
"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre"
P.S. Este blog entra em recesso até o dia 5 de janeiro. Que 2009 venha radiante de serenidade, alegria, saúde e sorte para todos nós.
A boa notícia da semana é que está de volta à internet o Fórum Silas de Oliveira, democrático (como sói) espaço de debates imperianos sobre o carnaval. Agora mediado pelo confrade Carlos Andreazza, o Fórum retorna com visual arejado e ferramentas mais dinâmicas, e funciona dentro do site oficial do Império Serrano. Acesse aqui.
Ontem, o Fantástico (TV Globo) exibiu matéria na qual o Inmetro media a quantidade de chope nas tulipas servidas em vários bares ao longo do país. O objetivo era saber se os 'colarinhos' não estariam 'roubando' o espaço da bebida - um tecnicismo de quem, talvez por não admirar (e decerto por não conhecer) a preciosa bebida, acha que a espuma é dispensável.
Em todas as cidades pesquisadas, o resultado foi semelhante: na maioria dos estebelecimentos, não havia 300 ml no copo por causa do colarinho. Mas, no caso do Rio de Janeiro, o índice impressionou ainda mais: em 100% dos bares aferidos, ele estava presente.
Ponto, portanto, para os cariocas, que comprovam seu bom gosto na hora de tomar chope.
Nem todo mundo sabe, mas a F. - primeira e mais bela dama deste blog - além de bióloga (e fotógrafa) é artesã. Pois bem: no ensejo do festivo mês de dezembro, ela preparou produtos especialíssimos: gatos de maçaneta, colares de flor de feltro, bijuterias e vários enfeites de Natal, que podem ser conferidos no site da grife Neguinha Suburbana e são baratinhos. Eu recomendo.
Boa pedida para quem mora ou está em Sampa é conferir o espetáculo Dias raros, baseado no livro do João Anzanello Carrascoza. A peça, com direção de Luiz Fernando Marques, fica em cartaz até o próximo domingo na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37) e se inspira no tema preferencial do escritor: as descobertas, perdas e frustrações que acontecem ao longo da vida da maioria das pessoas. Francisco Wagner, Lígia Borges, Paulo Arcuri e Roberta Stein formam o elenco (Informações e reservas: 7408-5152).
Quem me conhece sabe que sou fã de caderno do Carrascoza, um autor que sabe como poucos plantar a metáfora no chão seco da prosa. Já resenhei dois de seus livros, o próprio Dias raros (para o Idéias/JB) e a antologia O volume do silêncio (para o Prosa & Verso/O Globo). Leia os respectivos textos aqui e aqui.
"(...) Não tenho dúvidas de que o fato mais significativo de todo o período dos 50 anos em 5 foi a inauguração, com a presença do próprio presidente, do Mercadão de Madureira, na Avenida Edgar Romero. O Mercadão é mais importante do que Brasília, uma cidade sem esquinas e, portanto, sem Exu. (...)
Acontece que a característica mais marcante do mercado popular de Madureira é a impressionante concentração de lojas de macumba. O camarada chegado numa curimba encontra rigorosamente tudo - bodes, galinhas, patos, codornas, ervas diversas, obis, orôbos, pembas, efuns, sabões da costa trazidos da Guiné, atabaques, ibás, roupas de santo e o escambau. O Mercadão é o principal ponto do país de venda de artigos religiosos afro-brasileiros, batendo inclusive os mercados da velha Bahia. Isso explica o furdunço da inauguração com a presença da comitiva presidencial.
O presidente JK estava, como sempre, tremendamente simpático. Cumprimentava os comerciantes com o sorriso largo, já tinha sido devidamente defumado por mães de santo, até que, na porta de uma das lojas, um funcionário não segurou a peteca, deu uns tremeliques e recebeu uma entidade - um boiadeiro, para ser mais preciso. O do Orum veio que veio, aos berros, dando fortíssimos murros no peito, e fez questão de falar com Juscelino.(...)
Leia mais sobre este hilariante caso no referencial Histórias do Brasil, do amigo Luiz Antonio Simas.
