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Jabuti 2008 Escrito em 28 de agosto de 2008
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Acaba de sair o resultado da primeira fase do Prêmio Jabuti e vejo, com alegria, que os livros das amigas Adriana Lisboa e Tatiana Salem Levy - Rakushisha e A chave de casa, respectivamente - foram indicados entre os dez melhores romances brasileiros de 2007. O ótimo O filho eterno, de Cristóvão Tezza, e o apenas mediano O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho, também estão na lista.

Confira o resultado desta e de outras categorias aqui.

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'Soneto com tela de fundo azul' Escrito em 28 de agosto de 2008
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Quando o amigo Henrique Rodrigues me enviou, ontem, o soneto que havia acabado de escrever, de pronto comentei com ele sobre a imagem publicada aqui no post com o poema do Herberto Helder. Pura coincidência.

O lindo soneto, que fará parte do próximo livro do HR, é mais uma peça entre as tantas que ele tem produzido atualmente, aproveitando os "dias de ponto e vírgula" (na definição própria). Divido o texto com vocês.

"Soneto com tela de fundo azul"

Henrique Rodrigues

"Guardar o que se pode da beleza,
Não cultivar o vácuo da lembrança,
Tampouco fermentar desesperança,
Mas respeitar o tempo da tristeza;

Abrir lugar àquilo que está vindo
E despedir-se do que já morreu;
Usar nós onde só cabia o eu,
Sabendo-se também como algo findo;

Sorver o breu de todo desencanto
Como se fosse um vinho seco e denso
A lágrima acridoce do teu pranto.

E então viver esse conjunto intenso
De todas as certezas em suspenso
Enquanto passa o que é só mesmo enquanto."

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A volta do João Escrito em 27 de agosto de 2008
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Um alívio ler os jornais de hoje e ver minguarem as referências ao show (e à genialidade, e ao violão, e às manias, e ao bife grelhado) do João Gilberto. A cobertura de fã-clube feita pelos suplementos culturais foi de uma subserviência que aplaudiu até atraso de duas horas.

Agora, depois de (movido por um polpudo cachê) esquecer qualquer esquisitice folclórica e sair do recolhimento, João pode novamente voltar para a paz do seu lar. E nós seguimos vivendo nossas vidinhas.

Melhor assim.

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Herberto Helder Escrito em 27 de agosto de 2008
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"As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
Dos lemes das palavras.

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.

Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
É ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil"

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Dias de Faulkner Escrito em 26 de agosto de 2008
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William Faulkner, em foto de 1954

O amigo Antônio Dutra lança hoje, às 18h30, na Mediateca da Maison de France, seu romance de estréia: Dias de Faulkner. No livro - que foi o vencedor Prêmio Meet 2008 da Jovem Literatura Latino-Americana no Brasil, promovido pela Casa de Escritores Estrangeiros e de Tradutores de Saint-Nazaire (França) -, Dutra narra com tintas ficcionais a passagem do celebrado escritor norte-americano por São Paulo nos anos 1950.

Historiador de formação, o autor resgata com detalhes a ambientação da cidade de São Paulo à época, apresentando um Faulkner arredio aos contatos sociais e quase sempre bêbado. No romance, aparecem também personagens importantes da intelectualidade da época, como Lasar Segall, Di Cavalcanti, Cecília Meirelles e Lúcio Cardoso.

Segundo o crítico Manuel da Costa Pinto, um dos jurados do prêmio, a narrativa de Dutra "funciona como pano de fundo ou tela de projeção para aquilo que permanece irrepresentável, ou seja, os pontos obscuros, a experiência incompartilhável de William Faulkner".

A Maison fica na Avenida Presidente Antônio Carlos, 58 - 11º andar - Castelo.

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Iemanjás Escrito em 26 de agosto de 2008
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Professor de História e versadíssimo nas coisas do Candomblé, o amigo Luiz Antonio Simas fez, em seu blog, uma acurada análise do refrão de Lendas das sereias, mistérios do mar. No texto, Simas nos ensina o significado de cada uma das denominações citadas no refrão do samba do Império Serrano (Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Ynaê, Janaína e Iemanjá), descortinando seus significados mais profundos.

Leia, abaixo, o trecho inicial do post. E confira a íntegra aqui.

