
Relendo sobre e ouvindo sambas-enredo para um artigo que me foi encomendado, ando (novamente) encantado com o hino defendido pela Vila Isabel em 1984 - um ano, diga-se, pleno de composições de altíssima qualidade (alguns exemplos: Portela, com Contos de areia; Mangueira, com Yes, nós temos Braguinha; Estácio de Sá, com Quem é você; Mocidade Independente, com Mamãe eu quero Manaus; Salgueiro, com Skindô Skindô).
A composição feita pelo Martinho da Vila para sua escola (e que ganhou o Estandarte de Ouro) trata daqueles que constróem o carnaval - da comissão de frente à velha guarda, do escultor à bordadeira, de quem trabalha muito para um só dia -, e é embebido do estranho amálgama de alegria (efusiva) e de tristeza (milenar) que cimenta a essência do samba.
A linda letra está perfeitamente conectada à melodia, como demonstra um trecho da segunda parte. Quando se refere ao fim da festa, ou seja, à quarta-feira de cinzas, a melodia 'desce', para logo em seguida 'subir', na alusão à quaresma que se faz com as sobras das fantasias que desfilaram na Avenida. Um fim precioso para um hino de antologia. Segue a letra. Ouça o samba aqui, na interpretação de Gera.
"Pra tudo se acabar na quarta-feira"
Martinho da Vila
"A grande paixão
Que foi inspiração
De um poeta é um enredo
Que emociona a velha guarda
Lá na comissão de frente
Como a diretoria
Glória a quem trabalha o ano inteiro
Em mutirão
São escultores, são pintores, bordadeiras
São carpinteiros, vidraceiros, costureiras
Figurinista, desenhista e artesão
Gente empenhada em construir a ilusão
E que tem sonhos como a velha baiana
Que foi passista, brincou em ala
Dizem que foi o grande amor de um mestre-sala
O sambista é um artista
E o nosso tom é o diretor de harmonia
Os foliões são embalados
Pelo pessoal da bateria
Sonho de rei, de pirata e jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Mas a quaresma lá no morro é colorida
Com fantasias já usadas na avenida
Que são cortinas, que são bandeiras
Razões pra vida
Tão real na quarta-feira"
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