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Ah, sim Escrito em 31 de outubro de 2008
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Halloween é o cacete.

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Bares em exposição Escrito em 31 de outubro de 2008
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O Armazém Senado, que fica no Centro, foi um dos selecionados

Será aberta hoje, no Shopping Nova América, a exposição Bares e Restaurantes, que retrata 13 estabelecimentos selecionados por um curador que entende do riscado: Eduardo Goldenberg. "São bares aos quais eu não resisto. Muitos que resistiram à especulação e estão aí há mais de um século, muitos que vivem praticamente no anonimato, mas que contribuem, todos os dias, com o levantar de suas portas de aço, para que se mantenha vivo o orgulho de ser carioca", resume ele no texto de apresentação da mostra.


Bode Cheiroso, no Maracanã: outro da lista

Edu escreveu algumas linhas sobre cada um dos 13 escolhidos. São bares como a Adega Portugália, o Boteco Casual, o Amendoeira, o Armazém Senado, o Salete, o Varnhagen e o Pavão, que ganharam também imagens caprichadas feitas pela fotógrafa Marina Furtado Couto.

O Nova América fica na Av. Pastor Martin Luther King Jr., 126 - Linha Amarela, saída 5, Metrô Nova América / Del Castilho.

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Duas do ludopédio Escrito em 31 de outubro de 2008
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1. Pelo menos no gogó, Don Diego estreou com pé direito. Indagado, logo após assumir a Seleção Argentina, sobre suas semelhanças com Dunga, mandou de primeira:

- Dunga jogava para dar botinadas e eu, para escapar delas.

2. Afinal, para que serve hoje o Engenhão? Se o estádio mais moderno da cidade - "olímpico" não é desde os Jogos Panamericanos - não pode sediar um Botafogo x Flamengo, qual a sua efetiva função?

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# Pinceladas Escrito em 30 de outubro de 2008
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. Hoje, às 15h, vou participar VII Semana de Letras da PUC-Rio como integrante da mesa Jornalistas e escritores: reflexões sobre a linguagem literária e a formação de um público leitor no Brasil, ao lado do amigo Fernando Molica. A mediação do painel será feita pelo professor, escritor e jornalista Felipe Pena. Quem puder, pinte lá;


Luiza Neto Jorge e Jorge de Sena: curso na Estação nas Letras

. A Estação das Letras promoverá em novembro o interessante curso A poesia portuguesa: tradição e modernidade. A idéia é oferecer aos participantes uma breve introdução à produção moderna e contemporânea a partir de alguns dos principais autores lusitanos. De Camões e Fernando Pessoa à Jorge de Sena e Luiza Neto Jorge. Entre os professores, estarão Cleonice Berardinelli, Jorge Fernandes da Silveira e Tereza Cristina Cerdeira da Silva. As aulas serão às quartas-feiras, das 19h às 21h. Mais informações aqui;


'Um cão andaluz': um dos filmes que serão analisados por Gallego

. Também em novembro acontecerá o curso O prazer de ver: cinema e psicanálise, que será ministrado pelo amigo Luiz Fernando Gallego no Espaço Telezoom. Gallego abordará, em quatro encontros, a interface entre teorias psicanalíticas e a forma cinematográfica, através da reflexão sobre conceitos básicos do pensamento freudiano em confronto com a linguagem que o cinema desenvolveu como uma forma de pensamento em imagens. As aulas investigarão filmes de Fritz Lang, Buñuel, Hitchcock, Orson Wells, Bergman, Kurosawa e Stanley Kubrick, entre outros cineastas. Outras informações podem ser obtidas no site do Espaço Telezoom;

. Vivas e mais vivas ao grande Cristóvão Tezza, que, depois do Jabuti, acaba de conquistar o Prêmio Portugal Telecom com o romance O filho eterno.

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Inéditos de Ana C. Escrito em 29 de outubro de 2008
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Faz 25 anos exatamente no dia de hoje que a escritora Ana Cristina César atirou-se da janela do apartamento dos pais, em Copacabana, e começou a virar mito. A poeta será homenageada com o lançamento do livro Antigos e soltos - reunião de inéditos organizada por Viviana Bosi a partir da catalogação feita por Manoela Daudt d’Oliveira -, num evento que incluirá mesa redonda com Armando Freitas Filho, Clara Alvim e Viviana Bosi e leitura de poemas por Antonio Cícero, Claudia Roquette-Pinto, Francisco Alvim, Eucanaã Ferraz e Angela Melim.

Como disse ontem à reportagem do Megazine (O Globo), cheguei à Ana C. por intermédio dos livros do Caio Fernando Abreu. Rapidamente fiquei fascinado pelo despojamento de seus textos, pelo tom coloquial, distante da solenidade que às vezes circunda (e engessa) a literatura. Uma falta de sisudez que, no entanto, não implica superficialidade.

Ao passear com seus poemas por cenas cotidianas, registradas em curtos apontamentos sob a forma de verso, a autora escava o que há de trágico, lírico e, sobretudo, silencioso por detrás do prosaico. “É jazz do coração”, como ela mesma anotou em um de seus poemas. Jazz bonito de ouvir - e de ler.

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Murnau no CCBB Escrito em 29 de outubro de 2008
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Cena de 'Aurora', "o mais belo filme de sempre", segundo Truffaut

Começa hoje, no CCBB, uma sensacional mostra em homenagem aos 120 anos de Friedrich Wilhelm Murnau. Serão, ao todo, 12 filmes, incluindo desde clássicos, como Nosferatu, a produções raramente exibidas no Brasil, como Terra em chamas, Fantasma e As finanças do Grão-Duque.

Também integram a mostra duas obras-primas do expressionismo: A última gargalhada e Aurora. Definitivamente inscritos no rol de meus filmes preferidos, estes dois trabalhos são o auge da realização artística de Murnau, explorando com extrema delicadeza dicotomias como essência x aparência, papel x status, cidade x campo, alegria x tristeza. Outro de meus diretores prediletos, François Truffaut, classificava Aurora como “o mais belo filme de sempre”. E ele sabia das coisas.

A programação completa da mostra, que fica em cartaz até dia 9 de novembro, pode ser conferida aqui.

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A boquinha e a dignidade Escrito em 28 de outubro de 2008
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Da coluna do Fernando Molica, em O Dia:

"O PT apresenta a conta pelo apoio a Eduardo Paes. O ministro Edson Santos, da Igualdade Racial, já fala em 'governo de coalizão' e adianta: o partido quer ocupar secretarias que tratem da infra-estutura urbana, como Transportes, Habitação e Urbanismo".

Da coluna da Anna Ramalho, no Jornal do Brasil:

"Um dos colaboradores de Gabeira, na quinta-feira passada, telefonou para Neila Tavares, mulher do candidato e coordenadora de sua campanha, preocupado com o pagamento dos profissionais envolvidos, dos comerciais de TV, gastos da transparente campanha. Neila foi rápida:

- Todos serão pagos, não se preocupe. Se não houver o suficiente, já combinamos que venderemos nosso apartamento".

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'Uma pessoa de infinita doçura' Escrito em 28 de outubro de 2008
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O Guido Cavalcante, que sempre marca presença neste blog com considerações pertinentes, escreveu nos comentários do post abaixo um pequeno testemunho de sua convivência com João Antônio. O texto ficou tão bacana que resolvi reproduzir aqui. Fala, Guido:

"Tive a oportunidade de conhecer mestre João nos poucos meses que antecederam a sua morte. Naquela ocasião nós realizávamos um pequeno documentário sobre literatura brasileira para a ZDF-TV Alemão. Eu havia sugerido o nome de João Antônio.

Não lembro mais as datas com precisão, pela minha indesculpável relutância em anotar nomes, lugares e os dias dos muitos acontecimentos que vivi durante o meu longo tempo de jornalista para televisão.

Durante dois meses perambulei por esta cidade com João, nos dias e nas noites de gravação e principalmente nos momentos em que, câmeras fora, me sentava com ele por longas horas de conversa fiada sobre filosofia (que ele adorava), estética, família, poucas vezes sobre literatura e nunca sobre a malandragem. Me lembro com especial predileção de uma tarde em que ele me levou à Lapa e visitamos uma inesperada carvoaria, onde o trabalho ainda feito ali, em pleno centro do Rio, parecia sair de uma gravura do século XIX.

João Antônio era uma pessoa de infinita doçura que, suponho, está refletida na sua tarefa de levar-nos a olhar a pequena humanidade que ele descreveu. Por trás da bizarrice da linguagem desse lumpesinato que ele nos mostrou, feito de desocupados, pilantras, bêbados, prostitutas, enfim, da gente que não percebemos, João estabelecia um vínculo afetivo do qual não temos ainda imitadores. Na maior parte das vezes as tentativas se restringem a descrever o lado pitoresco desses viventes do meio-fio. Na verdade, creio que o sofrimento de João vinha de se saber profundamente solitário como artista, de saber que sua arte não despertava simpatia facilmente e que uma espécie de 'maldição' repousava sobre o seu destino. Ele teve que lutar contra essa 'maldição' quando reescreveu inteiramente Malagueta, Perus e Baganaço destruído num incêndio. Depois a 'maldição' continuou vida afora, com que ele se tornou parte dessa família de visionários sofridos que conhecemos em toda história da arte.

