
Hoje, às 19h, o amigo Flávio Izhaki participará de um evento literário no Centro Loyola de Fé e Cultura da Puc-Rio, incluindo a leitura dramatizada (com o ator Cacau Berredo) de um trecho de seu recém-lançado romance, De cabeça baixa, e posterior bate-papo. A mediação caberá ao Henrique Rodrigues, que promete levantar perguntas sobre o processo de criação e as possibiidades de aproximação entre escritores e leitores por intermédio da tecnologia. O Centro Loyola fica na Estrada da Gávea, 1 (ao lado da Puc).
"She"
Charles Aznavour / Herbert Kretzmer
"She
May be the face I can't forget.
A trace of pleasure or regret
May be my treasure or the price I have to pay.
She may be the song that summer sings.
May be the chill that autumn brings.
May be a hundred different things
Within the measure of a day.
She
May be the beauty or the beast.
May be the famine or the feast.
May turn each day into a heaven or a hell.
She may be the mirror of my dreams.
A smile reflected in a stream
She may not be what she may seem
Inside her shell
She who always seems so happy in a crowd.
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry.
She may be the love that cannot hope to last
May come to me from shadows of the past.
That I'll remember till the day I die
She
May be the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I'll care for through the rough and ready years
Me I'll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is"
É mesmo de impressionar: mais de 50 mil rubro-negros presentes ao Maracanã e só se fala de um tricolor que lá esteve.
A fotografia que deu origem ao livro: retrato de uma época
Não me canso de folhear o livro 68: Destinos. Passeata dos 100 mil, magnífico trabalho do Evandro Teixeira, que frutificou a partir de uma idéia já em si luminosa: recolher depoimentos de pessoas cujos rostos aparecem na célebre foto que ele fez, há 40 anos, na Cinelândia.
Belamente confeccionada, a obra reúne outras imagens da época - menciono, de pronto, o forte (e terrível) registro dos cavalos correndo em direção aos manifestantes, feito de cima, com extrema expressividade - e textos memorialísticos de 100 dos participantes, que revêem os significados do ato e falam de suas trajetórias pessoais.
Entre os artigos já lidos, um me chamou especialmente a atenção. Quem assina é o jornalista Augusto Nunes. Reproduzo o texto a seguir.
"Um jeito de sorrir que tínhamos"
Augusto Nunes
"Room number 1968", avisa-me a jovem na recepção do hotel em Nova York, enquanto estende a chave do quarto que me coubera. Nineteen sixty eight. Pela naturalidade da voz, ela decerto não sabe que, depois daquele 1968, esses quatro algarismos deixaram de ser um número. São um ano, serão para sempre um ano. E que não terminou: brutalmente amputado na noite de 13 de dezembro, nunca mais acabaria. Continua na memória coletiva, continua nos seus fantasmas.
Eles sempre me visitaram com freqüência. Pelo que acabo de ouvir na recepção do hotel nesta tarde de abril de 2007, devo desconfiar de que agora deram de acompanhar-me nas viagens, até para fora do Brasil, e já se reservam o direito de escolher o apartamento em que ficaremos todos. Se a intimidade aumentou, as lembranças vão ficando mais desbotadas. No começo, chamava-os pelo nome ou pelo apelido. Hoje, não são muitos os que identifico imediatamente, sem hesitações, no meio dessa multidão de faces à espera de restaurações que lhes devolvam o desenho original e inconfundível.
Já não consigo pinçar nos desvãos da memória nomes outrora familiares, nem recompor com nitidez os contornos de rostos que vi tão de perto, muito menos adivinhar como estariam neste abril de 2007, 39 anos depois de tudo. E no entanto são fantasmas indemissíveis, o que talvez seja a forma por eles encontrada para adiar a consumação da morte precoce. A primavera nova-iorquina que ilumina o quarto do hotel não consegue dissipar sombras tão antigas.
Abril talvez seja mesmo o mais cruel dos meses. Abril de 1968 foi o prenúncio de que aquele outono seria longo e terrível – e no entanto nós o saudamos como se anunciasse a sagração da primavera. Nunca fomos tão felizes. E nunca seríamos tão escandalosamente felizes quanto em 26 de junho, quando a Passeata dos 100 Mil fez com que todos os sonhos parecessem ao alcance da mão.
Não pressentimos a gestação da ditadura sem camuflagens. Não pressentimos o horror a caminho, resumido em duas letras e um número: AI-5. Não foram muitos os que sobreviveram sem traumas invencíveis, ou feridas sem chances de cauterização, à colisão brutal entre a Era de Aquário e os Anos de Chumbo.
