
Cheguei há pouco do São João Batista, onde foi enterrado o corpo do João Pinel. O João era uma dessas figuras queridas da boemia carioca, notório freqüentador do Bip Bip e dos botecos da Avenida Almirante Gonçalves. Guardo carinhosamente comigo algumas de suas histórias, inclusive a do dia em que ele - um camarada de coração imenso - me tirou do que seria uma briga boba de bar. Totalmente do bem, o João.
O amigo Marceu Vieira, com a sensibilidade que é sua marca, escreveu em seu blog uma bonita homenagem a ele. Posto, abaixo, um trecho do texto, que subcrevo por inteiro. Leia o artigo completo aqui.
"Um minuto de silêncio"
Marceu Vieira
"O Botequim está de luto. Morreu o João Pinel, o querido Joãozinho do Bip Bip, o botequim de Copacabana muito melhor que este aqui. A notícia não tem o menor interesse geral, o dia seguiu comprido e quente como qualquer outro do verão, o Flamengo não cancelou treino, o governo não deixou de anunciar o fim da dívida externa, mas algo de grave para mim e um punhado de amigos se passou. Morreu o João Pinel.
João morreu moço, tinha pouco mais de 50 e a alma levada e lavada. Levada de menino grande, lavada de cerveja. João decidiu quando ia morrer. Não deixou bilhete, não aprontou carta, não avisou antes, mas decidiu.
Um dia, o João, que da Rua Almirante Gonçalves não saía, que dirá de Copacabana, foi forçado por nós a um passeio até a Lapa. Era aniversário dele. Alfredinho, dono do Bip Bip, e nós, seu punhado de amigos-confrades, o fizemos entrar num carro e rumamos para a Lapa. Quando que o maluquinho, com seu corpo livre e de gestos espaçosos, aceitaria entrar num carro? Mas o Joãozinho foi.
Desembarcamos no Carioca da Gema para uma noite de surpresas - para nós e para o nosso Pinel, criatura infensa a cerimônias e mentiras, mas, ao mesmo tempo, capaz de fingir a maior das insensibilidades, enquanto, por dentro, o coração lhe ruía de compaixão, fosse por uma cena triste qualquer ou por uma criança deitada na calçada. (...)"
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