Alfredinho rege a festa (a foto é de Andréa, freqüentadora do Bip)
O clima foi de emoção intensa - tanto pelos muitos reencontros entre amigos, alguns deles distantes entre si já há algum tempo, quanto pela efeméride e pela conseqüente alegria do Alfredinho. Além disso, São Pedro colaborou, suspendendo por um dia a chuva que rega a cidade desde sexta passada. Resultado: mais de 350 livros vendidos (além dos cerca de 80 distribuídos aos autores) e uma roda de samba de primeiríssima qualidade.
Refiro-me, é claro, ao lançamento do livro Bip Bip - 40 anos - Histórias de um bar, que rolou sábado na Rua Almirante Gonçalves, em Copacabana. Uma linda noite, uma festa à altura da relevância desse boteco para o Rio de Janeiro (e para as coisas que importam no Rio de Janeiro), mas que, já nos seus momentos finais, agulhou uma leve tristeza no meu peito. Pensei: será que o Bip chega aos 50?, e, ainda que por um instante, me doeu a noção de que mesmo as coisas boas um dia acabam.
Posto, abaixo, o texto que publiquei no livro (os exemplares custam R$ 30 e podem ser comprados no próprio bar).
E o mundo fica lá fora
Marcelo Moutinho
Certa vez perguntei ao Chiquinho Genu por que todo domingo, esteja triste ou alegre, disposto ou desanimado, ele pega seu violão e ruma para o Bip Bip. Espécie de líder informal da roda de samba que acontece semanalmente, com a mesma voz rascante que enverniza as canções de Nelson Cavaquinho e Chico Buarque, o Chiquinho me respondeu: "Precisamos mostrar para as gerações mais jovens o que é o Bip, porque caberá a eles levar adiante".
Comovente em sua simplicidade, a explicação dá conta do significado maior que alimenta não só as rodas de samba e de choro do Bip, mas a própria essência do bar. Sim, porque o minúsculo boteco da Avenida Almirante Gonçalves é um espaço singular dentro do Rio de Janeiro – e, de certa forma, representa uma extensão de seu dono, Alfredo Jacinto Mello.
Apaixonado pelo Botafogo e pela Mangueira, socialista e cristão daqueles que vão mesmo à missa, Alfredinho serve como elemento aglutinador daquela pequena irmandade que se reúne em Copacabana no crepúsculo dos dias. Uma hora de cores pastéis e com o cheiro triste da maresia - que a gente vai purgar lá.
Porque o Neném conseguiu transformar o Bip num raro reduto de solidários, num refúgio possível e improvável na prosa seca da rotina. Com sua invejável disposição para ajudar, com a impressionante capacidade de simplesmente ‘ser bom’, o Alfredo personifica como poucos a “anatomia louca” de Maiakosvki. Assim como o poeta russo, faz um desafio à ciência: também ele é “todo coração”.
Sob seu comando paralelamente carinhoso e exasperado, encenam-se no Bip aquelas relações íntimas que meu saudoso professor e amigo Roberto M. Moura destacou num estudo sobre o rito das rodas de samba. Laços de amizade e sangue são construídos, dores individuais são maceradas em ritmo e álcool, diluídas no canto forte e sinuoso que, num feliz paradoxo, embala o lamento característico de boa parte das letras entoadas em coro. "É como se o tempo tivesse parado e o mundo ficasse lá fora", resumiu Roberto Moura.
E a dor que se canta não é só aquela mais comum e profunda: a dos amores que se foram e não se sabe se voltarão. Canta-se também a dor coletiva – no caso específico dos cariocas, a dor das flechas que, como alertaram Aldir Blanc, Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro em Saudades da Guanabara, foram pouco a pouco fincadas sobre o corpo frágil do padroeiro São Sebastião. Canta-se a nostalgia de uma cidade que, ainda imune a Cesares e Garotinhos, era mais Cabral pai e menos Cabral Filho. E onde, para nos mantermos no boteco de Aldir/Moacyr, as nossas histórias pessoais escorrem, queiramos ou não.
Essa cidade ainda é possível porque sua alma, embora machucada, viceja em cantos como o Bip, pequenos recintos nos quais as ondas do momento, sempre passageiras, não imperam. Microcosmos onde a herança é motivo permanente de tributo, sem que isso signifique colocar vendas sobre aquilo que é novo – e, bem processado, encaminha-se para virar memória também. Porque sempre haverá dor, e amores, e histórias escorrendo pelas esquinas. Sempre haverá, enfim, samba. E, se Deus quiser, haverá Bip Bip também - para que a gente possa no domingo ter a fina alegria de atravessar o bar, espremendo-se entre os músicos e os outros freqüentadores, e pedir: "Anota mais uma cerveja, Alfredinho!"