A morte, a loucura, a desesperança e o cinismo foram os cavaleiros do nosso Apocalipse, e à sua passagem alucinada e alucinante sucumbiram milhares de moços cujo rosto está eternizado – com a espécie de olhar que só pode ser desenhado por passageiros da esperança – na foto incomparável do grande Evandro Teixeira. De qualquer forma, houve sobreviventes.
Da vez primeira em que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha, dizem os versos de Mario Quintana. A fisionomia dos que completaram a travessia do pesadelo confirma que entre um vinco e uma ruga se deu o assassinato de um jeito de sorrir que tínhamos. Mas muitos de nós resistimos ao cerco das carrancas, e não nos tornamos prisioneiros do ressentimento. Apesar de tudo, apesar de tantos, apesar de Tanatos, sabemos sorrir. Mas de um outro jeito.
Os sobreviventes assimilaram dramaticamente lições e truques essenciais. Aprenderam, por exemplo, que embora seja a vida absurdamente curta, e deva portanto ser fruída a cada minuto, a cada segundo, dura o suficiente para que mesmo um jovem possa conhecer a subida ao céu e, em seguida, a passagem pelo inferno. Aprenderam a conviver com a morte como rotina, e a tentar suavizar com eufemismos a tragédia incomparável ("Sabe quem dançou?", era a pergunta que, naqueles tempos sombrios, preparava o interlocutor para o iminente uppercut na alma. Dizer que alguém dançara parecia menos penoso que simplesmente informar que mais um desaparecera. Ou fora preso. Ou morrera.).
Quase 40 anos depois daquele outono, a primavera americana bruscamente me conduz (e aos meus fantasmas) de volta a 1968, pelas mãos de uma recepcionista de hotel que não conhece o brasileiro cinqüentão a quem entrega a chave do quarto, nem o país de onde vem o homem que reage com maldisfarçada perplexidade a uma informação banal. Ela deve ter a idade que eu tinha quando tudo começou. E sorri com aquele jeito de sorrir que tínhamos".
Ando escutando por esses dias o novo (e ótimo) disco do Tira poeira. Em Feijoada completa, o grupo chega a resultado superior ao obtido no (já muito bom) cd de estréia, consolidando o diálogo franco do choro com outros gêneros. Sem se dobrar a purismos de ocasião, mas tampouco enveredar pelo experimentalismo meramente exibicionista, o conjunto aposta num repertório variado, que inclui desde O trenzinho caipira (de Heitor Villa-Lobos e Ferreira Gullar) a Eleanor Rigby (de Lennon e McCartney), passando por Consolação (Baden Powell e Vinicius de Moares), Vera Cruz (Milton Nascimento e Marcio Borges) e Lamento sertanejo (Dominguinhos e Gilberto Gil).
O disco conta com participações especiais (de Maria Bethânia, Olivia Hime e Lenine), mas são os arranjos - extremamente criativos, coisa de quem conhece do assunto e, sem trocadilho, joga por música - que mais chamam a atenção. Destacaria os trabalhos de Caio Márcio, em Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes), e de Fábio Nin, em Vera Cruz. Digna de aplauso é, também, o flerte com o funk em O morro não tem vez (Tom Jobim e Vinicius de Moraes). Utilizado à exaustão, na maioria das vezes sem o menor sentido, o recurso aqui ganha especial significado por conta do próprio tema abordado na canção. Ao amalgamar samba e funk, o arranjo de Sérgio Krakowski e do dj Sany Pitbull sintetiza com precisão "a voz do morro" de duas épocas, sempre a pedir passagem.
Se há um reparo a fazer, é o lamento pelo fato de a bela e dolente Senhorinha (Guinga e Paulo César Pinheiro), cuja melodia entra incidentalmente em vários momentos do cd, como se o costurasse, não ter sido registrada em faixa própria. Quem ouve o disco, fica a imaginar que beleza seria.
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Luiz Carlos da Vila e Cláudio Jorge: atrações na estréia
O coração estará dividido no domingo que se aproxima. No Renascença Clube, vai rolar a edição de estréia do Samba novo, evento organizado pelos amigos Hugo Sukman e Cláudio Jorge. O próprio Cláudio Jorge e Luiz Carlos da Vila serão as primeiras atrações do projeto, que tem como objetivo revelar ao público composições inéditas nas vozes de seus criadores. Além da roda, haverá outro atrativo: a comida preparada pelos 'chefs' Baiano e Jorge Ferraz, que escolheram carne assada com nhoque para o cardápio. O furdunço está marcado para 14h, e o Claudio Jorge avisa que haverá TV no local para quem quiser assistir à final entre Botafogo e Flamengo.
