
Hoje, às 19h, no Espaço Cultural Sérgio Porto, vai rolar o lançamento da Revista do Lalau. Editada pela Agir, a publicação reúne boa parte do que Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, escreveu para jornais, revistas e televisão ao longo da vida, e que nunca havia sido compilada num só volume.
O lançamento contará com um 'show de bolso', apresentando canções do universo sérgio-portiano. A saber: "Mulheres, Copacabana, mulheres, Rio de Janeiro, mulheres, jazz, mulheres, Cartola, mulheres...", como elenca o amigo Pedro Paulo Malta, que cantará 12 sambas selecionados pelo próprio Pepê e pelo grande Luís Filipe de Lima. Completam a banda Henrique Cazes (cavaquinho) e Fábio Cazes (percussão).
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Ferrez: um escritores citados por Marcelo Coelho no texto
Ainda a velha e boa literatura: dia desses assisti, não sem espanto, ao discurso (um tanto acrítico) que a crítica Heloísa Buarque de Hollanda fez, defendendo que produção brasileira de qualidade viria hoje dos autores da chamada 'periferia'. Mais uma generalização, entre as tantas que nos cercam. Acredito que tanto na periferia (aliás, teríamos, antes de qualquer coisa, que conceituar o termo) quanto nas classes médias ou altas, há (ou, vá lá, pode haver) péssimos, medianos e ótimos escritores.
O discurso 'engajado' de Heloísa parece confundir valor testemunhal com valor estético. E concordo com boa parte das premissas que o Marcelo Coelho levantou hoje, em seu blog no UOL, a respeito do tema. Coelho afirma que, no âmbito da 'literatura da periferia' (aspas, mais uma vez), "o autor é mais 'representante' da realidade do que 'representador' da realidade e perde, com isso, "a distância que deveria ter diante daquilo que representa". "Oscila, assim, entre uma atitude “crítica” e uma atitude “identitária”. Precisa mostrar, por exemplo, que na periferia se mata e se morre por uma ninharia, mas tende a considerar preconceituosa a opinião do burguês que tem medo de passear por essas regiões. A periferia é enaltecida e detestada ao mesmo tempo", complementa.
Coelho destaca ainda que esse autor, embora saudado como "artista" pelo mundo não-periférico, é visto muito mais como uma espécie de "informante". E, "na medida em que a crítica se interessa pela 'realidade representada', e não pelo modo com que isso foi feito, cada livro se torna expressivo e complexo independentemente das intenções, da autoconsciência, do grau de controle de que o autor está imbuído". Assim, mais do que autores, surgiriam 'casos'. "O caso Ferréz, o caso Paulo Lins", exemplifica.
O artigo (leia a íntegra aqui) é um bom ponto de partida para uma discussão menos deslumbrada sobre o assunto.
Leones e Flávio Carneiro: reação às ponderações de Felipe Pena
O post de ontem, reproduzindo trechos da entrevista concedida pelo escritor, jornalista e professor Felipe Pena ao Prosa On Line, recebeu um duro comentário do também escritor André de Leones. "Essa conversa fiada sobre 'hermetismo' já bateu no teto. Cada um escreve como pode, não como quer. E se os autores contemporâneos são pouco lidos é porque a joça do sistema educacional brasileiro está falido e só forma analfabetos", argumentou o André.
Meu ex-professor e hoje dileto amigo Flávio Carneiro, autor de No país do presente – Ficção brasileira no início do século, também se manifestou. Ele me enviou um comentário mais longo, que, para enriquecer o debate, reproduzo a seguir.
"A entrevista do Felipe Pena é interessante por dois motivos. Primeiro, porque traz a público um tema importante: o papel da universidade na formação de leitores no país. E não só da universidade como também dos escritores que estão fora dela. É sem dúvida um bom tema e que deveria ser debatido.
Segundo, porque mostra também outro problema: o completo despreparo de quem sai falando sobre ficção brasileira sem saber o que diz. Você não precisa ser professor, crítico nem nada para falar o que pensa, mas precisa, no mínimo, conhecer um pouco do que está dizendo. Essa generalização, como a que o Felipe Pena faz na entrevista, é não apenas ridícula como perversa. De quem ele está falando?
Acho que esse tema pode ser interessante. Não concordo com essa estratégia (nem sei se é de fato uma estratégia dele, o Felipe, que nem conheço), essa coisa de sair disparando besteira pra chamar a atenção, mas talvez essas coisas que ele diz na entrevista possam ser legais pra gente começar um papo bom, não sei.
Teve inclusive aquele artigo do Gustavo Bernardo no último Prosa & Verso, que pode ajudar nessa discussão, quer dizer, há vida inteligente dentro da universidade, ao contrário do que diz o Felipe, e, claro, dentro do grupo de escritores atuais também".
Em uma entrevista intrigante (e em muitos apectos provocadora) publicada nesta semana no blog do Prosa On Line, o professor, jornalista e escritor Felipe Pena critica duramente a "mercantilização do saber" nas faculdades privadas e o "hermetismo" dos escritores brasileiros contemporâneos, os quais classifica de "chatos, herméticos e bestas".
Felipe se prepara para lançar o livro O analfabeto que passou no vestibular (7Letras), que anuncia como um "romance-denúncia sobre o ensino superior no Brasil. Na entrevista, ele afirma não ter dúvidas de que "são os mestres e doutores que prejudicam a formação de um público leitor no país". "A linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores universitários se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. As teses e dissertações seguem regras rígidas justamente para garantir essa perpetuação de poder. E isso se reflete na literatura", argumenta.
A avaliação da atual produção literária não é menos dura. Felipe defende que "a literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura", já que os autores "não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual". Segundo ele, nossos escritores "escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade literária". Mais: "Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada".
Leia a íntegra da entrevista aqui.
No próximo sábado, às 11h30, vou participar do evento Livros na Mesa ao lado da escritora Nilza Resende, a autora Um deus dentro dele, um diabo dentro de mim. O tema do encontro, que acontecerá na Estação das Letras (Rua Marquês de Abrantes, 177 – Salas 107 e 108), será Leituras do conto contemporâneo.
