
Tenho aproveitado a valorização do Real para conhecer melhor a América do Sul. Em 2006, voltei ao Chile e à Argentina, onde já havia estado em 1997. Na semana passada, fui ao Uruguai, numa viagem que novamente incluiu a capital argentina e da qual trago muitas impressões. Os tópicos deste e do próximo post tentarão sintetizá-las.
Uruguaios – O orgulho de ser uruguaio é uma marca muito evidente - e chega a comover. Espremidos entre duas nações maiores (Brasil e Argentina), os uruguaios não se cansam em dar provas do profundo sentimento que nutrem pelo país, ressaltando coisas que, tangíveis ou não, eles têm como o seu melhor. Com generosidade e sem qualquer traço de arrogância, tentam fazer o estrangeiro entender o que move esse amor-próprio.
Um simples monumento ou um prédio cuja arquitetura não chegaria a chamar a atenção no Rio de Janeiro ou na Bahia, por exemplo, nos são apresentados como locações excepcionais – e, diante da empolgação com que se fala, terminamos por concordar. São excepcionais, sim, ainda que para eles; e como afetos são afetos em qualquer parte do mundo, nos identificamos, e passam a ser também para nós. É bonito de ver (e sentir junto) essa relação atávica com o lugar em que vivem, sem xenofobia, mas sem o irritante deslumbramento primeiro-mundista que não raro paira por aqui.
Montevidéu – Não esperava, sinceramente, encontrar uma cidade tão bonita. Margeada pelo Rio da Prata e coalhada de árvores (que no outono chegam a seu esplendor), Montevidéu mistura à natureza uma decadência elegante, com visual marcadamente europeu. Pelas ruas, os uruguaios circulam agarrados a garrafas-térmicas e pequenas cuias, nas quais tomam o mate quente para combater o frio (peguei 1,8 grau de temperatura). É o caso de pelo menos um em cada cinco passantes.
Curiosa, também, a origem do nome da cidade. Na cartografia, as terras que viriam a se tornar a capital do Uruguai eram chamadas de “Monte VI” (em algarismos romanos), e ficavam na Direção Este Oeste (DEO), de forma que houve uma conjunção desses termos.
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No Mercado Municipal, a preparação da 'parilla'
Carne – Que a carne bovina uruguaia tem uma qualidade ímpar, eu já sabia – ao menos teoricamente. Estar lá e comprovar isso na prática é ao mesmo tempo uma delícia (em sabor) e um ato de coragem (haja digestão...). Nos restaurantes, a carne é a grande protagonista – a ponto de ser escolhida separadamente dos acompanhamentos, que vêm em pouquíssima quantidade, justificando como nunca o nome.
São 3 milhões de uruguaios e 12 milhões de cabeças de gado. Dizem que o ‘segredo’ da carne é a formação do relevo uruguaio, quase todo em planície. Por não ter que subir morros, os bois teriam menos músculos, o que resultaria numa carne mais macia.
A ‘parilla’ (churrasco) funciona como um elemento socializador. É tradição receber a família e os amigos em torno da churrasqueira, para conversar e comer. “Se não há carne na mesa, não há comida”, reza um adágio local, que resume bem a relação dos uruguaios com a carne.
Mercado – Um dos bons lugares para se comer a carne uruguaia é o Mercado Municipal de Montevidéu. Entre os tantos restaurantes que funcionam no local, eu e F. escolhemos aquele que mais tinha cara de ‘pé-sujo’. Acertamos. Logo após nos sentarmos, pedimos a quem nos atendeu uma sugestão. Quando ele acenou com o contra-filé, conclui que entendia do riscado (o mignon é excelente para comer com molho, mas sabor mesmo tem o ‘contra’). Resultado: foi lá um de nossos melhores almoços: o tal contra-filé (uma ‘manteiga’ de tão macio) com batatas-fritas, ao lado da cerveja Patricia.
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Cerveja Patrícia: preferência nacional
Cervejas – Provei as três marcas mais consumidas por lá. A já citada Patrícia é leve e bastante saborosa. A Pilsen, mais encorpada, não tem muita personalidade. Já a Zillerrthal se assemelha às cervejas européias – é mais rascante. Melhor do que todas elas é a argentina Quilmes, que foi ótima companhia nos dias passados em Buenos Aires.
Futebol – A relação dos uruguaios com o futebol se parece muito com a dos brasileiros. Orgulhosíssimos de seu passado (não foram poucas as vezes em que ouvimos referências à conquista da Copa de 1950), eles acompanham com empolgação os campeonatos locais e contam com vários canais de televisão exclusivamente voltados ao assunto. Os últimos resultados dos jogos são assunto em todas as rodas, nos bares, nos pontos de ônibus.
Quando estava em Montevidéu, aconteceu a finalíssima do Torneio Clausura, entre Penarol e River Plate. Infelizmente, os ingressos já estavam esgotados, e não conseguimos assistir à partida (aliás, as entradas custam o equivalente a R$ 10).
No fim, o Peñarol foi campeão, e uma imensa festa se espalhou pelas ruas.
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No Museu, as chuteiras e a camisa 11 de Gighia
Centenário – Fiz questão de conhecer o Estádio Centenário, palco da primeira Copa do Mundo (1930). Há, em seu interior, um interessante Museu do Futebol, que reúne troféus, uniformes e imagens dos heróis do esporte uruguaio em todos os tempos.
Mas o estádio em si está bem caidinho, apesar do indisfarçável charme.
Poesia – Comprei, durante a viagem, alguns livros (de autores uruguaios, argentinos e chilenos), dos quais falarei mais detidamente no post de amanhã. Deixo, a título de aperitivo, um lindo poema do Mario Benedetti (foto), que toca com precisão no assunto do primeiro tópico deste post. Definitivamente, a América do Sul sempre me emociona.
"Mi ciudad"
Mario Benedetti
"Mi ciudad sigue siendo mi ciudad
sin embargo no puede ser la misma
muchos de mis amigos sucumbieron
o fueron destrozados por el odio
dejando um hueco atroz em la vergüenza
ahora existe algún rosal suplente
que las lágrimas riegan por rutina
hay árboles que fueran / otros son
los pajaritos buscan los que fueron
fue desde allí que los parió la luna
y los lanzó a volar a todo riesgo
mi ciudad es la misma y no lo es
el povo de sus calles hace daño
pero el cielo implorado sigue el mismo
antes mi corazón tan suburbano
palpitaba sin el aval de nadie
ahora em marcapasos los defiende
de las alarmas y los sobresaltos
hoy llueve sobre el frío / las mujeres
abren paraguas / cierran oraciones
tal vez por ellas la ciudad es otra
y el cuerpo es outro y outro es el paisaje
también es capital del desempleo
hay barrenderos com licenciaturas
taxis que los manejan ingenieros
o químicos o médicos cesantes
y sin embargo sigue siendo ésta
la ciudad de las tiernas soledades
donde busco perdones de la vida
donde encuentro la vida del perdón".
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