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São Jorge em alegoria do Império
O complicador é que no mesmo dia acontecerá a tradicional Procissão Motorizada de São Jorge, promovida pelo Império Serrano desde 1971 em tributo ao padroeiro da escola. Como de hábito, a procissão sairá da quadra, em Madureira, às 10h, passará pela Igreja Matriz de São Jorge (em Quintino), pelo Centro Espírita Caminheiros da Verdade (em Bento Ribeiro), pela sede da Imperatriz Leopoldinense e pela Serrinha, até retornar à Avenda Edgard Romero, onde então se iniciará um grande show de samba.
Haja fígado.
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A quadra do Império Serrano, em Madureira: beleza e história
Está sendo promovida, via internet, uma eleição para apontar as sete maravilhas da quase sempre esquecida Zona Norte do Rio. No ensejo do pleito virtual, inicio cá do meu canto uma campanha em prol de votos na histórica quadra do Império Serrano, uma das candidatas. Só a gigantesca estátua de São Jorge que fica ao fundo, próximo ao palco, zelando pelos freqüentadores e pela escola já vale o sufrágio.
Também estão no páreo outras pérolas suburbanas, como a Igreja da Penha, a escola Grécia, o estádio do Maracanã, o Mercadão de Madureira e o prédio da Fiocruz. Confira todas as candidatas e registre seu voto aqui.
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Tia Maria (no centro da foto), com as Meninas da Serrinha
O amigo Lucio Sanfilippo vem brilhando nas noites de quarta-feira no Bar Semente, com apresentações ao lado do grupo Raízes africanas (Dely Monteiro, Lazir Sinval e Luiza Marmello, Roberta, Marcello, Anderson e Miguel), nas quais canta jongos, cirandas, umbandas e sambas. Amanhã, especialmente por conta do Dia de São Jorge - o padroeiro do Império Serrano -, o show contará com a participação especialíssima de Tia Maria do Jongo. O início dos trabalhos está marcado para 21h30.
Acabam de surgir duas novas ilhas de excelência na imensidão do mundo virtual. O amigo Henrique Rodrigues (foto) colocou no ar o seu site próprio, que reúne informações biográficas e sobre seus livros, resenhas, artigos, entrevistas e poemas, além de seu blog, o divertido Fullbag. O site entra desde já no rol de minhas leituras diárias.
Outra amiga querida, a Cláudia Lamego, deixou seu Lameblogadas um pouco de lado e partiu de mala e cuia para o blog coletivo O caroço. Lá, ela conta com a companhia de Pedro Paulo Malta, Luciana Gondim e Monique Cardoso, entre outros, que escrevem sobre cinema, música, esporte e comportamento com muita verve e humor.
Com os devidos parabéns ao Botafogo pela vitória - na disputa com o meu Flu, ganhou o time que tem técnico -, peço licença para reproduzir aqui uma linda cena do jogo anterior, contra o Vasco. A imprensa esportiva, com sua cobertura viciada, preguiçosa e repetidora de clichês (quando não vergonhosamente parcial), abdicou de mostrar essas imagens, que felizmente acabaram chegando à internet. Trata-se de uma inovação bacana da torcida tricolor, que formou, com os sinalizadores, a palavra 'Flu' em meio à multidão. Lindo, lindo, lindo.
Aliás, é preciso mencionar também a bonita festa que os torcedores do Fluminense e do Botafogo fizeram ontem. No segundo tempo, houve particularmente um momento em que os dois lados do Maracanã começaram a cantar a plenos pulmões e a agitar braços, camisas e bandeiras ao mesmo tempo. Foram quase dez minutos seguidos de um duelo capaz de emocionar mesmo quem não torce para nenhum dos clubes. É por isso que não dá para ficar em casa e ver pela TV.
"Receita de domingo"
Paulo Mendes Campos
"Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar docemente as grinaldas das janelas fronteiras. Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo.
Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona. Esse milagre doméstico tem de ser. Da área subir uma dissonância festiva de instrumentos de percussão — caçarolas, panelas, frigideiras, cristais anunciando que a química e a ternura do almoço mais farto e saboroso não foram esquecidas. Jorre a água do tanque e, perto deste, a galinha que vai entrar na faca saia de seu mutismo e cacareje como em domingos de antigamente. Também o canário belga do vizinho descobrir deslumbrado que faz domingo.
