coisa. Saía de novo, e mais uma coisa”, observa no livro.

Aos 12 anos, estreou como compositora. Estava em casa, acompanhada dos primos mais velhos, Hélio e Fuleiro, que lhe deram um passarinho. As brincadeiras com o bicho inspiraram Tiê-tiê, canção ainda hoje incluída em seu repertório. E Fuleiro, que mais tarde viraria baluarte do Império Serrano, acabou se transformando num dos principais responsáveis pela caminhada de Dona Ivone no mundo artístico. Foi o primo, na verdade, quem começou a cantar as músicas da compositora em rodas de samba. E o fez a pedido da própria, que, ainda jovem e intimidada com o domínio masculino em tais espaços, procurou-o e propôs que apresentasse suas canções como sendo dele.

Dona Ivone frequentava essas rodas, inclusive a que ocorria na casa de Seu Alfredo Costa, o comandante da Prazer da Serrinha. Lá, conheceu o futuro marido, Oscar (filho de Seu Alfredo), e começou a ganhar confiança para apresentar publicamente seus sambas. Quando um grupo dissidente deixou a Prazer da Serrinha e fundou o Império Serrano, ela foi junto. Corria, então, o ano de 1947, e Dona Ivone passou a integrar oficialmente a ala dos compositores da nova escola.

Mila conta, no livro, como se deu a parceria em torno de Os cinco bailes da História do Rio. Bacalhau e Silas de Oliveira, este já consagrado autor de sambas-enredo, tentavam escrever o hino do Império para aquele ano, mas não conseguiam. Haviam bebido demais. Quando Dona Ivone os encontrou e soube da dificuldade, cantarolou parte de uma melodia, que logo ganharia os inspirados versos da dupla. Na época, a escola da Serrinha já era conhecida por trazer inovações ao carnaval, e Fábio Mello, um dos diretores, concluiu que seria interessante reconhecer a participação da compositora e colocar uma mulher assinando o samba junto com os homens. Foi o que aconteceu - e o resto é história.

Como sempre se preocupou em manter a estabilidade financeira que lhe garantia a independência, somente após a aposentadoria Dona Ivone pôde se dedicar exclusivamente à música. O primeiro disco, uma coletânea ao lado de Clementina de Oliveira e Roberto Ribeiro, foi lançado em 1970, ano em que ganhou também a alcunha consagrada: por sugestão dos produtores Oswaldo Sargentelli e Adelzon Alves, a Yvonne Lara do registro em cartório deu lugar a Dona Ivone Lara. No livro, ela se recorda do desgosto inicial com o segundo batismo. “Dona? Pra quê Dona? Não quero isso, não, sou nova, ainda! Não tenho nem 50 anos, imaginem!”, respondeu aos dois na ocasião.

Mila relata ainda o princípio da união com aquele que seria o mais constante parceiro: Delcio Carvalho. Dona Ivone andava deprimida devido à morte de Silas de Oliveira, que teve um infarto enquanto cantava Os cinco bailes. Preocupado com o estado da mulher, o marido Oscar sugeriu a Delcio que escrevesse algumas letras para ela. Três anos depois, em 1975, foi Oscar quem faleceu, e a compositora enfrentou um período de tristeza intensa. Tristeza que o parceiro soube sentir – e purgar em palavras. “O Delcio fazia letras tristes porque olhava para mim e sabia o que eu estava querendo dizer com as minhas melodias”, comenta Dona Ivone.

O maior encanto de Nasci para sonhar e cantar vem exatamente dessas revelações, que documentam fatos relevantes com objetividade e sabor. O que não significa que o livro não tenha problemas. Ao adaptar a dissertação, Mila retirou os excessos de referencial acadêmico, mas o pouco que ficou irrompe brutalmente no texto, causando incômodo. Em algumas passagens, faltou também uma revisão mais atenta para eliminar a repetição de expressões e idéias. Por fim, há escorregadelas de pesquisa, como a atribuição da autoria do samba Senhora da canção apenas a Nei Lopes, esquecendo-se do violonista Cláudio Jorge.