Antes, às 10h30, rolará uma troca de livros usados. Conto com a presença de vocês.
Saúdo a classificação do samba-enredo composto pelos amigos Alberto Mussa e Luis Antonio Simas (com Edgar Filho, Gari Sorriso e Bené) entre os seis finalistas na disputa do Salgueiro para o carnaval de 2009. O belíssimo hino, fiel aos moldes clássicos do samba-enredo e para o qual já bati meu tambor aqui, merece a vitória.
Com O filho eterno, Cristóvão Tezza acaba de ganhar o Prêmio Jabuti 2008 na categoria Melhor Romance.
Merecidíssimo.
P.S. Na época em que li, fiz alguns apontamentos sobre o livro aqui no Pentimento.
"Minha dica é a exposição de fotos de Alécio de Andrade, abrangendo 40 anos de atividade do fotógrafo carioca que se radicou em Paris. Entre 1970 e 1976, o brasileiro foi convidado pelo mestre Henri Cartier-Bresson a fazer parte da agência Magnum. Ainda podem ser vistos na exposicao um poema de Drummond, um depoimento do pianista Alfred Brendel, uma carta de Julio Cortázar e cartões postais de Cartier-Bresson dedicados a Andrade. A mostra está em cartaz no Instituto Moreira Salles (RJ). Imperdível!"
* Música, DJ e poeta. Autora de Videoverso (7Letras)
A antologia Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio, organizada há quatro anos por mim e pelo Flávio Izhaki, é uma das obras dissecadas no livro Contemporâneos: Expressões da literatura brasileira no século XXI (Casa da Palavra), que a professora e crítica Beatriz Resende lança hoje, a partir das 19h30, no Cinematheke Jam Club.
Além do Prosas e, conseqüenemente, de seus participantes, Beatriz analisa o trabalho de autores como Paloma Vidal, Bernardo Carvalho, Daniel Galera, Santiago Nazarian, Maira Paula, Ana Paula Maia e Joca Terron, entre outros. Ao lado do fundamental No país do presente – Ficção brasileira no início do século, de Flávio Carneiro, o livro da Beá vem nos ajudar a compreender melhor a atual produção literária brasileira.
O Cinematheke fica na Rua Voluntários da Pátria, 53 - Botafogo.
Hoje, a partir das 18h, o amigo Marcelino Freire lança Rasif - Mar que arrebenta na livraria do Cine Odeon. Ilustrado com belas gravuras de Manu Maltez, o livro traz 17 contos que reiteram as marcas da literatura do Marcelino: a contundência e um lirismo extremamente singular. Que nasce da aspereza, da degradação. Da merda, enfim.
Segue um trecho de Para Iemanjá, um dos textos que integram a seleta, editada pela Record.
"Para Iemanjá"
Marcelino Freire
"Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo, esse breu. Peixes entulhados, assassinados. Minha Rainha.
Não são oferenda essas latas e caixas. Esses restos de navio. Baleias encalhadas. Pingüins tupiniquins, mortos e afins. Minha Rainha.
Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca. Essas flores de bosta. Não mijei na tua praia. Juro que não fui eu. Minha Rainha.
Oferenda não são os crioulos da Guiné. Os negros de Cuba. Na luta, cruzando a nado. Caçados e fisgados. Náufragos. Minha Rainha.
Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha.
Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo. Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão. Minha Rainha.
Se a minha esperança é um grão de sal. Espuma de sabão. Nenhuma terra à vista. Neste oceano de medo. Nada. Minha Rainha. (...)"
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Flávio e Miguel debaterão o conceito de geração literária
Amanhã, às 14h30, os amigos Flávio Izhaki e Miguel Conde vão participar da terceira edição carioca da Flap! Ao lado da poeta Viviane Mosé e da professora Heloisa Buarque de Hollanda (mediadora), eles estarão o painel Geração Espontânea, que pretende debater o conceito de geração em literatura. "Quem as define, o que as difere?", "Há validade nesses rótulos?" são algumas das questões que irão nortear a discussão.
A exemplo do ano passado, a Flap! acontecerá na PUC-Rio. Os demais painéis reunirão autores (e críticos) como Paulo Henriques Britto, Eucanaã Ferraz , Beatriz Resende, Alice Sant'Anna e Omar Salomão. Confira a íntegra da programação aqui.
* O site Click (In) Versos acaba de colocar no ar a entrevista feita com o Flávio (foi de lá que tirei esta foto aí em cima, cujo crédito é de Tomás Rangel). Leia a entrevista aqui.
Um bom motivo para dedicar o sábado a um passeio pelo velho Centro da Rio, mais especificamente a Rua do Ouvidor e seus arredores: o lançamento do livro Quando a bola era redonda, que vai rolar das 11h às 15h na Folha Seca (Rua do Ouvidor, 37), a livraria afetuosamente comandada pela Dani e pelo Rodrigo.
A publicação reúne crônicas de Ivan Soter, autor que já lançou, pela própria editora da Folha Seca, o Almanaque da Seleção. Como se pode prever, o textos do novo livro transitam pelo universo do velho esporte bretão. É a bola, estrela maior do futebol, quem aparece como a grande protagonista. E, segundo me garantiu o Rodrigo, a redonda é tratada “a la Zizinho” – ou seja, com o requinte e a categoria dos craques.
As crônicas contam histórias de gente como Ademir, Tesourinha, Rubens Salles, Marcos de Mendonça, Garrincha, Barbosa, Doutor Rúbis, Danilo, Didi, Nílton Santos, Oberdan, Zagallo, Dida, Tostão, Pelé, Gentil Cardoso, Flávio Costa e Fleitas Solich, João Havelange e Paulo Machado de Carvalho. Histórias que acontecem dentro e fora do campo.