"O Império Serrano reeditará na Marquês de Sapucaí o já histórico samba A lenda das sereias e os mistérios do mar. O refrão, belíssimo , merece ser esclarecido. Vamos ver:

Ogunté, Marabô,
Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê
Janaína, Iemanjá

Ogunté - É uma qualidade importantíssima de Iemanjá entre os nagôs. Em alguns mitos é a mãe de Ogum; em outros é a mulher de Ogum Alabedé. É uma Iemanjá guerreira, jovem, que quando dança porta uma espada. Cuidado com ela; está muito longe de ser a sereia maternal que o sincretismo consagrou. Ogunté ensinou a Ogum como se guerreia e se apresenta sempre ao lado dele. Imaginem. As filhas de Ogunté que eu conheço são brabíssimas. É o orixá de cabeça do meu Ojubonan, Babalaô Ifayode. (...)"

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Primeira gravação Escrito em 25 de agosto de 2008
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Permitam-me dividir com vocês, em primeiríssima mão, o registro do samba do Império para 2009 (na verdade, a reedição do hino de 1976). Ainda não se trata da gravação oficial, é apenas um ponto de partida, mas fiquei extremamente feliz com o resultado, porque, apesar do andamento um pouco mais acelerado (obviamente necessário a um desfile de hoje), o samba não perdeu a extrema riqueza de sua melodia. Agora, é esperar as artes de mestre Átila. Não tenho dúvidas de que o Império vai emocionar a Sapucaí.

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Semana musical Escrito em 25 de agosto de 2008
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A semana eminentemente musical começa hoje com o lançamento do DVD A bossa de Anselmo Mazzoni. O trabalho, produzido pelas faculdades de Cinema e de Produção Fonográfica da Universidade Estácio de Sá, traz o pianista interpretando algumas de suas canções preferidas, entre elas pérolas de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Milton Nascimento

Anselmo, grande figura da noite carioca e dileto amigo, tocou por muito tempo no Chicos's Bar e atuou também no programa A grande chance, de Flávio Cavalcanti, que revelava jovens talentos. É daqueles artistas que viveram, na pele, o auge do piano-bar. O lançamento do DVD será na Modern Sound, às 20h.

Na quinta, será a vez de a dupla Marcos Sacramento e Luiz Flávio Alcofra homenagear mestre Cartola, com um show no Centro Cultural da Light. Responsáveis recentemente por um memorável espetáculo na Sala Cecília Meirelles, os dois se apresentarão às 12h30, com entrada gratuita.

O show faz parte de um ciclo em tributo ao compositor mangueirense (e tricolor), que se estenderá até o dia 11 de dezembro e incluirá ainda bambas como Walter Alfaiate, Monarco, Dona Ivone Lara, Nei Lopes e Elton Medeiros, além das queridas Nilze Carcalho e Tânia Malheiros, entre outros.

Fechando a semana, no sábado a Rua do Ouvidor (mais especificamente, a Livraria Folha Seca) sediará o lançamento do livro Botequim de bêbado tem dono, do amigo Moacyr Luz. A obra reúne histórias vividas pelo autor em diferentes bares da cidade e tem ilustrações de Chico Caruso. O lançamento, é claro, se dará ao som de uma roda de samba e está marcado para 12h.

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Olhos negros Escrito em 22 de agosto de 2008
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Acaba de chegar às lojas um discaço. Refiro-me a Olhos negros, de Johnny Alf - trabalho produzido por Libert Gadelha que havia sido lançado na versão cd em 1991, mas estava há muito tempo fora de catálogo. Conheci esse disco na casa do meu amigo Rodrigo Zaidan, num dos ótimos saraus que ele costumava fazer, e de cara me encantei com a canção-título, melodia do próprio Alf que ganhou letra inspirada de Ronaldo Bastos.

No registro de Olhos negros, Caetano Veloso divide os vocais com o pianista O cd, aliás, é todo assentado em duos nos quais uma das partes é o homanegado. Na linda O que é amar, a interpretação algo exagerada de Sandra de Sá reflete a turbulência das paixões abruptas. Em Ilusão à toa, Gal Costa sussurra com delicadeza a história de amor "discreto". No choro-canção Seu Chopin, desculpe, um Chico Buarque gaiato conversa diretamente com Liszt e George Sand. E tem ainda Emílio Santiago, Zizi Possi, Marcio Montarroyos...

Anteontem dei duas voltas na Lagoa escutando o disco e pude prestar ainda mais atenção nos arranjos, nas cordas que salientam as harmonias sofisticadas do compositor. E então pude perceber que foram justamente as orquestrações dessas já conhecidas músicas que me fizeram gostar tanto do cd. Que tem lá um jeitão de caça-níqueis, mas vale cada centavo.

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ABL Escrito em 21 de agosto de 2008
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É hoje a eleição na Academia Brasileira de Letras. Toda sorte ao Antônio Torres, que há muito merece seu lugar por lá.

