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Milton Hatoum Escrito em 29 de fevereiro de 2008
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Muito boa, mas muito boa mesmo, a entrevista que o Milton Hatoum concedeu ao repórter Miguel Conde e está publicada na capa do Segundo Caderno de hoje. O autor demonstra uma lucidez admirável, tanto nas reflexões sobre a literatura ("O romance, se for explicitamente ideológico ou explicativo, perde sua razão de ser. Romance não pode ser uma mensagem"), quando na análise do país ("Os socialistas estão fazendo viadutos, antes faziam bibliotecas"). Leia a íntegra aqui.

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Pinceladas Escrito em 29 de fevereiro de 2008
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. Maria Bethânia e Omara Portuondo no Canecão. O show, que ocupará a casa nas próximas duas semanas e promete ser especialíssimo, me atraiu desde o primeiro anúncio. Ontem fui comprar os ingressos e quase caí da cadeira quando vi que um lugar na mesa custa entre R$ 120 e R$ 160. Repensando, repensando...

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. Acabei de ler a biografia do Tim Maia, escrita pelo Nelson Motta. O livro é divertido pacas, mas algumas coisas me incomodaram. Uma delas é a falta de rigor. Por exemplo: em vários momentos, o autor se vale de assertivas do tipo "todo mundo achou que era melhor música", referindo-se a participações especiais de Tim em trabalhos de outrem. "Todo mundo" quem, cara pálida? Outro problema é o tratamento cool dispensado à cocaína. Não advogo moralismo nesse campo - pelo contrário, tendo a ser favorável à liberação das drogas -, mas a leitura do livro acaba transmitindo a idéia de que a relação do cantor com o pó foi sempre prazerosa. Não houve ressacas terríveis? Grandes 'bodes' existenciais? Em suma: foi só alegria?

. Não deixem de conferir a descoberta feita pelo amigo Fernando Molica a respeito do grande compositor Johann Sebastian Bach. Acesse aqui.

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. Duas rodas de samba agitarão a cidade amanhã à tarde, em comemoração ao aniversário do Rio. No Beco do Rato, o pessoal do PSOL promove uma feijoada, com direito à leitura de poemas do Manuel Bandeira - além do samba, é claro. Foram anunciadas as participações de Moacyr Luz, Ana Costa e Cláudio Jorge. Na Rua do Ouvidor, acontecerá a tradicional roda organizada pela Livraria Folha Seca, pela Toca do Baiacú (boteco que vende a espetacular Serra Malte), pelo Casual e pelo Antigamente. Os parabéns na Ouvidor serão duplos: para o Rio de Janeiro e para o amigo Gabriel da Muda.

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Pensamento único Escrito em 28 de fevereiro de 2008
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Sem entrar no mérito de ser torcedor do clube X ou Y, tenho me assustado com o 'pensamento único' que crescentemente vigora na imprensa esportiva carioca. Como comentei dia desses lá no Buteco do Edu, há cada vez menos espaço para o contraditório. Dou exemplo.

Não vou subscrever, tampouco condenar, a atitude de dirigentes e jogadores alvinegros após a final da Taça Guanabara, contra o Flamengo, até porque a questão aqui é outra. Mas, tenham ou não razão, suas vozes devem ser democraticamente ouvidas. É necessário que haja espaço para todas as posições, seja nos debates televisivos, seja nas páginas impressas. Não foi o que aconteceu no caso citado - e não se trata, infelizmente, de exceção no atual panorama.

Conferi os programas da SporTV e da ESPN Brasil: em ambos, qualquer tímida tentativa de argumento terminava imediatamente desqualificada sob a acusação de que os botafoguenses 'não sabem lidar com a derrota'. Que são 'chorões', 'azarados' etc. Nos jornais, não foi diferente. Fico admirado que até mesmo colegas por quem mantenho respeito tenham embarcado nessa onda (vide a lamentável coluna do Fernando Calazans na segunda passada). Parece que se perdeu totalmente a noção de equilíbrio.

Entendo que todos os times sofrem com erros de arbitragem (em 2006, o América foi prejudicado na final contra o próprio Botafogo; no ano passado, o Flamengo teve direito ao choro contra equívocos do juiz na partida que eliminou o rubro-negro da Libertadores), e é natural que, no calor da hora, haja exageros nas críticas de lado a lado. Mas é fundamental que, mesmo nesses momentos, a minoria tenha direito à expressão - e conte com o respeito de quem discorda. Até porque, sem flanco para o contraditório e, portanto, uma discussão sadia, qualquer absurdo ganha ares de 'verdade'.

Essa 'verdade' construída pela unanimidade (perdão pela rima) solapa qualquer ameaça de discordância, impede o debate, acirra os conflitos. O Edu, do Buteco, já alertou algumas vezes para os perigos do exagero. O futebol envolve muita paixão e é preciso que se tenha o devido cuidado porque, para a explosão, em geral basta um simples palito de fósforo. E isso, saliento, nada tem a ver com a clássica gozação da segunda-feira.

Os jornalistas, sobretudo, devem estar atentos para o risco de estimular tais conflitos. Ao ler os jornais de hoje, por exemplo, não vi nenhuma condenação ao ato hostil do Souza, que certamente terá conseqüências num próximo clássico entre Botafogo e Flamengo, ou mesmo antes dele. A imbecilidade contumaz do atleta (cujas comemorações são feitas com o símbolo do Comando Vermelho) não pode ser acobertada pela irresponsabilidade da imprensa. Por paixão ou soberba, a postura dos colegas anda perigosamente acrítica. As frutos - podres - acabarão vindo.

O processo de disseminação do 'pensamento único' é tão evidente que, quando se faz esse tipo de alerta, a reação apenas o confirma. A menor ponderação é logo rebatida com o rótulo fácil de "coisa da torcida arco-íris". Mais um sofisma, que serve para travar de pronto qualquer forma de diálogo e sedimentar o monopólio da 'verdade'.

Comigo não, violão.