Poucas semanas antes de morrer ele me telefonou tarde da noite, desolado e tristíssimo com a perda da mãe. Conversamos um pouco, ele andava profundamente solitário. A morte da mãe acentuava este sentimento. Me despedi julgando que o confortara. Qual o quê! Semanas depois (ou terão sido alguns dias depois?) veio a falecer ignorado em seu apartamento na Serzedelo Correia. Creio que ele foi acometido do mesmo mal que acometera outrora um outro artista, Mozart, também consumido pela depressão depois da morte do pai. Mas o que eu escrevo não quer dizer absolutamente nada. Olhai por nós, João".

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Tributo a João Antônio Escrito em 28 de outubro de 2008
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Começa hoje e vai até sexta-feira o III Encontro João Antônio, evento em tributo ao escritor que dedicou sua obra à destrinchar o cotidiano dos "merdunchos" - na boa definição da amiga Ieda Magri, "uma classe social meio vaga", sem grana ou perspectivas, que se equilibra à beira da criminalidade.

O Encontro será aberto às 19h, com uma conversa com o querido Antônio Torres, que conviveu com o homenageado, seguida de coquetel temático e roda de samba. Na ocasião, também será apresentado um texto inédito de Antônio Cândido produzido especialmente para o evento.

As atividades continuam amanhã, às 9h30, com a leitura do conto Afinação da arte de chutar tampinhas, por Raphael Vidal. Em seguida, às 10h, uma mesa com os professores Alcmeno Bastos (UFRJ) Ana Maria de Oliveira (Arquivo João Antônio - Unesp), Vima Lia de Rossi Martin (USP) e Ângela Faria (UFRJ) discutiá os interdiscursos entre as obras de João Antônio e de outros artistas e pensadores, como Nelson Rodrigues, Guy Debord e Geraldo Firme.

Às 14h30, outro painel, com Ieda Magri (UFRJ), Wagner Coriolano de Abreu e Telma Maciel da Silva (Unesp/Fapesp), tratará das linhas que cruzam a escrita do autor. No painel seguinte, às 16h30, o tema será Lembranças de João Antônio, com os debatedores Cláudia Sampaio e André Vinícius Pessoa, ambos da UFRJ.

Na quinta, os trabalhos começam às 10h, com a leitura do conto Milagre Chué, por Julio Adrião. às 10h30, rolará a mesa Uma ética malandra, com Douglas Fernando de Araújo Cruz (Unesp/Fapesp), Francisco da Cunha e Silva Filho (CMRJ) e Leandro Nascimento Cristino (UFRJ). Às 14h, os fãs de João Antônio poderão participar de uma conversa com o professor Antônio Hohlfeldt, da PUC-RS; e logo depois, às 16h30, haverá um bate-papo com Maria Célia Barbosa Reis da Silva e Ana Lídia de Carvalho sobre O Rio de João Antônio.

No último dia do evento (sexta), às 10h, Samara Martins lerá o conto Meninão do Caixote. Às 10h30, acontecerá a mesa Diálogos, com Silvio Diogo Lourenço dos Santos (USP), Cibele Verrangia Correa da Silva (Unesp/Fapesp) e Jane Christina Pereira (UnB). A segunda mesa, marcada para 14h, abordará as Andanças pela cidade-personagem, reunindo Ulisses Maciel (Uerj), Haron Jacob Gamal (UFRJ) e Adenize Franco (Uenp). Para encerrar a programação, às 16h30, está prevista uma conversa com o professor André Bueno, da UFRJ.

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A derrota-vitória Escrito em 26 de outubro de 2008
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Meus amigos, o que significa a vitória de Eduardo Paes na disputa da Prefeitura do Rio?

Significa, precisamente, o triunfo do ‘mais do mesmo’, da boquinha, do fisiologismo, do jogo sujo, da lógica segundo a qual os fins justificam os meios, quaisquer que sejam. Não há como se esquivar desse lamentável fato.

O resultado indica, também, uma oportunidade perdida. Sim, porque tivemos uma inédita chance de virada. De experimentar, no Rio de Janeiro, um modo diferente de fazer política. Com limpeza, transparência, sinceridade. E foi por pouco, muito pouco.

Faltou, talvez, a generosidade daqueles que preferiam, por suposto purismo ideológico, obediência acrítica a seus líderes políticos ou afeição cega à velha configuração do que seja 'esquerda', votar nulo. Lavando as mãos, se abstiveram de decidir e ficaram tranqüilos com a própria consciência. Mas esqueceram da cidade.

A forma como Paes conduziu a campanha seria razão suficiente para o repúdio à sua candidatura. E não venham me falar de companhias. As de Paes eram Picciani, Benedita da Silva, Jorge Babu, vereadores milicianos... Aliás, é muito reveladora a reportagem-perfil publicada em O Globo de hoje. Assinada pela jornalista Maiá Menezes, a matéria informa que o livro de cabeceira do novo prefeito é Breviário dos políticos, escrito pelo cardeal francês Jules Mazarin. “Simula, dissimula. Mostra-te amigo de todo mundo”, diz um dos trechos do livro. Frase-emblema.

Mas há uma segunda pergunta que se impõe: o que significa a derrota de Fernando Gabeira?

Decerto não significa um fracasso. Foi, em verdade, uma derrota-vitória. Quem poderia imaginar, há um ano, que um candidato como Gabeira – libertário, independente, defensor de teses tão polêmicas quanto justas, como a profissionalização da prostituição – pudesse sequer chegar ao segundo turno em uma eleição majoritária? Pois ele chegou, movimentou um pleito que andava desanimado e teve praticamente a metade dos votos dos cariocas. Um sinal claro de que o eleitorado amadureceu.

Não vou esquecer as cenas a que assisti no fim da manhã de hoje, quando desci para ler os jornais e tomar um chope na Rua das Laranjeiras. As pessoas vestindo roupas verdes, cheias de adesivos, o sorriso no rosto indicando uma alegria e também uma esperança. Há muito não via essa crença na possibilidade de mudança, essa altivez cívica. Foi bonito.

Por isso tudo é que não tenho dúvidas: Gabeira sai dessa campanha muito maior do que entrou. Paes, embora tenha vencido, se amesquinhou.

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O Rio de Gabeira Escrito em 24 de outubro de 2008
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A partida está duríssima e vai ser decidida no último segundo. Por isso o Pentimento, que quase não tratou de política na presente eleição, abre espaço para ressaltar a importância do pleito do próximo domingo. A candidatura de Fernando Gabeira não representa apenas a alternativa às combinações espúrias que já vêm sendo tramadas à boca pequena, como o apoio de Sérgio Cabral e Eduardo Paes ao bispo Marcelo Crivella na disputa para a representação do Rio no Senado em 2010.

Gabeira é, também, a opção pela efetiva mudança de ventos, pela administração sem 'carguismo', um rotundo NÃO às formas tradicionais e carcomidas de fazer política (discursinho ensaiado, carinha de bom moço que encobrem o fisiologismo e o jogo sujo), incluído aí o caciquismo de 'esquerda', lamentavelmente encenado no segundo turno por líderes e partidos que se recusaram a fazer ressoar a vontade de seus eleitores. Os papéis desempenhados por Jandira Feghali e Vladimir Palmeira, políticos que já tiveram meu voto, foram apenas os mais emblemáticos nesse circo.

Reiterando meu apoio - cívico e entusiasmado - a Gabeira, reproduzo artigo que o amigo Francisco Bosco me enviou via e-mail e no qual ele trata de algumas das questões comentadas aqui.

"Uma chance histórica"

Francisco Bosco

"A candidatura de Gabeira a prefeito do Rio de Janeiro tem uma enorme importância, não apenas para a cidade do Rio, como para todo o Brasil e sua história política. É no mínimo uma raridade, senão uma novidade histórica, uma candidatura que, desde o início, tenha se orientado incondicionalmente por princípios de absoluto respeito à legalidade, ao espaço público e aos adversários políticos. Uma candidatura que tenha se guiado por um elevado senso moral, de que não abriu mão mesmo quando confrontando manobras tradicionais da política brasileira, como distribuição de panfletos apócrifos, uso abusivo e caviloso de declarações infelizes (como no episódio que envolveu a vereadora Lucinha), estratégias obscurantistas, etc.

Pois essa tem sido a postura do candidato Gabeira, que estabeleceu tais princípios como condição para candidatar-se. Não se pode perder de vista a chance e o significado históricos desse gesto e de sua manutenção inabalável. A eleição de Gabeira fará ruir um axioma pernicioso que vem dominando a cena política no Brasil, e em que tanto o PSDB como o PT, nas últimas quatro eleições presidenciais, mergulharam de cabeça: o axioma segundo o qual não se vence uma eleição sem fazer o jogo sujo das alianças espúrias, do loteamento prévio de cargos, dos golpes baixos eleitorais e por aí em diante. Esse jogo sujo, ao começar logo na campanha, invariavelmente caminha para o exercício do poder, onde o mais despudorado fisiologismo (vide, como exemplo recente, o episódio Renan Calheiros) é sempre desculpado pela “governabilidade”, palavrinha mágica com a qual os governantes legitimam sua fraqueza ideológica e moral.