Também estão no livro Luiz Mendes, Mário Filho e Nelson Rodrigues (ave, mestre!), entre outros personagens reais que dividem espaço com as reminiscências do autor. Doces (ou amargas) lembranças da infância, muitas vezes envernizadas pela ficção que toda memória individual enseja.
A tíítulo de 'aquecimento', publico abaixo um dos textos que integram a publicação.
O verão de 51
Ivan Soter
"Convivemos com o fantasma da Copa de 50, a nossa maior decepção esportiva. Bem maior do que a da Copa de 82. Esta, por ser mais recente, toca mais os corações brasileiros. A outra está na história, mas chegará o dia em que a de 82 será também uma reminiscência. Em ambos jogos decisivos – o contra o Uruguai em 50 e o contra a Itália em 82 – precisávamos de um empate e não conseguimos. Nesses dois momentos, o Brasil tinha times poderosíssimos, provavelmente superiores aos dos adversários. Paulo Perdigão, o mais importante cronista do Maracanazo, que é como os uruguaios apelidaram a vitória de 2 a 1 sobre o Brasil, concluiu que, se o Brasil tivesse ganhado, ninguém se lembraria do “16 de julho”. A perda deu dimensão à data. Para reforçar o seu argumento, perguntou-me se eu sabia o dia da conquista do penta. Não, não sabia dizer exatamente. E do tetra? E do tri?
Também não me lembrava. E do bi? Idem. E da vitória na Suécia? Envergonhado, por ser uma pessoa que acompanha os dados e fatos da Seleção, e por ter escrito livros sobre o nosso selecionado, confessei que, de cabeça, só me recordava do “16 de julho”. Parreira reclamou que se falava muito sobre o dia da derrota para o Uruguai e nunca era citado o dia em que o Brasil ganhou o tetra.
Eu era um garoto quando o Brasil foi derrotado no Maracanã. Não morava no Rio, aonde só ia nas férias. Nessa oportunidade, me inteirava das músicas de carnaval, dos filmes de carnaval, dos clubes onde pularíamos o carnaval, das fantasias que seriam usadas no carnaval e das coisas que não existiam em Porto Alegre, como os fantásticos botões feitos com casca de coco. Mas o que eu mais gostava, depois do carnaval, eram as piadas. Quem me atualizava nessas conversas que rolavam na Corte eram os meus primos Marcos e Edith. Então, nas férias de 51, aprendi uma anedota sobre a derrota na Copa do ano anterior.
Terminado o jogo, o técnico Flávio Costa, com medo do povo, procurou um disfarce para abandonar o Estádio (era assim que o Maracanã se chamava: Estádio, simplesmente). Conseguiu uma peruca e um vestido. Pronto, o disfarce estava quase perfeito. “Vestido de mulher” é como os que não gostam de Brizola dizem ter ele fugido dos militares no Sul. Na verdade, Brizola escapou fardado de brigadiano, mas a versão “vestido de mulher” é mais engraçada. Pois foi dessa forma que Flávio, um precursor sem dúvida, pretendia dar no pé. Entretanto, o técnico não considerou o disfarce ainda completo. Talvez por causa do bigode, que denunciava o velho “Alicate” por detrás. Ou das pernas cabeludas e tortas (daí o “Alicate”).
Ele ia escapando de fininho, encobrindo o bigode e as pernas do jeito que dava, quando a sorte lhe sorriu. Passava a seu lado uma senhora com o filhinho no colo. As senhoras com filhinhos no colo são mais suscetíveis aos dramas humanos. Flávio se chegou, com a mão em concha, bem perto do ouvido da mãe: “Minha senhora, eu sou o Flávio Costa. O povo está a fim da minha pele. Pelo amor de seus filhinhos (expressão mais tarde adaptada por Sílvio Luiz) me empreste a criança para que eu possa dar maior veracidade ao meu disfarce”. A boa mãe, condoída com a desgraça do treinador, não se fez de rogada, entregando-lhe a criança. Flávio, todo sem jeito, foi carregando o petiz no colo. Ninguém desconfiou do bigode e das pernas arqueadas e cabeludas. Era uma mãe e devemos respeitar as mães, mesmo bigodudas e de pernas tortas. O técnico conseguiu entrar em um apinhado ônibus. Estava salvo!
Engano, triste engano. A criança começou a chorar de fome dentro do ônibus. Todos se viraram para aquela estranha mãe. “Por que ela não dá de mamar a esse infeliz para ele parar de berrar?”, perguntaram entre si. Flávio começou a suar frio. Mas a sorte parecia ter-lhe sorrido de novo. Dois bancos adiante (Flávio estava em pé), encontrava-se uma negona de seios fartos, típica mãe de leite dos tempos da escravidão. Mais uma vez Flávio acreditou na solidariedade feminina. Chegou-se, com a mão em concha e com a velha conversa: “Minha senhora, eu sou o Flávio Costa. O povo está a fim da minha pele. Essa criança berrando desse jeito chama atenção e vão logo descobrir a minha verdadeira identidade. Por favor, com esses peitões avantajados a senhora tem todos os recursos para satisfazer a criança. Se não tiver leite aí, o menininho poderá ficar se divertindo até a hora de eu saltar”. A negona olhou para cima, com cara de poucos amigos e fulminou: “Te vira Flávio. Eu sou o Bigode”.
Essa exemplar historinha, colhida no calor da derrota brasileira, derruba o mito de que o grande e único vilão tenha sido o Barbosa"
No carro do meu pai, ao lado dos Nelson Gonçalves, dos Altemar Dutra, dos Roberto Ribeiro, morava uma fita cassete do Freddy Cole. Adorava ouvi-la. Lembro-me de que a fita era azul piscina, com um projeto gráfico meio cafoninha, e de que, salvo engano, trazia umas músicas brasileiras ao lado dos naturais standards norte-americanos. Meu pai me dissera que ele era irmão do Nat King Cole, este bem mais famoso. Do Nat, já naquela época, já havia ouvido falar.
