
Ando escutando por esses dias o novo (e ótimo) disco do Tira poeira. Em Feijoada completa, o grupo chega a resultado superior ao obtido no (já muito bom) cd de estréia, consolidando o diálogo franco do choro com outros gêneros. Sem se dobrar a purismos de ocasião, mas tampouco enveredar pelo experimentalismo meramente exibicionista, o conjunto aposta num repertório variado, que inclui desde O trenzinho caipira (de Heitor Villa-Lobos e Ferreira Gullar) a Eleanor Rigby (de Lennon e McCartney), passando por Consolação (Baden Powell e Vinicius de Moares), Vera Cruz (Milton Nascimento e Marcio Borges) e Lamento sertanejo (Dominguinhos e Gilberto Gil).
O disco conta com participações especiais (de Maria Bethânia, Olivia Hime e Lenine), mas são os arranjos - extremamente criativos, coisa de quem conhece do assunto e, sem trocadilho, joga por música - que mais chamam a atenção. Destacaria os trabalhos de Caio Márcio, em Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes), e de Fábio Nin, em Vera Cruz. Digna de aplauso é, também, o flerte com o funk em O morro não tem vez (Tom Jobim e Vinicius de Moraes). Utilizado à exaustão, na maioria das vezes sem o menor sentido, o recurso aqui ganha especial significado por conta do próprio tema abordado na canção. Ao amalgamar samba e funk, o arranjo de Sérgio Krakowski e do dj Sany Pitbull sintetiza com precisão "a voz do morro" de duas épocas, sempre a pedir passagem.
Se há um reparo a fazer, é o lamento pelo fato de a bela e dolente Senhorinha (Guinga e Paulo César Pinheiro), cuja melodia entra incidentalmente em vários momentos do cd, como se o costurasse, não ter sido registrada em faixa própria. Quem ouve o disco, fica a imaginar que beleza seria.
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