* Escritor e jornalista
O Prosa & Verso anunciará, hoje à noite, o vencedor do concurso Contos do Rio, promovido pelo suplemento de O Globo. Na ocasião, haverá um debate com o crítico José Castello e o escritor Alberto Mussa sobre Literatura e Carnaval. Boa oportunidade para tentarmos entender por que o tema, tão 'nosso', aparece pouquíssimo da produção literária brasileira (curiosamente, o mesmo acontece com o futebol). Tenho um palpite.
O evento vai acontecer a partir das 20h, na Livraria Espaço Carioca/Casas Casadas (Rua das Laranjeiras, 307 - Laranjeiras)
Também hoje, só que em Sampa, o querido Guy Corrêa lançará seu novo livro: O hóspede perplexo. Trata-se da estréia do Guy - poeta de mão cheia - na seara da prosa, e o romance narra, em tom expressionista, a história de um homem que transita entre o Rio de Janeiro e Lisboa. O lançamento acontecerá a partir das 18h30, na Livraria Martins Fontes Paulista (Avenida Paulista, 509 - Loja 17).
O Bip Bip, bar do meu coração, completa no próximo sábado quatro décadas de existência [é curioso pensar que aquele espaço tão democrático tenha sido aberto justamente no dia da decretação do AI-5] e a festa será grande: a partir das 18h, vai rolar o lançamento do livro Bip Bip, 40 anos - Histórias de um bar, organizado a seis mãos por mim e pelos amigos Chiquinho Genu e Luiz Pimentel.
A obra é uma coletânea com textos de 104 amigos do bar, incluindo artistas como Nelson Sargento, Paulo César Pinheiro, Moacyr Luz, Paulo César Feital e Hermínio Bello de Carvalho, jornalistas como Sérgio Cabral, Marceu Vieira, Hugo Sukman e Alexandre Medeiros, e muitos freqüentadores assíduos e queridos. Eduardo Goldenberg, que desfila seu saber empírico sobre os botequins no Buteco do Edu, também está no livro, que, além disso de tudo isso, traz cinco ilustrações feitas por bambas do traço, como Paulo Caruso e Amorim. Quem assina a orelha é Aldir Blanc.
O lançamento, evidentemente, se dará ao som de uma roda de samba: a Rua Almirante Gonçalves estará fechada, e 12 banheiros químicos garantirão um xixi tranqüilo. Posto, a seguir, um trecho da apresentação do livro. Espero vocês no sábado!
Um bar em 104 relatos
Francisco Genu, Luiz Pimentel e Marcelo Moutinho
Se você não conhece o Bip Bip, ao ler alguns dos textos a seguir é possível que ache este livro um tanto mentiroso. Porém, à medida que as páginas forem passando, perceberá algo curioso: os mais de cem autores, em distintos estilos e visões, parecem convergir em suas mentiras. Teriam combinado entre si? Ou, pelo contrário, haveria alguma verdade nas histórias e impressões relatadas?
Dizia Wally Salomão, poeta e letrista, que nossa memória “é uma ilha de edição”. Wally sugeria que as coisas que ficam na lembrança são aquelas que, por um motivo ou por outro, nos tocaram - consciente ou inconscientemente. Nesse processo, cada recordação ganha significados, cores e timbres particulares, já que a fantasia mistura-se ao sentimento, o lúdico enverniza o fato concreto. O Bip que emerge dos próximos textos também é assim. Meio verdade, meio invenção. Notícia de jornal e conto de fadas.
E este livro surgiu por conta da comemoração dos 40 anos do boteco, completados no dia 13 de dezembro de 2008. Até chegarmos ao atual formato, muita água rolou, muitas idéias foram debatidas e, depois, descartadas.
Na verdade, esta não é a primeira vez que amigos homenageiam o bar com um livro. Primeiro, foi o do Juninho (José Martins Silveira Jr. – Bip Bip, um bar a serviço do porre - Concorde Editora Gráfica Ltda). Depois, em 2000, veio uma outra obra (Luis Pimentel, Marceu Vieira e Francisco Genu - Bip Bip, um bar a serviço da alegria - Bip Bip Editorial).