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Meninas do Brasil Escrito em 21 de agosto de 2008
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Diferente. Foi em tudo diferente, se comparada ao mico da Seleção masculina no jogo contra os 'hermanos', a derrota das meninas do Brasil na disputa pela medalha de ouro que aconteceu agora há pouco. Elas jogaram melhor, procuraram a vitória, mas perderam para as americanas. Acontece. Aconteceu com meu Flu na partida contra a LDU.

O fato é que, ao contrário da equipe acovardada de Dunga, da equipe medrosa e patética comandada pelo neo-técnico inventado pela CBF, nossas jogadoras foram valentes. E sintetizo essa valentia na figura dessa extraordinária atleta que é a Marta. Se, em termos de técnica, sua qualidade não configura nenhuma surpresa, foi de impressionar o que ela mostrou no quesito dedicação. Igualzinho ao Ronaldo, não?

Aliás, os camisas 10 das duas seleções - a masculina e a feminina - personificam bem os motivos pelos quais as equipes estão hoje em pontas diametralmente distintas. A prata de Marta e Cia é orgulho e o bronze do homens, vergonha.

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No Centro Loyola Escrito em 20 de agosto de 2008
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É hoje! Às 19h, estarei no Centro Loyola de Fé e Cultura da PUC-Rio para participar do debate Um olhar sobre a cidade lírica. A mediação será do amigo Henrique Rodrigues, e o Centro Loyola fica na Estrada da Gávea, 1 (final da Rua Marquês de São Vicente). Espero vocês lá.

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Império 2009 - Logo oficial Escrito em 19 de agosto de 2008
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O Império Serrano já lançou a logomarca oficial do carnaval de 2009. Lembro que a escola de Madureira vai reeditar, na Sapucaí, o lindo samba de 1976 (aquele cujos versos cantam: "Mar, misterioso mar / Que vem do horizonte...") e que as inscrições para a Ala dos Devotos estão abertas. Quem estiver interessado em desfilar na ala, repleta de amigos e apaixonados imperianos, pode entrar em contato comigo via e-mail.

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Trapalhões em DVD Escrito em 19 de agosto de 2008
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Ir ao cinema para conferir o novo filme de Os Trapalhões era programa obrigatório a cada período de férias escolares. Lembro-me de que aguardava cada novo título entrar em cartaz com imensa expectativa - e também das horas preguiçosas que passei, em frente à TV, acompanhando as séries especiais que a Globo programava na Sessão da Tarde, veiculando exclusivamente as películas antigas do quarteto.

Pois agora todos os trabalhos da carreira do grupo (além dos solos de Renato Aragão) - de Na onda do Iê-Iê-Iê (1966) a O Trapalhão e a luz azul (1999) - terão lançamento em DVD. Serão, ao todo, 39 títulos, com comercialização separada e preço sugerido de R$ 14,99 (cada). Entre eles, clássicos como O Trapalhão nas minas do Rei Salomão, de 1977, Os saltimbancos Trapalhões, de 1981, e Os Trapalhões no Auto da Compadecida, de 1987.

Filmes que têm gosto de bolinhas de chocolate recheada de crocante - e o cheiro de infância das cadeiras vermelhas do Cine Madureira 1.

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Mais ao sul Escrito em 18 de agosto de 2008
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No sábado, o Prosa & Verso publicou minha resenha sobre Mais ao sul, o segundo trabalho solo de Paloma Vidal. Ressalto aqui a linda capa do livro, o que não pude fazer no texto. Segue a íntegra da resenha:

Unidos pela cartografia afetiva

Protagonistas dos contos de Paloma Vidal circulam por diversas cidades tateando sentidos

Marcelo Moutinho*

Cada cidade contém seu passado, gravado e marcado por arranhões, “nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras”. Ao afirmá-lo, Italo Calvino referia-se ao espaço urbano como um discurso, que emerge da topografia, mas também da memória individual, e encharca a paisagem de valor simbólico. Ao escrever seu segundo livro, a jovem Paloma Vidal parece ter se inspirado nessa espécie de cartografia afetiva. Os protagonistas das histórias reunidas em “Mais ao sul” circulam por cidades como Buenos Aires, Londres, El Paso e Rio de Janeiro, tateando sentidos nos cenários que os cercam e “inventando imagens para lembranças inexistentes”.

Um dos méritos de Paloma, como bem destaca João Gilberto Noll na orelha, é a unidade entre os diferentes contos, que confere um caráter orgânico ao livro. Há um “núcleo de evocação renitente, fosca, inspirando os passos lentos do bordado narrativo”, salienta Noll, numa alusão ao conceito que, como um feixe, atravessa as 10 histórias: a sensação de expatriamento.

