
Só para lembrar: amanhã estarei em Petrópolis para participar, ao lado do vencedor do Prêmio Sesc 2007, Maurício de Almeida, de um debate sobre a literatura brasileira contemporânea. Na quinta-feira, o bate-papo será em Friburgo. Os eventos acontecerão nas sedes do Sesc em cada cidade, sempre às 19h, e integram a programação do Festival de Inverno.
Em tributo à grande Zezé Gonzaga, que morreu na semana passada, a amiga Monica Ramalho republicou no site Overmundo a entrevista que fez com a cantora há cerca de dois anos. Na conversa, transposta para a tela com a habitual elegância do texto da Monica, Zezé fala da infância em Minas Gerais, do início na vida artística, da desilusão com a carreira, da traumática perda da filha adotiva e da idade avançada. “Já estou pagando hora extra na vida”, afirma ela.
Reproduzo, abaixo, alguns trechos da entrevista. Leia a íntegra aqui.
"(...) Em 1942, a cantora puxou a mãe, dona Oraida, pelo braço para se inscreverem no programa do Ary Barroso. “Ganhamos cinco, que era a nota máxima. Cantei uma música que estava em voga na ocasião, ‘Sempre no meu coração’, e mamãe tocou ‘Dinorah’, do Benedito Lacerda”. Quem passava bonito pelo gongo exigente de Ary ganhava o direito de participar do ‘Escada de Jacó’, comandado por Zé Bacurau. “Eu não queria ser profissional. Pelo menos, naquele instante, não”, diz. O negócio era cantar por prazer. Em seguida, Zezé assumiu o pseudônimo de Deise Barbosa para soltar a voz no programa de calouro ‘Pescando Estrelas’, do Arnaldo Amaral. “Eu ainda morava em Minas e vinha muito ao Rio de Janeiro de férias. Inventei um nome porque não queria que ninguém me reconhecesse” (...)"
"(...) A Rádio Nacional foi uma grande escola para Zezé, na época uma jovem de 22 anos. “Para mim, valeu muito, mas vi muita gente perder um dinheirão lá. Era o seguinte: Você tinha que chegar, no máximo, 15 minutos antes da hora que estava programado para entrar no ar. Se atrasasse, não cantava e ainda pagava uma multa”. Zezé era muito responsável e nunca chegou depois do horário combinado. “Por ter facilidade para aprender, quando faltava um, me chamavam para fazer o número daquela pessoa. Eu dava uma olhada na partitura e cantava ao vivo. Ficava um primor. Uma das cantoras que eu mais substituí foi a Nora Ney” (...)"
"(...) Outro dia, a produção do ‘Fantástico’, da Rede Globo, telefonou para a cantora a fim de convidá-la para participar de um quadro do programa dominical, um dos mais antigos da emissora. “Ah, tive que dizer à menina: Desculpe, minha filha, você não tem culpa, mas não aceito fazer parte deste programa porque em 64 anos de carreira ninguém nunca cometeu a delicadeza de me chamar para fazer um número. Obrigada, mas não vou. Não tenho nada de importante para falar sobre a minha carreira. Aliás, a mídia nunca me prestigiou como eu vejo prestigiar outros artistas, embora eu sempre tenha feito o meu trabalho com a maior dignidade possível”, desabafa (...)"
O presente que comprei para meu amigo (mencionado no post abaixo) foi Beleza e tristeza, o último romance de Yasunari Kawabata (foto). O livro acaba de ser editado no Brasil pela Estação Liberdade, num duplo lançamento que inclui o trabalho de estréia do escritor japonês, a novela A dançarina de Izu (esta saiu pela Globo).
Estou curiosíssimo para ler as duas obras, sobretudo Beleza e tristeza, no qual Kawabata narra a viagem de um velho escritor, Oki Toshio, até a cidade de Kyoto, para ouvir os sinos que tradicionalmente celebram o final do ano. O enredo, ao mesmo tempo singelo e poético, conjuga as principais marcas da literatura desse extraordinário autor, que ganhou o Prêmio Nobel em 1968. Marcas, aliás, presentes nos dois romances anteriormente lançados por aqui - O país das neves e A casa das belas adormecidas -, que resenhei há algum tempo para o Prosa & Verso (O Globo) e recomendo fortemente. Publico, abaixo, o trecho inicial da resenha. Leia a íntegra aqui.
Literatura das sensações
Marcelo Moutinho
Morte e erotismo são os dois temas que se amalgamam e cimentam em essência a literatura do japonês Yasunari Kawabata, Nobel de 1968, cuja obra está sendo relançada no Brasil com dois de seus mais importantes livros: “O país das neves” (1937) e “A casa das belas adormecidas” (1960). A dolorida noção da transitoriedade da vida, presente nestes e em outros romances dele, é cifrada por um olhar sensível, que dispensa à narrativa tons e semitons nuançados, como se o texto fosse uma pintura impressionista cunhada em sensações, em sutilezas, em subentendidos.