Lembro-me também que Freddy tinha uma voz aveludada (como a do irmão). Não estou certo, no entanto, é se naqueles anos era tão pequenina como hoje. Porque ontem à noite, ao reencontrá-lo depois de tanto tempo no Programa do Jô, fiquei admirado: a voz está frágil, dá a impressão de que não vai sustentar os versos do início ao fim.
Só que parece ciente disso, então não força a barra. Pelo contrário: contorna essa fragilidade com uma interpretação minimalista, de fraseado absolutamente perfeito. Pela voz mais áspera (rouca?) e pela própria imagem, ele me remeteu ao excepcional Bola de Nieve, músico cubano que integra a minha lista de pianistas prediletos.
Me comovi com as novas cores que Freddy deu, ontem, à batidíssima Unforgettable. É claro que o arranjo classudo, centrado nas cordas do piano, do violão e do baixo acústico, ajudou. Mas foi a voz do cantor que tirou as gorduras sentimentais da canção. Que lhe deu insuspeito frescor. Que me fez enxergar de novo a beleza de sua melodia, afogada pela repetição e por orquestrações demasiadamente açucaradas. Foi um afago antes do sono.
Freddy se apresenta amanhã no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Queria estar lá.
O blog Prosa On Line publica hoje um trecho do novo romance que o Flávio Izhaki, meu dileto amigo e escritor dos bons, está preparando. O texto, intenso e sofisticado como costuma ser a prosa do Flávio, acende a expectativa de mais um ótimo livro (a exemplo do primeiro, cuja orelha mui orgulhosamente assinei).
Leia o trecho inédito aqui. Recomendo.
A Livraria Da Conde promove, de hoje a sexta-feira, a Semana Machado de Assis. As atividades começam com a palestra do escritor Luiz Antônio Aguiar, autor do livro Almanaque Machado de Assis, que acontece às 19h30. Amanhã, os amigos Alberto Mussa e Tatiana Salem Levy estarão lá na mesma hora para falar sobre os contos de Machado que os dois recriaram para uma antologia comemorativa recém-publicada pela Editora Record.
Na quinta, às 19h30, haverá um bate-papo com Monique Goldfeld e Silvana Jeha, que integram a equipe de Pesquisa Documental e Iconográfica da mostra Mas este capítulo não é sério, em cartaz no Museu da Língua Portuguesa (em Sampa). Finalmente, na sexta (20h) haverá a exibição do filme Memórias póstumas, dirigido por André Klotzel e baseado no célebre romance em que Bras Cubas narra sua história.
A Livraria Da Conde fica na Rua Conde de Bernardote, 26 - Loja 125 -, no Leblon.
O Prosa & Verso de sábado passado trouxe, na capa, mais uma ótima matéria assinada pelo Miguel Conde. A reportagem coloca em discussão a 'abertura' de algumas faculdades de letras, que passaram a aceitar peças ficcionais como tese de mestrado ou doutorado.
Em anexo ao texto principal, há um excelente artigo do professor Gustavo Bernardo, da Uerj. Indo além do assunto em questão, Bernardo faz uma acurada (e corajosa) análise da relação entre a Academia e a literatura. Reproduzo o artigo a seguir.
“A ficção da tese”
Gustavo Bernardo
“A literatura é mais importante do que a música, a pintura, o teatro e as demais artes.” É mesmo? Dito assim, parece absurdo — e é. No entanto, trata-se de uma das premissas da escola. A condição de arte eminentemente verbal empresta à literatura prioridade no currículo, na carga horária, nos exames, no corpo docente. Essa prioridade, todavia, nem sempre faz bem à literatura.
Para transformá-la em uma disciplina “como as outras”, ensina-se literatura para se ensinar ou história ou língua ou cultura ou até mesmo patriotismo, escamoteando-se o seu caráter artístico.
“A literatura é apenas um objeto de estudo.” Bem, talvez. Dito assim, já não parece tão absurdo quanto a sentença anterior. Se a literatura é uma disciplina como as outras, então ela é um objeto de estudo como os outros. No entanto, se a literatura é arte, parente muito próxima dos mitos e das religiões, então ela é menos um objeto de estudo do que uma morada existencial. De modo bem diverso das demais disciplinas, a literatura pode se tornar apaixonante tanto à razão quanto à emoção de uma pessoa. Por quê? Porque ela deliberadamente suspende a realidade a um nível ao mesmo tempo íntimo e superior — superior porque fruto assumido da invenção humana. Nessa perspectiva, uma reflexão sobre a literatura que preserve a paixão original exige menos fazer teoria da literatura do que buscar a teoria na literatura.
Devo abdicar de controlar a literatura com minhas categorias lingüísticas ou históricas para deixar emergir seu enigma sem resolve-lo — sem destruí-lo. “Quantos de nós começamos a fazer Letras, a estudar literatura, porque gostávamos de ler e sobretudo de escrever?” Puxa, precisava lembrar disso? Dirigida aos profissionais da literatura na escola, essa pergunta não é absurda, mas sim incômoda. Porque a sua resposta é: muitos, quiçá a maioria. E porque ela gera uma outra pergunta: quantos de nós paramos de escrever já na faculdade ou pouco depois, quando começamos a dar aula? A resposta à segunda pergunta é igual: muitos, quiçá a maioria. Isso acontece, talvez, porque transformamos o objeto da nossa paixão em apenas um objeto de estudo, supondo que assim dominaremos seu enigma. O preço a pagar é alto: a literatura deixa de ser arte para nós e nossos alunos e se torna uma “matéria” (na melhor das hipóteses, chata).
No entanto, há resistências.
Há professores e escolas e universidades que não esquecem que a literatura é antes de tudo arte: desafio e enigma, paixão e ilusão. Isso acontece em vários níveis — por exemplo, quando uma pós-graduação em literatura aceita um trabalho de ficção como tese. Essa proposta, como demonstram os finalistas do Jabuti e do Portugal Telecom, costuma ser bem sucedida, gerando trabalhos de ficção ousados e conseqüentes porque frutos do diálogo tenso com a reflexão acadêmica. Isso se chama: produção de conhecimento e de cultura.
