
Nunca, nem na época do rebaixamento, havia sentido uma tristeza tão grande por conta do futebol quanto a que experimentei na madrugada de quarta para quinta passada, ao sair o Maracanã. Logo após deixar o estádio, caminhei sem rumo por quase uma hora – olhando as coisas e vendo só as coisas, a pedra imensa tomando todo o peito. Pedra que ainda está lá, pesando.
Não vou entrar, aqui, nas questões atinentes ao jogo e à própria Copa Libertadores. É óbvio que o Fluminense merecia o título. Não discuto essa assertiva. A comparação entre as campanhas de Flu e LDU – e a própria final - apenas o confirmam. A finalíssima, aliás, somou mais uma histórica atuação às memoráveis partidas que o tricolor jogou no torneio - jogos que ficarão na lembrança, não obstante a derrota.
Sim, porque, embalado pela mais linda festa já feita por uma torcida no Maracanã e apesar da falastronice de Renato Gaúcho, o time foi valente, tirou a diferença necessária e, não fosse o cansaço e a lamentável atuação do árbitro argentino, teria vencido sem a necessidade de disputa de pênaltis. Faltou pouco, muito pouco, mas não deu.
(Um parêntese: é curioso como, depois das reclamações dos botafoguenses, parece que todo mundo perdeu a coragem denunciar arbitragens absurdas, como o que aconteceu na semana passada. O Fluminense foi flagrantemente roubado pelo juiz, que já havia prejudicado o Flamengo na Libertadores de 2007. Sobre o assunto, recomendo a leitura do blog do Arnaldo César Coelho).
“Derrota é fogo”, comentou comigo um amigo, botafoguense, alguns dias depois. Sorri um sorriso pequeno, o agradecimento pela rara solidariedade nesses dias de ódio e palavras-fel, mas respondi: “Você não entende”.
De fato, ele não entendera. De algum modo, nem eu. Nos quase 30 anos em que venho freqüentando o Maracanã, assim como os torcedores de todos os clubes vivi muitas, muitas derrotas. Fui aos jogos da Segunda Divisão. Fui aos jogos da Terceira Divisão. Fui a finais variadas. Na maioria das vezes, o sentimento pós-jogo era de raiva. Raiva do time, do técnico, o que fosse. Mas essencialmente raiva.
Na quarta passada, não houve espaço para isso. O reconhecimento do esforço dos jogadores, pelo tanto que eles tentaram, pelo tanto que dignificaram a camisa do Fluminense, impossibilitava qualquer reação desse tipo. Estamos orgulhosos deles, orgulhosos de sermos tricolores, como diz a música – o que nos legou certa imunidade a provocações de quem estava de fora, querendo estar dentro, e secando
Na verdade, numa perspectiva racional, a bonita campanha tricolor foi excepcional para o clube, tanto em termos de projeção quanto como símbolo de recuperação após a dureza dos anos 1990. O problema é que a gente tende a acreditar que uma caminhada dessas obrigatoriamente culmina na glória do título. Como se fosse o natural: o melhor vencendo no final, sendo premiado pelo que fez. E aí acaba descobrindo que o futebol se parece com a vida muito mais do que poderíamos supor. E na vida, meus amigos, nem sempre é assim.
P.S: Assisti, ontem, ao comovente depoimento do taxista Paulo Roberto Barbosa Soares no Jornal Nacional. Paulo Roberto teve o filho, de apenas três anos, assassinado por PMs que metralharam o carro de sua mulher. Leio hoje que os dois – pai e filho – estiveram na quarta passada no Maracanã, com suas camisas do Fluminense. Que no jogo de amanhã, contra o Atlético-PR – estarei lá (na alegria e na dor) -, a torcida preste a devida homenagem ao menino que não pôde ter a alegria de seu time campeão antes de morrer.
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