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Literatices Escrito em 15 de setembro de 2008
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1. Quando cursava pós-graduação em Comunicação e Imagem na PUC, fiz uma disciplina chamada Imagens e representações do Brasil. Nas aulas, de caráter antropológico, a professora Maria Cláudia Coelho se valia essencialmente do cinema: a idéia era mapear, através de filmes brasileiros, as tais "imagens e representações" do país.

Durante o curso, assistimos a Rio 40 graus e Bye bye Brasil, entre muitos tantos clássicos que ajudam a entender as feições desse cadinho tão singular da América do Sul. Mas todos os alunos ficaram surpresos quando Maria Cláudia anunciou que iria exibir Eu sei que vou te amar, do Arnaldo Jabor.

O flagrante intimismo do filme não parecia condizer com uma “imagem do Brasil”. Não havia favela, samba, nem sequer “povo” (esta entidade complexa) na história do reencontro, eivado de ofensas e mágoas, entre as duas partes de um casal recém-separado. Então compreendemos: aqueles dois – um homem e uma mulher de classe média, com hábitos refinados, formação intelectual etc. – também engendravam um retrato do país.

2. Lembrei disso no sábado, enquanto conversava (e dividia uma cerveja) com o amigo Fernando Molica. Falávamos sobre uma matéria veiculada no site da revista Bravo!, que de certo modo repercute a reportagem de capa do Prosa & Verso sobre as Escritas da delicadeza. Em resumo, o que os dois textos – o da Bravo! e o do Globo – questionam é se a influência de Rubem Fonseca (com sua narrativa realista, a temática urbana, a inflexão na violência como denúncia social) ainda se impõe entre os escritores das novas gerações.

Na verdade, nem sei se esse espectro é (ou foi) assim tão forte. Como disse ao Molica, talvez o recorte feito pela absoluta maioria dos nossos suplementos culturais é que tenha ajudado a disseminar esse juízo, e acabado por nublar, ao menos durante algum tempo, a presença de autores cujo trabalho tem registros distintos. Fiéis ao espírito que os rege, os jornais tendem a priorizar pautas (ou livros) cujas tramas se centram nas questões sociais do país. Lamentavelmente - e isso é mais geral do que os suplementos -, o intimismo muitas vezes é visto como “alienado”, numa perspectiva que se dá conta do efeito fortemente político da literatura quando ilumina áreas eclipsadas daquilo que nos é apresentado como real inelutável.

3. Há alguns meses, o João Paulo Cuenca escreveu um interessante artigo no Babélia, o suplemento literário do El País. Cuenca responde, no texto, à provocação que lhe foi feita certa vez durante um congresso no exterior. “Não seria imoral que um escritor no fuja de seu país, da violência de seu país?”, perguntou-lhe alguém. O fato de ser um autor brasileiro colava imediatamente na pele os temas que “deveriam” ser objeto de sua obra. Ou que se esperava que fossem. Como se estivesse interditado a um escritor originário de um país subdesenvolvido criar, por exemplo, uma história de amor sem que se desenrolasse sob a sombra da carência financeira ou da violência.

“Nos meus romances e contos ninguém nunca sentiu fome. Além disso, ninguém jamais disparou um tiro em uma favela”, respondeu Cuenca ao interlocutor. Nem nos meus, acrescentaria. E sou um autor brasileiro. E nossos livros (os meus, os do Cuenca e os dos demais escritores) são, sim, imagens do Brasil. Assim como Rio 40 graus e Eu sei que vou te amar.

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