A conclusão a que Mila chega ao fim do estudo é que o percurso de Dona Ivone não dependeu só de seus movimentos internos, embora também deles. Houve, segundo a autora, uma confluência paralela de fatores externos. “Quando a compositora começa a se destacar e grava seus primeiros discos, o Brasil atravessa uma fase de notável transformação social. A partir dos anos 1960, o bonito era a diferença, fosse ela de raça, faixa etária ou sexo”, argumenta.

Assim, sem se encaixar em nenhum dos tipos mais conhecidos no meio do samba – não é ‘tia’, nem passista, nem musa -, Dona Ivone entortou o destino previamente traçado para uma mulher de sua origem e de seu tempo. Em quase nove décadas, foi esposa, mãe, enfermeira, assistente social, artista na essência mais plena do termo. Impôs-se como pérola rara (que é) e construiu uma vida tão rica que dá até enredo de carnaval.

O que o Império Serrano está esperando?

* Jornalista e escritor

Clique para deixar seu comentário

»
II Festa do Imperiano de Fé Escrito em 05 de fevereiro de 2009
separador

Como bem destacou o Fernando Molica hoje, em sua coluna Informe do Dia (O Dia), "imperianos de todas as crenças têm um encontro marcado no próximo sábado": a II Festa do Imperiano de Fé, que levará à quadra da escola convidados especiais, como Elza Soares (ela promete cantar Heróis da liberdade), Délcio Carvalho e o maestro Carlos Malta, que vai fazer um solo de flauta acompanhado da bateria de Mestre Átila. Também irão se apresentar as Meninas da Serrinha e Alex Ribeiro, filho do saudoso Roberto Ribeiro. Na seqüência, começa o ensaio, com o puxador Nêgo e os ritmistas, que estarão acompanhados de sua (nossa) rainha, Quitéria.

Durante a Festa, o pavilhão oficial para o carnaval de 2009, devidamente benzido na Igreja de São Jorge, será entregue à porta-bandeira Jacqueline. A camisa-convite, que custa apenas R$ 20 e estará à venda na hora, foi desenhada pelo cartunista Miguel Paiva, e traz a estampa de sua célebre personagem Radical Chic vestida de sereia e com a coroa imperial. Na foto acima, Átila, Quitéria, Nêgo e Jorginho do Império mostram a camisa.

Clique para deixar seu comentário

»
Sobre o Imprensa Escrito em 05 de fevereiro de 2009
separador

Recebi alguns e-mails perguntando sobre o resultado da final do Imprensa Que Eu Gamo. Não ia comentar o assunto porque me desagradou constatar (mais uma vez) que a disputa no tradicional bloco dos jornalistas acabou se transformando numa mini-final de escola de samba. Resumindo: quem não leva claque, manda fazer camisa etc., não tem chance. Dou parabéns aos vencedores (tricampeões!), mas acho muito difícil, mas muito difícil mesmo, eu voltar a colocar um samba lá.

De qualquer maneira, fiquei comovido ao ler o texto que meu parceiro Eduardo Carvalho escreveu, em seu blog Samba, boemia e vagabundos! , sobre a nossa experiência de compor e participar do concurso. Anota ele: "Não teve foto, mas está tudo guardado na saudade: os encontros, a conversa sobre sambas-enredo, a troca de e-mails ajustando a letra, a tensão, as cervejas, a expectativa, o ensaio no banheiro do Odisséia, a esperança, a derrota - que, no fundo (pensem nisso!), não importa muito."

Deixo então com vocês a letra do nosso samba, se por nenhum outro motivo, para que tenha um registro antes de morrer, como morrem quase todos os sambas derrotados.

Um chope sem ordem no Carnaval

Bárbara Pereira / Candida Carneiro / Eduardo Carvalho / Gabriel Cavalcante / Guilherme Sá / Fernando Molica / Marcelo Moutinho / Luiz Antonio Simas

Amor, não trema
Eu não vou te deletar
Tira o hífen do caminho
Põe o acento com jeitinho
Que o Imprensa vai passar

Você é ‘A Favorita’
A cabrocha mais bonita
Primeira-dama!

Deixa eu ser o seu negão
Sua cota de paixão (bis)
O seu Obama!

