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Conto na Confraria Escrito em 27 de maio de 2008
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A edição de maio/junho da revista virtual Confraria do Vento acaba de entrar no ar. O novo número traz, entre outros destaques, um ensaio (inédito em português) de Stéphane Mallarmé, artigo do escritor Pedro Sussekind sobre O filósofo Hamlet e poemas do catalão Joan Navarro.

Eu e o amigo Mariel Reis também contribuímos nessa edição. Mariel, com o conto John Fante trabalha no Esquimó; eu, com Interlúdio, cujo trecho inicial reproduzo a seguir. Confira a íntegra aqui.

Interlúdio

Marcelo Moutinho

Na mesinha de mogno, próximo à imagem de Santo Expedito, o telefone a desafiava em silêncio. Ela revezava a vista entre o aparelho e a tela da TV, onde a novela das oito lançava algum colorido na sala escurecida pelos móveis de fórmica marrom, sem no entanto dominar a atenção. Os olhos posavam ora na tela, ora no telefone e, embora indecisos, tentavam se manter firmes sobre as bolsas inchadas do rosto, como se dissessem que permanecer abertos, apesar do sono, era questão de honra.

Mantinha os pés descansados sobre uma almofada puída, ainda mais esturricada pela sujeira do chão, e apertava com as mãos a xícara de louça inglesa, que vibrava, inquieta, em contraste com o ritmo seguro da cadeira de balanço. Os movimentos para frente e para trás ninavam o nervosismo à medida que o chá preto era sorvido em goles curtos e lentos.

Na sala, apenas ela. O irmão fora dormir logo após o jornal, desejando o boa noite terno de sempre e deixando-lhe um beijo leve na face, a solidariedade que a velhice impõe entre os que nela se embrenham. Quero ver um pouco da novela, descansei à tarde, daqui a pouco também vou, uma dessas frases saiu de seus lábios naturalmente, como um bocejo, esboçando a desculpa e precedendo o até amanhã.

O telefone permanecia fixo à mesinha, numa quietude sádica, enquanto ela tentava vender a si mesma alguma tranqüilidade, abrigar-se na moldura barroca da senhora impassível e distinta que toma chá antes de se recolher. Cada vez que os comerciais davam trégua, ajeitava os óculos com a ponta dos dedos, como se ansiasse por mais nitidez, para então fitar novamente a tela da TV, mendigando um motivo qualquer que a fizesse desviar do aparelho. (...)

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