Enquanto tomamos café, lembrar que é dia de um grande jogo de futebol. Vestir um short, zanzar pela casa, lutar no chão com o caçula, receber dele um soco que nos deixe doloridos e orgulhosos. A mulher precisa dizer, fingindo-se muito zangada, que estamos a fazer uma bagunça terrível e somos mais crianças do que as crianças.
Só depois de chatear suficientemente a todos, sair em bando familiar em direção à praia, naturalmente com a barraca mais desbotada e desmilingüida de toda a redondeza.
Se a Aeronáutica não se dispuser esta manhã a divertir a infância com os seus mergulhos acrobáticos, torna-se indispensável a passagem de sócios da Hípica, em corcéis ainda mais kar do que os próprios cavaleiros.
Comprar para a meninada tudo que o médico e o regime doméstico desaconselham: sorvetes mil, uvas cristalizadas, pirulitos, algodão doce, refrigerantes, balões em forma de pingüim, macaquinhos de pano, papaventos. Fingir-se de distraído no momento em que o terrível caçula, armado, aproximar-se da barraca onde dorme o imenso alemão para desferir nas costas gordas do tedesco uma vigorosa paulada. A pedagogia recomenda não contrariar demais as crianças.
No instante em que a meninada já comece a "encher", a mulher deve resolver ir cuidar do almoço e deixar-nos sós. Notar, portanto, que as moças estão em flor, e o nosso envelhecimento não é uma regra geral. Depois, fechar os olhos, torrar no sol até que a pele adquira uma vida própria, esperar que os insetos da areia nos despertem do meio-sono.
A caminho de casa, é de bom alvitre encontrar, também de calção, um amigo motorizado, que a gente não via há muito tempo. Com ele ir às ostras na Barra da Tijuca, beber chope ou vinho branco.
O banho, o espaçado almoço, o sol transpassando o dia. Desistir à última hora de ver o futebol, pois o nosso time não está em jogo. Ir à casa de um amigo, recusar o uísque que este nos oferece, dizer bobagens, brigar com os filhos dele em várias partidas de pingue-pongue.
Novamente em casa, conversar com a família. Contar uma história meio macabra aos meninos. Enquanto estes são postos em sossego, abrir um livro. Sentir que a noite desceu e as luzes distantes melancolizam. Se a solidão assaltar-nos, subjugá-la; se o sentimento de insegurança chegar, usar o telefone; se for a saudade, abrigá-la com reservas; se for a poesia, possuí-la; se for o corvo arranhando o caixilho da janela, gritar-lhe alto e bom som: never more.
Noite pesada. À luz da lâmpada, viajamos. O livro precisa dizer-nos que o mundo está errado, que o mundo devia, mas não é composto de domingos. Então, como uma espada, surgir da nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada, de lado a lado. Para que os dias da semana entrante não nos repartam em uma existência de egoísmos".
. Acabo de saber que o Zé Luiz do Império Serrano está entre os finalistas do Prêmio Rival BR, por conta do disco Malandros maneiros. Embora a categoria seja lá meio esquisita ('Revelação' - isto no caso do presidente da Velha Guarda imperial), a notícia é por demais alvissareira. Aliás, o simpático show com bate-papo que eu e ele fizemos semana passada na Livraria Saraiva da Rua do Ouvidor (foi gente pacas!) promete dar frutos. Em breve, trarei novidades;
. Outra boa do dia é a bela análise que a exposição Diálogo concreto, já comentada aqui, recebeu hoje no jornal O Globo. No texto, o crítico Luiz Camillo Osório afirma que a mostra em cartaz na Caixa Cultural deve ser vista "para não se confundir rigor formal com formalismo e se ter uma visão mais generosa das possibilidades construtivas da experimentação artística. A amiga Daniela Name, curadora da exposição, certamente está sorrindo largo.
. Outra amiga, a Monica Ramalho, avisa que no próximo domingo, às 18h, o grupo Arranco de Varsóvia (foto) fará show de lançamendo do disco Samba e progresso no Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, em Santa Teresa. No roteiro do espetáculo, estão sambas como Pra que discutir com madame (Haroldo Barbosa / Janet de Almeida), Mas quem disse que eu te esqueço? (Dona Ivone Lara / Hermínio Bello de Carvalho), Nega do cabelo duro (Rubens Soares e David Nasser), Quem me vê sorrindo (Cartola e Carlos Cachaça) e E o que me importa se eu tiro o domingo pra samba? (Dorival Caymmi), entre outros. É de graça.