Formado em literatura pela Universidade Imperial de Tóquio, o escritor foi um dos fundadores da revista “Bungei Jidai”, publicação de vanguarda influenciada pelo surrealismo, e destacado integrante da chamada Shinkankuha, corrente neo-sensorialista que revolucionou as letras japonesas, opondo-se ao realismo clássico. Kawabata e seus colegas professavam a captura mais direta dos sentimentos, apostando na rarefação narrativa e no lirismo.
Em ambos os livros, traduzidos diretamente do japonês, esses traços são evidentes. No primeiro, o leitor é posto diante de um triângulo amoroso apenas sugerido entre um intelectual de meia-idade que mora em Tóquio, uma gueixa e uma jovem, cujo rosto ficará para sempre fixado na mente do protagonista, desde que o vislumbrou refletido na janela embaçada do trem em que viajava para a estação termal do País das Neves. (...)
Comprava o presente de aniversário de um amigo quando vi, na prateleira da Livraria da Travessa, a reedição (com nova capa) do disco Terra dos pássaros. Trata-se do trabalho de estréia do Toninho Horta, que eu tinha na primeira versão em cd e um dia me levaram. É evidente que arrematei o álbum no mesmo momento.
O disco foi originalmente gravado por Toninho ao lado da Orquestra Fantasma entre 1976 e 1979, e contou com as participações especialíssimas de Milton Nascimento, Raul de Souza, Airto Moreira e Wagner Tiso, entre outros. No repertório, estão lindas canções como Céu de Brasília (que ganhou um arranjo absolutamente sensacional, com vocalises do Bituca), Dona Olímpia (ainda sem a letra, em registro margeado pelo depoimento da homenageada), Beijo partido e Pedra da lua.
Ao reouvir o cd, me emocionei particularmente com Diana. Toninho explica, no texto de apresentação do disco, que a faixa quase ficou de fora por problemas técnicos. Seria uma pena, já que a canção ganhou, em Terra dos pássaros, um frescor que só reitera a sua força.
Não sei se vocês têm essa informação, mas Diana foi composta para a cachorra do artista, que havia morrido. O curioso é que descobri isso muito tempo depois de conhecer a música, apesar das tantas referências diretas a um animal ("quase humana", "corpo pintado de branco e marrom") e às situações vividas, no âmbito doméstico, por uma família e seu cão: as manias, as brincadeiras, a "espera ao pé da porta". A letra de Toninho atenta também para o impressionante olhar de tristeza que por vezes os cachorros nos lançam. Um olhar que conjuga desamparo e carinho, e que expõe o medo - abissal - do abandono.
Na verdade, outra Diana, esta (em tese) 100% humana, povoa a música brasileira. Jerry Adriani, Ronnie Von e o grupo Raça Brasileira, de memória nada saudosa, gravaram uma versão do sucesso de Paul Anka, em cujos versos suplicam: "Vem trazer-me o teu calor / Vem viver pra mim, Diana / Vem querida, minha vida, vem depressa! / Que eu te espero, e eu te quero, com paixão!"
Sinceramente, prefiro a canção em tributo à cachorra (cuja letra se segue).
"Diana"
Toninho Horta
"Velha amiga, eu volto à nossa casa
Já não te encontro alegre, quase humana
Corpo pintado de branco e marrom
E uma tristeza no olhar
Como se conhecesse dor milenar
Já não te encontro à espera ao pé da porta
Correndo viva e bela ou descansando
Tanto vazio por todo lugar
Tanto silêncio sinto ao chegar
Ao nosso território de brincar
Almoço aos domingos, a velha farra
Todos vão inventando novos segredos
Fica a ausência branca e marrom
E uma tristeza milenar
Mas os meninos voltaram a brincar
Como se ainda sentissem o teu olhar
Diana, Diana, Diana, Diana, Diana..."
O artigo abaixo, que escrevi a pedido do jornal O Globo, foi publicado na edição de ontem, dentro da coluna Rio da gente. A seção destina-se apresentar a opinião dos cariocas sobre o que deve mudar na administração de sua cidade.
Quais as vantagens de delegar o carnaval à Liga?
Marcelo Moutinho
Escritor
O que mais tem me assustado nesses primeiros dias de campanha é a postura acrítica dos postulantes à Prefeitura do Rio com relação aos grupos organizados que, sem a devida fiscalização por parte do Poder Público, dominam certos setores da economia carioca.
É o caso, por exemplo, do carnaval. Nas ‘palestras’ que os candidatos vêm proferindo a convite da Liga das Escolas de Samba do Rio Janeiro (Liesa), o tom é de completa passividade; o clima é de ‘beija-mão’.
Não há questionamento algum a respeito dos termos que norteiam o acordo entre a Liga e a Prefeitura para a administração do desfile. Não se fala sobre a divisão da vultosa renda gerada com publicidade e ingressos na grande festa da Marquês de Sapucaí. Não se discutem os mecanismos de inspeção do que é arrecadado. Evita-se qualquer comentário mais incômodo sobre os critérios que norteiam (?) a seleção de jurados e suas notas.
