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Legado e opção Escrito em 13 de outubro de 2008
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Praça Onze, onde escolas se reuniam para mostrar seus sambas

Quando, no começo do século passado, as escolas começaram a sair de várias partes da cidade para desfilar na Praça 11, o objetivo era mostrar à população o samba feito em suas respectivas localidades. Samba que, conforme a região e a agremiação, ganhava características diferentes.

É claro que daquela época para cá muita coisa mudou. Algumas para melhor, muitas para pior. Mas, sem nostalgia barata, acho que o maior fator de grandeza do desfile continua ligado à questão da singularidade. Quando vou à Sapucaí ou me posto em frente à televisão para assistir ao espetáculo, mais do que carros alegóricos, fantasias (embora também esses elementos), o que me interessa é a marca própria que constitui o legado de cada agremiação – e que, mesmo sob a roupagem dos novos e sucessivos enredos, se reafirma a cada desfile.

Na Mangueira, quero ver o verde-e-rosa e ouvir o surdo sem resposta. Na Portela, reencontrar a extraordinária Velha-Guarda e a águia que sempre voou alto. No meu Império, escutar a harmonia dos agogôs, curtir a emoção dos componentes sempre à flor da pele. São essas as rubricas identitárias das escolas, que as diferenciam e servem como eixo entre o passado e o presente.

E é por pensar assim que lamentei tanto o que testemunhei no Salgueiro, o grande Salgueiro, no sábado passado. Não pela derrota do ótimo samba de Alberto Mussa, Luiz Antonio Simas, Edgar Filho, Gari Sorriso e Bené - o insucesso é sintoma, não causa do problema – e a vitória de mais um samba-marcha. Mas por constatar que a vermelho-e-branco da Tijuca também parece sucumbir ao ‘modernoso’ que nada tem de moderno. Optar pelo auto-flagelo em nome do sucesso momentâneo (sucesso sob a perspectiva dos critérios da Liesa, diga-se), numa postura que ameaça rasgar sua bela trajetória.

Logo no início da madrugada do sábado, um ‘ator’ da Malhação subiu ao palco e foi ovacionado pela quadra lotada. O ‘ator’ – cujo nome tenho o orgulho de desconhecer – era tratado como a estrela principal de uma finalíssima do Salgueiro. Repito: numa noite fundamental para a escola – a noite em que seria definido o samba a nortear o carnaval de 2009 -, a presença do tal menino parecia mais importante do que os concorrentes, a bateria, os históricos componentes. Emblemático – e triste à beça.

Mas quem se importa?

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