
"Minha dica é o mais recente livro do argentino Alan Pauls traduzido no Brasil. História do pranto (CosacNaify, tradução de Josely Vianna Baptista) me permitiu uma experiência que não sentia desde a leitura de Guimarães Rosa em um momento de crise na adolescência, quando estava desesperado achando que nunca mais gostaria de ler um livro, nunca mais chegaria ao fim de um romance. Todos seriam jogados fora pela janela. Me embrenhei no Rosa, 24 horas na rede da casa da minha mãe, e me salvei. Inclusive dos preconceitos. Aliás, literatura é preconceito.
Claro que as diferenças entre uma obra e outra são abissais. Me refiro ao ritmo de leitura a que as duas me lançaram, vertiginoso, delirante, viciante, turvo. Uma leitura cavalo do cão. Como se pouco importasse o entendimento daquilo que se está lendo. Mas se continuasse a ler. A ler de uma maneira diferente da que estamos acostumados.
Alan Pauls quer que o leitor tenha curiosidade, liberdade, disposição para se meter nos labirintos digressivos, tenha vontade de avançar, retroceder, desviar-se, e avançar ainda outra vez, e quantas forem necessárias, tenha entusiasmo para pensar tudo de novo, capacidade para se desconectar do mundo. É pedir muito de um livro?"
* Internacionalmente conhecido como 'Marechal", é editor do suplemento literário Idéias (Jornal do Brasil)
{1}