É precisamente contra tudo isso que a candidatura de Gabeira desde já se opõe, e a firmeza que o candidato vem demonstrando na sustentação dessa postura não deixa dúvidas quanto a que ela permanecerá orientando sua gestão, em caso de vitória. Pois essa vitória, então, significará nada menos que a possibilidade de o exercício político estar verdadeiramente subordinado aos interesses republicanos, isto é, significará que a esfera política brasileira, tão esvaziada, tão imobilizadora, será dotada de credibilidade. Sem essa credibilidade parece impossível mobilizar a sociedade a fim de ela tornar-se uma força decisiva no processo de engrandecimento do Brasil, processo que exige maior justiça social, o que por sua vez depende de amplo respeito à legalidade. Parece-me que tudo isso fica comprometido quando a esfera política é contaminada, desde as campanhas eleitorais, pelo jogo sujo de que falei acima.

Não sou cientista político, minhas palavras são apenas as de um cidadão atento ao que considera os caminhos e descaminhos de sua cidade, seu país, seu mundo. Mas posso e devo dizer que, numa era de tantas incertezas – morais, estéticas, comportamentais, etc. –, a candidatura de Gabeira é um acontecimento que não me deixa nenhuma dúvida quanto a sua importância e seu significado de oportunidade histórica, oportunidade que não podemos desperdiçar.

* Escritor, compositor e ensaísta

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A dica de 'Álvaro Costa e Silva' Escrito em 24 de outubro de 2008
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"Minha dica é o mais recente livro do argentino Alan Pauls traduzido no Brasil. História do pranto (CosacNaify, tradução de Josely Vianna Baptista) me permitiu uma experiência que não sentia desde a leitura de Guimarães Rosa em um momento de crise na adolescência, quando estava desesperado achando que nunca mais gostaria de ler um livro, nunca mais chegaria ao fim de um romance. Todos seriam jogados fora pela janela. Me embrenhei no Rosa, 24 horas na rede da casa da minha mãe, e me salvei. Inclusive dos preconceitos. Aliás, literatura é preconceito.

Claro que as diferenças entre uma obra e outra são abissais. Me refiro ao ritmo de leitura a que as duas me lançaram, vertiginoso, delirante, viciante, turvo. Uma leitura cavalo do cão. Como se pouco importasse o entendimento daquilo que se está lendo. Mas se continuasse a ler. A ler de uma maneira diferente da que estamos acostumados.

Alan Pauls quer que o leitor tenha curiosidade, liberdade, disposição para se meter nos labirintos digressivos, tenha vontade de avançar, retroceder, desviar-se, e avançar ainda outra vez, e quantas forem necessárias, tenha entusiasmo para pensar tudo de novo, capacidade para se desconectar do mundo. É pedir muito de um livro?"

* Internacionalmente conhecido como 'Marechal", é editor do suplemento literário Idéias (Jornal do Brasil)

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Olhar sobre Caio Escrito em 23 de outubro de 2008
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Dia desses jantava com um amigo e durante o papo, que passeou por trivialidades, política, música, artes plásticas, cinema e, claro, pela literatura, chegamos ao nome de Caio Fernando Abreu. “No fundo, era um escritor fraco”, disse meu amigo. E ao tentar avaliar a afirmativa, percebi que não tenho como fazer esse julgamento. Isso porque o li num momento muito específico (a adolescência) e ele foi um dos autores que me fizeram começar a olhar para a palavra de forma diferente. Como escudo e espada diante do mundo.

Há cerca de dois anos, antes de escrever uma longa resenha sobre a produção do Caio nos anos 1970, reli todos os livros lançados pelo escritor naquele período. Alguns continuavam me dizendo coisas, me emocionando; outros não. Pareciam excessivamente datados, falavam precisa e sintomaticamente de uma época, mas não para além dela.

O curioso é que esse juízo crítico sempre acaba perdendo quando confrontado com o espanto que experimentei ao me deparar com a literatura de Caio – e que de certo modo perdura em mim. Um susto do qual lembrei nitidamente na semana passada, ao devorar em duas noites a biografia produzida por Jeanne Callegari.

O livro se chama Caio Fernando Abreu – Inventário de um escritor irremediável e foi publicado pela editora Seoman. Com uma prosa simples e sem grandes vôos de estilo, Jeanne constrói um perfil romanceado do autor. Do menino que ia todo dia ao cinema na pequena cidade gaúcha de Santiago do Boqueirão ao jornalista que, fugindo da repressão, esconde-se no sítio de Hilda Hilst. Do jovem escritor de texto lírico e angustiado ao homem maduro que, coberto pela sombra da morte, cultiva a vida nas flores do jardim da casa dos pais.

Como ressalta José Castello no prefácio, Jeanne consegue “organizar e domar a atmosfera de inconstância e desamparo” que cercou a trajetória de Caio. E como bem observa Fabrício Carpinejar na orelha, a biografia atiça a vontade de reler cada uma das obras que nos deixou. Acompanhar novamente suas buscas e suas perdas, rever suas experiências radicais, reencenar sua errância - o movimento, “caminho feito ao caminhar”, da treva à luz.

Nem que seja para renovar a crença de que, mesmo quando mofam os morangos, há sempre como se colherem outros, “vivos, vermelhos”. Há sempre como se plantar.

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Glauber e Carpinejar Escrito em 23 de outubro de 2008
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. O acervo do Tempo Glauber, que inclui textos, fotos, vídeos, desenhos, correspondências, ou seja, vasto material sobre a vida e a obra Glauber Rocha, acaba de ser digitalizado e disponibilizado via internet. Recomendo a visita à página, que ficou bem bacana. Acesse aqui.

. Amanhã, a partir das 19h30, vai rolar o lançamento do livro Canalha, do Fabrício Carpinejar. O evento acontecerá na Livraria da Travessa do Leblon (Rua Afrânio de Melo Franco, 290 - Loja 205 A - Shopping Leblon) e incluirá uma sessão de leitura de crônicas que integram a obra pelos escritores João Paulo Cuenca, Adriana Falcão e Viviane Mosé.

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Drama – 3o ato Escrito em 22 de outubro de 2008
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Não me lembrava de como é bonito o disco Drama – 3o ato, que registra o show feito pela Maria Bethânia no Teatro da Praia em 1973. Ao ouvir novamente o CD, que está morando no meu som desde ontem, as canções e os textos me pareceram tão familiares quanto distantes. Explico o paradoxo: as músicas, inclusive sua seqüência e encadeamento, me remeteram a velhas tardes da infância, quando o LP rodava na vitrola das minhas irmãs. Íntimo, e longínquo - ao menos em termos temporais.

Drama – 3o ato é puro Fellini. Não só pela ambiência entre trágico e melodramático, cerzida na tensão entre canções com a sofisticação formal de Soneto (de Chico Buarque) e pérolas populares do naipe de Como vai você? (Mário e Antônio Marcos). Aliás, adoro essa música: é direta como a fala trivial, romântica como os brasileiros, derramada como quem ferve na paixão.

O disco/show é aberto com uma vinheta da áspera Movimento dos barcos. A canção de Jards Macalé e Capinam encerrava Rosa dos ventos, espetáculo anterior da cantora, e, portanto, não foi escolhida à toa. De Movimento dos barcos para o buarqueana Baioque, ainda no clima cinzento de Rosa; desta para um texto revelador sobre a passagem para o clima e o conteúdo mais sensoriais (“Eu não sou apenas essa hora / Em que me vês precipitada / Eu não sou senão uma de minhas bocas / Eu sou uma árvore ante o meu cenário”), e enfim a seqüência de Rasguei minha fantasia (Lamartine Babo), Se essa rua fosse minha (domínio público) e Nada além (Custódio Mesquita e Mário Lago).

Todas elas melodias definitivamente inscritas na memória popular. Assim como outras músicas que integram Drama – 3o ato. Estrela do mar (“Um pequenino grão de areia / Era um eterno sonhador...”), de Paulo Soledade e Marino Pinto. Meu primeiro amor (Lejania), versão de Pinheirinho Jr. e Jorge Fortuna para composição original de Hugo Jorge Gimenez. Volta por cima, de Paulo Vanzolini.

O espírito felliniano que rege o disco - presente também na capa, na qual Bethânia aparece com o nariz pintado – é bem sintetizado no lindo texto que abre a faixa número 3. Quem assina é dramaturgo Antônio Bivar. O encantamento com a mágica e as cores que as coisas têm, a dor que assalta quando a lona da ilusão é desarmada, tudo isso está lá, nas palavras do dramaturgo. Tenho um fraco para palhaços, artistas mambembes, assuntos de circo, e talvez por isso elas me falem tanto. O fato é que sempre a noite acaba, né, Bivar?

Segue o texto:

“Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirar lá do alto na certeza de que alguém segurava-me as mãos, não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo, tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo: do que não ficava pra sempre.
Era outra vez outro parque, outro circo, ciganos e patinadores. O circo chegou à cidade, era uma tarde de sonhos e eu corri até lá. Os artistas se preparavam nos bastidores para começar o espetáculo e eu entrei no meio deles e falei que queria ser trapezista. Veio falar comigo uma moça do circo que era a domadora, era uma moça bonita, mas era uma moça forte, era uma moçona mesmo. Me olhou, riu um pouco e disse que era muito difícil mas que nada era impossível. Depois veio o palhaço Polly, veio o Topsy, veio Diderlang, que parecia um príncipe, o dono do circo, as crianças, o público... De repente apareceu uma luz lá no alto e todo mundo ficou olhando. A lona do circo tinha sumido e o que eu via era a estrela Dalva no céu aberto.Quando eu cansei de ficar olhando pro alto e fui olhar pras pessoas, só aí eu vi que estava sozinho”.