"Depois de O som e a fúria, fica fácil reconhecer que William Faulkner é um criador. O livro não é fácil, principalmente no início onde a visão do narrador, um deficiente mental de 33 anos, é hipnótica, pior, claustrofóbica. Conforme o livro passa o canudo de um personagem para outro, o autor ensina boas lições de como revelar a individualidade de cada um. William Faulkner é o Guimarães Rosa americano. Ou você AMA ou você não precisa dele. Não só por isso, também pelo uso livre da gramática, da oralidade, dos ritmos reais passados para o papel. Obra monumental".
* Escritora. Autora de 'Minto enquanto posso', 'Nego tudo' e 'Engano seu'. É uma das '35 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira'
O amigo Fernando Molica lançará amanhã, a partir das 19h, na Livraria Da Conde, o romance O ponto da partida. Seu novo livro conta a história de Ricardo Menezes - repórter boêmio e cinqüentão, ex-militante de esquerda, antirubro-negro convicto e fã de Nelson Cavaquinho -, que repensa a própria existência enquanto apura mais um crime cometido no Rio de Janeiro.
O romance foi elogiadíssimo na bela resenha que o Felipe Moura Brasil escreveu para o suplemento Idéias (Jornal do Brasil). Segundo o resenhista, "Molica vai traçando um paralelo entre as tragédias do personagem e as do Rio, desde a ditadura até o domínio do narcotráfico (...) sem jamais se eximir do enfoque humano e da capacidade de olhar as coisas de fora, escapando a qualquer caricatura, gênero ou reducionismo semelhante".
A Da Conde fica na Rua Conde de Bernardote, 26 - Loja 125. E após os protocolares autógrafos, o autor, seus inúmeros fãs e os amigos homenagearão o protagonista Ricardo Menezes tomando umas e outras nos bares proximos à livraria.
P.S. A linda capa do livro é da sempre competente Mariana Newlands...
Que extraordinário cantor é o Marcos Sacramento! Na sexta passada, fui conferir seu show em dueto com o violonista Luiz Flávio Alcofra e saí da Sala Cecília Meirelles realmente impressionado. A experiência de vê-lo cantar ao vivo ressalta qualidades que nos discos não estão tão claras: seu belíssimo timbre, a força na interpretação (traço raro, hoje), a presença de palco (o cara parece ter óleo nas juntas), a perfeita afinação, as variações precisas nas inflexões vocais. Tudo isso a serviço do repertório de ótimo gosto: algumas das melhores valsas e serestas do nosso cancioneiro.
Destacaria, entre os melhores momentos do espetáculo, Horas iguais (José Maria de Abreu/Francisco Matoso), Por causa dessa cabocla (Ary Barroso), Número um (Benedito Lacerda/Mário Lago), Lábios que beijei (J.Cascata/Leonel Azevedo) - e, em meio a tantos pontos altos, um ponto altíssimo: Súplica.
Sacramento parecia sentir, no palco, a dor dos lancinantes versos de Cândido das Neves e Pixinguinha ("Aço frio de um punhal / foi seu adeus pra mim..."), num registro superior inclusive ao (também muito bom) de Maria Bethânia. Não sei se o show chegou a ser gravado. Se o foi, deve virar CD - e logo.
Não posso deixar de registrar aqui meu espanto com a ridícula 'inovação' que a TV Globo veiculou ontem, no intervalo da partida entre Botafogo e Flamengo. Os cantos das torcidas tiveram suas melodias orquestradas, e essa gravação era sobreposta (aliás, mal sobreposta, gerando descompasso no ritmo) ao som que se ouvia no Maracanã durante o jogo.
A iniciativa da Globo filia-se indisfarçadamente à tese daqueles que acreditam numa cisão qualitativa entre 'cultura popular' e 'alta cultura', como se a primeira precisasse sempre ser subscrita pela segunda (ontem representada pela música erudita). Uma besteira, portanto.
Sacramento: show em duo com Luiz Flavio Alcofra
Hoje, às 20h, na Sala Cecília Meirelles, o cantor Marcos Sacramento e o violonista Luiz Flávio Alcofra (do grupo Água de Moringa) apresentarão o espetáculo Valserestas brasileiras, com canções que transitam entre o clássico e o popular. O show - que faz parte da série Interseções, idealizado e produzido pelo compositor Sérgio Natureza - sem dúvida promete.