Em resumo: os sinais infelizmente indicam que a população do município e todos aqueles que tomam parte de forma direta no maior evento cultural da cidade (comunidades ligadas às agremiações, prestadores de serviço ou simples foliões) continuarão sem saber quais as efetivas vantagens trazidas com a delegação da responsabilidade de organizar o carnaval. Encargo que, vale ressaltar, cabe originalmente à Prefeitura.
É evidente que há temas mais candentes em pauta: o caos na saúde, a fragilidade do sistema educacional, as deficiências da engenharia de trânsito, a falta de transparência nas concessões para exploração do transporte público, a indefinição do papel da Guarda Municipal, o abandono das zonas suburbanas. Mas a atitude dos candidatos denota um permissivismo perigoso. E a indulgência de um gestor costuma se revelar é nesses pequenos atos. Pelo menos até o momento em que começa a se espalhar – até que acaba tomando a administração inteira.
Hoje, no Dia do Escritor, reproduzo aqui o poema que me foi enviado pelo amigo Henrique Rodrigues. O texto, do João Cabral, sintetiza o nosso ofício diário de catar as palavras-feijão.
"Catar feijão"
João Cabral de Melo Neto
"Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e o oco; palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco"
Recém-chegado de Portugal, o amigo Cláudio Jorge convoca para mais uma edição do Samba Novo, que vai rolar no próximo domingo, no Renascença. O evento baseia-se no formato das tradicionais rodas, mas privilegia a apresentação de sambas inéditos ou pouco conhecidos dos compositores convidados.
Para o domingo, já estão confirmadas as participações especialissimas de mestre Nei Lopes, da imperiana Luiza Dionízio, do flautista Dudu Oliveira e do poeta e letrista Paulo César Feital. O cardápio, que varia a cada edição, desta vez terá galinha ao molho pardo com polenta.
O furdunço começa às 14h, com ingressos a R$ 10 (meninos) e R$ 5 (meninas). O Renascença fica Rua Barão de São Francisco, 54 - Andaraí
Zé Luiz no Samba Luzia - O querido Zé Luiz do Império Serrano será uma das atrações de amanhã no Samba Luzia!, evento comandado pelo Moacyr Luz que acontece no Clube Santa Luzia (Rua Almirante Silva de Noronha, 300 (próximo ao aeroporto Santos Dumont). Os ingressos para a roda, marcada para 22h, custam R$ 15 (meninos) e R$ 12 (meninas).
Como a coluna do Ancelmo Góis adiantou hoje, A lenda das sereias, rainhas do mar será o enredo do Império Serrano para o carnaval de 2009. Com a retomada do lindo samba composto originalmente em 1976 por Dinoel Sampaio, Vicente Matos e Arlindo Veloso, a Serrinha promete repetir na Sapucaí a catarse coletiva de quatro anos atrás, quando reviveu Aquarela Brasileira.
Foi uma excepcional escolha, sobretudo se considerarmos que a escola abrirá o desfile. A idéia é utilizar o samba, mas desenvolver um enredo bem diferente do apresentado na década de 70. Em suma: quem vem depois do Império é que vai ter que se preocupar em manter a 'pegada'.
Segue a letra do samba, que pode ser ouvido na versão original (e sem a mutilação feita por Marisa Monte em sua regravação) aqui. Aviso que as vagas para a Ala dos Devotos já estão abertas.
"A lenda das sereias, rainhas do mar"
Dinoel Sampaio / Vicente Matos / Arlindo Veloso
"O mar, misterioso mar
Que vem do horizonte
É o berço das sereias
Lendário e fascinante
Olha o canto da sereia
Ialaô, Okê, laloá
Em noite de lua cheia
Ouço a sereia cantar
E o luar sorrindo
Então se encanta
Com a doce melodia
Os madrigais vão despertar
Ela mora no mar
Ela brinca na areia
No balanço das ondas
A paz ela semeia (bis)
Toda a corte engalanada
Transformando o mar em flor
Vê o Império enamorado
Chegar à morada do amor
Oguntê, Marabô
Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê (bis)
Janaína, Iemanjá
São Rainhas do Mar..."
A melhor feijoada - Por falar na Serrinha, a Feijoada Imperial foi eleita, em votação promovida pelo blog Bairros.Com, do Globo On, a melhor da Zona Norte. Parabéns à Tia Neia (foto), que comanda as cozinheiras de Madureira. Em segundo lugar ficaram a Portela e o Salgueiro.
Dona Ivone no MIS - Hoje, às 13h30, a grande imperiana e Primeira Dama do Samba Dona Ivone Lara partipará da série Depoimentos para a posteridade, no Museu da Imagem e do Som (MIS). Ela será entrevistada por Hermínio Bello de Carvalho, Adelzon Alves, Lecy Brandão, Marília Trindade Barbosa e Rachel Valença. A entrada é franca.
Neide Coimbra - A nota negativa fica por conta do falecimento de Neide Coimbra, ex-presidente do Império. Neide comandou a escola entre 1999 e 2005 e morreu ontem, devido a uma anemia.
