
Recebi um e-mail do Nereu Afonso da Silva (foto), vencedor do Prêmio Sesc 2006 na categoria 'contos', no qual ele comenta post publicado aqui no blog na semana passada e alerta que o Prêmio São Paulo de Literatura era voltado apenas a romances. De fato, está lá, no Edital:
"2 – REQUISITOS PARA A HABILITAÇÃO
2.1. Serão considerados neste PRÊMIO os livros que preencham cumulativamente os seguintes requisitos:
2.2. Quanto ao livro:
a) categoria: ficção no gênero romance;"
A exclusividade corrobora (e reitera) o que escrevi sobre o desprestígio da narrativa curta, num sintoma claro do estabelecimento de estamentos qualitativos entre os gêneros. Na mensagem, Nereu - que também é contista - diz que talvez não seja exclusividade brasileira a crença de que o conto é um gênero de segunda classe. "Pra você ter uma idéia, a Métaillié, editora francesa especializada em tradução de autores latino americanos, recusou a avaliação do meu Correio Litorâneo, argumentando que 'a casa, nesse momento, não se interessa por contos'", revela.
Com a devida autorização, reproduzo o restante do e-mail, que ajuda a iluminar a discussão:
"Eu, do meu lado, tenho escrito coisas cada vez mais curtas: ficções (que nem sei mais se resumem ao gênero 'ficção') e em pouquíssimas linhas. Se depender dos concursos e prêmios, estou perdido, hé hé hé. Mas se depender de mim, quem sabe não esteja me achando.
De qualquer modo, a cada vez que presencio essa tolice toda, me conecto com aquilo que eu aprecio tanto: os contos do Caio F. Abreu, as crônicas do Nelson Rodrigues, os aforismos de Nietzsche, as Máximas de La Rochefoucauld, os Pensamentos de Pascal, os Ensaios de Montaigne, as cartas de Voltaire, enfim, gente que extrapola as noções de ficção, filosofia, autobiografia, literatura, para, com as palavras, nos atingirem poeticamente direto no êstomago... e no coração. Pra mim é isso o que conta, e se foi escrito em três linhas ou em 300 páginas é realmente um detalhe".
Assino embaixo.
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