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Morro da Conceição estará em festa no fim-de-semana
Já no sábado e no domingo, a pedida é subir o Morro da Conceição, onde acontecerão vários eventos dentro de um programa elaborado pelo escritor Rafael Cardoso (que mora no local). Dezoito artistas farão instalações, performances e intervenções nas (lindas) ruas do Morro, e haverá oficinas de criação para a comunidade e o desfile Banda da Conceição (sábado, 16h).
Além disso, os ateliês do Projeto Mauá estarão abertos à visitação, assim como a Fortaleza da Conceição, onde se localiza a masmorra na qual ficou preso Tomás Antônio Gonzaga. Para quem se animar a ir, sugiro uma passada no bar do Odilo, que tem sempre cervejas capa branca. O bar fica na Rua do Jogo da Bola, próximo à igreja.
Presidente da Velha Guarda Show do Império Serrano e compositor de mão cheia, o amigo Zé Luiz fará um pequeno show amanhã, às 12h30, na Livraria Saraiva Megastore do Centro, com entrada gratuita. Além de apresentar alguns de seus sambas mais conhecidos, como Todo menino é um rei (com Nelson Rufino) e Malandros maneiros (com Nei Lopes), o Zé vai comentar o disco recém-lançado e falar sobre a carreira, a amizade com bambas como Roberto Ribeiro e a dedicação à sua escola de coração. Caberá a mim a honra de conduzir o bate-papo.
A Saraiva fica na Rua do Ouvidor, 98. Espero vocês lá!
Foi com sofrimento que assisti, no sábado, ao jogo que redundou na queda do querido América para a Segunda Divisão do futebol do Rio. A queda teve requinte de crueldade: faltando dois minutos para acabar a partida, foi anunciado um gol do Duque de Caxias contra Mesquita, o que garantiria a manutenção do alvirrubro na Primeirona. A vibração da torcida americana – e minha - durou pouquíssimo tempo. Logo se soube que o tento fora, sim, do Mesquita, e, ao invés de evitar, sacramentava o descenso.
Escrevi ‘futebol do Rio’ no parágrafo acima porque já não como se falar em ‘futebol carioca’, visto que os clubes pequenos e médios da capital vêm sofrendo um criminoso esvaziamento (assim como a cidade?). O rebaixamento do América deve-se, em parte*, a esse processo. Já estão na Segundona outras agremiações tradicionais como o Bangu, o Olaria, o São Cristóvão e o Campo Grande, que dispensavam um charme singular ao nosso campeonato e hoje parecem sem força (financeira, principalmente) para o ansiado retorno.
A ascensão, hoje, está infelizmente limitada ao interior do Estado. Vitaminadas pelos patrocínios das prefeituras, que vêem nas camisas um outdoor de grande visibilidade, as equipes dos municípios passaram a ter poder de fogo, ao menos se comparadas aos desamparados clubes da capital. A exceção é o Madureira, que conta com os recursos de alguns imóveis localizados no bairro. Exceção que, como reza o ditado, confirma a regra.
Não sei sinceramente o que precisa ser feito para mudar esse quadro. Mas tenho a certeza de que o América, a exemplo dos demais clubes já mencionados, vai fazer muita falta no ano que vem.
* Não há como deixar de mencionar algumas más-administrações, que dilapidaram o patrimônio do clube. Também – e sobretudo - a grande sacanagem que vitimou o América na época da fundação do Clube dos 13. Para quem não acompanha futebol: terceiro colocado no Campeonato Brasileiro do ano anterior (1986), o alvirubro foi obrigado a disputar o chamado Módulo Amarelo, que correspondia à Segunda Divisão. Por resistir à flagrante injustiça, pagou naquele ano e paga até hoje.
"A festa de 50 anos do Moacyr Luz, que aconteceu no último sábado lá no Beco do Rato, por si só já seria uma dica interessante aqui pro Pentimento: não percam a próxima, arrumem um jeito de serem convidados. Ambiente ótimo, boêmios espertíssimos, cerveja gelada, tira-gosto, enfim, aquele clima carioca que o Moa sabe imprimir muito bem nas suas ondas, né? Pra melhorar, quando a festa estava no auge e parecia que desembocaríamos no parabéns pra você nessa data querida, surge no Beco a Sérvula, com suas panelas cheirando de uma forma impiedosa. Inacreditável. Gente, até o Baiano lá do Bar Getúlio, que é malandro na cozinha, teve que se render e comungar com a opinião geral. Nunca comi um arroz de marisco tão gostoso na minha vida. É isso. Todo mundo correndo lá pro Sobrenatural, em Santa Teresa, para experimentar esse prato da Sérvula".