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Sobre o amor (e sua perda) Escrito em 21 de outubro de 2008
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O amigo Henrique Rodrigues me mandou, agora há pouco, uma crônica na qual aborda um dos 'assuntos do momento': o assassinato da adolescente Eloá por seu ex-namorado, o também jovem Lindemberg. Ao invés de apontar mais pedras para o homicida - que merece a devida punição conforme a lei -, ou de elencar as trapalhadas da polícia na condução do episódio, Henrique expõe com serena perplexidade uma questão pouco comentada e que está arraigada em todo desenrolar do crime: a complexa experiência do amor - e da perda do amor. Reproduzo a seguir o texto, para compartilhá-lo com vocês.

"Elegia da paixão desmedida"

Henrique Rodrigues

'O amor não deixa sobreviventes'.
Nelson Rodrigues

"Semana passada um jovem seqüestrou a ex-namorada, que acabou morrendo. Não foi a primeira vez que a população pôde acompanhar ao vivo um crime no caldeirão da fervura urbana. Tampouco é inédito que todos os meios de comunicação ponham foco num único fato devido à audiência certa. No mesmo conjunto, seqüestro com morte por ação questionável da polícia também não é novidade. Não me interessa a (falta de) ação das autoridades etc. No mesmo dia em que acabou o incidente, vi que os civis e militares estavam se batendo em São Paulo, então é melhor deixá-los assim e assumirmos que não dão conta de pôr ordem na realidade. Se a polícia não se entende, não sou eu quem vai entendê-los.

No entanto, algo nesse episódio me comoveu de forma inesperada, como se ali estivessem contidas algumas senhas e chaves para o entendimento desse mundo caduco. Alguns aspectos são bem simbólicos em tudo o que ocorreu, que para mim caracterizam o caso como uma tragédia das mais clássicas.

Essa rede simbólica já começa com os nomes dos envolvidos, cuja etimologia aponta para alguma possibilidade de atribuir sentido ao fato. Eloá, nome de origem hebraica, é uma das formas de se pronunciar o nome de Deus; Lindemberg era um nome comum entre nazistas; a amiga Nayara, em grego, significa “aquela que comanda”.

As tragédias gregas se baseavam na idéia de que o herói ultrapassou o seu métron, que seria o limite de cada um, e cometia a hybris, um tipo de orgulho desmedido. Por isso, deveria sofrer a hamartía, a punição divina, que no caso do teatro clássico possuía um fim didático, servindo para mostrar ao povo que certos espaços não podiam ser ultrapassados.

Terminado o namoro, Lindemberg não teve a experiência necessária para entender que o amor acaba. Embora sete anos mais velho, amou Eloá de forma imatura. Vítima da perspectiva adolescente, via o mundo como possibilidade ilimitada, o tempo como distância de eternidade e a paixão como mergulho infinito. O amor sempre exige a transcendência, quer expansão. Uma vez que não seja possível expandi-lo via conquista, lança-se mão dos artifícios de domínio.

Essa hybris de Lindemberg o fez tomar por força o seu objeto de devoção e culto, sua manifestação divina encarnada numa jovem. Mesmo sem antecedentes criminais, foi necessário entrar no território do comportamento criminoso pelo descontentamento com a rejeição. Lindemberg invadiu o espaço da liberdade alheia para impor os seus desejos. O amor se converteu na sua face mais doentia, a da falsa sensação de posse – porque ainda hoje há quem creia na idéia de se ter algo ou alguém como um objeto -, em detrimento da cessão e da troca.

Ao matar Eloá, Lindemberg assassinou o que o aproximava de Deus. Quis dominar o que não se presta a ter dono: Deus e a mulher. À amiga Nayara, aquela que comanda, restou a tentativa de mediar o conflito, tendo exercido de fato a indevida função de negociadora, porém foi silenciada com um tiro na boca. Impotente, a polícia silenciou o seqüestrador com balas falsas.

Apontar culpados é antes procedimento jurídico ou necessidade de justiça do que se assumir que nesse tipo de caso todos acabam sendo vítimas. Parece que Lindemberg não sabe ainda que sua ex-namorada morreu. Quando souber, vai sentir a sua hamartía, e provavelmente terá a dura ciência de que nunca mais poderá amar e ser amado de forma minimamente sadia.

É preciso lucidez e maturidade para se despedir, inclusive do amor. Lindemberg, Eloá e Nayara nos fazem lembrar que o aspecto trágico da condição humana nos situa na dimensão da finitude, e que esse é o intervalo que foi reservado para a manifestação da nossa intensidade.

E por não compreender o tempo da ausência, esse rapaz nem pôde aprender que o amor também é abnegação – e às vezes requer deixar a moça ir embora para sempre".

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Linha de sombra Escrito em 21 de outubro de 2008
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Quando, em meio à análise de tantos e tantos textos, deparei-me com aquela seleta de contos extremamente bem construídos, não tive dúvidas de que tinha em mãos uma das indicações da subcomissão do Rio, composta por mim e pelo Alberto Mussa. O que nem eu nem Mussa poderíamos imaginar é que o livro conquistaria o Prêmio Sesc nacionalmente. Mas conquistou. E com todos os méritos.

Refiro-me ao ótimo A secretária de Borges, da Lúcia Bettencourt, autora a quem mais tarde vim conhecer e de quem me tornei amigo. A secretária de Borges foi publicado pela Record há três anos, e é pela mesma editora que a Lúcia lança amanhã seu novo trabalho, Linha de sombra, cuja orelha tive a honra de escrever. O lançamento acontecerá a partir das 18h, na Livraria da Travessa do Leblon, com leitura dramatizada pelos atores Adriana Birolli e Cadu Scheffer, sob a direção de Ruiz Bellenda.

Segue, a título de convite, o texto da orelha.

Instada a carregar o ovo de um lado a outro da cozinha, a fim de entregá-lo à empregada que espera com o óleo já esquentando na panela, a menina se espanta ao pousar o objeto sobre a palma da mão. Os dedos receosos, ainda à procura da firmeza, entregam o assombro com a perfeição do formato sinuoso, “tão puro, sem emendas, de linhas tão simples”.

Quando a cozinheira recebe e enfim quebra o ovo, lançando a clara e a gema na frigideira, o susto é outro: na fragilidade da casca, a garota enxerga o tênue invólucro da existência. Do ovo, dela e de todos nós. E adivinha, naquela angústia, o drama da finitude.

O excepcional conto, que remete a Clarice Lispector, sintetiza algumas das questões trabalhadas por Lúcia Bettencourt nesta obra, na qual a autora retoma obsessões já manifestas no livro anterior ("A secretária de Borges"), aprofundando-as.

O diálogo criativo com a tradição do cânone divide espaço com um olhar solidário às dores e aos dilemas femininos, que pode ganhar contornos extremamente violentos (“Medéia”), de intenso lirismo (“Bolhas de sabão”) ou forte caráter erótico.

Tema recorrente, a libido da mulher madura viceja em personagens como a protagonista de “Insônia”, viúva sem filhos cuja pulsão sexual se revela nas noites em que sonha com “espadas de mosqueteiros e brisas angelicais”.

Os 16 contos reiteram a consistência de uma narrativa sem firulas e se dividem em duas unidades (“Sol” e “Sombra”) que espelham uma falsa dicotomia: como no símbolo yin/yang, há pontos de luz nas histórias soturnas, e insuspeitas zonas escuras nos textos que parecem transbordar claridade.

Uma tensão perene, que reencena o sobressalto da menina ante a beleza e a debilidade do ovo, traduzindo a essência do que Lúcia oferece ao leitor: uma literatura em desassossego com o mistério das coisas.

Marcelo Moutinho

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Luiz Carlos da Vila Escrito em 20 de outubro de 2008
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Com muita tristeza, informo a vocês que acabo de saber por telefone da morte do grande Luiz Carlos da Vila. O cantor e compositor de mão cheia não resistiu ao câncer que reapareceu com força cinco anos após a esperança da cura definitiva e se foi, aos 59 anos de idade. Com o perdão pelo clichê, trata-se uma perda imensa, colossal mesmo.

Da Vila - ou "das Vilas" (Vila da Penha, Vila Kennedy, Vila Isabel...), como o chamava Nei Lopes - era um daqueles artistas que mantinham a obra atavicamente conectada à vida. Seus sambas são marcados por um lirismo singular, sem frescuras, que caminha na linha tênue entre o ameno e o excessivo sem nunca se desequilibrar. O que dizer, por exemplo, dos versos de Além da razão e de Pra conquistar teu coração?

Ao mesmo tempo, emprestou sua voz à denúncia social e retratou a vida suburbana do Rio com a precisão e o afeto de um cronista, perfilando em gírias, histórias e irreverência o modus vivendi dessa parte tão peculiar do Rio. Da Vila, na verdade, nunca se encastelou. Quem costuma circular pelos bares e pelas rodas da cidade, seja na Zona Norte ou na Zona Sul, sempre esbarrava com ele, copo de uísque na mão, gogó pronto para uma canja e uma nova canção. Coisa de primeira, a gente adivinhava antes mesmo de ouvir.