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A dica de 'Kelzy Ecard' Escrito em 27 de fevereiro de 2008
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"Na verdade, tenho duas dicas. A primeira é Cassiopéia, novo CD de Clara Sandroni, com o qual a cantora vem suprir um longo tempo sem espera. Dona de um lindo timbre, seu repertório traz composições de parceiros de longa data (entre eles Luiz Capucho e Paulo Malagutti) e clássicos latino-americanos, como Cassiopéia, de Silvio Rodriguez, e Palavra, de Chico Buarque. Lindo! A outra dica é A mulher que escreveu a Bíblia – encenação de Guilherme Piva para livro de Moacyr Scliar. Com uma interpretação maravilhosa de Inez Viana, este solo teatral é pra ver e rever. Inez domina a cena com talento e humor raros. Está em cartaz no Shopping da Gávea".

* Atriz

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Gota d'água Escrito em 25 de fevereiro de 2008
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Na sexta, a convite da gentil Kelzy Ecard, fui conferir a montagem de Gota d'água que está em cartaz no Teatro Glória. E lhes digo: que montagem! Nas pouco mais de duas horas e meia, o afiadíssimo elenco consegue explorar toda a contundência crítica do texto de Paulo Pontes e Chico Buarque - uma adaptação, para a modernidade, da Medéia (de Eurípedes). Num cenário simples mas funcional, a direção de João Fonseca também é precisa: mesmo nas cenas com marcação mais evidente, a naturalidade é preservada.

Além disso, as (lindas) canções do Chico ganham interpretações convincentes. Fiquei impressionado sobretudo com o desempenho da atriz Izabella Bicalho, que faz o papel da abandonada Joana. Izabella realiza um trabalho absolutamente visceral, que cresce ainda mais nos momentos em que ela canta músicas como Basta um dia, Bem querer e À flor da idade. No sexta, a atriz foi diversas vezes aplaudida em cena aberta. Com todos os méritos.

A qualidade do espetáculo é tamanha que mesmo as passagens mais datadas do texto acabam soando irrelevantes no cômputo geral. Deixo, aqui, meus parabéns públicos a todo o grupo, especialmente à Kelzy, que já havia participado, em 2007, de outra montagem de primeiro nível no mesmo Glória: Rasga coração, de Vianinha. Esse trabalho de resgate da dramaturgia dos anos 1970 me parece fundamental, já que possibilita o acesso a peças que muita gente da minha geração - e das posteriores - só conhece a partir da leitura.

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João Pinel Escrito em 22 de fevereiro de 2008
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Cheguei há pouco do São João Batista, onde foi enterrado o corpo do João Pinel. O João era uma dessas figuras queridas da boemia carioca, notório freqüentador do Bip Bip e dos botecos da Avenida Almirante Gonçalves. Guardo carinhosamente comigo algumas de suas histórias, inclusive a do dia em que ele - um camarada de coração imenso - me tirou do que seria uma briga boba de bar. Totalmente do bem, o João.

O amigo Marceu Vieira, com a sensibilidade que é sua marca, escreveu em seu blog uma bonita homenagem a ele. Posto, abaixo, um trecho do texto, que subcrevo por inteiro. Leia o artigo completo aqui.

"Um minuto de silêncio"

Marceu Vieira

"O Botequim está de luto. Morreu o João Pinel, o querido Joãozinho do Bip Bip, o botequim de Copacabana muito melhor que este aqui. A notícia não tem o menor interesse geral, o dia seguiu comprido e quente como qualquer outro do verão, o Flamengo não cancelou treino, o governo não deixou de anunciar o fim da dívida externa, mas algo de grave para mim e um punhado de amigos se passou. Morreu o João Pinel.

João morreu moço, tinha pouco mais de 50 e a alma levada e lavada. Levada de menino grande, lavada de cerveja. João decidiu quando ia morrer. Não deixou bilhete, não aprontou carta, não avisou antes, mas decidiu.

Um dia, o João, que da Rua Almirante Gonçalves não saía, que dirá de Copacabana, foi forçado por nós a um passeio até a Lapa. Era aniversário dele. Alfredinho, dono do Bip Bip, e nós, seu punhado de amigos-confrades, o fizemos entrar num carro e rumamos para a Lapa. Quando que o maluquinho, com seu corpo livre e de gestos espaçosos, aceitaria entrar num carro? Mas o Joãozinho foi.

Desembarcamos no Carioca da Gema para uma noite de surpresas - para nós e para o nosso Pinel, criatura infensa a cerimônias e mentiras, mas, ao mesmo tempo, capaz de fingir a maior das insensibilidades, enquanto, por dentro, o coração lhe ruía de compaixão, fosse por uma cena triste qualquer ou por uma criança deitada na calçada. (...)"

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Curtíssimas Escrito em 21 de fevereiro de 2008
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. A Juli Mariano, grande e querida cantora, acaba de colocar no ar o seu site próprio (com design do maridão, Carlos Cordeiro). Na página, aberta com uma frase da Clarice Lispector, estão sua discografia, dados biográficos e o e-mail de contato. Há também uma área multimídia, com fotos e vídeos da moça em ação no palco;

. Sinceramente, não engoli o apoio do presidente Lula à verdadeira covardia que a Igreja Universal do Reino de Deus faz contra a repórter Elvira Lobato, da Folha de S. Paulo. Não compactuo com corporativismo barato - sou, inclusive, contra a obrigatoriedade do diploma para jornalista -, mas está bastante clara a litigância de má fé por parte dos 'fiéis' que entraram na Justiça contra a repórter. É o caso de se preguntar: "Lula, por que não se cala?"

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. Na quarta que vem, dia 27, os amigos Marceu Vieira e Tuninho Galante farão mais um show no Centro Cultural Carioca, mostrando pérolas de sua longa e profícua parceria. Na esteira do sucesso das apresentações anteriores, desta vez o repertório terá novidades. E, como cereja no bolo, estão confirmadas as participações de Nilze Carvalho e Pedro Paulo Malta;

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. Ando lendo, nos últimos dias, uma coletânea do Aníbal Machado. Consegui o livro - uma edição bem velhinha - na Livraria da Travessa, e confesso que estou bem impressionado. Sei que se trata de uma clássico, mas nunca havia visitado a obra do autor, de quem recomendo sobretudo os contos Viagem aos seios de Duília (um retrato dilacerante do envelhecimento) e A morte da porta-estandarte (um registro poético dos antigos carnavais no Rio de Janeiro);

. Anotem na agenda: daqui a pouco mais de um mês, mais exatamente no dia 25 de março, o amigo Flávio Izhaki lançará seu primeiro livro-solo. O romance De cabeça baixa será publicado pela editora Guarda-Chuva, e tive a grande honra de escrever a apresentação da obra. Falarei mais sobre o assunto em breve.

