
Comprava o presente de aniversário de um amigo quando vi, na prateleira da Livraria da Travessa, a reedição (com nova capa) do disco Terra dos pássaros. Trata-se do trabalho de estréia do Toninho Horta, que eu tinha na primeira versão em cd e um dia me levaram. É evidente que arrematei o álbum no mesmo momento.
O disco foi originalmente gravado por Toninho ao lado da Orquestra Fantasma entre 1976 e 1979, e contou com as participações especialíssimas de Milton Nascimento, Raul de Souza, Airto Moreira e Wagner Tiso, entre outros. No repertório, estão lindas canções como Céu de Brasília (que ganhou um arranjo absolutamente sensacional, com vocalises do Bituca), Dona Olímpia (ainda sem a letra, em registro margeado pelo depoimento da homenageada), Beijo partido e Pedra da lua.
Ao reouvir o cd, me emocionei particularmente com Diana. Toninho explica, no texto de apresentação do disco, que a faixa quase ficou de fora por problemas técnicos. Seria uma pena, já que a canção ganhou, em Terra dos pássaros, um frescor que só reitera a sua força.
Não sei se vocês têm essa informação, mas Diana foi composta para a cachorra do artista, que havia morrido. O curioso é que descobri isso muito tempo depois de conhecer a música, apesar das tantas referências diretas a um animal ("quase humana", "corpo pintado de branco e marrom") e às situações vividas, no âmbito doméstico, por uma família e seu cão: as manias, as brincadeiras, a "espera ao pé da porta". A letra de Toninho atenta também para o impressionante olhar de tristeza que por vezes os cachorros nos lançam. Um olhar que conjuga desamparo e carinho, e que expõe o medo - abissal - do abandono.
Na verdade, outra Diana, esta (em tese) 100% humana, povoa a música brasileira. Jerry Adriani, Ronnie Von e o grupo Raça Brasileira, de memória nada saudosa, gravaram uma versão do sucesso de Paul Anka, em cujos versos suplicam: "Vem trazer-me o teu calor / Vem viver pra mim, Diana / Vem querida, minha vida, vem depressa! / Que eu te espero, e eu te quero, com paixão!"
Sinceramente, prefiro a canção em tributo à cachorra (cuja letra se segue).
"Diana"
Toninho Horta
"Velha amiga, eu volto à nossa casa
Já não te encontro alegre, quase humana
Corpo pintado de branco e marrom
E uma tristeza no olhar
Como se conhecesse dor milenar
Já não te encontro à espera ao pé da porta
Correndo viva e bela ou descansando
Tanto vazio por todo lugar
Tanto silêncio sinto ao chegar
Ao nosso território de brincar
Almoço aos domingos, a velha farra
Todos vão inventando novos segredos
Fica a ausência branca e marrom
E uma tristeza milenar
Mas os meninos voltaram a brincar
Como se ainda sentissem o teu olhar
Diana, Diana, Diana, Diana, Diana..."
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