
A lembrança mais doce que tenho do tio Chico remete às tardes de sábado nas quais íamos juntos ao velho estádio da rua Conselheiro Galvão assistir aos jogos do Madureira. Eram partidas sofríveis, de péssimo nível técnico, mas que aos olhos do menino ganhavam um verniz singular - sobretudo porque eu sabia que, no intervalo, teria direito a uma coxinha de galinha com refrigerante. E a companhia dele.
Foi inevitável recordar aquelas tardes quando, na sexta passada, vi o corpo do tio dentro do caixão. Deitado sobre a base de uma das capelas do cemitério de Irajá, estava coberto pela bandeira do clube, numa homenagem merecida da diretoria, pois ele foi de fato um torcedor convicto do tricolor suburbano. Chegou – e isso só soube agora – a presidir uma das agremiações que, juntas, viriam a formar o Madureira de hoje (o que motivou o minuto de silêncio no jogo de ontem, contra o meu Fluminense).
Outras lembranças vieram com o comovente texto escrito por uma prima, no qual ela ressalta o papel que o tio Chico desempenhou na família - a família ‘Batista’, que se faz representar, em mim, num sobrenome encoberto pelo meu nome profissional. Ainda que nunca tenha gerado filhos, ele representava uma espécie de ‘patriarca’ do clã. Era a figura a quem todos podiam recorrer nos momentos de dificuldade, o apaziguador das crises, a reserva moral.
Além disso, cristalizava-se nele o último símbolo da ‘casa da vovó’, o espaço em que a família se reafirmava como tal. Invariavelmente cheio de gente, o sobrado da rua Carvalho de Souza era a sede dos almoços, o camarote do carnaval, o refúgio sempre às ordens para quem, por alguma razão, precisasse de abrigo. Em cada um de seus aposentos, grassava uma forte sensação de pertencimento, cuja insígnia maior era a grande mesa de mármore que ficava na sala principal, protegida por uma reprodução de A última ceia.
Pude notar, durante o ritual do enterro, que essa sensação vem progressivamente se perdendo. Ao olhar para a minha sobrinha Sofia, de 19 anos, me peguei a pensar que ela talvez nunca possa apreender os poderosos significados daquela casa, onde todos nós – primos, tios, avós -, tivemos a oportunidade (e a alegria) de conviver.
Nostalgia que bate, vida que segue. A doença – o câncer, sempre o câncer – tomou o tio de assalto com uma força impressionante. Ele, que jamais enfrentara enfermidades graves, passou dos sintomas à condenação em pouquíssimas semanas. E sem perder a consciência.
Na primeira visita que lhe fiz no hospital, parecia desconfiar de que o pior estava por vir. Nem assim deixou de recorrer a uma de suas frases-emblema. “A maré tá meio braba”, disse-me ele. Mas o corpo continuava altivo, e a melancolia começava a se dobrar à presença maciça dos parentes.
Na segunda visita, apenas alguns dias depois, o mesmo corpo já perdia a batalha. Tentando driblar meu espanto pela acelerada debilidade, ajudei-o a tomar café-com-leite – ele não conseguia levar a xícara até a boca -, e sugeri que ligássemos a TV para ver o jogo do Vasco.
Permaneci no quarto por algumas horas e, ao me despedir, senti – e senti agudamente – que seria a última vez em que estaria com ele. Então o tio mudou repentinamente o semblante (antes abatido) e me encarou com uma expressão de imensa quietude.
Era o olhar da alegria possível, como se falasse ‘tudo vai ficar bem, seja do modo que for’, e ali decidi que não voltaria ao hospital. Quis guardar, dele, a paz daqueles olhos, a nesga de serenidade e compreensão que generosamente o tio me ofereceu na dor de sua agonia.
Ele se foi, como se vão todas as pessoas, mais cedo ou mais tarde. Mas o poeta Drummond já escreveu que há coisas (“muito mais que lindas”) - e também pessoas – que mesmo se indo, ficam. Não resta dúvida de que o Tio Chico é uma delas.
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