
Olho nela: chama-se Alice Sant’Anna, tem 20 anos e acaba de lançar sua primeira seleta de poemas, Dobraduras, pela editora 7Letras. Comprei o livro ontem, depois de visitar o blog da moça e de ter gostado bastante do que vi por lá.
A influência da Ana Cristina César é evidente. Assim como os poemas de Ana C., os versos brancos de Alice são despojados e repletos de imagens prosaicas: o botão do elevador, o chão de taco, a bala de tamarindo. É uma poesia sem tailleur, de calça jeans e Havainas, que aloca sua força justamente nessa aparente simplicidade.
Claro que, como é natural num livro de estréia, Dobraduras tem lá seus altos e baixos. Mas o balanço final é francamente favorável à autora, como demonstram poemas do nível do quase haicai bolinhos de vento: “pegue um lápis e marque um ponto / no centro de uma folha / a solidão é tudo o que está em volta”. Ou versos como: “quando faltou luz / ficou aquele breu e eu / com as mãos tremendo / morta de medo / de tudo se iluminar / de repente”.
Publico, abaixo, mais um poema do livro, cuja leitura – reitero – recomendo.
“dentro do apartamento
a janela sustenta paisagem.
me aproximo, apóio
os braços: todo o mundo
desmedido
em minha frente.
mas nada
que eu possa segurar, reter.
nem mesmo o perfume
dessas tardes sem perfume, nem
um bibelô
para colecionar na estante
como fazem as avós
que não medem cuidados
com a porcelana”.
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