
"Minha dica é o CD da jovenzíssima cantora mineira Angela Evans, produção independente que conheci meses atrás por intermédio de meu amigo Luiz Carlos da Vila, e que agora, pelas graças do velho Hermínio, tem lançamento digamos comercial pela Biscoito Fino. De tantos 'discos de samba' lançados por cantoras no último ano e meio, este é o que tem maior frescor, é o mais moderno e, ao mesmo tempo, o que revela maior ligação com a cultura do samba. Começa pelo título: Um pouco de morro outro tanto cidade sim, não somente uma precisa definição de samba como verso de uma velha composição de Elton Medeiros, Eduardo Gudin e Roberto Riberti, Estrela (gravada nos tempos da 'milennia' por Vania Bastos), redescoberta por Angela.
O disco é muito simples, apenas os mais lindos sambas do mundo, mas há muito não vejo uma cantora escolher tão bem seu repertório. Ela revela músicas novíssimas como Samba de pedra, da cada vez mais frequente dupla Ruy Quaresma e Nei Lopes, este com uma letra mineral acachapante, meio à João Cabral: "Ferveu, feito lava de vulcão / Desceu, derreteu meu coração / Depois, deixou tudo calcinado / Um terreno esturricado/Onde nada brota mais". E Angela relembra às nossas sensibilidades esturricadas sambas recentes geniais que talvez não tivessemos dado a atenção merecida, como dois de Wilson das Neves: E o vento levou, parceria com Claudio Jorge gravada originalmente no inesgotável CD Coisa de chefe; e a obra-prima em parceria com Luiz Carlos da Vila Ao nosso amor maior. Lembram dessa última? Os versos do Da Vila são todos imagens poéticas sobre o amor. Sintam a barra, à guisa de exemplo: "Bomba que não explodiu / Moça que ouvindo um psiu / Num sorriso estancava". Ah, o Das Neves canta junto e - essa você, Marcelo, vai gostar - não é a única referência imperiana do CD: no belo projeto gráfico (de Marcelo Dante) há a bandeira verde-e-branca da coroa imperial, imagens de Silas, Dona Ivone, Roberto Ribeiro...
O timbre da moça é diferente, bonito e ela canta pacas também ao vivo, como vi ontem no Centro Cultural Carioca (onde ela canta com Herminio e Áurea Martins nos dias 2, 9 e 16 de abril). No repertório do disco só há coisas de malandros do tipo Wilson Moreira (com Nei Lopes), Sérgio Santos (com Paulinho Pinheiro), e sambas uns tantos do morro (como Favela, do Padeirinho) outros tantos da cidade (como um velho Ivan Lins, Não tem perdão). E os arranjos são de um Cristóvão Bastos empenhadíssimo, modernos como pede o projeto. Desculpa se me alonguei, mas o disco é daqueles e todo pessoal do samba que eu conheço não cansa de ouvi-lo. Coisa que, em se tratando de uma artista nova, não vejo acontecer faz tempo".
* Jornalista. Autor (com Aldir Blanc e Luiz Fernando Vianna) do livro 'Heranças do samba'
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