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A dica de 'Daniela Name' Escrito em 20 de fevereiro de 2008
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"Minha dica é Os filhos da meia-noite (Companhia das Letras), de Salman Rushdie. Muita gente comentou, mas pouquíssima gente leu o autor de Os versos satânicos. Neste romance que ganhou o Booker Prize e teve a edição inglesa organizada por Liz Calder, mentora da Flip, o escritor nascido em Bombaim mistura a história da Índia com a dos 'filhos da meia-noite', isto é, as crianças nascidas antes do primeiro minuto do país independente. O narrador é Salim Sinai, filho de uma família hindu pobre que é trocado na maternidade no dia da independência por outra 'criança da meia-noite' e acaba sendo criado por um culto e abastado clã muçulmano. Para contar sua história, Salim volta ao tempo em que o avô, um respeitável médico, se apaixona por uma paciente. Atendendo ao pedido do pai da moça, o Dr. Aziz só pode ver seu corpo, coberto por um lençol, em partes. Era proibido conhecê-la por inteiro. Assim é a narrativa de Salim – avançamos em seu corpo aos pedaços, ganhando o futuro, revendo o passado e recebendo madeleines proustianas que, aqui, têm gosto de curry, chutney, cardamomo, canela. Assim também é o texto de Rushdie, outro filho de 1947 que se revela um ás nas digressões: Salim conversa diretamente com o leitor. Que nem pensa em desgrudar do romance antes da última badalada."

* Jornalista, botafoguense e imperiana de fé

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Joel Rufino, no 'Idéias' Escrito em 19 de fevereiro de 2008
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É pena que o Idéias, a reboque da decadência do outrora grande Jornal do Brasil, seja hoje tão pouco lido. Sob o comando do Álvaro Costa e Silva (Marechal), o suplemento tem circulado com ótimas edições. No sábado passado, por exemplo, o caderno trouxe uma importantíssima entrevista (de Juliana Krapp) com o professor Joel Rufino dos Santos.

Rufino acaba de lançar, pela Rocco, o provocativo Quem ama literatura não estuda literatura, que funciona como um balanço das principais lições aprendidas do longo de sua carreira docente. A obra representa, também, "um libelo contra o pacto corporativista que une os professores em torno do cânome literário", como bem destaca a repórter. Reproduzo, abaixo, alguns trechos da entrevista. Leia a íntegra aqui.

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(...) 'Quem ama literatura não estuda literatura' é uma sentença bastante polêmica. O que ela quer dizer, afinal?- Essa frase eu soltei por acaso durante uma aula, não lembro em qual contexto. Soou estranha para mim e sobretudo para os alunos, que volta e meia me cobravam uma explicação. O livro é o resultado do meu esforço em decifrá-la. O que ela representa é, em primeiro lugar: quem ama literatura não precisa estudar literatura. Pode apenas amá-la. Em segundo, quem ama literatura não a estuda seguindo os programas das universidades. Quem ama literatura de verdade investe em outros meios para investigá-la, procura também a ciência, a filosofia e as atualidades, por exemplo. E, por último: quem estuda literatura o faz da forma mais literária possível, ou seja, obtendo gozo estético disso.

O seu livro deixa claro, no entanto, que os cursos superiores de literatura pecam exatamente pelo excesso de disciplina. Por que são assim?
- São assim porque os professores, alguns deles brilhantes, têm medo de produzir um conhecimento que derrube sua base prévia de sustentação. O meio acadêmico foi domado por um medo de errar, de ter contato com o novo. Além disso, há a razão de fundo que respalda essas outras, e que é mais grave: a perda do significado social e político da literatura. Com os estudos literários confinados à academia, os professores só têm como interlocutor o seu igual, o outro acadêmico que é diferente do público em geral.

Você afirma que não levar política para a sala de aula já é, por si só, uma política. Assim, a política seria intrínseca à atividade docente. Pode falar um pouco sobre isso?
- Uma marca do ensino brasileiro, de 30 anos para cá, é o abandono do aluno. Isso é um fator político. E faz parte de um abandono maior: o do povo, que está entregue à própria sorte. O professor não se sente responsável pelo aluno do ponto de vista social. Por exemplo, se o professor de letras percebe um aluno que escreve mal, ele se exime de responsabilidade, alegando que já é tarde. Afirma para si que não é sua culpa, mas sim culpa do governo, da sociedade, da cultura de massa, de um passado que ele não pode corrigir. Se um aluno chega à universidade lendo mal - e a maioria chega - o professor não faz nada. Mas, na verdade, ele deveria se sentir ainda mais responsável por aquele aluno. A universidade, hoje, padece da irresponsabilidade de seus professores. E isso é um fato político.

Político como?
- Político não no sentido partidário, mas no das relações de poder, como diria Foucault - para citá-lo de forma justa. O professor que abandona o aluno se sente mais poderoso, e isso é política. Ele está exercendo perversamente o seu poder, tirando vantagens sobre o mais fraco. Ignorar o aluno é uma vantagem para ele. Se o professor não se interessa pelos estudantes, pode ocupar o tempo com carreira, teses, títulos, artigos publicados no exterior.

Você também afirma em seu livro que nosso ensino superior se especializou em autores pouco lidos, subestimando as modalidades populares de produção literária. As faculdades deveriam se abrir para outros tipos de literatura?
- Sim, mas isso significaria uma espécie de suicídio da universidade. Quem apontou isso primeiro foi o (diplomata e crítico literário) Guilherme Merchior que, talvez por não ter feito carreira acadêmica, conseguia apontar os defeitos graves do ensino superior. E o que ele mais apontava era a departamentalização dos cursos de letras. Apontava, também, que as faculdades deveriam abranger formas de literatura de nossos tempos, vivas, vigorosas. Como, por exemplo, a literatura policial e a oral, quase nada estudadas, mas importantíssimas. Isso seria um suicídio porque o ensino de literatura já está baseado em uma definição. Se você a contesta, puxa o tapete da universidade.

