Voltar para Página Principal
Blog
Clicando nos botões ao lado você aumenta o tamanho da fonte do textoDiminui FonteAumenta Fonte
»
O mistério do samba Escrito em 05 de setembro de 2008
separador

É pena: Que a presença opressiva de Marisa Monte quase estrague o filme. Que Marisa Monte soe tão professoral (seja quando, caminhando com Paulinho da Viola pelas ruas de Osvaldo Cruz, faz longos intróitos antes de cada pergunta ao compositor, numa quebra flagrante do clima ‘descontraído’ que as imagens do passeio ensejam; seja quando, numa conversa com as pastoras da Velha Guarda, tente analisar ‘a condição feminina nos primórdios do samba’, numa dissertação deslocada que Tia Surica desmonta numa frase curta e grossa: “nosso lugar era o fogão”). Que Marisa Monte apareça até em contra-planos silenciosos nos quais são os membros da Velha Guarda que falam. Que os diretores tenham usado Zeca Pagodinho como chamariz de público (a ligação dele com a Velha Guarda não é atávica como a de Paulinho, por exemplo), quando as estrelas do documentário deveriam ser outras.

É bacana: Ver que Monarco canta hoje ainda melhor do que no passado. Ver as anotações e ouvir trechos de antigas gravações em fita cassete do grande Manacéa. Ver Seu Argemiro falando sobre a solidão e concluindo que é nessas horas que a mulher mais importa (“Nem que seja pra brigar”). Ver o mesmo Argemiro perguntar o que significa e como se pronuncia a palavra “âmbito” e, em seguida, revelar que quer fazer um samba que contenha tal expressão (a sonoridade como princípio, pois não?). Ver Argemiro narrar também a surpresa que experimentou, no passado, ao entender que “copular” significa fazer sexo (“Então eu disse na hora: Agora, vou para casa copular com minha mulher”, brinca ele). Ver a montagem esperta, cheia de rimas visuais e lindos planos de detalhe, que ‘informam’ sobre os membros da Velha Guarda através de seus objetos pessoais e de suas moradias. Ver Marisa Monte em plena atuação durante a pesquisa que deu origem ao disco Tudo azul: ela leva trechos de sambas nunca gravados para que a Velha Guarda os complete. Ver Seu Argemiro contando que um dia Chico Buarque e Vinicius de Moraes lhe pediram para compor uma samba sobre uma garrafa, ele recusou, mas foi para casa e escreveu a resposta em forma de melodia e versos (“Somente escrevo o que sinto / Culpada é a minha inspiração...). Ver Tia Eunice ensinando o ‘miudinho’ para as crianças na quadra as Portela. Ver que Casquinha compôs Amor interesseiro (com Bubu) em 'homenagem' à Surica, com quem tinha um caso (ela o havia traído). Ouvir tantos lindos sambas.

É excepcional: saber que existe a Velha Guarda da Portela.

Clique para deixar seu comentário {5}