Esse sentimento é experimentado já no texto que abre o volume, não à toa intitulado “Viagens”. No conto, a narradora relata o susto de sua volta à cidade em que nasceu, num paralelo possível com a trajetória da própria autora: Paloma tem nacionalidade argentina e veio para o Brasil com apenas dois anos de idade.

“Nada daquilo tinha realmente a ver comigo, mas ainda hoje sobrevive em mim como uma zona escura da memória, um ponto de fuga para onde correm medos que não sei ao certo de onde vêm, nem se algum dia encontrarão sossego”, anota, em primeira pessoa, a personagem. A impossibilidade de apreender a infância perdida é comparada, numa metáfora feliz, aos entraves para se decodificar com perfeição uma língua estrangeira: por mais que se tente, há “vazios de sentido, expressões que se perdem, fonemas que se confundem”.

Mote semelhante se dá em “O retorno”, no qual a protagonista segue para Buenos Aires no afã de enterrar o pai e acaba recordando um antigo trauma. Paloma é precisa ao potencializar, no curto tempo de estada, a dor renascida com o regresso, que coloca a personagem “num limiar entre dois mundos”, na tênue linha que une (e divide) o hoje ao outrora. Na parte final do trajeto, cumprida de táxi, a mulher vê as esquinas da cidade fundindo-se a imagens em flashback: “um quintal, um balanço, mãos grandes e suaves empurrando suas costas, um sorriso quase a seu alcance”.

É pena que em muitos momentos essas vias de introspecção sejam abafadas por trechos eminentemente dissertativos. Em “Viagens”, por exemplo, as informações históricas e estatísticas sobre os fluxos migratórios entre os países europeus e a Argentina interrompem de forma brusca o mergulho subjetivo da personagem. Em “Jesus de El Paso”, a narrativa ganha tons panfletários quando a protagonista cogita dizer ao soldado que invadiu seu ônibus “que o que está acontecendo no Iraque é de responsabilidade de seu comandante-em-chefe e de sua cruzada contra o terror”.

Outro problema - traço que, aliás, já se apresentava em “A duas mãos” (7Letras, 2003), o livro anterior - é a recorrência no emprego de expressões gastas. A utilização de lugares-comuns como “sentia-se novamente uma criança”, ou “uma onda de felicidade veio em sua direção” denota certa falta de rigor e destoa na prosa em geral sofisticada da autora. Até porque, quando liberta da ‘pesquisa’ e mais atenta à composição, Paloma voa bem alto.

Prova disso é o conto “Tempo de partir”, baseado numa peça de Juliana Pamplona. A trama se inicia quando a protagonista, uma senhora uruguaia que vive no Brasil, observa a máquina de lavar girando e “fazendo rodar as roupas numa mistura de cores que a hipnotiza”. A partir dessa cena prosaica, Paloma constrói um poderoso retrato de família em cujo epicentro está a personagem. “Ellos ni se falam, pero sus ropas se entrelazam em la máquina de lavar”, ela pensa em ‘portunhol’, enquanto repassa a tentativa frustrada de ensinar o espanhol aos netos, os conflitos com a nora que a despreza, conferindo-lhe a responsabilidade pelos desajustes familiares. Por fim, lembra da particular afeição por Alice, a única neta mulher.

Com a máquina de lavar já desligada, as roupas se aquietam. A senhora, então, retira o macacão vermelho da menina e o pendura no varal, “como uma bandeira solitária”. A comovente alegoria do desfecho vislumbra uma conexão possível naquele pequeno núcleo onde se tornara praticamente uma ‘estrangeira’. Uma vitória, ainda que parcial e tímida.

* Escritor e jornalista. Autor de “Somos todos iguais nesta noite” (Rocco)

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Caymmi (ainda e sempre) Escrito em 18 de agosto de 2008
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Embora admirador - claro! - das canções que exaltam a Bahia e seus encantos, sempre me foram especialmente mais caras as composições nas quais mestre Caymmi cantou o mar. Por detrás da aparente simplicidade das melodias e das letras, essas músicas retratam uma sabedoria calcada na vivência humilde daqueles que vivem no litoral. Gente para quem o mar representa um lugar de partida (e, quem sabe?, de volta), mas também um signo da enormidade da natureza - e, conseqüentemente, de nossa pequenez. Como mistério metafísico, enfim.

(Talvez por ter morado muito tempo perto da praia, essa noção me é perfeitamente exata).