Então estamos em um beco sem saída?
- Não. Essa mudança vai acontecer naturalmente. O suicídio é uma negação de si mesmo. E é preciso negar a idéia de cânone literário, a idéia de que a literatura se constitui de livros que ninguém leu. Tenho esperança de que essa negação aconteça com a mudança na população universitária. As estatísticas mostram que, nos últimos 20 anos, a maior parte dos estudantes de letras são mulheres de classe média baixa, moradoras da Baixada Fluminense. Essa mudança de perfil social funciona como uma pressão sobre a universidade. Não é um projeto político: a própria dinâmica social se incube de mudar as coisas. (...)

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O signo da cidade Escrito em 19 de fevereiro de 2008
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O site Críticos.com colocou no ar ontem minha resenha sobre O signo da cidade, de Carlos Alberto Riccelli. O filme, na verdade, me decepcionou. Segue um trecho do texto. Leia a íntegra aqui.

Luzes da cidade

Marcelo Moutinho

Foi Ítalo Calvino quem apontou a tensão que amalgama, no âmbito da cidade, a racionalidade geométrica das construções e o emaranhado de existências humanas. O escritor italiano compreendia o espaço urbano a partir de uma espécie de “cartografia afetiva”, traçada em sensações, pulsações e afetos que circulam, como sangue, nas ruas-veias de uma metrópole.

O Signo da Cidade, novo trabalho de Carlos Alberto Riccelli, tenta um movimento semelhante, transportando a idéia-motriz de Calvino da literatura para o campo cinematográfico. A opção pelo formato do ‘filme-mosaico’, consagrado por Robert Altman, insinua-se já no roteiro de Bruna Lombardi, que também assume o papel principal na pele da astróloga Teca. (...)

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E vai rolar a fe$ta Escrito em 18 de fevereiro de 2008
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Saiu ontem na coluna do Ancelmo Góis que a Ivete Sangalo, essa artista que é uma legenda de nossa riqueza cultural, conseguiu aprovar a captação de R$ 1.850.820,00 no Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet. Segundo o projeto aprovado, a (minha, sua, nossa) grana vai ajudar a bancar seis shows da cantora pelo Brasil.

É ou não é alvissareiro saber que o MiNC aplica com tanto critério o dinheiro público advindo da renúncia fiscal?

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Poema # 2 Escrito em 15 de fevereiro de 2008
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Da partida

Marcelo Moutinho

As pessoas
– todas –
indo embora.

Velhice
Tristeza
Câncer
Coração

– Todas –
Indo embora.

Ao som de um bumbo desamparado
Assaz alheio às carícias do mundo:
à ternura da menina de trança
ao outono que se aproxima
ao Império campeão.

De resto, o nome
(avesso do corpo)
na cal porosa da lembrança
Silêncio
(mais que mudez)
na esmola do gesto de adeus.

As pessoas
- todas –
Indo embora.

E essa insuportável normalidade.

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A dica de 'Jorge Viveiros de Castro' Escrito em 15 de fevereiro de 2008
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"Vi recentemente uma peça muito bacana: Beatles num céu de diamantes. O musical consegue a difícil proeza de recriar diversas canções dos Beatles numa leitura moderna e original. Os arranjos são baseados em piano, violoncelo e percussão, e nas vozes dos onze cantores (um deles é também o percussionista) que se revezam em cena, nos coros e nos solos. Não há texto: a 'história' é costurada apenas pelas letras, e pela seqüência das cenas que ilustram cada uma delas – comprovando mais uma vez a riqueza inesgotável das composições de Lennon, Mc Cartney e Harrison, bem como o talento musical da galera tupiniquim, a começar pela dupla de criadores Charles Moeller e Cláudio Botelho, que vêm renovando o gênero nos palcos cariocas. Em cartaz no Espaço Sesc-Copacabana".

* Editor e escritor. Autor dos livros 'De todas as únicas maneiras' e 'O melhor time do mundo'.

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Henri Salvador (1917-2008) Escrito em 14 de fevereiro de 2008
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"Chambre avec vue"

Henri Salvador

"C'est un ailleurs
C'est une chambre avec vue
C'est un ailleurs
Un lien où j'ai vécu
Quelques bonheurs
Passés inaperçus
Quelques douceurs
Avec une inconnue
Que j'ai connu...
C'est le grand air
C'est une chambre avec vue
C'est le grand air
Juste au coin de la rue
Une vie entière
De la fin au début
Douce et amère
L'ai-je vraiment vécue
Je ne sais plus
Je ne sais plus... "

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Zé Pereira nº 4 Escrito em 14 de fevereiro de 2008
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Hoje, a partir das 20h, na Choperia Brazooka, vai rolar o lançamento do número 4 da revista Zé Pereira. Entre os destaques da edição, estão o (ótimo) perfil do figuraça Gerson King Combo em visita ao Mercadão de Madureira (reportagem de Dimmi Amora, fotos de André Vieira), a matéria sobre Saens Peña, o filme Vinícius Reis que levará a Tijuca às telas e o novo capítulo do folhetim* As aventuras de um Zé Pereira (escrito por Adriana Lisboa).

* Parece que, aos poucos, os folhetins começam a voltar: a exemplo da Zé Pereira, a revista Piauí anunciou que iniciará o seu, também com múltiplos autores.

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Despedidas Escrito em 13 de fevereiro de 2008
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É patética, e por isso mesmo triste, a cena final de Romário como jogador (e, vá lá, técnico). A abrupta saída do Vasco, inflada de motivos mas também de sentimentos contraditórios com relação ao 'pai' Eurico Miranda, o flerte com o Flamengo em mais uma jogada marqueteira de Kléber Leite, a discussão sobre a retirada ou não de sua estátua de São Januário, tudo isso ameaça empanar uma carreira brilhante e vitoriosa dentro das quatro linhas.