E se ainda fosse pouco nos presentear com maravilhas como Benza, Deus, Por um dia de graça, A luz do vencedor, Nas veias do Brasil, Doce refúgio, entre tantas outras, ainda compôs Kizomba - A festa da raça, samba-de-enredo que instantaneamente virou clássico e, sem favor, está hoje entre os maiores já escritos.

Olho agora e vejo que a morte de Da Vila é nota de pé-de-página nos sites noticiosos. A desimportância é reveladora sobre o nosso tempo, sobre suas prioridades. Mas estou triste demais para reclamar. "Maldade maior passar a vida sem saudade", como anotou ele numa de suas canções.

Hoje, definitivamente, é dia de gurufim.

P.S. O corpo do compositor esté sendo velado na sede da GRES Vila Isabel.

Acréscimo feito hoje, terça-feira: recomendo a todos a leitura do sensível texto que o Felipe Moura Brasil escreveu sobre o Da Vila no site Tribuneiros. Confira aqui.

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O e-mail do Nereu Escrito em 20 de outubro de 2008
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Recebi um e-mail do Nereu Afonso da Silva (foto), vencedor do Prêmio Sesc 2006 na categoria 'contos', no qual ele comenta post publicado aqui no blog na semana passada e alerta que o Prêmio São Paulo de Literatura era voltado apenas a romances. De fato, está lá, no Edital:

"2 – REQUISITOS PARA A HABILITAÇÃO
2.1. Serão considerados neste PRÊMIO os livros que preencham cumulativamente os seguintes requisitos:
2.2. Quanto ao livro:
a) categoria: ficção no gênero romance;"

A exclusividade corrobora (e reitera) o que escrevi sobre o desprestígio da narrativa curta, num sintoma claro do estabelecimento de estamentos qualitativos entre os gêneros. Na mensagem, Nereu - que também é contista - diz que talvez não seja exclusividade brasileira a crença de que o conto é um gênero de segunda classe. "Pra você ter uma idéia, a Métaillié, editora francesa especializada em tradução de autores latino americanos, recusou a avaliação do meu Correio Litorâneo, argumentando que 'a casa, nesse momento, não se interessa por contos'", revela.

Com a devida autorização, reproduzo o restante do e-mail, que ajuda a iluminar a discussão:

"Eu, do meu lado, tenho escrito coisas cada vez mais curtas: ficções (que nem sei mais se resumem ao gênero 'ficção') e em pouquíssimas linhas. Se depender dos concursos e prêmios, estou perdido, hé hé hé. Mas se depender de mim, quem sabe não esteja me achando.

De qualquer modo, a cada vez que presencio essa tolice toda, me conecto com aquilo que eu aprecio tanto: os contos do Caio F. Abreu, as crônicas do Nelson Rodrigues, os aforismos de Nietzsche, as Máximas de La Rochefoucauld, os Pensamentos de Pascal, os Ensaios de Montaigne, as cartas de Voltaire, enfim, gente que extrapola as noções de ficção, filosofia, autobiografia, literatura, para, com as palavras, nos atingirem poeticamente direto no êstomago... e no coração. Pra mim é isso o que conta, e se foi escrito em três linhas ou em 300 páginas é realmente um detalhe".

Assino embaixo.

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À Comissão de Arbitragem Escrito em 20 de outubro de 2008
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Em quatro dos cinco últimos jogos do Campeonato Brasileiro, o Fluminense se viu claramente prejudicado pela arbitragem. Na partida de ontem, contra o Vitória, não foi diferente, exceto por um aspecto: antes, havia certa sofisticação no roubo.

Por favor, senhores, sejam mais discretos.

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Notas culturais Escrito em 17 de outubro de 2008
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. Neste fim-de-semana, vai rolar o evento Arte em Laranjeiras e Cosme Velho, com a abertura dos ateliês dos artistas plásticos da região para visita, apresentações teatrais e musicais nas principais praças da região, além de leituras. Como parte da programação, amanhã, às 16h, o amigo Henrique Rodrigues estará no Brechó e Centro Cultural Desculpe, eu sou chique (Rua Alice, 75 ), onde irá autografar e conversar sobre seu mais recente livro, Machado de Assis: o Rio de Janeiro de seus personagens (Pinakotheke). Na seqüência, haverá show de Tavynho Bonfá. Confira o programa completo do evento aqui.


Débora e Cynthia lerão a peça da Manoela Sawitzki

. Do Rio para Sampa: na próxima segunda (dia 20), às 19h30, a Manoela Sawitzki será a anfitriã do evento Letras em Cena, que acontecerá no Grande Auditório do Masp (Av. Paulista, 1578). Na ocasião, os escritores Andrea Del Fuego e Marcelino Freire farão leituras, e o trio Rogério, Cynthia e Débora Falabella - pai e filhas - subirá junto ao palco para a leitura dramática de Em nenhum outro lugar, peça escrita pela Manoela especialmente para os três mineiros. Aposto desde já que a parada seguinte será a Mercearia.



. Ponte-aérea de volta: na quarta, dia 22, a partir das 18h, a queridíssima Lúcia Bettencourt lança sua nova seleta de contos, Linha de sombra, cuja orelha tive a honra de escrever. O lançamento será na Livraria da Travessa do Leblon (Av. Afrânio de Melo Franco, 290 - Shopping Leblon) e incluirá a exibição do trailer do livro e leitura dramatizada pelos atores Adriana Birolli e Cadu Scheffer, sob a direção de Ruiz Bellenda.

. A Suzana Vargas avisa que a Estação das Letras promoverá o workshop A prosa de ficção: sua criação e seu alcance, com Luiz Ruffato. Partindo de um artigo de Pier Paolo Pasolini, intitulado Ainda existem vidas romanescas?, Ruffato vai refletir sobre a validade da escrita hoje para, na segunda parte da aula, analisar os contos levados pelos alunos. O workshop será no dia 29, das 17h às 22h. Informações pelo telefone 3237-3947.

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O Prêmio SP e a ausência de sempre Escrito em 16 de outubro de 2008
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Tatiana Salem Levy (com A chave da casa), Cecília Giannetti (Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi) e Wesley Peres (Casa entre vértebras) estão entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Melhor Livro do Ano de 2007 para autores estreantes. Eduardo Baszczyn, com Desamores, e Tiago Novaes, com Estado vegetativo, também sobreviveram à primeira fase do concurso.

Na categoria voltada para os não-estreantes (não vou chamar de veteranos, né?), os finalistas são Beatriz Bracher (Antônio), Bernardo Caravalho (O sol se põe em São Paulo), Cristóvão Tezza (O filho eterno), Menalton Braff (A muralha de Adriano) e Wilson Bueno (A copista de Kafka).

O vencedor do prêmio - o maior do país em termos de valores, com seus vultosos R$ 200 mil para cada categoria - será escolhido por um júri formado pelos escritores Ivana Arruda Leite, Marcia Elisa Garcia de Grandi, Marcia Tiburi, Paula Fábrio, Evandro Affonso Ferreira, Horácio Costa, Michel Sleiman, Cláudio Daniel, Julio Pimentel Pinto Filho e Marcelino Freire.

A lista dos selecionados é digna de respeito. O valor da gratificação idem. É, no entando, lamentável que também esse concurso tenha considerado como 'melhores livros' apenas aqueles que se enquadram no gênero 'romance'. Embora anunciado como um prêmio dedicado a laurear os trabalhos que se destacaram na seara da 'ficção' - descrita assim, em termo global -, não há sequer um livro de narrativas curtas entre os indicados.

Trata-se da repetição da velha história: no Brasil, conto é gênero de segunda classe.

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O velho e o novo Escrito em 15 de outubro de 2008
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Augusto Nunes acerta na mosca em sua coluna de hoje no Jornal do Brasil. Ao analisar os perfis dos dois postulantes à Prefeitura do Rio, o jornalista desmascara falsas aparências e ressalta as evidentes diferenças que muitos tentam enfumaçar neste segundo turno do jogo eleitoral. É por isso que faço questão de reproduzir o texto.

"Os vincos no rosto e as rugas na alma"

Augusto Nunes

"Um é novo, outro é velho, decreta a primeira linha de uma reportagem que confronta os perfis dos candidatos Eduardo Paes, 38 anos, e Fernando Gabeira, 67. Se a frase estivesse incorporada ao editorial que formaliza a escolha feita por um jornal, nada a objetar. Se incluída em algum texto assinado por colunistas ou colaboradores, formalmente liberados para emitir opiniões, tudo bem. Se abre uma reportagem destinada a tratar as coisas como as coisas são, a isenção é assassinada no início do filme – e os capítulos restantes são condenados à morte por parcialidade. Não há esperança de salvação para matérias jornalísticas que, amparadas em duas certidões de nascimento, decretam em seis palavras quem é o novo e quem é o velho.

Se a diferença de idade é o quesito mais relevante no desfile de comparações, a sensatez e a ética recomendam enunciados que rimem com neutralidade. Por exemplo: um tem 26 anos menos que outro. Ou, então, um tem 26 anos mais que outro. Ou, ainda, um é mais novo que o outro. A escolha de uma quarta opção fez de Paes a encarnação da novidade, da inovação, da mudança – e comunicou aos cariocas que o candidato do PV é apenas velho.