Mas 'meu' Caymmi também é o autor dos sambas urbanos. Do sincopado (A vizinha do lado) aos sambas-canção, mais dolentes, quase tristes, como Não tem solução e Você não sabe amar.

Bem disse ontem o amigo Francisco Bosco, em declaração a O Globo, que Caymmi "encarnou, como quase ninguém, o mito brasileiro". Chico, que é autor de um belo estudo sobre o artista, salienta que "o mais marcante de sua morte é que ela chega num momento em que estamos nos distanciando desse mito": "Hoje, há um racionalismo que ataca a idéia de democracia racial, interpretações do Brasil que reforçam nosso atraso, um futebol no qual a eficácia substitui o lúdico".

Acrescentaria que, neste país cada vez mais bruto, a morte de Caymmi é também mais um golpe contra a delicadeza .

P.S. Ao saber do falecimento, Cesar Maia anunciou que pretende dar o nome de Caymmi a uma rua do... Leblon! Como o compositor morou boa parte de sua vida em Copacabana, que inclusive mereceu um tributo de sua lavra ('Sábado em Copacabana'), estou até agora tentando entender a lógica do alcaide.

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Caymmi - 1914/2008 Escrito em 16 de agosto de 2008
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"É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar"

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Das Neves no Cosme Velho Escrito em 15 de agosto de 2008
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Wilson da Neves, fera das baquetas e grande imperiano, será o convidado do próximo domingo na nova roda de samba que vem rolando no Cosme Velho. O furdunço acontece no quintal de um casarão próximo ao bondinho do Corcovado (Rua Cosme Velho, 599) e é comandado pelo grupo Pimba na Pitomba, do gente-boa Lenildo Gomes.

A roda começa às 16h e, em geral, vai até 21h30. Os ingressos custam R$ 12, caindo para R$ 10 na lista amiga (para entrar, basta mandar e-mail para pimbanapitomba@gmail). Das Neves deve apresentar composições de seus dois (excepcionais) disco-solo: O som sagrado de Wilson das Neves e Brasão de Orfeu.

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Como andam chatos os jornais Escrito em 15 de agosto de 2008
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Como andam chatos (bizarros?) os jornais. O Merval Pereira, de O Globo, parece colunista do Washington Post: só fala nas eleições norte-americanas. Em que pese sua importância para o resto do mundo, o pleito definitivamente não é a única pauta política do momento, como um incauto pode pensar ao ler, nas últimas três semanas, as colunas do jornalista

O mesmo O Globo publica hoje uma matéria que, como alerta meu bom amigo Cid Benjamin, mais se assemelha a um informe publicitário. Sob o pretexto de anunciar o aquecimento do mercado imobiliário na Zona Oeste do Rio, o jornal abre generoso espaço para que o presidente da Patrimóvel, Rubem Vasconcelos, propague os predicados de seu 'produto': "Os lançamentos nessas áreas hoje têm piscina, área para esporte e home theater. Um de nossos imóveis tem até boliche", afirma ele.

Já a Folha de S. Paulo se prestou a ser garoto de recados de João Gilberto. Na edição de anteontem da Ilustrada (seu suplemento de cultura), a colunista Mônica Bergamo publicou uma lista de "amigos perdidos" a quem o cantor procurava a fim de convidá-los para o show que iria realizar na capital paulistana. Sob um antetítulo formado pela palavra Urgente, Mônica avisa que as pessoas relacionadas devem passar na bilheteria "para pegar seus ingressos". Abro aspas para a colunista:

"Atenção, "irmãos Waldemar e Wilson", João quer vocês no show; "doutora Terezinha, prima do Toninho Botelho", a senhora também é esperada; "o Marcelo que trabalhava na Varig me daria um grande prazer se fosse", diz João Gilberto. E também Carlinhos Rodenburg, do banco Opportunity e ex-cunhado do banqueiro Daniel Dantas (ele é parente afastado do cantor).

João listou ainda "três grandes cantoras, Elsa Laranjeira, Maricenne Costa e Mirian Fraga"; "meu querido Mario Thompson e sua família"; Acyr, Cyro Del Nero, Álvaro Moya, Alfredo Borba, Antonio Vanderlei, Daniel Serra, Elizabeth Rizzini, Orfeu Palmari e sua irmã; Os Titulares do Ritmo e suas famílias; Alberto, Eduardo Mario, Dina, Silvinha e dona Gita, da família Leão Fuerte; Rodolfo Nagler, Sabát, "o grande Fernando Faro"; Joãozinho Bossa Nova; Luiz Galvão e também seus músicos; Iná Abreu e José Pires; e Mônica Vanderley e Paulinho."

Relevância indiscutível, não?