Quem costuma ler o Pentimento, sabe que sou fã do Baixinho. Nas duas oportunidades em que atuou no meu time - o Fluminense -, defendi ardorosamente sua contratação. Sempre admirei também o fato de não se dobrar ao discurso 'politicamente correto' adotado pela absoluta maioria dos nossos jogadores, que abdicaram da personalidade e transformaram-se em bonecos repetidores de frases-feitas. Romário decerto merecia um último movimento mais digno do que esse teatro de segunda categoria ao qual assistimos.

O Baixinho perdeu para um adversário implacável - o tempo. No caso do tenista Gustavo Kuerten, que também começa a se despedir, a derrota foi para a própria condição física. Vencedor sob qualquer aspecto que se possa avaliar, Guga fez o que podia, e no entanto não conseguiu driblar o crônico problema no quadril. Por isso as lágrimas que rolaram de seu rosto ontem, ao ser eliminado de um torneio na Bahia e reconhecer que enfim sucumbiu, foram tão comoventes.

Guga chorou sua decepção com a curta carreira. Chorou o corte nas expectativas que ele mesmo – e seus fãs – alimentaram de uma sempre prometida e adiada ‘volta por cima’. Chorou sobretudo a impotência diante da dor, personificada no pedido de desculpas - desnecessário, mas digno toda vida – que sublinhou a sinceridade crua de um craque cheio de talento e - coisa rara - sem afetação.

O cronista Paulo Mendes Campos escreveu certa vez que o crepúsculo encena a hora descompassada do ocaso, "quando não é ainda, mas é quase". É diante desse lento anoitecer que, cada qual a seu modo, Romário e Guga sorvem em angústia o calor íntimo das derradeiras luzes do dia.

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O caderno rosa de Lori Lamby Escrito em 13 de fevereiro de 2008
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A amiga Glauce Guima convida para a apresentação da peça O caderno rosa de Lori Lamby, que acontecerá hoje, às 20h30, no '00'. O espetáculo é uma adaptação do (ótimo) conto homônimo de Hilda Hilst, cuja trama básica centra-se no seguinte: um escritor à beira da falência prepara, a contragosto, um livro de pornografias para atender a um pedido de seu editor. Querendo ajudar o pai, Lori, de apenas oito anos, decide então também registrar histórias picantes em seu caderninho.

Glauce faz o papel da protagonista, sob a direção de Ana Hadad. O '00' fica na Avenida Padre Leonel Franca, 240 - Gávea (ao lado da PUC).

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Hotel com garagem Escrito em 12 de fevereiro de 2008
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Marcelo Moutinho

Sob o sol preguiçoso do meio da tarde, a nitidez da Praça Tiradentes chega a espantar. No lugar do breu decadente que se espraia como uma coberta espessa cada vez que o dia apaga, sou capaz de distinguir seus contornos mais recônditos, suas grades, sua aspereza, suas sujeiras, numa clareza opressiva.

O sinal demora a fechar, mas não tenho pressa. À espera da luz verde, passeio vagarosamente os olhos pelas construções e pelas pessoas que correm, ligeiras, perseguindo as horas perdidas. Meu destino é a Saara, onde os apetrechos exigidos por uma festa à fantasia aguardam deitados em bancas ou pendurados nos cabides empoeirados das velhas lojas, entre esfihas e barraquinhas de sorvete - um balé colorido e nostálgico.

No centro da rua, ônibus e carros se atravancam na confusão do trânsito quase parado. Subitamente, seus intervalos transformam-se em corredores, por onde fileiras de homens deslizam como uma imensa centopéia. No João Caetano, o painel anuncia uma peça qualquer a preços populares. Faz calor e penso em comprar um ingresso. Desisto logo. É preciso providenciar os objetos para a fantasia, cumprir o objetivo, a meta, sem desvios, sem subterfúgios. Então confiro novamente o sinal: o tempo parece estancado no verde. É quando noto a moça.

Debruçada sob o parapeito da janela de um edifício na Avenida Passos, ela apóia o cotovelo sobre o outro braço feito uma daquelas bonecas típicas de Tiradentes e contempla o movimento da rua. Não parece triste, apenas distante – enfronhada nos próprios pensamentos. Talvez lamente uma noite ruim, talvez pense nas contas que não fecham, talvez faça planos para as horas que hão de vir. Elas sempre vêm.

Deslocando o olhar, percorro a parede do prédio, andar por andar, até encontrar a portaria. No letreiro, uma pintura já esmaecida informa: ‘Motel’.

Lembro que, quando pequeno, meus pais costumavam dizer que motel era um hotel com garagem embaixo. Durante algum tempo acreditei nisso, e a recordação arranca do meu rosto um sorriso nostálgico. Meus olhos, assim como os da moça, por um segundo fitam a Praça sem enxergá-la.

Mas o foco logo volta ao edifício. A fachada que confessa seu cansaço nos espaços vazados dos rebocos. As feias janelas de alumínio, quase todas fechadas, guardando as promessas da madrugada, quando enfim se abrirão. A entrada do corredor principal. O cartaz pedindo vinte reais pelo período: seis horas, almoço incluído. Por fim a moça, que permanece no vão do terceiro andar, estátua viva, quase parte da construção.

Nos quartos trancados, imagino eu, homens trepam com mulheres, homens com homens, mulheres com mulheres, vários jogos, montagens, formações, gostos, desejos: no 201, o rapaz com a amante mais velha; no 304, o senhor casado que alugou um garoto; no 407, o clássico chefe-secretária; no 409, o casal de estudantes com pouca grana aproveita a promoção (e a refeição) da tarde.

Todos multiplicados nos espelhos da parede e do teto em pernas, braços, mãos, pés, dedos que se entrelaçam, se esfregam, se agridem, se apertam, preenchendo os próprios vazios com carne, fluidos e transpiração, à espera de um gozo incerto, mas obsessivamente buscado.

(Nas TVs de catorze polegadas que enfeitam os aposentos, o gozo é garantido).

O sinal provavelmente já se fechou, abriu, tornou a se fechar, e percebo que a moça se foi. Deixou seu lugar já quase cativo na janela, seja porque combinara de encontrar alguém ou porque queria ir para casa, precisava comprar carne e leite, ou simplesmente dormir.

Na ausência dela, o vão na imensidão azul de concreto é apenas uma moldura. Não demorará até que a faxineira entre no quarto, varra o chão, troque os lençóis, borrifando um spray de cheiro bom no ar. Depois sairá e fechará a porta, a caminho de outro cômodo.