Quase 34 anos distante de Oscar Niemeyer, 10 atrás de Fernando Henrique Cardoso, quatro à frente de Lula, apenas um à frente de José Serra, Gabeira só se encaixaria nessa simplificação se fosse portador de senilidade precoce (e aguda). Como o candidato sessentão chegou ao ponto final com boa saúde, deduz-se que o decreto se apoiou exclusivamente no calendário gregoriano.

Juventude é uma expressão associada a entusiasmo, energia, dinamismo, vitalidade. No Brasil, pode ser o outro nome do perigo. Os mais velhos sabem disso desde o começo da década de 60. Os ainda novos ficaram sabendo na década de 90. Jânio Quadros tinha 44 anos ao tornar-se presidente em 1961. Renunciou depois de sete meses, sem explicar por quê. O vice João Goulart tinha 43 quando herdou a vaga. Perdeu-a 36 meses mais tarde, deposto pelo golpe militar de 1964.

Como a era dos generais revogou a eleição direta, o último presidente escolhido nas urnas seria também o mais jovem da história republicana entre 1960 e 1989. Foi superado por Fernando Collor, eleito com 40 anos. O recordista em idade se tornaria também o único a escapar do impeachment pelo atalho da renúncia. Os presidentes quarentões não deixaram saudade.

No começo da campanha, Eduardo Paes parecia moço demais para cuidar do Rio. A 10 dias da decisão, está claro que o corpo de menor de 40 tem uma cabeça perturbadoramente envelhecida por excesso de pressa e carência de princípios. Gabeira foi desde sempre um contemporâneo do mundo ao redor. Paes é a versão remoçada dos políticos do século passado. Um se orienta por idéias. Outro é conduzido por interesses, circunstâncias e conveniências.

Embarca no trem que lhe parece mais veloz, abandona o vagão quando a velocidade diminui. Começou no PV, fez uma demorada escala no cordão dos agregados de Cesar Maia, elegeu-se deputado federal pelo PFL, filiou-se ao PSDB, caprichou no papel de inquisidor enquanto durou a CPI dos Correios, foi promovido a secretário nacional do partido, candidatou-se a governador para garantir a tribuna indispensável para desancar o padrinho Cesar Maia e o adversário Sérgio Cabral, rendeu-se ao PMDB de olho em alguma vaga no secretariado estadual. Para quem viveu tão pouco, não é pouca coisa.

Decidido a alojar-se no gabinete do prefeito, topa qualquer negócio, faz tudo o que for preciso. Insulta o tutor Cesar Maia, rasteja diante de Lula, presta vassalagem à primeira-dama, ordena agressões a cabos eleitorais adversários, mobiliza entidades fantasmas em passeatas instruídas para gritar que Gabeira odeia suburbanos, renega os companheiros de combate na CPI, acaricia mensaleiros juramentados, absolve de todos os pecados a bandidagem dos partidos que o apóiam. Cesar Maia? Só esse não pode. Babu, o vereador de estimação dos moradores dos presídios, esse pode. Delúbio Soares? Pode.

Os vincos no rosto de Fernando Gabeira reafirmam a idade que tem. As rugas na alma de Eduardo Paes informam que a idade mental é muito maior que a oficial. Um é antigo. Outro é moderno".

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A dica de 'Eduardo Goldenberg' Escrito em 15 de outubro de 2008
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"Minha dica é, de certa forma, cabotina. Mas eu não resisto... Recomendo vivamente ao leitor que largue pelo caminho os preconceitos contra minha Tijuca e vá conhecer pelo menos três lugares incríveis. Vindo do alto da Tijuca, a primeira parada é o Bar do Pavão, na praça Xavier de Brito. O Pavão é um grande papo, ele serve um grande chope e nos finais de semana serve uma feijoada e um cozido que compensam a viagem seja de onde for. A segunda? O Bar Varnhagen, que fica na praça de mesmo nome, no final da rua Jaceguai. Seu cenário que parece-mentira: gaiolas de pássaros, azulejos nas paredes, uma cerveja servida à perfeição (e tem Brahma Extra de garrafa de 600ml!), petiscos imperdíveis e uma calçada que permite que se fique à larga. A terceira? O Fiorino, na avenida Heitor Beltrão. A melhor pizza da cidade, a melhor massa da cidade, a melhor vista da cidade. E o rio Trapicheiros, com suas centenárias casuarinas tombadas pela Prefeitura, como testemunha. Pena que o espaço, aqui, é pouco. Pois a Tijuca é grande e as dicas são muitas!!! Tem o Otto, o Bar do Chico, o Aconchego Carioca, os butecos da rua do Matoso... Ah, a Tijuca..."

* Advogado e autor do livro 'Meu lar é o botequim - Histórias, palpites e feitiço sem fim' (Ed. Casa Jorge). Mantém o blog Buteco do Edu

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Elegia Escrito em 14 de outubro de 2008
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Trajetória interessante tem cumprido a diretora espanhola Isabel Coixet. Na sexta passada, fui ver o trabalho mais recente, Fatal, que confirma seu talento em trabalhar temas nada leves com uma espantosa sobriedade.

Isso se dava já na estréia, com o ótimo Minha vida sem mim. A história girava em torno de Ann, que, ao descobrir a morte iminente, começa a preparar cada detalhe para que a família e os amigos possam superar sua perda. Sem resvalar em nenhum momento no melodramático – um risco em se tratando do mote -, Coixet conduziu a trama sem condescendência. Em nenhum momento, a protagonista sequer resvala na auto-comiseração. Em vez de dramalhão, há nuance e complexidade.

Em A vida secreta das palavras, filme posterior, a personagem principal é Hannah, a solitária funcionária de uma indústria que troca suas férias pela tarefa de cuidar de um homem que acabara de sofrer um acidente. Coixet explora com precisão as matizes da tristeza, do medo, da insegurança, mostrando o quanto há de sentimentos reprimidos sob as palavras. Ou sob o silêncio.

A produção mais recente é uma adaptação do romance O animal agonizante, de Philip Roth, e centra-se no encontro entre David, crítico cultural de TV e professor, e sua aluna Consuelo. A diferença de idade – mais de 30 anos – não impede o incendiário caso amoroso e, em seguida, atiça uma obsessão: David se vê doentiamente dominado pelo ciúme, agravado pelo contraste entre a velhice dele e a exuberante juventude dela.

O misto de afeto e amargura que a relação enseja é valorizado pelas brilhantes atuações de Ben Kingsley e da exuberante Penélope Cruz. Atuações que sobrepujam inclusive o peso da mão da diretora. Sim, porque ao contrário do que acontece em Minha vida sem mim e A vida secreta das palavras, na nova película ela às vezes explicita demais – a narração em off de David, por exemplo, me parece excessiva –, sufocando o espaço do espectador.

Trata-se, porém, de um reparo pequeno que não chega a macular a beleza doída de Elegy - cujo título original, aliás, se presta muito melhor do que o da tradução. Afinal, filme de Coixet é, na mais pura essência, uma canção de lamento sobre oportunidades desperdiçadas, sobre juízos equivocados, sobre a pele fina e frágil que cobre a vida da gente.

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Na agenda Escrito em 14 de outubro de 2008
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. Hoje, a partir das 18h, vai rolar o lançamento da segunda edição do Roteiro das Livrarias do Centro Histórico do Rio de Janeiro, que inclui lojas como a Folha Seca, a Beringela, a Camões, a Martins Fontes e a Travessa, entre outros. O evento acontecerá na Progetti Galeria de Arte Contemporânea (Travessa do Comércio, 22).

. Também na noite de hoje o amigo Antônio Dutra lança seu Dias de Faulkner. O romance - vencedor do prêmio Meet 2008, promovido pela Casa de Escritores Estrangeiros e de Tradutores de Saint-Nazaire, na França - tem como mote a visita de William Faulkner a São Paulo, em 1954, para participar do I Congresso Internacional de Escritores. Apesar da precisão histórica, a narrativa nada tem de documental. Dutra não poupa o protagonista, apresentando um Faulkner disperso, arredio aos contatos sociais e bêbado quase o tempo inteiro. O lançamento será na Livraria da Travessa do Leblon (Av. Afrânio de Mello Franco, 290 - Loja 205/A - Shopping Leblon), a partir das 19h30.

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'A fogueira, as vaidades' Escrito em 13 de outubro de 2008
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No sábado passado, o Prosa & Verso publicou artigo em que a Adriana Lisboa, no gancho da polêmica entrevista do professor, jornalista e escritor Felipe Pena ao blog Prosa On Line, trata da questão da vaidade no meio literário. Reproduzo a seguir o texto da Adriana, que gentilmente cita um texto veiculado há algum tempo aqui no Pentimento.

"A fogueira, as vaidades"

Adriana Lisboa

"Certas polêmicas que de tempos em tempos brotam no meio literário brasileiro, ou em alguns setores dele, poderiam resultar em discussões interessantes. Mas é comum tropeçar na superficialidade e na deselegância para onde com freqüência descambam.

Tem pipocado aqui e ali de vez em quando, por exemplo, a afirmativa de que entre os novos autores brasileiros ninguém presta. Recentemente, Felipe Pena concedeu entrevista ao Prosa on-line classificando os atuais escritores brasileiros de “chatos, herméticos e bestas”. Em outros veículos, uma ou outra afirmativa semelhante aparece – muitas vezes por parte de novos autores, ou aspirantes a.

