
Alfredinho rege a festa (a foto é de Andréa, freqüentadora do Bip)
O clima foi de emoção intensa - tanto pelos muitos reencontros entre amigos, alguns deles distantes entre si já há algum tempo, quanto pela efeméride e pela conseqüente alegria do Alfredinho. Além disso, São Pedro colaborou, suspendendo por um dia a chuva que rega a cidade desde sexta passada. Resultado: mais de 350 livros vendidos (além dos cerca de 80 distribuídos aos autores) e uma roda de samba de primeiríssima qualidade.
Refiro-me, é claro, ao lançamento do livro Bip Bip - 40 anos - Histórias de um bar, que rolou sábado na Rua Almirante Gonçalves, em Copacabana. Uma linda noite, uma festa à altura da relevância desse boteco para o Rio de Janeiro (e para as coisas que importam no Rio de Janeiro), mas que, já nos seus momentos finais, agulhou uma leve tristeza no meu peito. Pensei: será que o Bip chega aos 50?, e, ainda que por um instante, me doeu a noção de que mesmo as coisas boas um dia acabam.
Posto, abaixo, o texto que publiquei no livro (os exemplares custam R$ 30 e podem ser comprados no próprio bar).
E o mundo fica lá fora
Marcelo Moutinho
Certa vez perguntei ao Chiquinho Genu por que todo domingo, esteja triste ou alegre, disposto ou desanimado, ele pega seu violão e ruma para o Bip Bip. Espécie de líder informal da roda de samba que acontece semanalmente, com a mesma voz rascante que enverniza as canções de Nelson Cavaquinho e Chico Buarque, o Chiquinho me respondeu: "Precisamos mostrar para as gerações mais jovens o que é o Bip, porque caberá a eles levar adiante".
Comovente em sua simplicidade, a explicação dá conta do significado maior que alimenta não só as rodas de samba e de choro do Bip, mas a própria essência do bar. Sim, porque o minúsculo boteco da Avenida Almirante Gonçalves é um espaço singular dentro do Rio de Janeiro – e, de certa forma, representa uma extensão de seu dono, Alfredo Jacinto Mello.
Apaixonado pelo Botafogo e pela Mangueira, socialista e cristão daqueles que vão mesmo à missa, Alfredinho serve como elemento aglutinador daquela pequena irmandade que se reúne em Copacabana no crepúsculo dos dias. Uma hora de cores pastéis e com o cheiro triste da maresia - que a gente vai purgar lá.
Porque o Neném conseguiu transformar o Bip num raro reduto de solidários, num refúgio possível e improvável na prosa seca da rotina. Com sua invejável disposição para ajudar, com a impressionante capacidade de simplesmente ‘ser bom’, o Alfredo personifica como poucos a “anatomia louca” de Maiakosvki. Assim como o poeta russo, faz um desafio à ciência: também ele é “todo coração”.
Sob seu comando paralelamente carinhoso e exasperado, encenam-se no Bip aquelas relações íntimas que meu saudoso professor e amigo Roberto M. Moura destacou num estudo sobre o rito das rodas de samba. Laços de amizade e sangue são construídos, dores individuais são maceradas em ritmo e álcool, diluídas no canto forte e sinuoso que, num feliz paradoxo, embala o lamento característico de boa parte das letras entoadas em coro. "É como se o tempo tivesse parado e o mundo ficasse lá fora", resumiu Roberto Moura.
E a dor que se canta não é só aquela mais comum e profunda: a dos amores que se foram e não se sabe se voltarão. Canta-se também a dor coletiva – no caso específico dos cariocas, a dor das flechas que, como alertaram Aldir Blanc, Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro em Saudades da Guanabara, foram pouco a pouco fincadas sobre o corpo frágil do padroeiro São Sebastião. Canta-se a nostalgia de uma cidade que, ainda imune a Cesares e Garotinhos, era mais Cabral pai e menos Cabral Filho. E onde, para nos mantermos no boteco de Aldir/Moacyr, as nossas histórias pessoais escorrem, queiramos ou não.
Essa cidade ainda é possível porque sua alma, embora machucada, viceja em cantos como o Bip, pequenos recintos nos quais as ondas do momento, sempre passageiras, não imperam. Microcosmos onde a herança é motivo permanente de tributo, sem que isso signifique colocar vendas sobre aquilo que é novo – e, bem processado, encaminha-se para virar memória também. Porque sempre haverá dor, e amores, e histórias escorrendo pelas esquinas. Sempre haverá, enfim, samba. E, se Deus quiser, haverá Bip Bip também - para que a gente possa no domingo ter a fina alegria de atravessar o bar, espremendo-se entre os músicos e os outros freqüentadores, e pedir: "Anota mais uma cerveja, Alfredinho!"
* Escritor e jornalista
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