Retomo então o trajeto rumo à Saara e, ao cruzar a Avenida Passos, volto ainda uma vez o olhar. Avisto ao longe a janela do terceiro andar, já cerrada. No escuro, o quarto desocupado decerto espera outra moça. Sem amor, sem tesão, sem suor, sem ninguém. Somente a acachapante solidão dos lençóis brancos, limpíssimos, sobre a cama.

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Para F. Escrito em 12 de fevereiro de 2008
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"Se tudo pode acontecer"

Arnaldo Antunes, Paulo Tatit, João Bandeira, Alice Ruiz

"Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover

Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão

E a gente caminhando de mão dada
de qualquer maneira
Eu quero que esse momento dure a vida inteira
E além da vida ainda de manhã no outro dia
Se for eu e você
Se assim acontecer"

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Novos blogs Escrito em 12 de fevereiro de 2008
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A lista de links indicados do Pentimento inaugura hoje três novos blogs: o Front do Rio, espaço carioquíssimo mantido pelo coleguinha César Tartaglia; Laranja é a cor do vestido dela, que marca a volta da Monica Ramalho ao mundo blogueiro; e Circulador, no qual a Crib Tanaka escreve sobre assuntos vários, da música à literatura.

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Ainda sobre o Império Escrito em 11 de fevereiro de 2008
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Recomendo a leitura de dois textos assinados pelo Eduardo Carvalho e que tratam (ainda) do histórico desfile do Império Serrano. Seguem trechos de ambos, que podem ser lidos na íntegra aqui e aqui.

"Rapaz, quando encontrei o meu (o nosso) querido amigo Júnior de Oliveira na Marquês de Sapucaí, mais precisamente na concentração da Presidente Vargas, ali pelas quatro da madrugada de domingo, um bom presságio me veio, de imediato. "Bem que o Império podia arrebentar", pensei, ao vê-lo, imperiano nato, de fato e de direito. Nos abraçamos, o neto do velho Silas fez no celular a foto que ilustra essas palavras, conversamos um pouco, e segui pra ver o Império Serrano passar.Ver, não, testemunhar. Passar, não, sambar, flutuar. O que fez aquela gente da Serrinha, de Madureira e adjacências, debaixo daquela água intensa, incrível, foi de arrepiar até poste. (...) Esse prólogo todo é pra dizer que - mil perdões, Beija-Flor - o carnaval 2008 é todinho do Império Serrano. É integralmente da Serrinha e de Madureira, a grande capital do subúrbio. É daquele canto inacreditável que envolveu a Sapucaí encharcada, já quase na manhã de domingo. É da garra, da emoção em estado bruto, de um carnaval que ainda vale a pena, apesar das Escolas de Samba S.A. (...)"

"A Marquês de Sapucaí já viveu noites muito melhores do que essas do carnaval 2008, o mais insosso dos últimos dez ou doze anos. Vocês querem logo saber o que se salvou - e nos salvou - nesse desfile de mesmices e rara emoção? Pois eu digo: O Império Serrano. O que aconteceu já quase na manhã de domingo, no apagar das luzes do Acesso, foi de uma magia difícil de explicar. Debaixo de uma água daquelas, o Império, eterno "Menino de 47", entrou na avenida com uma força que só vendo, cantou de um jeito que nem ouvindo a gente acreditava, dançou para os deuses do carnaval e do samba como fazia antigamente. Com um carnaval pobre, pegando emprestadas ferragens dali, vidraçaria de lá, mão-de-obra de acolá - e por aí afora -, a escola juntou os cacos e fez um desfile histórico. Teve muita gente chorando, eu vi, banhado que estava na cabeceira da pista. (...)"

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Do blog do Tartaglia Escrito em 11 de fevereiro de 2008
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"De um gozador, e isso é o que não falta naquele pedaço de resistência do Rio, durante a roda de samba de sábado na Ouvidor, entusiasmadíssimo após ouvir (juro que não é trocadilho) uma incrível seqüência de sambas de terreiro com a qual Gabriel Cavalcante e Pratinha, que comandavam os trabalhos, homenagearam (juro que em momento algum ocorreu-me o ato falho de escrever "desagravaram") Portela, Mangueira, Salgueiro e Império:

- Toca agora uma seqüência da Beija-Flor e da Grande Rio!

Gabriel jura que deixou o microfone disponível por meia hora, para ver se algum dos presentes se lembrava de um samba que fosse das velhas ou jovens guardas das duas gigantes do Sambódromo, mas ninguém se habilitou.

Devia ser implicância do gaiato, claro."

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Por trás dos vidros Escrito em 11 de fevereiro de 2008
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No sábado retrasado, o Prosa & Verso (O Globo) publicou minha resenha sobre o livro Por trás dos vidros, de Modesto Carone. Segue o texto, na íntegra:

carone2.jpg

Uma estranheza plácida

Marcelo Moutinho*

A correlação entre Modesto Carone e Franz Kafka é tentadora - e quase inevitável. Primeiro, porque se trata do principal tradutor brasileiro do autor de clássicos como “O processo” e “A metamorfose”. Se não bastasse, os 49 contos reunidos em “Por trás dos vidros”, seu novo livro, caracterizam-se pelo registro realista e pelo matiz insólito que sempre foram caros ao escritor tcheco. Engana-se, no entanto, quem pensa em pastiche. Além de apresentar um estilo próprio - e mesmo singular dentro de nosso atual panorama literário -, Carone abdica de perscrutar sentidos no absurdo. A angústia da pergunta nunca respondida, que atormenta os personagens kafkianos, dá lugar a uma melancólica e passiva adaptação ao estado das coisas.

Recém-lançado pela Companhia das Letras, “Por trás dos vidros” oferece um plano geral da produção de Carone no campo da ficção. Aos contos retirados de três trabalhos anteriores – “As marcas do real” (1979), “Aos pés de Matilda” (1980) e “Dias melhores” (1984), todos fora de catálogo -, foram acrescidos textos publicados nos últimos anos de forma esparsa em jornais e revistas. O agrupamento de narrativas escritas em diferentes épocas não chega a tornar o livro inorgânico, sobretudo porque há uma marca que atravessa suas 208 páginas e justifica a feliz escolha do título: o olhar oblíquo, “por trás dos vidros” que a tudo filtram (ou deformam).

