
Quando o Flávio Carneiro me disse que teria uma coluna sobre futebol no Rascunho - jornal voltado exclusivamente a assuntos literários -, confesso ter estranhado. Parecia-me que, malgrado a relevância do velho esporte bretão, tal tema ficaria um tanto deslocado em meio a resenhas de livros e entrevistas com autores.
Engano meu. A coluna, hoje uma das seções mais divertidas do Rascunho, está perfeitamente integrada à publicação. E, na edição deste mês, é um dos pontos mais altos do jornal. Em seu texto, Flávio trata de desfazer a impressão de que escritores são bichos estranhos que passam todas as horas do dia lendo e criando textos, ou exercitando um de seus esportes favoritos: falar mal dos pares.
O colunista - ele próprio torcedor fanático (do Botafogo) - joga luz sobre a relação (normalíssima, muito em razão de sua esquisitice) que os escritores brasileiros mantêm com seus times de coração. Entre os depoimentos colhidos informalmente, estão os de Raimundo Carrero (Sport), José Castello (Fluminense), André de Leones (Goiás), Ivana Arruda Leite (Corínthians) e Milton Hatoum (Flamengo). Peladeiro e freqüentador contumaz do Maracanã, também dei lá meu pitaco.
Publico, abaixo, o início do texto, que pode ser lido na íntegra aqui.
"Torcedores"
Flávio Carneiro
"Certa vez escrevi, num breve ensaio sobre o conto A cartomante, de Machado de Assis, que há pelo menos três tipos de leitor: o que nega, o que afirma e o que desconfia.
Talvez se possa dizer o mesmo do torcedor de futebol. O tipo que nega normalmente aparece quando se trata de torcer pela seleção brasileira. Sim, porque para muitos torcedores há uma diferença abismal entre torcer para um clube e torcer pelo Brasil. Quando se trata do seu clube, há torcedores que vibram até com cobrança de tiro-de-meta. Se, no entanto, diante da televisão está o time de camisa amarela, a emoção só acontece mesmo quando é jogo importante, de Copa do Mundo, ou se for contra a Argentina (aí vale até amistoso). (...)"
Veja por exemplo o caso daquele torcedor que aparece numa crônica do Nelson Rodrigues. O Brasil acabara de ganhar de 5 a 1 do Paraguai e depois do jogo Nelson esbarra com o amigo lúgubre. "Mas que cara de enterro é essa?", pergunta. E o outro responde: "Estou decepcionado com o escrete!"
E Nelson conclui: "A seleção não tem saída. Se vence de cinco, se dá uma lavagem, o torcedor acha que o adversário não presta. Se empata, quem não presta somos nós. Durma-se com um barulho desses!"
Há também o torcedor que afirma sempre. Seu time pode estar uma porcaria, mas ele não admite. E torce ufanisticamente pela seleção brasileira, mesmo que seja em jogo-treino contra os juvenis do São Cristóvão. Esse é incapaz de autocrítica, pelo menos em público. Pode ser que num domingo à noite, a sós com o travesseiro, ele grite um palavrão contido a ferro e fogo durante o dia e mande seu time inteiro para o inferno! Mas com os amigos, na conversa de segunda-feira, ele volta ao normal (...)"
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