Mas há quem não concorde — talvez alguns daqueles que se esqueceram do porquê quiseram estudar literatura.
Argumentam que um trabalho de ficção não é um trabalho científico, como se todo trabalho científico não fosse sempre um trabalho de... ficção. A hipótese científica é sempre uma suposição, um “como se” fosse para ver se pode ser assim mesmo. A estrutura discursiva da literatura stricto sensu difere da estrutura de um tratado de Física, mas o princípio do “como se” anima ambos os discursos.
Por isso, mesmo em termos de teoria do conhecimento, mesmo em termos epistemológicos, não procede a resistência a trabalhos de ficção como tese de pós-graduação em literatura. Não procede, mas se explica: explica-se pela dificuldade óbvia, reconheço, de orientar e avaliar um trabalho de ficção, quando os critérios se tornam bem menos seguros. Todavia, há critérios: os mesmos que utilizamos para distinguir se uma obra literária é menor ou maior, se é obra-prima ou não. Ainda há outra explicação, que reluto em escrever mas escrevo: ressentimento.
Se abandonei minha paixão no início do caminho para conquistar minha posição acadêmica, como esse fedelho que não deu todas as aulas que já dei e não corrigiu todas as provas que já corrigisse atreve a fazer da sua tese um romance, enquanto eu larguei meus poemas em passado remoto? Puxa, também não precisava ofender. Colegas, calma, não se ofendam tão rápido; eu sei que essa carapuça não serve a todas as cabeças, há tantos outros motivos para resistir à arte na academia. Mas nós sabemos que ela serve sim em algumas cabeças: aquelas que justificam o ditado popular nefasto que nos persegue, até porque não de todo falso: “quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. Por isso, há que continuar fazendo — fazendo arte! — para dar o melhor exemplo a nossos alunos; da mesma forma, há que continuar estimulando quem faz — arte! — para recuperar não apenas para a literatura, mas também para o magistério, a sua condição original de... arte”.
1. Quando cursava pós-graduação em Comunicação e Imagem na PUC, fiz uma disciplina chamada Imagens e representações do Brasil. Nas aulas, de caráter antropológico, a professora Maria Cláudia Coelho se valia essencialmente do cinema: a idéia era mapear, através de filmes brasileiros, as tais "imagens e representações" do país.
Durante o curso, assistimos a Rio 40 graus e Bye bye Brasil, entre muitos tantos clássicos que ajudam a entender as feições desse cadinho tão singular da América do Sul. Mas todos os alunos ficaram surpresos quando Maria Cláudia anunciou que iria exibir Eu sei que vou te amar, do Arnaldo Jabor.
O flagrante intimismo do filme não parecia condizer com uma “imagem do Brasil”. Não havia favela, samba, nem sequer “povo” (esta entidade complexa) na história do reencontro, eivado de ofensas e mágoas, entre as duas partes de um casal recém-separado. Então compreendemos: aqueles dois – um homem e uma mulher de classe média, com hábitos refinados, formação intelectual etc. – também engendravam um retrato do país.
2. Lembrei disso no sábado, enquanto conversava (e dividia uma cerveja) com o amigo Fernando Molica. Falávamos sobre uma matéria veiculada no site da revista Bravo!, que de certo modo repercute a reportagem de capa do Prosa & Verso sobre as Escritas da delicadeza. Em resumo, o que os dois textos – o da Bravo! e o do Globo – questionam é se a influência de Rubem Fonseca (com sua narrativa realista, a temática urbana, a inflexão na violência como denúncia social) ainda se impõe entre os escritores das novas gerações.
Na verdade, nem sei se esse espectro é (ou foi) assim tão forte. Como disse ao Molica, talvez o recorte feito pela absoluta maioria dos nossos suplementos culturais é que tenha ajudado a disseminar esse juízo, e acabado por nublar, ao menos durante algum tempo, a presença de autores cujo trabalho tem registros distintos. Fiéis ao espírito que os rege, os jornais tendem a priorizar pautas (ou livros) cujas tramas se centram nas questões sociais do país. Lamentavelmente - e isso é mais geral do que os suplementos -, o intimismo muitas vezes é visto como “alienado”, numa perspectiva que se dá conta do efeito fortemente político da literatura quando ilumina áreas eclipsadas daquilo que nos é apresentado como real inelutável.
3. Há alguns meses, o João Paulo Cuenca escreveu um interessante artigo no Babélia, o suplemento literário do El País. Cuenca responde, no texto, à provocação que lhe foi feita certa vez durante um congresso no exterior. “Não seria imoral que um escritor no fuja de seu país, da violência de seu país?”, perguntou-lhe alguém. O fato de ser um autor brasileiro colava imediatamente na pele os temas que “deveriam” ser objeto de sua obra. Ou que se esperava que fossem. Como se estivesse interditado a um escritor originário de um país subdesenvolvido criar, por exemplo, uma história de amor sem que se desenrolasse sob a sombra da carência financeira ou da violência.
“Nos meus romances e contos ninguém nunca sentiu fome. Além disso, ninguém jamais disparou um tiro em uma favela”, respondeu Cuenca ao interlocutor. Nem nos meus, acrescentaria. E sou um autor brasileiro. E nossos livros (os meus, os do Cuenca e os dos demais escritores) são, sim, imagens do Brasil. Assim como Rio 40 graus e Eu sei que vou te amar.
O amigo Marcelino Freire me ligou há pouco para avisar que no próximo dia 22, uma segunda-feira, muita cerveja vai rolar. Explico: nesta data, ele lançará no Rio seu novo livro, Rasif - Mar que arrebenta, que sai pela Record. Os trabalhos começam na livraria do Cine Odeon e seguem pelos bares da cidade.
No dia seguinte (23), a festa será para Beatriz Resende, que promove o lançamento de seu Contemporâneos: Expressões da literatura brasileira no século XXI no Cinematèque Jam Club. O livro, editado pela Casa da Palavra, reúne ensaios da autora sobre alguns dos escritores que despontaram na cena nacional a partir dos anos 1990.