Nos breves contos de Carone, os movimentos são introspectivos. Seus personagens detêm-se no detalhe, na avassaladora tensão interna que precede cada ato, nas potências misteriosas que regem os acontecimentos. Quase sempre é uma imagem externa que aciona o gatilho. Ao visitar o local em que passou a infância, o protagonista de “Passagem de ano entre dois jardins” sente os tempos do presente e da memória acasalarem-se e, numa epifania, infere que “é inaceitável se aprender a morrer”. O jovem apaixonado de “À margem do rio” experimenta a dor do primeiro luto quando vê a bailarina do circo, dona de seus afetos, partir. Em “Bens familiares”, o homem não agüenta o desacerto das batidas do carrilhão que costuma lhe fazer companhia nas horas mortas - “um engasgo passou a substituir o intervalo entre as badaladas” – e o destrói. O viés simbólico é evidente.

Em vários textos, como “Subúrbio”, “Dias melhores”, “Rito sumário” e “Fim de caso”, Carone vale-se também do recurso da numeração. Ao promover o ordenamento formal de enredos essencialmente insólitos, o autor ajuda a cristalizar o conflito que assalta seus personagens, cindidos entre a ‘normalidade’ externa e a ‘subversão’ interna. Esse duplo aparece ainda mais nítido em “O cúmplice”. O conto relata a agonia do indivíduo que evita o seu ‘outro’ por uma razão prosaica: o dente podre e dolorido. Quando enfim consegue livrar-se daquele que o persegue, ele nota que sumiu também o incômodo dentro da boca. Mas logo reitera a desconfiança de um rápido retorno, como se o soubesse inevitável: “Quem convive com os seres da sombra sabe muito bem que eles se apegam à vida assim que nós os tornamos necessários”.

É uma pena que, em alguns textos, Carone não resista a explicitar uma ‘moral da história’ e abdique da penumbra que paira sobre a maior parte da obra. O caso de “As faces do inimigo” é exemplar. O protagonista passa as tardes vigiando de forma minuciosa os pêlos que crescem, à revelia, ao longo de seu corpo. A tarefa é árdua, já que a multiplicação ocorre rapidamente, “os espécimes rebeldes proliferam, a conta de luz, por causa dos refletores, sobe sem parar” e, além de tudo, é preciso repor as pinças. De lúdica, a empreitada torna-se exasperadora. Mas a promissora trama desmancha-se no artifício de uma frase ‘conclusiva’: “Ocorreu-me então, daquele rosto abismado, que muito pouco se pode fazer contra as manifestações espontâneas”.

Embora destoem, esses pequenos desvios não chegam a fazer malograr o livro, que culmina no belíssimo “Utopia do jardim-de-inverno”. No conto, o narrador contempla a extrema morosidade com que a natureza se transforma, tentando esquadrinhar “o mundo complicado” de uma estufa. “Todas as vezes que eu entro no jardim-de-inverno alguma novidade me espera. Não que lá aconteçam coisas excepcionais – a não ser para os olhos habituados ao trato maleável com as nuances”, anota ele. De certo modo, essa espera sem pressa por “sinais aparentemente insignificantes, como trocas discretas de posições e arranjos que a vista destreinada não distingue”, reencena a busca de Carone em “Por trás dos vidros”: enxergar as luzes mais inusitadas, flagrar os meneios mais perturbadores – ainda que sem decifrá-los.

* Escritor e jornalista. Autor de 'Somos todos iguais nesta noite'

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Desfile na Intendente Magalhães Escrito em 09 de fevereiro de 2008
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As escolas vencedoras dos grupos de Acesso C, D e E desfilarão hoje à noite na Estrada Intendente Magalhães, com entrada franca. Num decisão corretíssima, a direção do Império Serrano resolveu também participar do evento, prestigiando a comunidade da Zona Norte. A verde-e-branco da Serrinha fechará o desfile.

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Derradeiros confetes Escrito em 08 de fevereiro de 2008
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Ala das baianas do Império Serrano, durante o desfile de sábado

1. Grupo Especial - Foi merecido o título da Beija-Flor (isto, de acordo com as atuais regras e padrões de julgamento – o que não quer dizer que concorde com eles). Bacana a posição digna da Portela. Estranhei a posição da Mocidade, que merecia melhor sorte, e vibrei muito com a não-inclusão da Viradouro entre as seis agremiações que voltarão à Sapucaí amanhã. Sinceramente, cada vez mais as egotrips do senhor Paulo Barros, longe de servirem ao enredo, procuram prover a demonstração pública de sua ‘genialidade’. Quanto à Mangueira, bem-feito. É certo que os jurados levaram em conta as recentes denúncias de envolvimento com o tráfico, mas é preciso se reconhecer que o samba era um dos piores da história da escola, a começar pela lamentável rima do refrão: ‘vejo’ com ‘frevo’. A péssima posição talvez faça os dirigentes repensarem as estratégias dos recentes anos - colocar Preta Gil com madrinha de bateria, por exemplo -, que distanciaram a grande Mangueira de si mesma.

2. Blocos – Passei no Azeitona (uma decepção – estava superlotado, o que se torna um problema quando o desfile se dá numa rua estreita e o carro de som não funciona. Além disso, senti falta daquela mistura de gentes que caracteriza os bons blocos), estive no Bip Bip (melhor do que no ano passado, mas encurtado pelo temporal que desabou logo que os componentes chegaram na Avenida Atlântica), no Cordão do Boitatá (atrasou demais, o que me fez desistir, já que a fantasia já molhada pelo desfile do Império tornou-se impraticável depois de mais uma hora sob chuva), no Bagunça Meu Coreto (ótimo, ótimo) e no Rancho Flor do Sereno. Na terça, a opção foi nosso tradicional ‘camarote’ na Avenida Rio Branco, para ver o Cacique passar.