Andam mesmo chatos os jornais - embora ainda menos do que o João Gilberto.

P.S. Uma exceção, digna de ser mencionada aqui: a edição de ontem do Segundo Caderno (O Globo). O suplemento foi todo dedicado ao aniversário da bossa nova e conseguiu dar certo frescor a esse assunto tão batido. Das matérias muito bem escritas por coleguinhas como João Máximo e Leonardo Lichote ao lindo projeto gráfico, salpicado pelos desenhos do bamba César Vilela, um primor de peça jornalística.

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Samba bom Escrito em 14 de agosto de 2008
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Boa pedida para hoje - e para as próximas quintas-feiras - é o show que o Pedro Paulo Malta, nosso alvinegro e portelense amigo Pepê, comanda a partir das 21h no Trapiche Gamboa. Acompanhado por um time de craques - Luís Filipe de Lima (violão de 7 cordas), João Callado (cavaquinho), Alexandre Maionese (flauta, tamborim e voz), Beto Cazes e Fábio Cazes (percussões) -, Pepê promete fazer desfilar um repertório de sambas clássicos e de pérolas menos conhecidas, de Candeia a Caymmi, de Dona Ivone Lara a Cartola, de Monarco a Elton Medeiros.

O nome do grupo - Samba bom -, aliás, é fiel a esse propósito de combnar qualidade com diversidade, e foi inspirado nos versos de Geraldo Pereira na composição homônima, que dizem: “Num samba desses vale a pena a gente entrar”. E como vale!

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# Duas rapidíssimas Escrito em 12 de agosto de 2008
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Enroladíssimo com a cobertura da X Conferência da OAB, além de resenhas e matérias a entregar, andei deixando este espaço um pouco de lado nos últimos dias. Volto com notícias rápidas:

. Na próxima quinta, acontecerá a primeira aula da oficina de conto que vou comandar lá na Estação das Letras. Já são 14 os inscritos, mas ainda há vagas. A oficina terá caráter eminentemente prático, não obstante as conversas sobre as concepções de autores como Julio Cortázar, Ricardo Piglia e Jorge Luis Borges sobre a narrativa curta. Informações pelo telefone 3237-3947;

. Na outra semana, participarei dos Encontros Literários promovidos pelo Centro Loyola de Fé e Cultura da PUC-Rio. O evento será na quarta-feira (dia 20), às 19h, com mediação de Henrique Rodrigues e entrada gratuita. Meu tema: Um olhar sobre a cidade lírica. O Centro Loyola fica na Estrada da Gávea, 1 (final da Rua Marquês de São Vicente).

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'Para uma certa mulher' Escrito em 07 de agosto de 2008
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Foi com emoção que reencontrei, no blog do Marceu Vieira, uma crônica que ele escreveu quando ainda estava no Jornal do Brasil, onde assinava a coluna Coisas do Rio. Com seus textos extremamente bem redigidos, sempre sensíveis, plenos de sinceridade, Marceu já era então uma referência para aquele adolescente que sonhava estudar jornalismo.

Mas me lembro bem: foi ao ler Para uma certa mulher que pude ter a exata certeza de que o ofício ao qual me dedicaria seria, de fato, o mesmo do autor daquelas palavras. Em segredo, eu alimentava a esperança de um dia, quem sabe, escrever como ele.

Posto, abaixo, um trecho da crônica. Leia a íntegra no aqui.

"Para uma certa mulher"

Marceu Vieira

"A mulher na Praça General Osório, às quinze para as cinco da tarde, não sabe que bem do lado alguém busca nela a inspiração que falta. Parece querer consolo do sol que ilumina mas não aquece o início do outono em Ipanema, com suas folhas amareladas se desprendendo das árvores para dançar no vento.

A aparência sugere mais de 30. O batom disfarça o sentimento do mundo que parece carregar. Mas as lágrimas denunciam que sofre.

É moça da Zona Sul, percebe-se. É branca, alta e um certo jeito de mexer nos cabelos tenta dizer que já se achou mais bonita.

Como num filme, vira-se para o lado e, sem que se pergunte, conta que encontrou um bilhete perfumado no bolso do marido. Em letras miúdas e bem desenhadas, o papelzinho denunciava o desassossego no coração do homem com quem está casada há alguns anos. (...)"