* Cantor, compositor e instrumentista. Lançou, recentemente, os cds 'Amigo de fé' (solo) e 'O violão e o samba' (com Dorina e Carlinhos 7 Cordas). Mantém um blog e um site.
A escritora Paula Cajaty (foto) fez, em seu site, uma sensível leitura de meu mais recente livro, Somos todos iguais nesta noite. Publico, a seguir, um trecho do texto. Confira a íntegra aqui.
"Afastando-se da idéia estilizada de um Rio de Janeiro vocacionado ao surfe, ao carnaval e ao futebol, Marcelo expõe hábitos que nos identificam e descaricaturizam, e já não passamos de simples brasileiros que disputam o banco da frente com irmãos mais velhos, amantes decepcionados com a carência da voz eletrônica da secretária, não somos mais que crianças escolhendo o saco de balas pela quantidade de jujubas vermelhas, escolhas que nos definem e marcam vida afora.
Como Borges se esforçava para mostrar, a poesia se importa mais com a beleza que com as circunstâncias em que ela acontece e Marcelo, como bom poeta que é, consegue extrair de circunstâncias despercebidas e banais, melodia e ritmo, traz surpresa nas simplicidades, descobre como tornar o comum um fato único e extraordinário. (...)
O professor e amigo Flávio Carneiro avisa que, a partir do dia 15 de abril, comandará uma oficina de contos no Laboratório Estação. As aulas acontecerão às terças-feiras, das 18h30 às 21h30, durante três meses, versando sobre itens que compõem a estrutura de uma história curta, como personagem, narrador e enredo. Mais informações podem ser obtidas por intermédio do telefone (21) 2266 9900 ou no site do Grupo Estação.
Além de professor (e alvinegro), Flávio é escritor, roteirista e crítico literário. Pulicou dez livros – entre romances, contos e ensaios – e escreveu dois roteiros para cinema. Em 2007, foi finalista dos prêmios Jabuti e Zaffari & Bourbon, e ganhador do prêmio Barco a Vapor.
A lembrança mais doce que tenho do tio Chico remete às tardes de sábado nas quais íamos juntos ao velho estádio da rua Conselheiro Galvão assistir aos jogos do Madureira. Eram partidas sofríveis, de péssimo nível técnico, mas que aos olhos do menino ganhavam um verniz singular - sobretudo porque eu sabia que, no intervalo, teria direito a uma coxinha de galinha com refrigerante. E a companhia dele.
Foi inevitável recordar aquelas tardes quando, na sexta passada, vi o corpo do tio dentro do caixão. Deitado sobre a base de uma das capelas do cemitério de Irajá, estava coberto pela bandeira do clube, numa homenagem merecida da diretoria, pois ele foi de fato um torcedor convicto do tricolor suburbano. Chegou – e isso só soube agora – a presidir uma das agremiações que, juntas, viriam a formar o Madureira de hoje (o que motivou o minuto de silêncio no jogo de ontem, contra o meu Fluminense).
Outras lembranças vieram com o comovente texto escrito por uma prima, no qual ela ressalta o papel que o tio Chico desempenhou na família - a família ‘Batista’, que se faz representar, em mim, num sobrenome encoberto pelo meu nome profissional. Ainda que nunca tenha gerado filhos, ele representava uma espécie de ‘patriarca’ do clã. Era a figura a quem todos podiam recorrer nos momentos de dificuldade, o apaziguador das crises, a reserva moral.
Além disso, cristalizava-se nele o último símbolo da ‘casa da vovó’, o espaço em que a família se reafirmava como tal. Invariavelmente cheio de gente, o sobrado da rua Carvalho de Souza era a sede dos almoços, o camarote do carnaval, o refúgio sempre às ordens para quem, por alguma razão, precisasse de abrigo. Em cada um de seus aposentos, grassava uma forte sensação de pertencimento, cuja insígnia maior era a grande mesa de mármore que ficava na sala principal, protegida por uma reprodução de A última ceia.
Pude notar, durante o ritual do enterro, que essa sensação vem progressivamente se perdendo. Ao olhar para a minha sobrinha Sofia, de 19 anos, me peguei a pensar que ela talvez nunca possa apreender os poderosos significados daquela casa, onde todos nós – primos, tios, avós -, tivemos a oportunidade (e a alegria) de conviver.