Mais detalhes sobre os dois lançamentos em breve.
A poeta Paula Cajaty lança hoje na Livraria Argumento do Leblon o seu primeiro livro. Editado pela 7Letras, Afrodite in verso reúne 58 poemas que, como observa Marco Lucchesi, “refletem a delicadeza de ver e interpretar o mundo. Quando não, o desejo de modificá-lo, sob a forma de uma esperança longa e arredia”.
O lançamento acontecerá a partir das 19h30. E eu estarei lá para prestigiar a Paula, que agora se dedica também à prosa: ela é uma das alunas da oficina de contos que atualmente coordeno na Estação das Letras.
A amiga Cláudia Roquette-Pinto acaba de estrear na blogsfera com seu Oui! à l'inspiration. No espaço, a poeta dá lugar à prosadora, através de pequenas crônicas que se fazem acompanhar por suas incursões pelo mundo da pintura. O blog entra hoje mesmo para a relação de links indicados aqui no Pentimento.
"É muito bom ver um escritor jovem surgir com força e fôlego criativo. A empolgação e falta de compromisso contagiam e me dão vontade de escrever coisas tão interessantes e divertidas quanto aquele neófito das letras que arrebatou minha atenção com suas palavras tão bem postas uma após a outra. É claro que o cara não é neófito nem nada, pois todo bom escritor traz consigo uma bagagem de referências literárias, culturais e cotidianas, além de muitas leituras que logo aderem aos seus textos. Esses sentimentos revigorantes, tenho tido ultimamente ao acessar o blog Querido bunker, do jovem e cínico rapaz, virgem de publicações, Márcio Nazianzeno de Freitas.
Em sua página, Márcio nos brinda com seu humor fácil, suas análises nada sóbrias e ficções que flertam com o absurdo e a completa falta de noção. Foi ele que me apresentou às namoradas robôs, a um insólito festival de filmes pornô e deu dicas preciosas e impossíveis de sobreviver à lei seca sem precisar parar de beber. Campos de Carvalho, Douglas Adams e todos os Monty Phythons continuam vivos nos posts dos rapaz. Woody Allen também costuma dar o ar da graça, mantendo-se vivo, não só literalmente, mas também como notável influência. Para mim, esse ilustre representante da blogosfera que nos envolve tem se tornado uma fonte da juventude criativa onde tenho ido beber. É sangue novo e bom. Acessem. Divirtam-se!"
* Escritor, autor dos livros 'Verão veraneio – Crônicas de uma cidade ensolarada' (crônicas) e 'É tudo mentira! – Histórias inverídicas de um autor falso e gingido' (contos), ambos pela editora Jovens Escribas. No fim deste ano, vai lançar 'Mano Celo – O rapper natalense' (crônicas)
"A casa"
Cesare Pavese
"O homem só escuta a voz calma
com os olhos semi-cerrados, como se um hálito
lhe roçasse o rosto, um hálito amigo
vindo, incrível, dos tempos idos.
O homem só escuta a voz antiga
que os seus pais outrora ouviram, clara
e recolhida, uma voz que como o verde
dos pântanos e das encostas escurece ao anoitecer.
O homem só conhece uma voz de sombra,
acariciante, que brota nos tons calmos
de uma fonte secreta: bebe-a absorto,
de olhos fechados, e não parece tê-la ao seu lado.
É a voz que um dia parou o pai
do seu pai, e todos os do sangue morto.
Uma voz de mulher que ecoa secreta
no umbral da casa, ao cair da noite"
O poeta Cesare Pavese, se vivo, completaria 100 anos hoje.
Não sei se vocês sabem, mas estou ajudando o bravo Chiquinho Genu a organizar o livro comemorativo dos 40 anos do Bip Bip. Comecei a fazer a revisão dos textos, escritos por freqüentadores e amigos do bar, na sexta passada. E desde então não foram poucas as vezes em que me emocionei.
O Bip é, definitivamente, um lugar diferente. Parafraseando Maiakovski, é um boteco de louca anatomia: todo coração. E pelo visto o livro vai espelhar isso. Não é pouca coisa.
A revista Bravo! que acaba de chegar às bancas (edição de setembro) traz um conto de minha lavra, até então inédito, e que fará parte de meu próximo livro. A história de Jogo-contra foi belamente editada, com ilustrações bacanudas de Mário Proença. Posto, abaixo, o trecho inicial do conto.
Aliás, aproveito para informar que o blogueiro convidado deste mês no site da revista é o amigo Paulo Roberto Pires. Quem quiser matar saudades dos textos do Paulo, ausentes da internet desde o fim do No Mínimo, pode acessar o blog aqui.
Jogo-contra
Marcelo Moutinho
1. Primeiro jogo
Havia acabado de chegar do colégio quando Naldinho chamou pelo interfone: está marcado, sábado, às onze. “Contra quem? Onde? E as camisas?”, eu mastigava as palavras com a afobação de quem começa a estrear nas coisas, e Naldinho respondeu que sim, as camisas estavam em cima, seu José tinha garantido, e a gente iria enfrentar o Estrela no Campinho na Rua Dois, que era lugar neutro.
Aquele seria o primeiro jogo-contra do time do prédio e quase não almocei de tão nervoso. “Que foi? Está sem fome? Tem bolo de batata”, as interrogações da mãe ecoavam pelos cômodos da casa, mas não consegui dar nem um balbucio e voei para o quarto. Era preciso me concentrar.
Depois soube que, além de mim, o time formaria com Zezin no gol, Magrão e Rodrigo Pêlo na zaga. Naldinho, nosso craque, vestiria a dez. “Fica paradão na frente. Você está pesado e lá ao menos segura a defesa deles”, ele orientou, e na verdade pouco importava, eu queria era jogar.
Nos dois dias seguintes, o tempo se esticou como se, nas horas, pudessem caber mais do que os habituais sessenta minutos. Almocei, dormi, estudei, conversei e jantei o jogo, repassando os dribles e chutes que me dariam um brilho novo, inédito diante dele. (...)