No projeto original, seriam apenas 40 autores. Quarenta anos, 40 textos, 40 autores. Não há dúvida de que a identidade matemática tinha charme e pertinência. Era, no entanto, de difícil consecução. Como garantir, por exemplo, que todos os 40 convidados de fato remeteriam seus textos? Ainda assim, convidamos cerca de quatro dezenas de amigos, a maior parte dos quais escritores ou jornalistas. No meio do caminho, um alerta bem oportuno do Leo Faria, cliente do bar desde a fundação, nos fez compreender que esse formato não seria o melhor, sobretudo porque pecava em autenticidade. O Bip, afinal, não era um reduto de intelectuais. Era um pouco isso, mas também muito mais do que isso.
Assim, abandonamos a limitação de autores e estendemos o convite a todos os amigos do bar. Dos mais de 150 convidados, 104 atenderam nosso apelo. E hoje, olhando no retrovisor, acreditamos ter sido bom adotar o critério expandido. Se há a possibilidade de o livro ter perdido em qualidade literária, ganhou em emoção, verdade e fidelidade ao espírito do Bip. Sem dúvida. (...)
O blog Prosa On Line publicou hoje um conto, até então inédito, que fará parte do meu próximo livro. Segue o trecho inicial do texto. Confira a íntegra aqui.
Folia
Marcelo Moutinho
O uniforme – bermuda cinza, camisa da mesma cor – está devidamente passado desde o meio da tarde e, estendido sobre a cama, indica uma falsa urgência. Silas pegará no trabalho às onze da noite. Somente às onze ele precisa estar na quadra para varrer o chão, limpar os camarotes, as mesas, as cadeiras; esfregar as pias, as privadas, os mictórios. Em resumo: preparar o ambiente para as pessoas que, em troca de um ou dois trocados, passarão ali a sua madrugada.
Todo sábado Silas procede da mesma maneira. Acorda, encomenda a quentinha por telefone e sai para comprar o jornal e o cigarro. De volta à casa, lê as notícias do dia, alimenta o cachorro e então se dedica a passar, com esmero, o uniforme. Chegar à quadra com a blusa ou a bermuda amarrotada significa desleixo – e Silas aceita ser chamado de qualquer coisa, menos de desleixado. Herdou esse cuidado do pai, militar. E se orgulha do legado, que não pôde passar aos filhos. Áurea nunca quis filhos.
Ele, sim. Mas não insistiu. Brigar com Áurea era arrumar problema para além da vida íntima. E se a relação se arranhava em casa, atravancava também as noites de ensaio. Mestre-sala sem porta-bandeira. Ou porta-bandeira sem sorriso, na valsa de filigranas de todo casal.
Antes, quem passava as roupas era ela. A casa era ela.
O ferro de passar: Áurea. A samambaia pendurada no quintal: Áurea. A cortina da sala: Áurea. A cama de casal: Áurea.
E, no entanto, aprendera a respirar no vácuo da ausência que ficou. (...)
O gente boa Zé Sérgio Rocha (foto) - jornalista com passagens por O Globo, Jornal do Brasil, Diário de Notícias, EFE, Latin-Reuters, e organizador da coletânea Parem as máquinas – Jornalistas que valem mais de 50 contos (Casa Jorge, 2006) - colocou no ar semana passada o blog Quem é vivo sempre aparece. Lá, ele escreve sobre samba, futebol, política e jornalismo, contando histórias que acumulou ao longo de sua carreira. Recomendo a visita, e o blog do Zé entra hoje para a relação de links indicados aqui no Pentimento.
Aquele que talvez seja hoje o pesquisador brasileiro que mais entende do assunto - refiro-me ao historiador e dileto amigo Luiz Antonio Simas - acaba de iniciar, em seu blog, uma série sobre os grandes sambas-enredo do carnaval carioca. A partida foi dada com O curioso Mercado de Ver o Peso, hino que o GRES Acadêmicos do Engenho da Rainha levou à Avenida em 1981, desfilando no grupo 2 A. O bacana é que, além de comentar o samba e reproduzir a letra, Simas disponibiliza o áudio da gravação original, retirada de seu enorme acervo - ele tem mais de mil hinos arquivados. Confira aqui.
