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Quando a bola era redonda Escrito em 18 de setembro de 2008
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Um bom motivo para dedicar o sábado a um passeio pelo velho Centro da Rio, mais especificamente a Rua do Ouvidor e seus arredores: o lançamento do livro Quando a bola era redonda, que vai rolar das 11h às 15h na Folha Seca (Rua do Ouvidor, 37), a livraria afetuosamente comandada pela Dani e pelo Rodrigo.

A publicação reúne crônicas de Ivan Soter, autor que já lançou, pela própria editora da Folha Seca, o Almanaque da Seleção. Como se pode prever, o textos do novo livro transitam pelo universo do velho esporte bretão. É a bola, estrela maior do futebol, quem aparece como a grande protagonista. E, segundo me garantiu o Rodrigo, a redonda é tratada “a la Zizinho” – ou seja, com o requinte e a categoria dos craques.

As crônicas contam histórias de gente como Ademir, Tesourinha, Rubens Salles, Marcos de Mendonça, Garrincha, Barbosa, Doutor Rúbis, Danilo, Didi, Nílton Santos, Oberdan, Zagallo, Dida, Tostão, Pelé, Gentil Cardoso, Flávio Costa e Fleitas Solich, João Havelange e Paulo Machado de Carvalho. Histórias que acontecem dentro e fora do campo.

Também estão no livro Luiz Mendes, Mário Filho e Nelson Rodrigues (ave, mestre!), entre outros personagens reais que dividem espaço com as reminiscências do autor. Doces (ou amargas) lembranças da infância, muitas vezes envernizadas pela ficção que toda memória individual enseja.

A tíítulo de 'aquecimento', publico abaixo um dos textos que integram a publicação.

O verão de 51

Ivan Soter

"Convivemos com o fantasma da Copa de 50, a nossa maior decepção esportiva. Bem maior do que a da Copa de 82. Esta, por ser mais recente, toca mais os corações brasileiros. A outra está na história, mas chegará o dia em que a de 82 será também uma reminiscência. Em ambos jogos decisivos – o contra o Uruguai em 50 e o contra a Itália em 82 – precisávamos de um empate e não conseguimos. Nesses dois momentos, o Brasil tinha times poderosíssimos, provavelmente superiores aos dos adversários. Paulo Perdigão, o mais importante cronista do Maracanazo, que é como os uruguaios apelidaram a vitória de 2 a 1 sobre o Brasil, concluiu que, se o Brasil tivesse ganhado, ninguém se lembraria do “16 de julho”. A perda deu dimensão à data. Para reforçar o seu argumento, perguntou-me se eu sabia o dia da conquista do penta. Não, não sabia dizer exatamente. E do tetra? E do tri?

Também não me lembrava. E do bi? Idem. E da vitória na Suécia? Envergonhado, por ser uma pessoa que acompanha os dados e fatos da Seleção, e por ter escrito livros sobre o nosso selecionado, confessei que, de cabeça, só me recordava do “16 de julho”. Parreira reclamou que se falava muito sobre o dia da derrota para o Uruguai e nunca era citado o dia em que o Brasil ganhou o tetra.

Eu era um garoto quando o Brasil foi derrotado no Maracanã. Não morava no Rio, aonde só ia nas férias. Nessa oportunidade, me inteirava das músicas de carnaval, dos filmes de carnaval, dos clubes onde pularíamos o carnaval, das fantasias que seriam usadas no carnaval e das coisas que não existiam em Porto Alegre, como os fantásticos botões feitos com casca de coco. Mas o que eu mais gostava, depois do carnaval, eram as piadas. Quem me atualizava nessas conversas que rolavam na Corte eram os meus primos Marcos e Edith. Então, nas férias de 51, aprendi uma anedota sobre a derrota na Copa do ano anterior.

Terminado o jogo, o técnico Flávio Costa, com medo do povo, procurou um disfarce para abandonar o Estádio (era assim que o Maracanã se chamava: Estádio, simplesmente). Conseguiu uma peruca e um vestido. Pronto, o disfarce estava quase perfeito. “Vestido de mulher” é como os que não gostam de Brizola dizem ter ele fugido dos militares no Sul. Na verdade, Brizola escapou fardado de brigadiano, mas a versão “vestido de mulher” é mais engraçada. Pois foi dessa forma que Flávio, um precursor sem dúvida, pretendia dar no pé. Entretanto, o técnico não considerou o disfarce ainda completo. Talvez por causa do bigode, que denunciava o velho “Alicate” por detrás. Ou das pernas cabeludas e tortas (daí o “Alicate”).

Ele ia escapando de fininho, encobrindo o bigode e as pernas do jeito que dava, quando a sorte lhe sorriu. Passava a seu lado uma senhora com o filhinho no colo. As senhoras com filhinhos no colo são mais suscetíveis aos dramas humanos. Flávio se chegou, com a mão em concha, bem perto do ouvido da mãe: “Minha senhora, eu sou o Flávio Costa. O povo está a fim da minha pele. Pelo amor de seus filhinhos (expressão mais tarde adaptada por Sílvio Luiz) me empreste a criança para que eu possa dar maior veracidade ao meu disfarce”. A boa mãe, condoída com a desgraça do treinador, não se fez de rogada, entregando-lhe a criança. Flávio, todo sem jeito, foi carregando o petiz no colo. Ninguém desconfiou do bigode e das pernas arqueadas e cabeludas. Era uma mãe e devemos respeitar as mães, mesmo bigodudas e de pernas tortas. O técnico conseguiu entrar em um apinhado ônibus. Estava salvo!

Engano, triste engano. A criança começou a chorar de fome dentro do ônibus. Todos se viraram para aquela estranha mãe. “Por que ela não dá de mamar a esse infeliz para ele parar de berrar?”, perguntaram entre si. Flávio começou a suar frio. Mas a sorte parecia ter-lhe sorrido de novo. Dois bancos adiante (Flávio estava em pé), encontrava-se uma negona de seios fartos, típica mãe de leite dos tempos da escravidão. Mais uma vez Flávio acreditou na solidariedade feminina. Chegou-se, com a mão em concha e com a velha conversa: “Minha senhora, eu sou o Flávio Costa. O povo está a fim da minha pele. Essa criança berrando desse jeito chama atenção e vão logo descobrir a minha verdadeira identidade. Por favor, com esses peitões avantajados a senhora tem todos os recursos para satisfazer a criança. Se não tiver leite aí, o menininho poderá ficar se divertindo até a hora de eu saltar”. A negona olhou para cima, com cara de poucos amigos e fulminou: “Te vira Flávio. Eu sou o Bigode”.

Essa exemplar historinha, colhida no calor da derrota brasileira, derruba o mito de que o grande e único vilão tenha sido o Barbosa"

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