
Albert Camus escreveu certa vez que os únicos paraísos são aqueles que perdemos. Referia-se à capacidade que a memória tem de reconstruir cenários, envernizando o passado com uma demão capaz de apagar suas naturais imperfeições. Pois a história de Felipe Laranjeiras, protagonista deste romance de estréia de Flávio Izhaki, acrescenta novos matizes à amargurada assertiva do autor francês.
No início da trama, Felipe encontra-se exilado em Curitiba após um duplo malogro: a péssima receptividade de seu livro pela crítica somara-se ao fim da relação com Luana. Decorridos cinco anos desde a partida do Rio de Janeiro, ele empurra os dias na capital paranaense regurgitando “um gosto azedo, uma bile amarelada”, até que, durante a visita a um sebo, depara-se com um exemplar do fracassado romance. As páginas do livro têm, em seu entorno, uma série de anotações e, na folha de abertura, uma dedicatória: “Para Ana Maria”.
É a realidade que berra, “palpável, gelada”, como “uma corrente de ar frio vinda da rua”, e o expulsa do exílio voluntário. Felipe decide então encontrar a tal mulher e, em sua busca, encena a dolorosa tentativa de religar todas as pontas soltas. Expiando o hiato entre o artista promissor e o homem precocemente amargurado, ele procura também esquadrinhar os motivos do esfacelamento de seu caso com Luana.
Essa viagem – paralelamente literal e introspectiva - é conduzida com mão firme por Flávio Izhaki. Sem hesitações de estreante, açodamento ou barulhentas estripulias formais, o autor põe sua narrativa elegante e serena a serviço do enredo. Ao desconstruir o idílio, Flávio acaba por nos lembrar que, na literatura assim como na vida, todos os paraísos são mesmo artificiais.
Marcelo Moutinho
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