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Drama – 3o ato Escrito em 22 de outubro de 2008
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Não me lembrava de como é bonito o disco Drama – 3o ato, que registra o show feito pela Maria Bethânia no Teatro da Praia em 1973. Ao ouvir novamente o CD, que está morando no meu som desde ontem, as canções e os textos me pareceram tão familiares quanto distantes. Explico o paradoxo: as músicas, inclusive sua seqüência e encadeamento, me remeteram a velhas tardes da infância, quando o LP rodava na vitrola das minhas irmãs. Íntimo, e longínquo - ao menos em termos temporais.

Drama – 3o ato é puro Fellini. Não só pela ambiência entre trágico e melodramático, cerzida na tensão entre canções com a sofisticação formal de Soneto (de Chico Buarque) e pérolas populares do naipe de Como vai você? (Mário e Antônio Marcos). Aliás, adoro essa música: é direta como a fala trivial, romântica como os brasileiros, derramada como quem ferve na paixão.

O disco/show é aberto com uma vinheta da áspera Movimento dos barcos. A canção de Jards Macalé e Capinam encerrava Rosa dos ventos, espetáculo anterior da cantora, e, portanto, não foi escolhida à toa. De Movimento dos barcos para o buarqueana Baioque, ainda no clima cinzento de Rosa; desta para um texto revelador sobre a passagem para o clima e o conteúdo mais sensoriais (“Eu não sou apenas essa hora / Em que me vês precipitada / Eu não sou senão uma de minhas bocas / Eu sou uma árvore ante o meu cenário”), e enfim a seqüência de Rasguei minha fantasia (Lamartine Babo), Se essa rua fosse minha (domínio público) e Nada além (Custódio Mesquita e Mário Lago).

Todas elas melodias definitivamente inscritas na memória popular. Assim como outras músicas que integram Drama – 3o ato. Estrela do mar (“Um pequenino grão de areia / Era um eterno sonhador...”), de Paulo Soledade e Marino Pinto. Meu primeiro amor (Lejania), versão de Pinheirinho Jr. e Jorge Fortuna para composição original de Hugo Jorge Gimenez. Volta por cima, de Paulo Vanzolini.

O espírito felliniano que rege o disco - presente também na capa, na qual Bethânia aparece com o nariz pintado – é bem sintetizado no lindo texto que abre a faixa número 3. Quem assina é dramaturgo Antônio Bivar. O encantamento com a mágica e as cores que as coisas têm, a dor que assalta quando a lona da ilusão é desarmada, tudo isso está lá, nas palavras do dramaturgo. Tenho um fraco para palhaços, artistas mambembes, assuntos de circo, e talvez por isso elas me falem tanto. O fato é que sempre a noite acaba, né, Bivar?

Segue o texto:

“Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirar lá do alto na certeza de que alguém segurava-me as mãos, não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo, tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo: do que não ficava pra sempre.
Era outra vez outro parque, outro circo, ciganos e patinadores. O circo chegou à cidade, era uma tarde de sonhos e eu corri até lá. Os artistas se preparavam nos bastidores para começar o espetáculo e eu entrei no meio deles e falei que queria ser trapezista. Veio falar comigo uma moça do circo que era a domadora, era uma moça bonita, mas era uma moça forte, era uma moçona mesmo. Me olhou, riu um pouco e disse que era muito difícil mas que nada era impossível. Depois veio o palhaço Polly, veio o Topsy, veio Diderlang, que parecia um príncipe, o dono do circo, as crianças, o público... De repente apareceu uma luz lá no alto e todo mundo ficou olhando. A lona do circo tinha sumido e o que eu via era a estrela Dalva no céu aberto.Quando eu cansei de ficar olhando pro alto e fui olhar pras pessoas, só aí eu vi que estava sozinho”.

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