A primeira-dama do samba, Dona Ivone Lara, e seu grande parceiro Délcio Carvalho - ambos imperianos da mais nobre estirpe - fazem show hoje e amanhã no Teatro Rival. No repertório, estarão algumas dos maiores sucessos da dupla, como Acreditar, Minha verdade, Alvorecer e Pra afastar solidão. "O público do Rival pode esperar nossos sucessos, mas sambas inéditos também", adianta Dona Ivone.
Curiosamente, a parceria entre os dois bambas começou num momento de tristeza para o mundo do samba. Foi no 20 de maio de 1972, quando eles compuseram Derradeira melodia, prestando um tributo a Silas de Oliveira, que acabara de falecer. Os espetáculo de hoje de amanhã estão marcados para 19h30.
P.S. Falando no Délcio, ele mantém um site próprio, com informações sobre sua vida e obra, além de partituras de suas músicas e uma agenda atualizada. Confira aqui.
É pena: Que a presença opressiva de Marisa Monte quase estrague o filme. Que Marisa Monte soe tão professoral (seja quando, caminhando com Paulinho da Viola pelas ruas de Osvaldo Cruz, faz longos intróitos antes de cada pergunta ao compositor, numa quebra flagrante do clima ‘descontraído’ que as imagens do passeio ensejam; seja quando, numa conversa com as pastoras da Velha Guarda, tente analisar ‘a condição feminina nos primórdios do samba’, numa dissertação deslocada que Tia Surica desmonta numa frase curta e grossa: “nosso lugar era o fogão”). Que Marisa Monte apareça até em contra-planos silenciosos nos quais são os membros da Velha Guarda que falam. Que os diretores tenham usado Zeca Pagodinho como chamariz de público (a ligação dele com a Velha Guarda não é atávica como a de Paulinho, por exemplo), quando as estrelas do documentário deveriam ser outras.
É bacana: Ver que Monarco canta hoje ainda melhor do que no passado. Ver as anotações e ouvir trechos de antigas gravações em fita cassete do grande Manacéa. Ver Seu Argemiro falando sobre a solidão e concluindo que é nessas horas que a mulher mais importa (“Nem que seja pra brigar”). Ver o mesmo Argemiro perguntar o que significa e como se pronuncia a palavra “âmbito” e, em seguida, revelar que quer fazer um samba que contenha tal expressão (a sonoridade como princípio, pois não?). Ver Argemiro narrar também a surpresa que experimentou, no passado, ao entender que “copular” significa fazer sexo (“Então eu disse na hora: Agora, vou para casa copular com minha mulher”, brinca ele). Ver a montagem esperta, cheia de rimas visuais e lindos planos de detalhe, que ‘informam’ sobre os membros da Velha Guarda através de seus objetos pessoais e de suas moradias. Ver Marisa Monte em plena atuação durante a pesquisa que deu origem ao disco Tudo azul: ela leva trechos de sambas nunca gravados para que a Velha Guarda os complete. Ver Seu Argemiro contando que um dia Chico Buarque e Vinicius de Moraes lhe pediram para compor uma samba sobre uma garrafa, ele recusou, mas foi para casa e escreveu a resposta em forma de melodia e versos (“Somente escrevo o que sinto / Culpada é a minha inspiração...). Ver Tia Eunice ensinando o ‘miudinho’ para as crianças na quadra as Portela. Ver que Casquinha compôs Amor interesseiro (com Bubu) em 'homenagem' à Surica, com quem tinha um caso (ela o havia traído). Ouvir tantos lindos sambas.
É excepcional: saber que existe a Velha Guarda da Portela.
Ao saber que sete municípios no nordeste do estado de Minas Gerais seriam inundados para a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Irapé, no leito do rio Jequitinhonha, os fotógrafos mineiros João Castilho, Pedro David e Pedro Motta decidiram retratar literalmente a decomposição da memória. Ou seja, o processo de demolição das casas e de transferência de cerca de 1.100 famílias que se viram obrigadas a mudar-se para outras cidades.
O resultado desse trabalho foi personificado no livro Paisagem submersa, editado pela Cosac Naify. Trata-se, como os três autores bem definiram pegando emprestada uma expressão de Chuck Samuels, de um “documentário imaginário”, pois a objetividade é deliberadamente invadida pelo olhar poético e subjetivo de quem captou as imagens. Como se, ao focar naquilo que fica (ao menos momentaneamente), apreendessem também a sombra do que se esvaece.
As fotos ora mostram as pessoas carregando seus objetos pessoais, como malas, antigos rádios ou mesmo uma porta, ora contemplam a paisagem em sua grandeza (e em seu vazio), num contraste lúdico – e meio triste – entre indivíduo e natureza. De certo modo, elas configuram ainda um ensaio sobre a partida, e a dor que o desapego engendra quando abrupto e compulsório.
Algumas das imagens, que têm uma beleza realmente singular, podem ser vistas no site do projeto.
"Pássaros, enterros simbólicos, violinos, perguntas: 'Aonde vai o amor quando o amor acaba?' Reflexões sobre uma época em que 'todos dançam a mesma dança'. Um senador americano que recomenda às conterrâneas que carreguem armas em suas bolsas. Uma ex-governadora texana que responde: 'Não sou sexista, mas não existe uma mulher no Texas capaz de encontrar uma arma em sua bolsa'.
Isso e mais num show preciso, denso e íntimo (não adianta fingir que não é com você), que afaga e sacode, que é performance, música, poesia e política – tudo do bom e do melhor.
Laurie Anderson estará no Sesc Pinheiros, em São Paulo, nos dias 5 e 6 de setembro, com Homeland.
Quem estiver longe demais de lá, apanhe Nenhum olhar (Ed. Agir), do José Luis Peixoto. Garanto que ficará em excelente companhia".
* Escritora e dramaturga, autora do livro 'Nuvens de Magalhães' (ed. Mercado Aberto) e das peças 'Calamidade', 'Três vias' e 'Dois pajens'. Seu segundo romance, 'Suíte Dama da Noite', será lançado pela editora Record.