É difícil não enxergar nas entrelinhas de tais atitudes ressentidas o recado: ninguém presta além de mim, que afirmo que ninguém presta. Quando concessões são feitas, elas evocam um patrulhamento ideológico bastante fora de época. Só o autor que vem da periferia é que presta. Os amigos-de-bar-do-fulano são uns oportunistas e, de modo geral, não prestam. O autor que passou pela universidade não presta. Os autores brasileiros atuais só escrevem para os seus pares. Generalizações levianas que não resistem a uma argumentação mais consistente. E que perigam tranformar o mundo literário numa arena de bate-boca digna não de suplemento literário, mas de revista de fofoca de novela (com a diferença de que literatura interessa a muito menos gente do que novela).

É uma arbitrariedade acusar os autores atuais de prestar um desserviço à disseminação da leitura no país devido a um suposto hermetismo de seus textos. André de Leones, que vai sempre direto ao assunto, resumiu: “Cada um escreve como pode, não como quer.” Há autores entre nós publicando desde a mais sofisticada prosa poética até ótimos romances policiais de se ler numa única tarde. Contistas de primeira com uma prosa ágil, poetas excepcionais e cronistas com um público cativo. Há quem tematize a violência dos centros urbanos, quem volte os olhos para os ambientes rurais e para as cidades do interior. Ou do exterior. Há quem fale de amor, de morte, de futebol, de relações familiares ou que não fale quase nada. Há quem escreva romance histórico. Há quem fragmente sua narrativa e quem opte pelo narrador onisciente e onipresente. Há doutores, pós-doutores e gente que terminou a escola nas coxas, se tanto. Ex-economistas, jornalistas e editores. Guitarristas e cristãos.

Alguns leram James Joyce, alguns leram João Cabral e alguns, Conan Doyle. Outros leram Cortázar, Clarice, Rubem Fonseca ou Thomas Pynchon. Alguns leram Machado e Cervantes, com quem aprenderam o valor da ironia e da auto-ironia. E outros não leram nada disso. A literatura brasileira contemporânea é rica, diversificada e interessantíssima, e não cabe na afirmação redutora de que se faz somente para os seus pares ou para os seus ímpares.

Há que se escrever para o leitor? Mas quem é ele? O leitor não é um dado a priori que determina autor e narrativa. No máximo, é possível tentar escrever para o leitor que somos. Tentar escrever aquilo que, enquanto leitores, gostaríamos de ler. O que não significa necessariamente agradar aos outros leitores. O que não parece válido é pôr na origem do processo criativo o desejo soberano de ser lido e compreendido, que periga comprometer a honestidade da voz do autor – justamente aquilo que o justifica enquanto autor.

Mas é fácil ser categórico. Confundir distribuição arbitrária de rótulos (isso sim um desserviço não só à disseminação da leitura mas à valorização do que se escreve no Brasil) com debate sério, que exige tempo, dedicação e generosidade.

Numa entrevista recente, Antonio Torres disse, com grande clareza: “Nós estamos vivendo um tempo tão curioso, em que o Brasil tem a sedução do estrangeiro. Nosso lado colonizado é forte. É forte demais. A gente vai ao Salão do Livro de Paris e temos, lá, um espaço de estima. E é assim na Alemanha e em qualquer lugar. Aqui, temos uma Bienal onde todos os espaços são para O livreiro de Cabul, O viado de Cabul, A puta de Cabul, O doido de Cabul, O baiano de Cabul. E mais trezentos autores brasileiros. O espaço para a gente é esse: E mais trezentos autores brasileiros.”

As distribuições de insultos que grassam nesse meio, azeitadas na blogosfera, parecem muito mais regidas pelos egos do que pela vontade de levar a cabo debates sérios. É preciso cuidado ao conferir ares de sabedoria ao que talvez não passe de ressentimento. Ou estratégia de marketing. Tão mais constrangedora quando nos damos conta (e é saudável fazê-lo), como disse Marcelo Moutinho, dessa “névoa que paira sobre o mundo literário, dando uma falsa impressão de importância a todos os que o integram.”

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Legado e opção Escrito em 13 de outubro de 2008
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Praça Onze, onde escolas se reuniam para mostrar seus sambas

Quando, no começo do século passado, as escolas começaram a sair de várias partes da cidade para desfilar na Praça 11, o objetivo era mostrar à população o samba feito em suas respectivas localidades. Samba que, conforme a região e a agremiação, ganhava características diferentes.

É claro que daquela época para cá muita coisa mudou. Algumas para melhor, muitas para pior. Mas, sem nostalgia barata, acho que o maior fator de grandeza do desfile continua ligado à questão da singularidade. Quando vou à Sapucaí ou me posto em frente à televisão para assistir ao espetáculo, mais do que carros alegóricos, fantasias (embora também esses elementos), o que me interessa é a marca própria que constitui o legado de cada agremiação – e que, mesmo sob a roupagem dos novos e sucessivos enredos, se reafirma a cada desfile.

Na Mangueira, quero ver o verde-e-rosa e ouvir o surdo sem resposta. Na Portela, reencontrar a extraordinária Velha-Guarda e a águia que sempre voou alto. No meu Império, escutar a harmonia dos agogôs, curtir a emoção dos componentes sempre à flor da pele. São essas as rubricas identitárias das escolas, que as diferenciam e servem como eixo entre o passado e o presente.

E é por pensar assim que lamentei tanto o que testemunhei no Salgueiro, o grande Salgueiro, no sábado passado. Não pela derrota do ótimo samba de Alberto Mussa, Luiz Antonio Simas, Edgar Filho, Gari Sorriso e Bené - o insucesso é sintoma, não causa do problema – e a vitória de mais um samba-marcha. Mas por constatar que a vermelho-e-branco da Tijuca também parece sucumbir ao ‘modernoso’ que nada tem de moderno. Optar pelo auto-flagelo em nome do sucesso momentâneo (sucesso sob a perspectiva dos critérios da Liesa, diga-se), numa postura que ameaça rasgar sua bela trajetória.

Logo no início da madrugada do sábado, um ‘ator’ da Malhação subiu ao palco e foi ovacionado pela quadra lotada. O ‘ator’ – cujo nome tenho o orgulho de desconhecer – era tratado como a estrela principal de uma finalíssima do Salgueiro. Repito: numa noite fundamental para a escola – a noite em que seria definido o samba a nortear o carnaval de 2009 -, a presença do tal menino parecia mais importante do que os concorrentes, a bateria, os históricos componentes. Emblemático – e triste à beça.

Mas quem se importa?

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Noite salgueirense Escrito em 10 de outubro de 2008
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Amanhã à noite estarei na quadra do GRES Salgueiro para torcer - e muito - pela composição dos amigos Alberto Mussa e Luis Antonio Simas (com Gari Sorriso, Edgard Filho, Gari Sorriso e Bené), que está entre quatro concorrentes na finalíssima da escolha do samba para o carnaval do próximo ano.

Sobrando na turma, além de ótimo, o samba se mostrou valente, pois conseguiu resistir à tendência que lamentavelmente vigora na vermelho-e-branca da Tijuca (e em muitas outras agremiações) nos últimos anos: hinos marcheados, com refrões insípidos e centrados nos clichês da 'empolgação'.

Daqui deste cantinho imperiano, o Pentimento deseja todo axé aos amigos.

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'Dama da noite' Escrito em 09 de outubro de 2008
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Caio Fernando Abreu

"Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?

Nada, você não entende nada. Dama da noite. todos me chamam e nem sabem que durmo o dia inteiro. Não suporto: luz, também nunca tenho nada pra fazer - o quê? Umas rendas aí. É, macetes. Não dou detalhe, adianta insistir. Mutreta, trambique, muamba. Já falei: não adianta insistir, boy . Aprendi que, se eu der detalhe, você vai sacar que tenho grana e se eu tenho grana você vai querer foder comigo só porque eu tenho grana. E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara. Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo. Se eu tô tesuda e você anda duro e eu precisar de cacete, compro o teu, pago o teu. Quanto custa? Me diz que eu pago. Pago bebida, comida, dormida. E pago foda também, se for preciso.

Pego, claro que eu pego. Pego sim, pego depois. É grande? Gosto de grande, bem grosso. Agora não. Agora quercì falar na roda. Essa roda, você não vê, garotão? Está por aí. rodando aqui mesmo. Olha em volta, cara. Bem do teu lado. Naquela mina ali, de preto, a de cabelo arrepiadinho. Tá bom, eu sei: pelo menos dois terços do bar veste preto e tem cabelo arrepiadinho, inclusive nós. Sabe que, se há uns dei anos eu pensasse em mim agora aqui sentada com você, eu não ia acreditar? Preto absorve vibração negativa, eu pensava. O contrário de branco, branco reflete. Mas acho que essa moçada tá mais a fim mesmo é de absorver, chupar até o fundo do mal - hein? Depois, até posso. Tem problema, não. Mas não é disso que estou falando agora, meu bem.

Você não gosta? Ah, não me diga, garotinho. Mas se eu pago a bebida, eu digo o que eu quiser, entendeu? Eu digo meu-bem assim desse jeito, do jeito que eu bem entender. Digo e repito: meu-bem-meu-bem-meu-bem. Pego no seu queixo a hora que eu quiser também, enquanto digo e repito e redigo meu-bem-meu-bem. Queixo furadinho, hein? Já observei que homem de queixo furadinho gosta mesmo é de dar o rabo. Você já deu o seu? Pelo amor de Deus, não me venha com aquela história tipo sabe, uma noite, na casa de um pessoal em Boiçucanga, tive que dormir na mesma cama com um carinha que.