A Dilma tá linda demais
O Serra vai botar peruca
Ronaldo só faz gol por atrás
E gosta de um calor na nuca

A Flora da Cláudia Ohana
O Minc não quis preservar
Quero chope, não quero choque
A minha ordem é sambar

Vou jogar o sapato na tristeza
Hoje não tenho pauta, que beleza!
Se a grana tá curta, peço licença (bis)
E afogo a crise na marola do Imprensa.

Clique para deixar seu comentário

»
Faoro, por Maurício Dias Escrito em 04 de fevereiro de 2009
separador

Fiz uma entrevista com a jornalista Maurício Dias para o número de fevereiro da Tribuna do Advogado, jornal da OAB/RJ. Dias acaba de lançar um livro que reúne depoimentos dados ao longo de 23 anos pelo grande Raymundo Faoro a revistas com a Istoé e a Senhor. No bate-papo, ele fala a respeito da obra e também (e principalmente) sobre a atuação de Faoro como "profeta" e analista da vida brasileira. Segue a íntegra da entrevista.

Conversas com o profeta Faoro

Marcelo Moutinho

Autor de "Os donos do poder", acurado exame da formação de nosso patronato, e protagonista de alguns dos mais importantes capítulos do embate contra a ditadura militar, o advogado Raymundo Faoro foi também - e sobretudo - um atento analista da vida política brasileira. "Ele tinha um conhecimento monumental da história do Brasil e, mais do que isso, rastreava os movimentos da classe dominante", como afirma o editor da revista CartaCapital, Maurício Dias, que acaba de lançar uma seleta com 15 entrevistas concedidas por Faoro entre 1979 e 2002 a diferentes órgãos da imprensa. As conversas reunidas em "A democracia traída" permitem vislumbrar um pensador cético, mas não exatamente pessimista, e que não se furta em tentar compreender os fatos para além de sua dimensão primária. "O objetivo do livro é registrar a vertente publicista de um intelectual preponderante na segunda metade do século 20, um intelectual que interfere no tempo que passa", revela Dias.

No livro, o senhor observa que muitos dos vaticínios de Faoro anteciparam fatos. Nas entrevistas, porém, ele minimiza essa capacidade de ?profetizar?. A ?profecia? na verdade se originava da capacidade de análise?
A idéia do 'Profeta' é do Mino Carta. Uma fantasia que animava nossas conversas com Faoro. Entendo como uma ironia em relação a uma história, como a nossa, que se move puxada a carroça, como dizia o republicano Silva Jardim. Parece que nunca muda. Ou melhor, quando muda, em geral, muda para continuar igual. Fico tentado a dizer que esse veículo, de tração animal, é puxado por uma égua chamada 'conciliação'. Faoro 'adivinhava' porque conhecia os próximos passos do patronato político. Não era questão de bola de cristal e, sim, de análise, fundada no conhecimento profundo da história e municiada pelos saberes de um intelectual de longo curso como ele.

Em uma das entrevistas, Faoro reage diante da acusação de que a OAB teria sido usada pelo governo militar para "legitimar coisas que aconteceriam sem a sua presença". Que análise o senhor faz da atuação dele como presidente da Ordem?
Há uma parte da esquerda, notadamente a ligada ao PCB, que reage muito à atuação de Faoro, eleito pelo voto conservador e contra um adversário, supostamente de esquerda, chamado Josaphat Marinho, um advogado competentíssimo, apoiado pelo pessoal mais próximo ao velho Partidão. Mas o que aconteceu na seqüência da vida pública desses dois homens? Josaphat terminou os dias como 'afilhado político' de Antonio Carlos Magalhães.
Não me parece um final feliz. Faoro fez da OAB uma grande e influente trincheira da resistência democrática. E foi implacável na condenação da tortura. Ele não transigia com certas questões. Por exemplo, não admitia a anistia para os torturadores. Faoro percebeu que a abertura "lenta, gradual e segura" era uma armadilha dos conciliadores. Mas o lance formidável dele, no jogo político com o governo, foi fincar o pé no restabelecimento do habeas corpus. Com esse instrumento resgatado, ele sabia que desmoronava o mais importante pila que sustentava a repressão política. E foi o que aconteceu.