Sobre a concorrência - Recomendo fortemente a leitura do post Gênesis e o Apocalipce no samba. É o Tigre na na Sapucaí, publicado pelo amigo Luis Antonio Simas no referencial Histórias do Brasil.
“Li Lúcia McCartney pela primeira vez no pilotis da PUC, para apresentar um trabalho da cadeira Comunicação e Literatura. Apaixonada pelo conto, acabei tomando um 7, minha pior nota ao longo dos quatro anos de faculdade. Ainda assim, releio Lúcia McCartney (de Rubem Fonseca) em voz alta para mim mesma e para os mais queridos sempre que há uma brecha. Na categoria romance, Inês Pedrosa está para a Flip 2008 assim como Rosa Montero está para a Flip 2004. Lá em Paraty, comprei A eternidade e o desejo e, chegando ao Rio, peguei emprestado o Fazes-me falta. Detalhe: ainda não li.
No mais, minha dica é caminhar pelo seu pedaço preferido da cidade na manhã do próximo domingo e, quando bater a sede, se tiver passado de meio-dia, bicar uma latinha de cerveja.”
* Escritora. Mantém o blog Pseudônimos e assina uma coluna semanal no Canal Mulher do site MSN
A programação literária desta semana está bastante agitada. Vamos aos eventos:
. Hoje, o amigo (e poeta de primeira) Henrique Rodrigues participará da Terça ConVerso no Café, no Teatro Gláucio Gil. Henrique vai ler seus poemas no evento, que está marcado para 18h30. O Gláucio Gil fica na Praça Cardeal Arcoverde s/nº, em Copacabana;
. Começa hoje também a série de palestras sobre literatura contemporênea organizada pelo site Digestivo Cultural. As conversas acontecerão na Casa Mário de Andrade (Rua Lopes Chaves, 546 - Barra Funda), em São Paulo, com entrada gratuita. Destaco, na programação, as mesas sobre o romance (que abre o ciclo e reunirá Miguel Sanches Neto e os amigos Flávio Izhaki e Luiz Eduardo da Matta) e o conto (marcada para amanhã, com a participação de André de Leones e Ivana Arruda Leite, além de Yuri Vieira). Na quinta e na sexta, a série contempla, respectivamente, a poesia e a crônica. As palestras se iniciam sempre às 20h. Mais informações aqui;
. Amanhã, estarei em Teresópolis para participar do Festival de Inverno da cidade. Eu e o escritor Maurício de Almeida, vencedor da categoria contos no Prêmio Sesc 2007 com o livro Beijando dentes, conversaremos sobre a produção contemporânea no painel que acontecerá às 19h, na sede do Sesc local;
. No sábado, a partir das 10h30, a Estação das Letras, Editora Record e Museu da República realizarão mais uma edição do Livros na Mesa. O evento, sediado no Museu da República (Rua do Catete, 153), estimula a troca de livros entre os participantes e conta sempre com uma palestra. Desta vez, o convidado será o professor, historiador e escritor Joel Rufino dos Santos, que falará sobre o recém-lançado Quem ama literatura não estuda literatura.
. Por enquanto, ufa!, é só.
Quando me entregou o CD de presente, a amiga Luisa Sabóia avisou de bate-pronto: "Presta atenção na gravação de Altos e baixos".
Ela sabia, evidentemente, o quanto me apraz essa canção escrita em parceria por Sueli Costa e Aldir Blanc - canção que, aliás, a própria Lu interpretou no inesquecível show que fez, há algum tempo, na Cobal do Humaitá.
De fato, a moça tinha razão. O arranjo jazzístico, marcado pela suave marcação da bateria; o andamento mais lento, que valoriza a visceralidade da letra do Aldir; a voz pequena, expondo os machucados mais profundos: tudo é preciso no registro feito por Rosa Passos em seu mais recente disco, Romance, infelizmente ainda não lançado no Brasil.
"Foram discos demais, desculpas demais / Já vão tarde essas tardes e mais tuas aulas / Meu táxi, whisky, Dietil, Diempax / Ah, mas há que se louvar entre altos e baixos / O amor quando traz tanta vida / Que até pra morrer leva tempo demais...", canta Rosa, e a gente sofre um pouco com ela, como se a alma macerada gritasse, nos sussurros, os seus cortes.
Num CD em que o repertório algumas vezes peca pela obviedade (não obstante a qualidade de tais canções, para que gravar novamente Tatuagem e Eu sei que vou te amar?), Altos e baixos sobressai num rol de belezas redescobertas que inclui ainda Doce presença (Ivan Lins / Victor Martins) e Cadê você (João Donato / Chico Buarque).
Em tempos de Lei Seca, um disco para se ouvir com a lucidez de umas taças de vinho.
O Pólo de Pensamento (POP) acaba de divulgar sua programação para agosto e setembro, que está repleta de boas opções. Uma delas é o curso Nos limites da expressão, no qual Ferreira Gullar analisará obras de diferentes épocas e estilos, utilizando, como interseção, o embate do artista com uma situação-limite.
