
É nada menos que brilhante a versão para a tela, conduzida pelo diretor Fernando Meirelles, do extraordinário romance Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Um livro, diga-se, cuja transposição se anunciava difícil, muito difícil.
O maior mérito de Meirelles é que, mais do que simplesmente adaptar o enredo, ele conseguiu reproduzir em imagens a ambiência da história - e também a sufocante experiência de quem lê (agora, de quem vê). Nesse trabalho, ele contou a preciosa ajuda de César Charlone, o fotógrafo do filme.
A superexposição na luz das cenas cria uma espécie de 'névoa' que é muito próxima ao conceito de 'treva branca' mencionada por Saramago no livro. Além disso, em vários momentos a luz 'estoura' totalmente, fazendo com que o espectador experimente, ainda que por um ínfimo instante, a cegueira dos personagens.
O elenco também está muito bem. Mark Ruffalo compõe com grande competência a figura do médico que, ponderado e solidário, lidera o grupo confinado no manicômio abandonado. E Julianne Moore, que interpreta a esposa dele, encontra o tom preciso da mulher cujo dilaceramento não é capaz de brecar a capacidade de ação, a faculdade de tocar os dias, apesar de tudo.
O filme de Meirelles honra as palavras escritas por Saramago. Não é pouco.
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