Nas entrevistas, Faoro dá a impressão de se decepcionar com a lentidão com que as mudanças políticas se efetivam no Brasil. Mas o tom é menos de pessimismo do que de ânsia por mais rapidez. O senhor acredita que ele estaria mais otimista hoje?
Faoro, por vezes, tinha uma reflexão pessimista. Mas era sempre otimista na ação. Ainda há pouco citei Silva Jardim que, decepcionado com a conciliação entre monarquistas e republicanos, viajou para a Itália e acabou engolido pelo Vesúvio. Suicídio?Acidente? Não se sabe. Mas antes de romper com os republicanos moderados enviou uma carta para Quintino Bocayuva e alertou: "Desse jeito vocês vão instituir o 3º Reinado, e não a República". Foi mais ou menos o que aconteceu. Faoro ficou feliz com a eleição de Lula, que o visitou no hospital após vencer e foi muito carinhoso. Passou a mão na cabeça dele. E brincou: "Se o senhor tivesse aceitado o convite para ser vice, a gente já tinha resolvido essa há muito tempo". Mas nos dias finais, no hospital, percebi certa desilusão política no que ele dizia. Não me arrisco a interpretar o humor dele se fosse vivo agora.

Machado de Assis, sobre quem Faoro escreve um estudo clássico, é citado em várias entrevistas. Sobretudo pelo conto O alienista, do qual Faoro se utiliza para ilustrar a tese de que as mudanças no Brasil são sempre feitas pela 'elite'. Machado ainda explica o Brasil?
Claro que sim. Não sou especialista em Machado. Mas ele fez péssimas avaliações sobre a nascente República brasileira. Desconfiava da plutocracia brasileira. Isto é, da influência das elites econômicas. O Brasil naturalmente mudou. Transformações incomodamente lentas. O estandarte da lentidão tem escrito nele a célebre frase: "O bolo deve crescer primeiro para, depois, ser distribuído". Machado ajuda muito a entender o Brasil de hoje. Mas devemos prestar atenção, como advertia Faoro, para o fato de que insinuava mais do que dizia.

Os donos do poder acaba de ser reeditado. A obra continua atual?
Respondo a sua pergunta com outra: por que um livro denso como esse já se aproxima da 30ª edição? Os donos do poder (aliás, um nome sugerido por Érico Veríssimo) é um dos livros de sociologia mais importantes já escritos no país. E arrisco uma profecia (estou sorrindo) sobre a obra do profeta Faoro: "Os livros realmente importantes duram sempre, porque são sempre atuais".

Clique para deixar seu comentário

»
Imprensa que eu gamo 2009 Escrito em 03 de fevereiro de 2009
separador

Em 2008, eu, Fernando Molica, Gabriel Cavalcante (o 'da Muda') e Guilherme Sá fomos vice-campeões (por um votinho) na final da disputa de sambas do bloco Imprensa que eu gamo. Neste ano, reforçamos o grupo de compositores com os bambas Luiz Antonio Simas e Eduardo Carvalho e as cabrochas Bárbara Pereira e Cândida Carneiro.

A final vai acontecer hoje, a partir das 21h, no Teatro Odisséia (Rua Mem de Sá, 66 - Lapa), com ingressos a R$ 15. Conto com a presença (e a torcida) dos amigos!

P.S. Cumpre informar que a linda logomarca da camisa do Imprensa para 2009 (imagem acima) foi desenhada pelo grande Cássio Loredano.

Clique para deixar seu comentário

»
'O luxo e o trabalho do artesão' Escrito em 02 de fevereiro de 2009
separador

Sou leitor contumaz da coluna que o Contardo Calligaris assina na Ilustrada (Folha de S. Paulo). No texto da quinta-feira passada, ele faz uma interessante reflexão sobre a relação entre consumidor e produtos, tendo como ganchos a conversa que teve recentemente com um adolescente - o rapaz lhe confidenciara que sonhava estourar um "magnum de champagne" - e o livro The craftsman, de Richard Sennett, que será lançado no Brasil em breve pela Record. Segue a íntegra da coluna, que merece atenção:

"O luxo e o trabalho do artesão"

Contardo Calligaris

"Sebastião é um adolescente de 13 anos com quem converso com frequência. Gosto dele, e ele tenta gostar de mim, embora, às vezes, eu seja chato. Por exemplo, recentemente, Sebastião me confessou que ele tinha o sonho de sacudir e explodir um magnum de champanhe - isso quando ele ganhar um Grand Prix de Fórmula 1 ou algo equivalente. Eu comentei que, nessa ocasião, ele deveria escolher um espumante de terceira -não pelo custo, mas "por respeito". "Respeito pelo quê?", ele perguntou.