Também prometem ser bacanas os cursos Análise de filmes: seqüências de abertura, com o crítico Pedro Butcher, e Os reinventores do homem: Freud, Darwin, Marx, Einstein, que será ministrado a oito mãos por Jurandir Freire Costa, Ricardo Waizbort, Clara de Góes e Luiz Alberto Oliveira.
Na área musical, Arhur Dapieve falará sobre Esse tal de roquenrol, oferecendo uma visão introdutória sobre o gênero surgido nos EUA em meados da década de 1950, e a bossa-nova será objeto da reflexão conjunta de Ruy Castro, Santuza Cambraia Naves, André Midani e Nelson Motta.
Em outro módulo instigante, meu ex-professor e hoje dileto amigo Victor Hugo Adler Pereira se debruçará sobre o teatro de Nelson Rodrigues, abordando a singularidade de seus dramas, crônicas e romances-folhetins dentro da cultura brasileira. "Serão destacados diálogos e polêmicas que travou com as forças renovadoras e conservadoras mais atuantes no país, especialmente no campo do comportamento sexual e das relações familiares, e discutidas suas posições contraditórias diante do catolicismo e da psicanálise", adianta Victor Hugo.
Já na seara literária, os destaques vão para os Encontros marcados com o romance policial, com Muniz Sodré, Tony Bellotto, Luiz Alfredo Garcia Roza e Marçal Aquino; e para o curso Mestres da poesia moderna: Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé e Pound, com Ivo Barroso, Marcelo Jacques de Moraes, Ana Alencar e Cristina Monteiro de Castro Pereira.
Mais informações aqui.
Poesia - O amigo Henrique Rodrigues, que lançou recemente o livro Machado de Assis, o Rio de Janeiro de seus personagens pela Pinakotheke, vai se apresentar no evento Terça ConVerso no Café, que acontecerá na próxima terça-feira no Teatro Gláucio Gil. A leitura está marcada para 18h30, e o Gláucio Gil fica na Praça Cardeal Arcoverde s/nº.
Festival de Inverno - Na semana que vem terá início também o Festival de Inverno. A ampla programação do evento, que se espalha por três cidades (Petrópolis, Teresópolis e Friburgo), inclui atrações teatrais, musicais e literárias. Um ótimo motivo para subir a serra, portanto. Quem estiver interessado, pode me mandar um e-mail que eu repasso a programação.
Debates - Dentro do Festival de Inverno, vou participar de três painéis ao lado do escritor Maurício de Almeida, vencedor da categoria contos no Prêmio Sesc 2007 com o livro Beijando dentes. Os debates serão nos dias 23 (Teresópolis), 30 (Petrópolis) e 31 (Friburgo), sempre às 19h, nas sedes do Sesc de cada cidade.
Feijoada Imperial - Na edição de amanhã, a Feijoada Imperial completará três anos de retumbante sucesso. O evento foi inaugurado no dia 16 de julho de 2005, quase uma semana após a morte a Tia Eulália, uma das fundadoras Império Serrano, e hoje está definitivamente inscrito no rol das maiores atrações do Rio de Janeiro. Neste sábado comemorativo, já foram confirmadas as presenças de Quinzinho (puxador que marcou época nos anos 1980), da habituê Andréia Café, do 1º casal de mestre-sala e porta-bandeira, Charles e Jacqueline Gomes, e do intérprete oficial, Gonzaguinha. A entrada e o prato da feijoada custam R$ 10 (cada). A quadra, que fica na Av. Ministro Edgar Romero, 114, abre às 14h.
Boa pedida para amanhã (e quinta, e sexta) é prestigiar o ciclo Encontros com Vianinha: o teatro, a televisão e o cinema, que acontecerá no Castelinho do Flamengo. O tributo ao dramaturgo criador de pérolas como Rasga coração e Mão na luva terá início às 18h, com a inauguração de uma sala com seu nome. Em seguida, às 19h, o poeta Ferreira Gullar analisará o teatro de Vianinha a partir da peça Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
As atividades recomeçam na quinta, às 18h, quando Marcelo Gonçalves e Giordano Bruno vão comentar a produção televisiva do artista (para quem não sabe, Vianinha é autor da série A grande família, hoje veiculada pela Rede Globo com caracterísiticas um tanto diferentes da versão original). Na sexta, por fim, Hernani Heffner analisará a relação do homenageado com o cinema.
Boa notícia: o ciclo tem entrada gratuita.
A amiga Thaís Motta convida para o show que fará hoje, às 20h, no Teatro Posto Seis. O espetáculo, com direção musical de Marvio Ciribelli, será baseado no repertório de Minha estação, disco de estréia da cantora. Entre as canções, há composições de Francisco Bosco, Fred Martins, Altay Veloso e Geraldinho Carneiro, além de uma parceria minha com Arthur Maia, Marvio e a própria Thaís: O som do samba (que pode ser ouvida, numa versão ainda bem crua, logo aí embaixo). Os ingressos para o show custam R$ 20. Mais informações pelo telefone 2287-7496.