P.S. Por falar em carnaval, aviso que no próximo domingo o Império Serrano fará seu primeiro ensaio técnico na Sapucaí. O desfile - que inclui todos os setores da escola - está marcado para 19h, e o acesso às arquibancadas é gratuito.
(Crédito da foto: Eduardo Goldenberg)
Da coluna do Ancelmo Góis (O Globo):
"Jogo pesado"
"A história circula na quadra do Império. Uma antiga musa do samba teria tentado comprar o lugar de Quitéria Chagas à frente da bateria da escola. Teria oferecido R$ 285 mil para vestir os ritmistas. A escola disse não e, dignamente, manteve a sua, e nossa, rainha"
Do site Tribuneiros:
"2 + 2"
"Não sei se a história - segundo a qual uma antiga [e, dizem, insuperável] deusa do samba teria oferecido R$285 mil para substituir Quitéria Chagas frente à bateria do Império Serrano - procede. Sei, porém, que a rainha imperiana no carnaval de 2009 será a mesma, Quitéria Chagas, aliás desde 2006. Sei, também, que uma outra grande escola, tradicional, nobilíssima e imaculada, trocou recentemente - e tão de repente - de rainha, coroando [é curioso] a mesmíssima musa [supostamente] rejeitada pelo Império.
Dou um bombom pra quem adivinhar de que altaneira rainha se trata…"
Agora morador da charmosa Itaipava, o querido Antônio Torres estará hoje no Rio para lançar a edição de bolso do clássico Essa terra. O livro, que iniciou em 1976 a trilogia completada com O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, será comercializado a R$ 12,90 no formato pocket.
O lançamento acontecerá a partir das 19h, na Estação das Letras (Rua Marquês de Abrantes, 177 - Loja 108 - Flamengo), incluindo um bate-papo com o autor - e ouvir o Antônio é sempre um prazer.
P.S. Leia aqui a resenha que escrevi em 2007 sobre a trilogia, tendo como gancho a chegada às livrarias de 'Pelo fundo da agulha'.
Hoje, às 19h30, no Teatro Rival, a Carol Saboya vai lançar seu novo disco. Em Chão aberto, Carol canta exclusivamente músicas de Mário Sève. O compositor, aliás, assina a produção musical e 13 dos 14 arranjos. No repertório, estão canções como o samba Águas passadas (co-assinada por Chico César), a capoeira Arraia miúda, o maracatu Feito à mão, o choro Finais possíveis (as três com letra de Mauro Aguiar), a marcha Um segredo (com Guile Wisnik) e o tango Canción necesaria (com Cecilia Stanzione).
No show de lançamento, Carol será acompanhada pelo próprio Mário Sève nas flautas, no saxofone e nos pifes mais Gabriel Gezsti no piano e no acordeão, Dôdo Ferreira no baixo e Cassius Teperson na bateria. O espetáculo terá, ainda, as participações especiais de Edu Krieger e Daniel Gonzaga.
Li ontem, de uma sentada, John Fante trabalha no Esquimó (Calibán), o novo livro do Mariel Reis. A obra é, sem dúvida, um passo à frente no trabalho que o autor vem realizando nos últimos anos. Em primeiro lugar, porque ele resolveu os dois problemas que, a meu ver, estorvavam Linha de recuo, a seleta de contos com a qual estreou em vôo solo. A saber: a irregularidade qualitativa entre as narrativas e a falta de organicidade.
Havia uma evidente força naqueles contos, que entretanto não se integravam nem sob o aspecto formal, nem sob o viés temático. Parecia-me, como lhe disse na ocasião, uma simples recolha de textos engavetados. Bons textos, decerto. Mas reunidos sem a coesão de uma ‘obra’. O que não acontece em John Fante trabalha no Esquimó, e embora a qualidade do novo livro não depreenda apenas disso.
Acredito que a grande virtude de Mariel foi ter encontrado um ponto ótimo não só entre forma e conteúdo, mas também entre a malha quase sempre sublimada da literatura e o tecido espesso e sem glamour do dia-a-dia. Coisa de quem conhece o riscado das mais remotas vielas e paga o preço de se equilibrar na corda bamba. De quem não se tranca nas salas da Academia ou nas bibliotecas, não obstante saiba que a arte é, sim, escudo.
