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Pensamento único Escrito em 28 de fevereiro de 2008
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Sem entrar no mérito de ser torcedor do clube X ou Y, tenho me assustado com o 'pensamento único' que crescentemente vigora na imprensa esportiva carioca. Como comentei dia desses lá no Buteco do Edu, há cada vez menos espaço para o contraditório. Dou exemplo.

Não vou subscrever, tampouco condenar, a atitude de dirigentes e jogadores alvinegros após a final da Taça Guanabara, contra o Flamengo, até porque a questão aqui é outra. Mas, tenham ou não razão, suas vozes devem ser democraticamente ouvidas. É necessário que haja espaço para todas as posições, seja nos debates televisivos, seja nas páginas impressas. Não foi o que aconteceu no caso citado - e não se trata, infelizmente, de exceção no atual panorama.

Conferi os programas da SporTV e da ESPN Brasil: em ambos, qualquer tímida tentativa de argumento terminava imediatamente desqualificada sob a acusação de que os botafoguenses 'não sabem lidar com a derrota'. Que são 'chorões', 'azarados' etc. Nos jornais, não foi diferente. Fico admirado que até mesmo colegas por quem mantenho respeito tenham embarcado nessa onda (vide a lamentável coluna do Fernando Calazans na segunda passada). Parece que se perdeu totalmente a noção de equilíbrio.

Entendo que todos os times sofrem com erros de arbitragem (em 2006, o América foi prejudicado na final contra o próprio Botafogo; no ano passado, o Flamengo teve direito ao choro contra equívocos do juiz na partida que eliminou o rubro-negro da Libertadores), e é natural que, no calor da hora, haja exageros nas críticas de lado a lado. Mas é fundamental que, mesmo nesses momentos, a minoria tenha direito à expressão - e conte com o respeito de quem discorda. Até porque, sem flanco para o contraditório e, portanto, uma discussão sadia, qualquer absurdo ganha ares de 'verdade'.

Essa 'verdade' construída pela unanimidade (perdão pela rima) solapa qualquer ameaça de discordância, impede o debate, acirra os conflitos. O Edu, do Buteco, já alertou algumas vezes para os perigos do exagero. O futebol envolve muita paixão e é preciso que se tenha o devido cuidado porque, para a explosão, em geral basta um simples palito de fósforo. E isso, saliento, nada tem a ver com a clássica gozação da segunda-feira.

Os jornalistas, sobretudo, devem estar atentos para o risco de estimular tais conflitos. Ao ler os jornais de hoje, por exemplo, não vi nenhuma condenação ao ato hostil do Souza, que certamente terá conseqüências num próximo clássico entre Botafogo e Flamengo, ou mesmo antes dele. A imbecilidade contumaz do atleta (cujas comemorações são feitas com o símbolo do Comando Vermelho) não pode ser acobertada pela irresponsabilidade da imprensa. Por paixão ou soberba, a postura dos colegas anda perigosamente acrítica. As frutos - podres - acabarão vindo.

O processo de disseminação do 'pensamento único' é tão evidente que, quando se faz esse tipo de alerta, a reação apenas o confirma. A menor ponderação é logo rebatida com o rótulo fácil de "coisa da torcida arco-íris". Mais um sofisma, que serve para travar de pronto qualquer forma de diálogo e sedimentar o monopólio da 'verdade'.

Comigo não, violão.

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