O Pentimento inaugura hoje novo link no rol dos indicados. Refiro-me ao blog Prelúdios intensos para desmemoriados do amor (eta, nome bonito), da jovem dramaturga e escritora gaúcha Manoela Sawitzki.
Conheci a Manoela em Paraty, durante a Flip. Autora de peças premiadas em seu Estado natal e prestes a lançar um romance pela Record, ela dedica seu espaço virtual à publicação de textos próprios, belas fotos em PB e poemas alheios (quase nossos, de tão próximos). Tem muito Doisneau e muita Hilda Hilst por lá. Recomendo.
No sábado passado, o Prosa & Verso (O Globo) publicou minha resenha sobre O conto do amor, livro com o qual o psicanalista Contardo Calligaris estréia na ficção. Segue a íntegra do texto.
A arte como expressão e escudo
Marcelo Moutinho*
À primeira vista, pode soar pretensioso chamar um romance de “O conto do amor”. No entanto, longe de denotar ufania, a opção pelo artigo definido ajusta-se perfeitamente ao título do livro em que Contardo Calligaris estréia no campo da ficção. Isso porque não se trata de mais uma história idílica, perfumada e cor-de-rosa entre dois indivíduos súbita ou gradualmente tomados de atração um pelo outro, que sublimam ou sucumbem numa densa troca de afetos. Embora também contemple esse viés, o ‘conto’ de Calligaris alcança outras configurações: a benquerença (especial e profunda) entre pai e filho, a paixão (por vezes inexplicável) pela arte, a idealização (encharcada de melancolia) do que se passou. Todos os amores, ‘o’ amor.
Essa complexa malha é costurada a partir de um enredo singelo: a tentativa, por parte do protagonista Carlo Antonini, de desvendar ainda que tardiamente o segredo que o pai lhe sussurrara em seu leito de morte, doze anos atrás. O velho Pino, com quem Antonini muito se encontrou mas pouco conversou ao longo da vida, garantira-lhe ter sido ajudante do pintor maneirista Sodoma (1477-1549) em outra encarnação.
Como as imagens de Sodoma ainda hoje enfeitam o convento de Monte Oliveto Maggiore, na Toscana, é para lá que o protagonista se encaminha, num itinerário que inclui cidades como Milão, Siena, Florença e Paris. Concomitante ao périplo, uma viagem introspectiva: a busca de um filho por compreender quem efetivamente foi o homem que lhe permitiu vir ao mundo - e que espécie de laços os vincula. “Quero colocar, por um momento, meus pés na pegada dele”, observa Antonini.
Os traços autobiográficos do romance são evidentes. Calligaris já revelou que, para criá-lo, inspirou-se nos diários que seu pai, Giuseppe, escreveu entre 1933 e 1994. O ofício do protagonista - a psicoterapia - confunde-se com a profissão que notabilizou o autor. E a inusitada confissão sobre Sodoma de fato aconteceu. Além disso, Calligaris fez questão de ir à Toscana em 2006 e 2007, a fim de estudar in loco a ambientação da história.
Flagrante ao longo das 136 páginas, o uso excessivo dessa pesquisa acaba sendo um dos problemas do livro. Em alguns momentos, a ânsia de rechear a trama com informações sobre as cidades visitadas e a história da arte atravanca a fluência da narrativa. E esse didatismo se mostra desnecessário, até porque a relação obsessiva de Pino com a Renascença italiana já é suficientemente esquadrinhada na leitura de seus diários e na jornada européia do protagonista.
Pino via a Renascença como um refúgio, um contraponto de beleza à “feiúra do mundo”. “A sensação era de que ele vivia num mundo que lhe parecia, quase sempre, mesquinho demais”, comenta Antonini. E Nicoletta, a mulher com quem o psicoterapeuta se envolverá durante a viagem, oferece mais uma chave ao sublinhar que não é nas zonas cardeais dos afrescos e dos quadros que a Renascença verdadeiramente se expressa. “Embora estejam no centro das composições, as pietás, madonas, as flagelações, as santas ceias, os martírios et cetera talvez sejam apenas um pretexto para que se possa pintar o resto, o homem lá no fundo puxando o seu burrinho ou o camponês trabalhando na sua terra”, aponta ela.
A arte como expressão, mas também como escudo. Graça da divindade e ministério do homem comum - num paradoxo que, aliás, repete-se na maneira como a questão do tempo é tratada no romance por Calligaris. O decurso linear, que rege a caminhada de Antonini ao cruzar as cidades e a construir sua história particular, encontrando seus próprios amores, experimentando suas próprias frustrações, é vazado a todo instante por um misterioso paralelismo com a trajetória do pai. Como se os vestígios das pegadas de Pino estivessem inexoravelmente gravados em seus pés e, a cada passo, confirmassem o misto de herança e singularidade que nos constitui.