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A dica de 'Adriana Lunardi' Escrito em 07 de agosto de 2008
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“Para quem está interessado em publicações recentes, compartilho a leitura de Caio Fernando Abreu, inventário de um escritor irremediável (ed. Seoman). O perfil biográfico escrito por Jeanne Callegari possui, a meu ver, méritos que merecem ser apreciados. Entre eles, o fato de reunir organicamente informações esparsas, em geral publicadas na forma de depoimentos, feitos e recebidos por pares ainda atônitos com a perda de Caio. A pesquisa é confiável e aponta para que enxerguemos no seu traçado uma vivência pessoal, em grande parte endossada pelo relato da autora, que demonstra talento narrativo e sobriedade quanto à natureza de sua iniciativa. Em Caio... não passa despercebida a atmosfera de tributo de uma leitora dedicada, mas de que outra obsessão se alimentaria um biógrafo? Se Cartas, de Italo Moriconi (org.), segue sendo a publicação mais relevante sobre a vida do autor de Morangos mofados, morto em 1996, é bem vindo o perfil de Jeanne. Nascida em 1981, a autora tem a vantagem de ter e não ter sido contemporânea de seu biografado. Vejo com entusiasmo o fogo da geração anterior ser roubado. É com essa passagem que a eternidade de um autor se inicia”.

* Escritora. Autora dos livros ‘Vésperas’ e ‘Corpo estranho’, ambos lançados pela Rocco

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Crime na Rua do Ouvidor Escrito em 06 de agosto de 2008
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Quando estivemos no domingo passado na histórica Rua do Ouvidor, eu e alguns amigos flagramos esse verdadeiro crime cometido pela Prefeitura do Rio de Janeiro. As tradicionais luminárias do logradouro, de resto um dos mais preservados de nossa cidade, foram trocadas por ‘modernas’ (e feiosas) lanternas a vapor de mercúrio.

Além de totalmente desintegradas do conjunto arquitetônico da encantadora rua, as lanternas agridem os olhos com a inadequada instalação que deixa expostos os fios elétricos, prova mais palpável da gambiarra feita pelo poder municipal.

Acima, está uma imagem que registrei no domingo. Abaixo, uma foto mais antiga, de quando as luminárias ainda estavam lá, compondo um dos cenários mais genuinamente cariocas que o Centro nos oferece.

P.S. O amigo Cesar Tartaglia também denunciou o crime em seu blog (foi de lá, aliás, que tirei essa imagem anterior à substituição). Confira aqui.

Atualizando o post: Um amigo que trabalha no jornal O Globo ligou para a Prefeitura, a fim de apurar essa história. A informação oficial é que as luminárias foram retiradas para manutenção e retornarão a seus lugares em 15 dias.
Fiquemos de olho.

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Visões do documentário Escrito em 06 de agosto de 2008
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Coutinho estará na mesa de abertura do ciclo

Bom programa para aqueles que, como este que vos escreve, gostam do gênero é o ciclo Visões do documentário brasileiro, que começa hoje no Espaço Sesc Copacabana. Os diretores Eduardo Coutinho e João Moreira Salles serão os debatedores da mesa inaugural do evento (cujas atividades se iniciarão às 19h). Eles falarão primordialmente sobre o processo de criação, mas não deixarão de comentar também questões como o trabalho de pesquisa e o processo de montagem, entre outros.

Com entrada gratuita (mediante a distribuição se senhas), o ciclo terá prosseguimento nas próximas quartas-feiras. Na semana que vem (dia 13), Silvio Tendler e Guilherme Coelho debaterão cinema independente. Eryk Rocha e Joel Pizzini serão as atrações no dia 20, abordando o documentário de invenção, e, no dia 27, Roberto Berliner e João Jardim vão discutir a dificuldade de distribuição dos filmes-documento no Brasil. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (21) 2548-1088.

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Morengueira contra 007 Escrito em 05 de agosto de 2008
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No domingo passado, durante o churrasco da já clássica Pelada da Folha Seca, o Tiago Prata me apresentou esse hilário samba-de-breque, que foi gravado por Moreira da Silva. O samba é de autoria de Miguel Gustavo, presença habitual nos discos do Kid Morengueira, e narra uma história deliciosa: o agente 007 vem ao Brasil, trazendo a atriz Claudia Cardinale, com a expressa missão de evitar que Pelé enfrente a seleção inglesa na Copa de 1970.

Mas o pobre Bond poderia imaginar que, ao chegar aqui, teria que enfrentar o valente Morengueira. No fim do embate, que começa da piscina da concentração do Santos, passa pela sede do Dops e termina do Braz, é ele, o Morengueira, quem se dá bem. Segue a letra do samba.

