
Dia desses jantava com um amigo e durante o papo, que passeou por trivialidades, política, música, artes plásticas, cinema e, claro, pela literatura, chegamos ao nome de Caio Fernando Abreu. “No fundo, era um escritor fraco”, disse meu amigo. E ao tentar avaliar a afirmativa, percebi que não tenho como fazer esse julgamento. Isso porque o li num momento muito específico (a adolescência) e ele foi um dos autores que me fizeram começar a olhar para a palavra de forma diferente. Como escudo e espada diante do mundo.
Há cerca de dois anos, antes de escrever uma longa resenha sobre a produção do Caio nos anos 1970, reli todos os livros lançados pelo escritor naquele período. Alguns continuavam me dizendo coisas, me emocionando; outros não. Pareciam excessivamente datados, falavam precisa e sintomaticamente de uma época, mas não para além dela.
O curioso é que esse juízo crítico sempre acaba perdendo quando confrontado com o espanto que experimentei ao me deparar com a literatura de Caio – e que de certo modo perdura em mim. Um susto do qual lembrei nitidamente na semana passada, ao devorar em duas noites a biografia produzida por Jeanne Callegari.
O livro se chama Caio Fernando Abreu – Inventário de um escritor irremediável e foi publicado pela editora Seoman. Com uma prosa simples e sem grandes vôos de estilo, Jeanne constrói um perfil romanceado do autor. Do menino que ia todo dia ao cinema na pequena cidade gaúcha de Santiago do Boqueirão ao jornalista que, fugindo da repressão, esconde-se no sítio de Hilda Hilst. Do jovem escritor de texto lírico e angustiado ao homem maduro que, coberto pela sombra da morte, cultiva a vida nas flores do jardim da casa dos pais.
Como ressalta José Castello no prefácio, Jeanne consegue “organizar e domar a atmosfera de inconstância e desamparo” que cercou a trajetória de Caio. E como bem observa Fabrício Carpinejar na orelha, a biografia atiça a vontade de reler cada uma das obras que nos deixou. Acompanhar novamente suas buscas e suas perdas, rever suas experiências radicais, reencenar sua errância - o movimento, “caminho feito ao caminhar”, da treva à luz.
Nem que seja para renovar a crença de que, mesmo quando mofam os morangos, há sempre como se colherem outros, “vivos, vermelhos”. Há sempre como se plantar.
{0}