* Escritor e jornalista. Autor de “Somos todos iguais nesta noite” (Rocco)
Nunca, nem na época do rebaixamento, havia sentido uma tristeza tão grande por conta do futebol quanto a que experimentei na madrugada de quarta para quinta passada, ao sair o Maracanã. Logo após deixar o estádio, caminhei sem rumo por quase uma hora – olhando as coisas e vendo só as coisas, a pedra imensa tomando todo o peito. Pedra que ainda está lá, pesando.
Não vou entrar, aqui, nas questões atinentes ao jogo e à própria Copa Libertadores. É óbvio que o Fluminense merecia o título. Não discuto essa assertiva. A comparação entre as campanhas de Flu e LDU – e a própria final - apenas o confirmam. A finalíssima, aliás, somou mais uma histórica atuação às memoráveis partidas que o tricolor jogou no torneio - jogos que ficarão na lembrança, não obstante a derrota.
Sim, porque, embalado pela mais linda festa já feita por uma torcida no Maracanã e apesar da falastronice de Renato Gaúcho, o time foi valente, tirou a diferença necessária e, não fosse o cansaço e a lamentável atuação do árbitro argentino, teria vencido sem a necessidade de disputa de pênaltis. Faltou pouco, muito pouco, mas não deu.
(Um parêntese: é curioso como, depois das reclamações dos botafoguenses, parece que todo mundo perdeu a coragem denunciar arbitragens absurdas, como o que aconteceu na semana passada. O Fluminense foi flagrantemente roubado pelo juiz, que já havia prejudicado o Flamengo na Libertadores de 2007. Sobre o assunto, recomendo a leitura do blog do Arnaldo César Coelho).
“Derrota é fogo”, comentou comigo um amigo, botafoguense, alguns dias depois. Sorri um sorriso pequeno, o agradecimento pela rara solidariedade nesses dias de ódio e palavras-fel, mas respondi: “Você não entende”.
De fato, ele não entendera. De algum modo, nem eu. Nos quase 30 anos em que venho freqüentando o Maracanã, assim como os torcedores de todos os clubes vivi muitas, muitas derrotas. Fui aos jogos da Segunda Divisão. Fui aos jogos da Terceira Divisão. Fui a finais variadas. Na maioria das vezes, o sentimento pós-jogo era de raiva. Raiva do time, do técnico, o que fosse. Mas essencialmente raiva.
Na quarta passada, não houve espaço para isso. O reconhecimento do esforço dos jogadores, pelo tanto que eles tentaram, pelo tanto que dignificaram a camisa do Fluminense, impossibilitava qualquer reação desse tipo. Estamos orgulhosos deles, orgulhosos de sermos tricolores, como diz a música – o que nos legou certa imunidade a provocações de quem estava de fora, querendo estar dentro, e secando
Na verdade, numa perspectiva racional, a bonita campanha tricolor foi excepcional para o clube, tanto em termos de projeção quanto como símbolo de recuperação após a dureza dos anos 1990. O problema é que a gente tende a acreditar que uma caminhada dessas obrigatoriamente culmina na glória do título. Como se fosse o natural: o melhor vencendo no final, sendo premiado pelo que fez. E aí acaba descobrindo que o futebol se parece com a vida muito mais do que poderíamos supor. E na vida, meus amigos, nem sempre é assim.
P.S: Assisti, ontem, ao comovente depoimento do taxista Paulo Roberto Barbosa Soares no Jornal Nacional. Paulo Roberto teve o filho, de apenas três anos, assassinado por PMs que metralharam o carro de sua mulher. Leio hoje que os dois – pai e filho – estiveram na quarta passada no Maracanã, com suas camisas do Fluminense. Que no jogo de amanhã, contra o Atlético-PR – estarei lá (na alegria e na dor) -, a torcida preste a devida homenagem ao menino que não pôde ter a alegria de seu time campeão antes de morrer.
O texto abaixo, assinado pelo Mário Marques, foi publicado hoje no Caderno B (Jornal do Brasil). Os grifos em negrito são meus - e servem apenas para subscrever a perplexidade do crítico, que também é minha. O seminal Clube da Esquina não merecia isso.
"Flores e cravos"
Mário Marques
"A imagem é a seguinte: eu e minha irmã de braços dados acima da cabeça, para lá e para cá, assistindo à execução de Cais no meio de um tanto de gente espalhada no Maracanãnzinho. Na semana anterior, meu pai e a própria me pediram, me suplicaram para que eu a acompanhasse na celebração de 20 anos de carreira de Milton Nascimento. Logo eu, o maluquinho do quarto ao lado que combatia o TOC familiar, materializado numa vitrola de som pior do que o da minha em que habitavam, repetidamente, discos do Bituca e do Elvis Presley. Era uma briga de volume em que The number of the beasr humilhava Fé cega, faca amolada. Pois meu pai e a minha irmã TOC me encheram tanto as bolas e pronto: tal qual uma marionete, estava lá eu cantando com minha irmã (mais velha três anos) as músicas de Milton Nascimento. Foi assim que descobri, à força, o Clube da Esquina naquele 1984 (minha memória patética confirma a data desse show?). Agora relido nesse inacreditável Flores do Clube, lançado pela EMI para celebrar... 36 anos do primeiro disco da talentosa turma de Minas.
