
O blog Prosa On Line publicou hoje um conto, até então inédito, que fará parte do meu próximo livro. Segue o trecho inicial do texto. Confira a íntegra aqui.
Folia
Marcelo Moutinho
O uniforme – bermuda cinza, camisa da mesma cor – está devidamente passado desde o meio da tarde e, estendido sobre a cama, indica uma falsa urgência. Silas pegará no trabalho às onze da noite. Somente às onze ele precisa estar na quadra para varrer o chão, limpar os camarotes, as mesas, as cadeiras; esfregar as pias, as privadas, os mictórios. Em resumo: preparar o ambiente para as pessoas que, em troca de um ou dois trocados, passarão ali a sua madrugada.
Todo sábado Silas procede da mesma maneira. Acorda, encomenda a quentinha por telefone e sai para comprar o jornal e o cigarro. De volta à casa, lê as notícias do dia, alimenta o cachorro e então se dedica a passar, com esmero, o uniforme. Chegar à quadra com a blusa ou a bermuda amarrotada significa desleixo – e Silas aceita ser chamado de qualquer coisa, menos de desleixado. Herdou esse cuidado do pai, militar. E se orgulha do legado, que não pôde passar aos filhos. Áurea nunca quis filhos.
Ele, sim. Mas não insistiu. Brigar com Áurea era arrumar problema para além da vida íntima. E se a relação se arranhava em casa, atravancava também as noites de ensaio. Mestre-sala sem porta-bandeira. Ou porta-bandeira sem sorriso, na valsa de filigranas de todo casal.
Antes, quem passava as roupas era ela. A casa era ela.
O ferro de passar: Áurea. A samambaia pendurada no quintal: Áurea. A cortina da sala: Áurea. A cama de casal: Áurea.
E, no entanto, aprendera a respirar no vácuo da ausência que ficou. (...)
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