"Morengueira contra 007"

Miguel Gustavo

"Começa o filme com o 007
saltando em Santos com a Claudia Cardinale
com seu decode italiano ela é tão bela
que ninguém vê o James Bond junto dela
Os dois se hospedam na concentração do Santos
e entre tantos ninguém sabe por que é
que ela desfila de biquini na piscina
e na maior intimidade com o Pelé
a bonitinha não percebe a tabelinha que ele faz
Pelé controla a Cardinale da-lhe um beijo e avança mais
Gol do Brasil (temperamento latino é fogo)
O James Bond neste instante dá o flagrante
diz que Pelé tem que pagar pelo que fez
entram em luta corporal e o 007
vai abater o jogador com um soco inglês
porém Moreira que assistia toda a cena
entra sem pena vai no set e manda o pé
rabo de araia e antes
apara o soco e livra cara do Pelé
Moreira leva James Bond para o Dops
e na fofoca mais fofoca que eu já vi
vem jornalista, embaixador inglês se irrita
e entra na fita todo o Itamarati
Aí Moreira leva a Claudia Cardinale
para jogar um pafi-pafe em Guarujá
vão no boliche, comem pizza lá no Braz
e cantam um samba de Vinicius de Moraes
Claudia confessa o seu amor por Morangueira
faz a besteira de dizer que o ama com fé
só foi o Santos com o 007
pra ajuda-lo a raptar nosso Pelé
roubar Pelé pra não jogar contra a Inglaterra
porque os inglesses sofrem de alucinação
e toda noite vem um fantasma de chuteiras
fazendo gol no gol da sua seleção
E vem o time brasileiro se sagrando campeão,
termina o filme com Moreira dando um dible no espião,
O James Bond foi derrotado e acabou sua missão"

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Amendoeiras Escrito em 05 de agosto de 2008
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Não sei se vocês já repararam como a cidade anda especialmente linda. São as amendoeiras, que nessa época ganham uma coloração avermelhada, bonita de doer. Meu trajeto entre Laranjeiras e Centro (via Praia do Flamengo) está cheio delas, o que tornou a viagem nas últimas semanas intensamente prazerosa.

As amendoeiras, aliás, chamaram a atenção do fotógrafo André Coelho, que lhes dedicou um belo ensaio. Parte das fotos (como esta aí de cima) foi publicada hoje no blog do Ancelmo. Vale a conferida (aqui).

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'Põe na roda o tambozeiro' Escrito em 01 de agosto de 2008
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Quando o ouvi pela primeira vez, batucado por dois dos autores numa das mesas do sebo Al Farabi, comentei na hora: dificilmente haverá algum samba melhor na disputa. Agora, depois de escutar o registro feito pelo Richah, posso afirmar sem erro: o hino composto pelos amigos Luiz Antonio Simas e Alberto Mussa (com Edgar Filho, Gari Sorriso e Bené) para o carnaval do Salgueiro em 2009 é, disparado, o melhor entre os 38 concorrentes oficiais. É, mais do que isso (e desde já), uma pérola do samba-enredo.

O tom menor e o andamento reverente aos clássicos somam-se a uma letra inspirada e sem apelação, que traz, entre muitos ótimos versos, uma tirada genial ("Qual é o povo / Que não bate o seu tambor"). Torço para que o Salgueiro, escola pela qual meu coração imperiano tem uma enorme simpatia, confirme minhas expectativas e escolha esse hino para levar à Sapucaí. Segue a letra do samba, que pode ser ouvido aqui.

"Tambor"

Edgar Filho, Simas, Beto Mussa, Gari Sorriso e Bené do Salgueiro

"Canto uma herança
Da humanidade primordial
De árvores tombadas um tom grave
Deu a cadência original
A idéia de um gênio anônimo,
Meu ancestral
Caçador que na mata uma fera enfrentou
Quando sua vitória quis anunciar
Pôs o couro esticado, bateu, repicou
Ôô ôô, ôô ôô

Festa na aldeia,
Lua cheia, um clarão
Tem batuque a noite inteira
É magia, adoração

De ocidente a oriente
Em diferentes formas se multiplicou
Qual é o povo
Que não bate o seu tambor

Quem cruzou o mar
Encontrou um som guerreiro
E desde então o baticum não quer parar
Zambê, zabumba, ilu-abá
Angoma, tumba, candongueiro
Batá-cotô no meu terreiro
Põe na roda o tambozeiro
O Brasil nasceu de mim
Inclusão, cidadania
Furiosa bateria
Coração que bate assim

Menina, quem foi teu mestre?
Um batuqueiro
Que arrastava
O povo do Salgueiro"

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Gullar, Ferreira Escrito em 01 de agosto de 2008
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"Barulho"

Ferreira Gullar

"Todo poema é feito de ar
apenas:
a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa
de mulher.
O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura".

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