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A dica de ‘Arnaldo Bloch’ Escrito em 08 de maio de 2008
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“Um Woody Allen é sempre um Woody Allen. Tal tautologia já se tornou pièce de résistance dos deslocados fãs desde que Allen caiu duplamente em desgraça: primeiro, frente ao público americano (e, por conseqüência, também ao brasileiro), tendo na Europa, em especial a França, seu último reduto de admiração. Esse fenômeno virou até piada: a que fecha o filme Hollywood ending (Dirigindo no escuro), uma das comédias medianas da fase em que Allen estava sendo sustentado por Spielberg. Como se não bastasse, a crítica passou a cair em cima, sistematicamente, do trabalho contemporâneo do cineasta. Depois dessa série de produções sofríveis (mas sempre obrigatórias para quem preza sua cinematografia), em Match point, novamente independente, Allen voltou aos ápices de crítica e bilheteria. Agora (e enfim, a dica da semana, depois deste enorme nariz de cera acima), O sonho de Cassandra, em cartaz no Rio, vem confirmar não só a boa fase (existe alguma fase realmente ruim de Woody Allen?) mas o ponto de maestria a que ele chegou, sobretudo nos trabalhos em que fica por trás da câmera: para além das influências temáticas e filosóficas calcadas em literatura (no caso em questão, Dostoievsky e Shakespeare) o forte mesmo é a marca de Allen , que dirige o filme como um espetáculo de marionetes, conciliando distanciamento e profundidade dramática; estranhamento (com os ingleses...) e exatidão descritiva; símbolo e matéria; síntese e conteúdo de fundo; desprendimento e apuro estético. Um de seus melhores filmes, sem dúvida. Woody Allen é assim: ainda que um camelo possa ficar quase um ano sem beber água, há um momento em que ele terá que se fartar naquela poça, mesmo enlameada e quente. Filme de Woody Allen no cinema é sempre a água da vez numa paisagem tantas vezes desértica."

* Jornalista e escritor. Autor dos livros ‘Amanhã a loucura’, ‘Talk-show’ e ‘Fernando Sabino/Perfil’

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