Nostalgia que bate, vida que segue. A doença – o câncer, sempre o câncer – tomou o tio de assalto com uma força impressionante. Ele, que jamais enfrentara enfermidades graves, passou dos sintomas à condenação em pouquíssimas semanas. E sem perder a consciência.
Na primeira visita que lhe fiz no hospital, parecia desconfiar de que o pior estava por vir. Nem assim deixou de recorrer a uma de suas frases-emblema. “A maré tá meio braba”, disse-me ele. Mas o corpo continuava altivo, e a melancolia começava a se dobrar à presença maciça dos parentes.
Na segunda visita, apenas alguns dias depois, o mesmo corpo já perdia a batalha. Tentando driblar meu espanto pela acelerada debilidade, ajudei-o a tomar café-com-leite – ele não conseguia levar a xícara até a boca -, e sugeri que ligássemos a TV para ver o jogo do Vasco.
Permaneci no quarto por algumas horas e, ao me despedir, senti – e senti agudamente – que seria a última vez em que estaria com ele. Então o tio mudou repentinamente o semblante (antes abatido) e me encarou com uma expressão de imensa quietude.
Era o olhar da alegria possível, como se falasse ‘tudo vai ficar bem, seja do modo que for’, e ali decidi que não voltaria ao hospital. Quis guardar, dele, a paz daqueles olhos, a nesga de serenidade e compreensão que generosamente o tio me ofereceu na dor de sua agonia.
Ele se foi, como se vão todas as pessoas, mais cedo ou mais tarde. Mas o poeta Drummond já escreveu que há coisas (“muito mais que lindas”) - e também pessoas – que mesmo se indo, ficam. Não resta dúvida de que o Tio Chico é uma delas.
“Sou de São Paulo. Morei no Rio durante três anos, entre 2003 e 2006. Foi a melhor época de minha vida - vôlei de praia, novas e excelentes amizades, ensaios da Portela --, tanto que pretendo voltar. Vivendo em Ipanema, tinha saudade de uma única coisa em São Paulo: a Orquestra Sinfônica do Estado, a Osesp, o melhor conjunto do gênero já criado no Brasil. Entre 2003 e a 2006, o som da OSB, a Orquestra Sinfônica Brasileira, era constrangedor. Felizmente para os cariocas, eu e o maestro Roberto Minczuk cruzamos aviões no ar. Eu voltei, ele foi para o Rio. Assumiu a OSB. E a transformou num conjunto excelente. Hoje, há uma saudável rivalidade entre a OSB e a Osesp. Esse ‘Fla-Flu’ das orquestras impulsiona os dois conjuntos à excelência. Mais do que isso: faz com que a Osesp se apresente periodicamente no Rio, e a OSB em São Paulo. À frente do grupo paulista, o talento do carioca John Neschling. À frente do conjunto carioca, o talento do paulista Roberto Minczuk. Minha dica a paulistas e cariocas é que prestigiem suas orquestras e regentes. Farei isso neste domingo, em que vou à Sala São Paulo ver a OSB dirigida por Roberto (que, aliás, é o tema da capa da revista Bravo! deste mês). Ao ver a orquestra carioca em ação, vai ser inevitável pensar que, quando voltar a morar no Rio, não vou sentir falta de mais nada.
* Jornalista e escritor. Autor dos romances de 'O burlador de Sevilha' e 'Carnaval', além de diretor de Redação da Revista Bravo!
A Flip 2008 começa com o pé direito: como informa o blog Prosa On Line, os organizadores do evento confirmaram a presença da psicanalista e historiadora francesa Elisabeth Roudinesco. Intelectual que honra o adjetivo, Roudinesco aproveitará a viagem ao Brasil para lançar, pela editora Jorge Zahar, o livro A parte obscura de nós mesmos: Uma história dos perversos.
"Existe sempre uma coisa ausente"
Caio Fernando Abreu
"Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.
Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos há 20 anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.
Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.
Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.
Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.
Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.
* Crônica publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 3 de abril de 1994
Jornalista de primeira e amigo de todas as horas, Marceu Vieira (foto) faz aniversário hoje e vai comemorar a data com mais um show da dupla que forma com Tuninho Galante. O espetáculo acontecerá novamente no Centro Cultural Carioca e, desta vez, terá com convidada especial a cantora Ana Costa. O grupo que acompanha Tuninho e Marceu será formado por Mariana Bernardes (cavaquinho e voz), Clarice Magalhães (pandeiro e voz), Marcelo Bernardes (sopros), Lucas Porto (violão de 7 cordas) e Thiago da Serrinha (percussão).
O shoe está marcado para 21h, com ingressos a R$ 20.