Sem a salvação da Geração Google, a internet, entrei numa loja semanas depois e tratei de levar para casa os discos aos quais o atendente me indicara, os de Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini e, obviamente, Milton Nascimento. Também passei a me interessar pelos instrumentistas mineiros, os Marcos (Marcus Viana e Marco Antonio Araujo, este morto de overdose nos anos 80), Toninho Horta e pelos letristas que acompanhavam as canções, de Ronaldo Bastos a Fernando Brant. Na música, ecos de Yes, rock progressivo, Beatles, delays, reverbs, convenções roqueiras. O som, embora talhado dessas influências, era rural, originalíssimo. Ninguém consegue me convencer do contrário em relação à minha tese alucinada de que Fool‘s overture (RickDavies/Roger Hodgson), a belíssima suíte do álbum Even in the quietest moments... (1977), do injustiçado Supertramp, foi construída a partir de Um girassol da cor do seu cabelo (Lô Borges/Marcio Borges), do Clube da Esquina (1972), tantas eram as características comuns dos arranjos, abertura com piano e voz e B com instrumentação crescente e arrebatadora, também guiada pelo piano. Passei a deixar de lado por meses o Iron Maiden para tentar entender aquele som. Tanta era minha loucura que pegaria o ônibus direto para a Belo Horizonte de Braulio Lorentz (o nosso indie que se recusa a aplaudir o Clube e prefere o Monno) para ver Lô Borges e o Sagrado Coração da Terra de Marcus Viana. Num show perto de minha casa, chegara a oferecer o telefone a Lô e Viana para que ligassem para suas famílias e tomassem água. Copos esses separados por meses para mostrar, "debiloidemente", aos amigos. Passados 24 anos, depois de ouvir outros tantos tributos, de subir Mauá num dia de inverno da década de 90 para a casa de Márcio Borges e ouvir as histórias do Clube pela ótica de Milton e Lô, aqui estamos diante deste catatônico Flores do Clube da EMI.
Bem, estou há várias linhas adiando o que sinceramente acho desse tributo feito por 12 cantoras ao Clube da Esquina. Faço isso porque, como já me disseram recentemente, costumo escrever críticas com o fígado, este já combalido por hepatite e vinhos. Meu desejo real, ou "sonho real", como cantou Lô (e Gal Costa), era que a coluna acabasse aqui. Para não ter que registrar que a coletânea da EMI é bisonha, aterradora, um acinte, um motivo para vômito súbito. Primeiro porque, tal qual as Casas de Samba, Casas da Bossa, tributos e homenagens esquecíveis do canal Multishow e obscurecidos projetos de celebração no Circo Voador, o Flores do Clube é um ajuntamento, um rescaldo do pior da música popular brasileira, seja qual for a definição disso hoje.
Para começar, adivinhem quem abre o Flores do Clube? Tá aí: este é mais um momento em que gostaria muito de olhar para o canto inferior da tela e ver o número 0, como se a coluna tivesse acabado já. Mas tudo bem, vamos lá: quem mais a não ser Ivete Sangalo, essa pessoa extremamente não-identificada com a sonoridade mineira. Ivete, onipresente em discos-tributo e, imagino, na primeira fileira do Prêmio Multishow, hoje, no Municipal, canta Cravo e canela. Canta daquele jeito, né? Como se estivesse regendo uma micareta com micareteiros atrás. Aliás, duvido que não ponha canção no repertório do próximo carnaval baiano. Depois vem Roberta Sá, a cantora que, amigos dizem, e vez ou outra concordo, é das melhores vozes brasileiras. Mas Roberta abaiana-se também. Taca um berimbau na abertura para interpretar Tudo o que você podia ser, de combustível percussivo à la Pedro Luís. Um girassol da cor do seu cabelo, a Fool’s overture, lembra?, cai na voz pequena e sem cor de Vanessa da Mata, com piano de João Donato, de sotaque estrangeiro. Paisagem da janela, burocrática, pasteuriza-se com Luiza Possi. O trem azul é empurrado ladeira abaixo por Marjorie Estiano, que não acrescenta muita coisa. E Shirle de Moraes, aquela cantora do Fama, sertanejeia San Vicente. Ainda estão no disco Fernanda Takai (Um gosto de sol), Marina Machado (Nuvem cigana), Marina de la Riva (Dos cruces), Teresa Cristina e Seu Jorge (Seu Jorge? Não eram flores do clube?), em Me deixa em paz, Mariana Baltar (em Cais, que, enfim, me trouxe até aqui indiretamente) e, por incrível que pareça, a melhor versão do CD, a de Meg Stock (ex-promessa do pop-rock nacional), com Nada será como antes, mais rascante, mantendo a armadura roqueira e transgredindo sem agredir a versão original.
Sinceramente seria o caso de perguntar, incisivamente, a quem interessar possa, por que e para que lançar um tributo desses nas lojas de discos brasileiras. Mas dessa vez, agradeço aos céus, sem mais delongas e comentários, a coluna realmente acabou."