Todo machinho da sua idade tem loucura por dar o rabo, meu bem. Ascendente Câncer, eu sei: cara de lua, bunda gordinha e cu aceso. Não é vergonha nenhuma: tá nos astros, boy. Ou então é veado mesmo, e tudo bem.
Levanta não, te pago outra vodca, quer? Só pra deixar eu falar mais na roda. Você é muito garoto, não entende dessas coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga? Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.

A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente. Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem.

Pra mim, não. Nenhum sorriso. Cumplicidade zero. Eu não sou igual a eles, eles sabem disso. Dama da noite, eles falam, eu sei. Quando não falam coisa mais escrota, porque dama da noite é até bonito, eu acho. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: você nasceu dentro de um apartamento, vendo tevê.

Não sabe nada. fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. sabe quando vai dar? Pra vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente.
Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Então eu tenho pena. Acho que sou melhor, sei porque peguei a coisa viva. Tá bom, desculpa, gatinho. Melhor, melhor não. Eu tive mais sorte, foi isso? Eu cheguei antes. E até me pergunto se não é sorte também estar do lado de fora dessa roda besta que roda sem fim, sem mim. No fundo, tenho nojo dela - você?

Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho, morrendo de medo de pegar Aids. Vírus que mata. neguinho, vírus do amor. Deu a bundinha, comeu cuzinho. pronto: paranóia total. Semana seguinte, nasce uma espinha na cara e salve-se quem puder: baixou Emílio Ribas. Caganeira, tosse seca, gânglios generalizados.

Ô boy, que grande merda fizeram com a tua cabecinha, hein? Você nem beija na boca sem morrer de cagaço. Transmite pela saliva, você leu em algum lugar. Você nem passa a mão em peito molhado sem ficar de cu na mão. Transmite pelo suor, você leu em algum lugar. Supondo que você lê, claro. Conta pra tia: você lê, meu bem? Nada, você não lê nada. Você vê pela tevê, eu sei. Mas na tevê também dá, o tempo todo: amor mata amor mata amor mata. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado.

Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar. Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara, tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. O boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim e eu ainda nem comecei a falar na morte...

Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes. Eu sou curtida, meu bem. A gente lê na sua cara que nunca. Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho verde me olhando assim que nem eu fosse a Isabella Rossellini levando porrada e gostando e pedindo eat me eat me, escrota e deslumbrante. Essa tontura que você está sentindo não é porre, não. É vertigem do pecado, meu bem, tontura do veneno. O que que você vai contar amanhã na escola, hein? Sim, porque vocé ainda deve ir à escola, de lancheira e tudo. Já sei: conheci uma mina meio coroa, porra-louca demais. Cretino, cretino, pobre anjo cretino do fim de todas as coisas. Esse caralhinho gostoso aí, escondido no meio das asas, é só isso que você tem por enquanto. Um caralhinho gostoso, sem marca nenhuma. Todo rosadinho. E burro. Porque nem brochar você deve ter brochado ainda. Acorda de pau duro, uma tábua, tem tesão por tudo, até por fechadura. Quantas por dia? Muito bem, parabéns: você tá na idade. Mas anota aí pro teu futuro cair na real: essa sede, ninguém mata. Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá o gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy.

Eu, cansei. Já não estou mais na idade. Quantos? Ah, você não vai acreditar, esquece. O que importa é que você entra por um ouvido meu e sai pelo outro, sabia? Você não fica. você não marca. Eu sei que fico em você, eu sei que marco você. Marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo, quando você estiver rodando na roda, vai lembrar que, uma noite. sentou ao lado de uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo, na solidão, na morte. Feia, tão feia a morte, boy. A pessoa fica meio verde, sabe? Da cor quase assim desse molho de espinafre frio. Mais clarinho um pouco, mas isso nem é o pior. Tem uma coisa que já não está mais ali, isso é o mais triste. Você olha, olha e olha e o corpo fica assim que nem uma cadeira.

Uma mesa, um cinzeiro, um prato vazio. Uma coisa sem nada dentro. Que nem casca de amendoim jogada na areia, é assim que a gente fica quando morre, viu, boy? E você, já descobriu que um dia também vai morrer?

Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar você um filho da puta. Não é o máximo da compreensão? Eu vou achar que você tá na sua, um garotinho roubando uma mulher meio pirada, meio coroa, que mexeu com sua cabecinha de anjo cretino desse nojento fim de todas as coisas. Tá tudo bem, é assim que as coisas são: ca-pi-ta-lis-tas, em letras góticas de neon. Mulher pirada e meio coroa que nem eu tem mais é que ser roubada por um garotinho ïmbecil e tesudinho como você. Só pra deixar de ser burra caindo outra vez nessa armadilha de sexo.

Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.

Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro.

Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada".

Conto publicado no livro 'Os dragões não conhecem o paraíso'

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Dois novos blogs Escrito em 08 de outubro de 2008
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A lista de links indicados do Pentimento ganha hoje dois novos blogs. O primeiro deles é o Hey, light, do Bolívar Torres. No espaço, o repórter do Jornal do Brasil escreve sobre filmes, música e cultura em geral, com concentração nos assuntos literários.

O outro blog é o Máquina de escrever, do Luciano Trigo, que trata de artes plásticas, cinema e livros, e traz ótimas entrevistas, como a recentemente feita com João GIlberto Noll.

Recomendo ambos.

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Carlito Azevedo Escrito em 07 de outubro de 2008
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"Sob o duplo incêndio"

Carlito Azevedo

"Sob o duplo incêndio
da lua e do neón,
sobre um parapeito de
mármore, entre duas cortinas
jogadas pela brisa marinha
que ao mesmo tempo às suas
coxas e costas dispensava
um hálito incontínuo,
inundando de rubro o restrito
perímetro de seu jarro em cerâmica
e contrastando imemorial com a
transitoriedade de tudo ali
hotel, amor, dia, noite, carros,
uma flor alheia a símbolos
atingia seu ponto máximo
de beleza"

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Ensaio sobre a cegueira Escrito em 07 de outubro de 2008
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É nada menos que brilhante a versão para a tela, conduzida pelo diretor Fernando Meirelles, do extraordinário romance Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Um livro, diga-se, cuja transposição se anunciava difícil, muito difícil.

O maior mérito de Meirelles é que, mais do que simplesmente adaptar o enredo, ele conseguiu reproduzir em imagens a ambiência da história - e também a sufocante experiência de quem lê (agora, de quem vê). Nesse trabalho, ele contou a preciosa ajuda de César Charlone, o fotógrafo do filme.

A superexposição na luz das cenas cria uma espécie de 'névoa' que é muito próxima ao conceito de 'treva branca' mencionada por Saramago no livro. Além disso, em vários momentos a luz 'estoura' totalmente, fazendo com que o espectador experimente, ainda que por um ínfimo instante, a cegueira dos personagens.

O elenco também está muito bem. Mark Ruffalo compõe com grande competência a figura do médico que, ponderado e solidário, lidera o grupo confinado no manicômio abandonado. E Julianne Moore, que interpreta a esposa dele, encontra o tom preciso da mulher cujo dilaceramento não é capaz de brecar a capacidade de ação, a faculdade de tocar os dias, apesar de tudo.

O filme de Meirelles honra as palavras escritas por Saramago. Não é pouco.

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O pé da criança Escrito em 06 de outubro de 2008
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“Quando era médico, cuidei de crianças terminais, com câncer. Quando um adulto morre, vêm dois enfermeiros e levam o cadáver numa maca. Quando uma criança morre, um enfermeiro a enrola em um lençol e carrega no colo. Tinha me apegado a um menino e, depois de morto, vi quando era levado por um enfermeiro, com o pé balançando, para fora do lençol. Eu escrevo para o pé daquela criança”.

* Aspas de António Lobo Antunes, que encontrei no blog do Paulo Pires

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Nuvens Escrito em 06 de outubro de 2008
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“Nuvens (I)"

Jorge Luis Borges

"Não haverá uma só coisa que não seja
uma nuvem. São nuvens as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia
que muda como o mar. Algo há distinto
cada vez que a abrimos. O reflexo
de tua cara já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte noutra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que perdeste”

(Tradução de Antonio Cícero)

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Abrindo o voto Escrito em 03 de outubro de 2008
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Vou de Eliomar Coelho para vereador. E para prefeito, feliz da vida, votarei em Fernando Gabeira.

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Sumiço Escrito em 03 de outubro de 2008
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Estou, desde o começo da semana, derrubado por um misto de faringite, amigdalite e febre. Depois de hesitarem um pouco, os remédios felizmente começaram a fazer efeito e na segunda-feira, talvez já livre das bactérias, espero voltar a atualizar este espaço.

Entre outras coisas, quero comentar aqui o ótimo Ensaio sobre a cegueira, além das lindas cenas que o esporte nos proporcionou nos últimos dias. Cenas que tiveram, como contraste, a grosseira demissão do técnico Cuca no meu Fluminense, em mais uma tresloucada atitude da (péssima) diretoria que lamentavelmente dá as cartas no clube.

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