
A revista Bravo! que acaba de chegar às bancas (edição de setembro) traz um conto de minha lavra, até então inédito, e que fará parte de meu próximo livro. A história de Jogo-contra foi belamente editada, com ilustrações bacanudas de Mário Proença. Posto, abaixo, o trecho inicial do conto.
Aliás, aproveito para informar que o blogueiro convidado deste mês no site da revista é o amigo Paulo Roberto Pires. Quem quiser matar saudades dos textos do Paulo, ausentes da internet desde o fim do No Mínimo, pode acessar o blog aqui.
Jogo-contra
Marcelo Moutinho
1. Primeiro jogo
Havia acabado de chegar do colégio quando Naldinho chamou pelo interfone: está marcado, sábado, às onze. “Contra quem? Onde? E as camisas?”, eu mastigava as palavras com a afobação de quem começa a estrear nas coisas, e Naldinho respondeu que sim, as camisas estavam em cima, seu José tinha garantido, e a gente iria enfrentar o Estrela no Campinho na Rua Dois, que era lugar neutro.
Aquele seria o primeiro jogo-contra do time do prédio e quase não almocei de tão nervoso. “Que foi? Está sem fome? Tem bolo de batata”, as interrogações da mãe ecoavam pelos cômodos da casa, mas não consegui dar nem um balbucio e voei para o quarto. Era preciso me concentrar.
Depois soube que, além de mim, o time formaria com Zezin no gol, Magrão e Rodrigo Pêlo na zaga. Naldinho, nosso craque, vestiria a dez. “Fica paradão na frente. Você está pesado e lá ao menos segura a defesa deles”, ele orientou, e na verdade pouco importava, eu queria era jogar.
Nos dois dias seguintes, o tempo se esticou como se, nas horas, pudessem caber mais do que os habituais sessenta minutos. Almocei, dormi, estudei, conversei e jantei o jogo, repassando os dribles e chutes que me dariam um brilho novo, inédito diante dele. (...)
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