
Embora admirador - claro! - das canções que exaltam a Bahia e seus encantos, sempre me foram especialmente mais caras as composições nas quais mestre Caymmi cantou o mar. Por detrás da aparente simplicidade das melodias e das letras, essas músicas retratam uma sabedoria calcada na vivência humilde daqueles que vivem no litoral. Gente para quem o mar representa um lugar de partida (e, quem sabe?, de volta), mas também um signo da enormidade da natureza - e, conseqüentemente, de nossa pequenez. Como mistério metafísico, enfim.
(Talvez por ter morado muito tempo perto da praia, essa noção me é perfeitamente exata).
Mas 'meu' Caymmi também é o autor dos sambas urbanos. Do sincopado (A vizinha do lado) aos sambas-canção, mais dolentes, quase tristes, como Não tem solução e Você não sabe amar.
Bem disse ontem o amigo Francisco Bosco, em declaração a O Globo, que Caymmi "encarnou, como quase ninguém, o mito brasileiro". Chico, que é autor de um belo estudo sobre o artista, salienta que "o mais marcante de sua morte é que ela chega num momento em que estamos nos distanciando desse mito": "Hoje, há um racionalismo que ataca a idéia de democracia racial, interpretações do Brasil que reforçam nosso atraso, um futebol no qual a eficácia substitui o lúdico".
Acrescentaria que, neste país cada vez mais bruto, a morte de Caymmi é também mais um golpe contra a delicadeza .
P.S. Ao saber do falecimento, Cesar Maia anunciou que pretende dar o nome de Caymmi a uma rua do... Leblon! Como o compositor morou boa parte de sua vida em Copacabana, que inclusive mereceu um tributo de sua lavra ('Sábado em Copacabana'), estou até agora tentando entender a lógica do alcaide.
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