A impressão é de que o autor enfim achou seu tema e seu jeito de narrar. Salpicados ao longo das 12 narrativas, o conhecimento específico e as leituras de Mariel se integram muito bem às histórias contadas com fúria e delicadeza. E o principal: o jogo com a meta-ficção não reivindica protagonismo. O que representa um alívio nesse panorama tão auto-referente da literatura brasileira contemporânea.
Bom exemplo é o conto A visita, que remete a Drummond, ao trazer o personagem José do poema para a prosa – e, num movimento paralelo, das páginas para a ânima das ruas (ainda que imaginárias). Em Sangue e areia, Mariel explora a tensão entre o idílio da infância e a barra-pesada dos morros cariocas com extrema criatividade, entremeando cenas de dois tempos na trajetória do personagem: as peladas no campinho de várzea e um ‘justiçamento’.
Meu texto preferido, porém, é A boneca. Com apenas duas páginas, o conto tem como mote uma prosaica viagem de táxi na qual o passageiro carrega a boneca recém-comprada a que alude o título. O enredo pode parecer banal, mas seu desenvolvimento é extremamente inventivo. Num lance abrupto, Mariel expõe nossa fragilidade - e lembra que as armas contra a solidão são sempre de brinquedo.
Também será hoje a estréia do talk-show Noites tribuneiras, capitaneado pelos amigos Carlos Andreazza e Felipe Moura Brasil. O convidado da primeira edição é o escritor e grande tricolor Ivan Sant’Anna, que falará sobre suas viagens ao redor do mundo (inclusive para ver o Fluminense jogar) e, evidentemente, sobre seus livros, entre eles os best-sellers Mercadores da noite e Plano de ataque. Ivan acaba de voltar de um passeio de um mês pela fronteira entre Paquistão e Afeganistão - experiência que, segundo os entrevistadores, também será explorada durante a conversa.
O evento acontecerá no Espaço Cultural Maurice Valansi (Rua Martins Ferreira, 48 - Botafogo) a partir das 20h, com couvert artístico a R$ 20.
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O Grupo Cultural atende hoje a 120 crianças
Quem costuma ler o Pentimento, sabe que não me incluo entre os que acreditam na falta de recursos financeiros como atenuante (ou justificativa) para a criminalidade - acho que há muitas outras nuances nesse debate. Tampouco me filio às correntes que condenam o poder policial sob qualquer pretexto, num discurso tão fácil quanto simplista. No entanto, quando o ataque policial se traveste de operação de segurança para, na verdade, criminalizar precipuamente a pobreza, a coisa é diferente.
Na sexta-feira passada, a Polícia invadiu o Morro da Serrinha em busca de traficantes. Natural: uma corporação cumprindo sua tarefa. Só que, durante as atividades, invadiu a sede do Grupo Cultural Jongo da Serrinha, destruindo móveis e revirando armários. "As aulas foram suspensas. Ainda não tivemos condições de calcular os prejuízos porque o clima no local está muito tenso", afirmou Dyone, coordenadora-executiva do Grupo, ao Globo On.
Com 40 anos de história, o grupo de Madureira foi fundado por Mestre Darcy e sua mãe, Vovó Maria Joana Rezadeira, que, preocupados com a extinção do jongo na cidade, comaçaram a estimular a prática e a divulgar a antiga dança praticada nos quintais da Serrinha. O Grupo Cultural hoje atende a 120 crianças da comunidade.
É lamentável, estarrecedor, vergonhoso que o Estado violente esse trabalho e essa tradição.
No seu aniversário de 70 anos, o extraordinário romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, foi reeditado pela Record em caprichado volume que traz fotografias de Evandro Teixeira. A convite da editora, Evandro percorreu os sertões de Alagoas e Pernambuco em busca dos personagens e da natureza que protagonizam o clássico de Graciliano - e agora enriquecem ainda mais o livro, ao dialogar com o texto.
Na esteira do lançamento, o suplemento literário Prosa & Verso (O Globo) promoverá hoje, às 19h, um debate na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira, 417 - Leblon. Estarão lá Evandro e o professor Wander Melo Miranda, supervisor do projeto de reedição da obra de Graciliano. O papo será mediado pela editora assistente do Prosa & Verso, Rachel Bertol.