
No carro do meu pai, ao lado dos Nelson Gonçalves, dos Altemar Dutra, dos Roberto Ribeiro, morava uma fita cassete do Freddy Cole. Adorava ouvi-la. Lembro-me de que a fita era azul piscina, com um projeto gráfico meio cafoninha, e de que, salvo engano, trazia umas músicas brasileiras ao lado dos naturais standards norte-americanos. Meu pai me dissera que ele era irmão do Nat King Cole, este bem mais famoso. Do Nat, já naquela época, já havia ouvido falar.
Lembro-me também que Freddy tinha uma voz aveludada (como a do irmão). Não estou certo, no entanto, é se naqueles anos era tão pequenina como hoje. Porque ontem à noite, ao reencontrá-lo depois de tanto tempo no Programa do Jô, fiquei admirado: a voz está frágil, dá a impressão de que não vai sustentar os versos do início ao fim.
Só que parece ciente disso, então não força a barra. Pelo contrário: contorna essa fragilidade com uma interpretação minimalista, de fraseado absolutamente perfeito. Pela voz mais áspera (rouca?) e pela própria imagem, ele me remeteu ao excepcional Bola de Nieve, músico cubano que integra a minha lista de pianistas prediletos.
Me comovi com as novas cores que Freddy deu, ontem, à batidíssima Unforgettable. É claro que o arranjo classudo, centrado nas cordas do piano, do violão e do baixo acústico, ajudou. Mas foi a voz do cantor que tirou as gorduras sentimentais da canção. Que lhe deu insuspeito frescor. Que me fez enxergar de novo a beleza de sua melodia, afogada pela repetição e por orquestrações demasiadamente açucaradas. Foi um afago antes do sono.
Freddy se apresenta amanhã no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Queria estar lá.
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