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Linha de sombra Escrito em 21 de outubro de 2008
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Quando, em meio à análise de tantos e tantos textos, deparei-me com aquela seleta de contos extremamente bem construídos, não tive dúvidas de que tinha em mãos uma das indicações da subcomissão do Rio, composta por mim e pelo Alberto Mussa. O que nem eu nem Mussa poderíamos imaginar é que o livro conquistaria o Prêmio Sesc nacionalmente. Mas conquistou. E com todos os méritos.

Refiro-me ao ótimo A secretária de Borges, da Lúcia Bettencourt, autora a quem mais tarde vim conhecer e de quem me tornei amigo. A secretária de Borges foi publicado pela Record há três anos, e é pela mesma editora que a Lúcia lança amanhã seu novo trabalho, Linha de sombra, cuja orelha tive a honra de escrever. O lançamento acontecerá a partir das 18h, na Livraria da Travessa do Leblon, com leitura dramatizada pelos atores Adriana Birolli e Cadu Scheffer, sob a direção de Ruiz Bellenda.

Segue, a título de convite, o texto da orelha.

Instada a carregar o ovo de um lado a outro da cozinha, a fim de entregá-lo à empregada que espera com o óleo já esquentando na panela, a menina se espanta ao pousar o objeto sobre a palma da mão. Os dedos receosos, ainda à procura da firmeza, entregam o assombro com a perfeição do formato sinuoso, “tão puro, sem emendas, de linhas tão simples”.

Quando a cozinheira recebe e enfim quebra o ovo, lançando a clara e a gema na frigideira, o susto é outro: na fragilidade da casca, a garota enxerga o tênue invólucro da existência. Do ovo, dela e de todos nós. E adivinha, naquela angústia, o drama da finitude.

O excepcional conto, que remete a Clarice Lispector, sintetiza algumas das questões trabalhadas por Lúcia Bettencourt nesta obra, na qual a autora retoma obsessões já manifestas no livro anterior ("A secretária de Borges"), aprofundando-as.

O diálogo criativo com a tradição do cânone divide espaço com um olhar solidário às dores e aos dilemas femininos, que pode ganhar contornos extremamente violentos (“Medéia”), de intenso lirismo (“Bolhas de sabão”) ou forte caráter erótico.

Tema recorrente, a libido da mulher madura viceja em personagens como a protagonista de “Insônia”, viúva sem filhos cuja pulsão sexual se revela nas noites em que sonha com “espadas de mosqueteiros e brisas angelicais”.

Os 16 contos reiteram a consistência de uma narrativa sem firulas e se dividem em duas unidades (“Sol” e “Sombra”) que espelham uma falsa dicotomia: como no símbolo yin/yang, há pontos de luz nas histórias soturnas, e insuspeitas zonas escuras nos textos que parecem transbordar claridade.

Uma tensão perene, que reencena o sobressalto da menina ante a beleza e a debilidade do ovo, traduzindo a essência do que Lúcia oferece ao leitor: uma literatura em desassossego com o mistério das coisas.

Marcelo Moutinho

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