Recado aos amigos que moram em São Paulo: na próxima sexta-feira, a Velha Guarda do Império Serrano (minhas reverências...) vai se apresentar no Bar Samba. O repertório do espetáculo, centrado no cd lançado pela Biscoito Fino, incluirá sambas de terreiro como O Império tocou reunir, Menino de 47, Obsessão, Serra dos meus sonhos, Amor aventureiro e Triste destino, e deve passar também pelo jongo, com composições como Tava doente e Vapor da Paraíba.
O show grupo formado por Zé Luiz, Tia Nina, Tia Balbina, Lindomar, Silvio, Capoeira, Cizinho, Ivan Milanez, Fabrício, Wilson das Neves e Aluisio Machado será às 22h, e o Bar Samba fica Rua Fidalgo, 308, em Vila Madalena.
Mas as atividades em Sampa não páram por aí. No sábado, a Velha Guarda estará na quadra da tradicional Sociedade Rosas de Ouro, para participar do projeto Roda de Samba e Feijoada na Roseira, levando mais uma vez aos paulistanos pérolas de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Mestre Fuleiro, Nilton Campolino, Molequinho, Avarese e Mano Décio da Viola, entre outros. Os trabalhos começam às 13h, e a quadra se localiza na Rua Coronel Euclides Machado, 1066, na Freguesia do Ó.
Olho nela: chama-se Alice Sant’Anna, tem 20 anos e acaba de lançar sua primeira seleta de poemas, Dobraduras, pela editora 7Letras. Comprei o livro ontem, depois de visitar o blog da moça e de ter gostado bastante do que vi por lá.
A influência da Ana Cristina César é evidente. Assim como os poemas de Ana C., os versos brancos de Alice são despojados e repletos de imagens prosaicas: o botão do elevador, o chão de taco, a bala de tamarindo. É uma poesia sem tailleur, de calça jeans e Havainas, que aloca sua força justamente nessa aparente simplicidade.
Claro que, como é natural num livro de estréia, Dobraduras tem lá seus altos e baixos. Mas o balanço final é francamente favorável à autora, como demonstram poemas do nível do quase haicai bolinhos de vento: “pegue um lápis e marque um ponto / no centro de uma folha / a solidão é tudo o que está em volta”. Ou versos como: “quando faltou luz / ficou aquele breu e eu / com as mãos tremendo / morta de medo / de tudo se iluminar / de repente”.
Publico, abaixo, mais um poema do livro, cuja leitura – reitero – recomendo.
“dentro do apartamento
a janela sustenta paisagem.
me aproximo, apóio
os braços: todo o mundo
desmedido
em minha frente.
mas nada
que eu possa segurar, reter.
nem mesmo o perfume
dessas tardes sem perfume, nem
um bibelô
para colecionar na estante
como fazem as avós
que não medem cuidados
com a porcelana”.
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Alan Pauls: novo romance e palestra hoje na Travessa
. O Cassiano Elek Machado, coordenador-editorial da Cosac Naify, avisa que o escritor argentino Alan Pauls está no Rio e hoje, às 19h30, vai falar na Livraria da Travessa do Leblon. Na conversa mediada por João Paulo Cuenca, Pauls comentará seu novo romance - História do pranto - e sua obra em geral.
. Também acontecerá hoje o lançamento do novo livro do amigo Alexandre Plosk. Em As confissões do homem invisível, que sai pela Bertrand Brasil, Plosk usa tintas fantásticas para conta a inusitada história do protagonista, que repentinamente se descobre invisível e passa a usufruir as vantagens (e a enfrentar as desvantagens) dessa condição. A noite de autógrafos está marcada para 19h, na Livraria Argumento do Leblon.
. No sábado passado, o Prosa & Verso publicou, em sua capa, uma matéria sobre as Poéticas da delicadeza. No texto, o repórter Miguel Conde abre espaço para jovens autores brasileiros contemporâneos que, num contraponto à literatura calcada na violência, na brutalidade e no escatólogico (marcas da chamada Geração 90), têm buscado um registro mais próximo do meio-tom, "da vida íntima e codidiana". Recomendo a leitura da matéria, que contempla a opinião de críticos e de escritores que admiro, como José Castello, Adriana Lisboa, João Anzanello Carrascoza e Michel Laub. Também estou por lá.
. A delicadeza, aliás, transborda em dois filmes a que assisti no fim-de-semana. Conversas com meu jardineiro, de Jean Becker, é um pequeno tratado sobre a amizade, desenhado a partir do reencontro entre um pintor bem sucedido (Daniel Auteuil) que deixa Paris para retornar à pequena cidade onde nasceu, há mais de 50 anos, e o velho colega de escola a quem contrata para cuidar do jardim. Um filme de nuances e silêncios...
. O outro filme - O tempo que resta, do polivalente François Ozon - centra-se na perda. A história do jovem que subitamente descobre que está com câncer e morrerá em poucas semanas é contada sem nenhum recurso melodramático. Pelo contário: em vez de desespero, há (aqui mais uma vez) silêncio - e contemplação: fotógrafo profissional, ele passa a registrar imagens das pessoas que ama, das paisagens que quer guardar (sabe-se lá onde), à espera do inevitável. A cena final, sobretudo, é comovente e extremamente poética em sua singeleza.
. No dia 7 de abril, escrevi aqui no blog sobre a perda do meu Tio Chico. No post, eu citava uma prima, que ressaltara, num texto bonito em homenagem ao tio, o papel de 'patriarca' que ele havia representado para a família. Pois bem: esta prima faleceu ontem, ainda bem jovem, vítima de um câncer anunciado abruptamente e que não lhe deu chances. Assisti a O tempo que resta antes de saber de sua morte. E me pareceu menos doído assim.
. "Mói a mó, mói a morte / em seu moer parado / o que era trigo eterno / e nem sequer semeado". Versos de Drummond. Vida boa, vida ruim, o fato é que a gente sempre quer mais.