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Rio da gente Escrito em 28 de julho de 2008
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O artigo abaixo, que escrevi a pedido do jornal O Globo, foi publicado na edição de ontem, dentro da coluna Rio da gente. A seção destina-se apresentar a opinião dos cariocas sobre o que deve mudar na administração de sua cidade.

Quais as vantagens de delegar o carnaval à Liga?

Marcelo Moutinho
Escritor

O que mais tem me assustado nesses primeiros dias de campanha é a postura acrítica dos postulantes à Prefeitura do Rio com relação aos grupos organizados que, sem a devida fiscalização por parte do Poder Público, dominam certos setores da economia carioca.

É o caso, por exemplo, do carnaval. Nas ‘palestras’ que os candidatos vêm proferindo a convite da Liga das Escolas de Samba do Rio Janeiro (Liesa), o tom é de completa passividade; o clima é de ‘beija-mão’.

Não há questionamento algum a respeito dos termos que norteiam o acordo entre a Liga e a Prefeitura para a administração do desfile. Não se fala sobre a divisão da vultosa renda gerada com publicidade e ingressos na grande festa da Marquês de Sapucaí. Não se discutem os mecanismos de inspeção do que é arrecadado. Evita-se qualquer comentário mais incômodo sobre os critérios que norteiam (?) a seleção de jurados e suas notas.

Em resumo: os sinais infelizmente indicam que a população do município e todos aqueles que tomam parte de forma direta no maior evento cultural da cidade (comunidades ligadas às agremiações, prestadores de serviço ou simples foliões) continuarão sem saber quais as efetivas vantagens trazidas com a delegação da responsabilidade de organizar o carnaval. Encargo que, vale ressaltar, cabe originalmente à Prefeitura.

É evidente que há temas mais candentes em pauta: o caos na saúde, a fragilidade do sistema educacional, as deficiências da engenharia de trânsito, a falta de transparência nas concessões para exploração do transporte público, a indefinição do papel da Guarda Municipal, o abandono das zonas suburbanas. Mas a atitude dos candidatos denota um permissivismo perigoso. E a indulgência de um gestor costuma se revelar é nesses pequenos atos. Pelo menos até o momento em que começa a se espalhar – até que acaba tomando a administração inteira.

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