Improvisei uma dissertação sobre a "méthode champenoise". Expliquei como, numa região específica da França, as uvas chardonnay e pinot são colhidas, seu mosto é fermentado em tanques e, logo, durante seis anos ou mais, transvasado repetidamente em garrafas, retirando do gargalo, a cada vez, o sedimento e as levuras. Evoquei a vida do viticultor, entre a espera e o cuidado da vinha. Falei da invenção do champanhe, no século 17, por um monge que se chamava Dom Pérignon, e das novidades introduzidas pela senhora Clicquot, no século 19. Em suma, estraguei a festa imaginária de Sebastião só para lhe lembrar que o líquido que ele se propunha despejar era o resultado do trabalho paciente de artesãos obstinados e orgulhosos de sua arte.

Chatice, não é? Mas tenho uma desculpa. A conversa com Sebastião acontecia em Milão, enquanto: 1) eu estava lendo o novo livro de Richard Sennett, "The Craftsman" (previsto em março pela Record como "O Artífice"), 2) o centro da cidade, onde a gente estava, era tomado por hordas de compradores de moda e design, entre os quais a maioria absoluta era de "emergentes" de sociedades que, hoje, vivem uma rapidíssima mobilidade social (Rússia e China).

Ou seja, eu era circundado por consumidores pouco interessados na qualidade do trabalho embutido nos objetos que eles adquiriam e muito interessados no status que esses objetos e suas marcas podem conferir aos usuários. Ao mesmo tempo, eu era encantado pelo texto de Sennett - seu comovente elogio da perícia que encontra seu maior prêmio no orgulho da obra benfeita.

Certo, se nem todo trabalho é alienação, é graças à mestria do artesão, ou seja, à alegria de quem exerce sua destreza, mas é também porque, EM TESE, o usuário do produto artesanal reconhece e admira, no objeto manufaturado, a arte de quem o fabricou.

Digo "em tese" porque, de fato, é cada vez menos assim: na extrema insegurança produzida pela rápida mobilidade social ("Será que os outros sabem que eu me enriqueci?"), o novíssimo-rico acumula produtos de luxo (supostamente artesanais) sem ter o tempo de acumular a cultura mínima para apreciá-los. Como assim, que cultura?

Quando eu era criança, o senhor Columbaro era o humilde alfaiate da família: ele sabia recortar os ternos velhos do meu pai para confeccionar calças e casacos para nós e, também, ele conseguia dar uma segunda vida a ternos puídos, reconstituindo-os depois de ter virado o tecido pelo avesso. Pois bem, uma vez, o senhor Columbaro me explicou longamente por que um terno de Seville Road cai solto ao redor do corpo (só para começar: a tela interna não é colada, mas costurada com centenas de pontos).

Comecei assim a enxergar, nos produtos manufaturados, o esforço e a habilidade de quem os fabrica. É possível que, um dia, o preço de um produto artesanal não seja decidido pela excelência do trabalho do artífice, mas seja apenas função do status que sua posse confere (inevitavelmente) numa sociedade em que o consumo aparente define as diferenças sociais. A partir daquele dia, aos poucos, só sobrarão produtos medíocres, que não dirão nada sobre a perícia do artesão -apenas bradarão o status de seus consumidores.

Os leitores de "Gomorra", de Roberto Saviano (ed. Bertrand Brasil), assim como os espectadores do filme homônimo, sabem que já há porões em que se fabricam, ao mesmo tempo, do mesmo jeito e no mesmo molde, a suposta alta-costura e suas "cópias" destinadas a quem só quer passear com uma marca famosa gravada no peito.

Qual a relevância disso tudo? Pois é, vou parecer catastrofista, mas penso assim: no dia em que formos incapazes de reconhecer e respeitar, no produto, a excelência do artesão, quando não soubermos mais enxergar o trabalho humano nos objetos que usamos, teremos perdido todo interesse pela vida concreta -inclusive pela nossa própria.

Era isso que eu tentava dizer a Sebastião".

Clique para deixar seu comentário