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Quitéria Chagas: uma rainha singular

3. Grupo de Acesso – Assisti ao desfile de várias escolas. A União da Ilha merecia melhor sorte (talvez um terceiro lugar – definitivamente, não gosto das opções estéticas do carnavalesco Jack Vasconcellos). Não vou fazer, aqui, considerações técnicas sobre o desfile do Império Serrano, que foi superior à mera contabilidade de quesitos. Quem esteve na Sapucaí sabe do que estou falando. Escrevi sobre isso a pedido do Blog do Ancelmo Góis, fazendo o devido reconhecimento aos componentes, à Velha Guarda, à bateria e à Quitéria Chagas, essa rainha singular. Leia aqui.

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No desfile sob temporal, um comovente exemplo de raça e dedicação

4. Império em 2009 – O mais urgente é manter a Rachel Valença e o Waltinho Honorato, que fizeram milagre com a pouca estrutura que tinham, na direção de Carnaval. Além disso, fazer de tudo para continuar com os carnavalescos Renato Lage e Márcia Lávia. A diretoria deve estar atenta: nos últimos anos, as agremiações que subiram voltaram a descer logo no ano seguinte. Nenhuma surpresa: a política da Liesa é elitizar ao máximo o carnaval, como demonstram a bizarra opção de manter apenas 12 escolas no Grupo Especial e o desprezo dispensado ao pessoal do Acesso (com a ajuda, neste caso, da Rede Globo, que vem prestando um desserviço à folia carioca. Comento isso aqui - ver post 'Os bozós e o Wilson'). Outra coisa: jurados têm uma má-vontade especial com a agremiação que abre o desfile.

Em 2009, o Império terá que entrar na Sapucaí como fez neste ano: com todos os componentes cantando (foi de impressionar) e mostrando, no pé, o orgulho de ser imperiano. A escola ainda necessita de organização e de buscar um meio-termo entre o desfile pragmático à la ‘Laíla’ (o ‘Bernardinho do carnaval’, como bem definiu o amigo Fernando Molica), que inegavelmente faz sucesso mas definitivamente não encanta a Serrinha, e a reverência às suas mais arraigadas tradições. Não devemos importar o sistema da co-irmã de Nilópolis, por mais que tenha dado certo lá. Mas também não como insistir na desorganização como forma de trabalho. Muito se caminhou neste ano, aprendendo com erros passados. Agora, é redobrar o trabalho para se fixar novamente na elite e, em curto prazo, voltar a brigar pelas primeiras posições.

5. Novo refrão - “Meu Império outra vez / Vem no balanço do seu coração / Eu sou verde-e-branco / Com muito orgulho / Sou CAMPEÃO!”

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'Com o Império na Avenida' Escrito em 08 de fevereiro de 2008
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Ruy Castro

"A última vez que eu me vira na pista de um desfile das escolas de samba fora na avenida Presidente Vargas, em 1968, e, mesmo assim, a trabalho, como repórter da revista "Manchete". Grande noite, que começou cedo, na antiga praça 11, e, umas mil mulatas depois, foi até às 10h ou 11h da manhã seguinte, na Candelária, sob um sol de derreter a própria.

Todas as escolas saíam no mesmo dia e grande parte das atividades se dava no chão, com os pés descalços ou de sapato de fivela mandando ver no asfalto, ao nível do mar. Não havia limite de tempo, e um passista podia se exibir durante dez minutos diante do relógio da Central. Era extenuante, inclusive para a imprensa -mas, quando se tem 20 anos, como eu na época, quem fica cansado?

Bem, 40 anos depois, em 2008, cá estou eu de novo na avenida, só que agora no sambódromo e no desfile da divisão de acesso, na noite de sábado. E não mais como repórter, mas como convidado do Império Serrano, que tentará voltar ao lugar que lhe cabe no grupo principal das escolas de samba.

Detentor de nove títulos e berço de grandes nomes do samba, como Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e dona Ivone Lara, o Império fora rebaixado em 2007 depois de um atribulado desfile em que tudo dera errado. Para 2008, a escola recuperara um tema antigo, campeão de 1972, sobre Carmen Miranda, produzira um samba novo (e melhor) e refizera o enredo, valendo-se de dados que a historiadora Rachel Valença recolhera em meu livro -"Carmen - Uma Biografia"- daí a razão do convite.

O tênis, eu já tinha. A calça branca, comprei uma de enfermeiro naquelas lojas onde se vendem uniformes. E a escola me presenteou com uma linda camiseta de listras verde-amarelas, com a estampa de Carmen no peito e, nas costas, a identificação de "Apoio".

Significaria que, durante o desfile, eu teria passe livre para ir aonde quisesse, desde que me limitasse às laterais das alas e tentasse não dar um calço num tocador de chocalho ou não ser atropelado por um carro alegórico. E eu próprio já decidira ficar longe da rainha da bateria, minha leitora Quitéria Chagas, cuja visão é mesmo perturbadora. Mas não estava proibido de jogar beijos para as "arquibas" ou para os camarotes.

O Império seria a última das escolas a desfilar -na melhor das hipóteses, adentraria a Marquês de Sapucaí às cinco da matina. E a chuva já caía firme por volta de três da manhã quando cheguei à concentração nas proximidades do Piranhão, que é como chamamos o prédio da prefeitura. Ali já estavam Rachel, o cantor Jorginho do Império, os carnavalescos Renato Lage e Márcia Lávia, e a maioria dos 2.700 componentes, sob a chuva que começara horas antes, e olhe que eles tinham chegado muito cedo.

É verdade que chovia para todas as escolas, mas há um consenso de que, pior do que chover durante o desfile, é chover antes -ensopa as fantasias, interfere nas alegorias, desafina os instrumentos e, pior, abate o moral. E o que choveu pelas horas seguintes foi como se São Pedro tivesse uma marcação especial contra o Império.

Eu próprio, com as meias encharcadas, água até dentro dos bolsos e uma espessa cachoeira nos óculos, já começava a me perguntar o que estava fazendo ali, às vésperas dos 60 anos, de pé havia horas, as pernas já duras e sem o dinamismo de outrora, e ameaçando uma tosse de cachorro. O sensato era alegar um motivo de força maior, dizer boa sorte e tchau, e ir assistir ao desfile em casa, com uma manta quadriculada sobre os joelhos e uma bolsa de água quente nos pés.

Foi então que olhei em torno e vi Carlos, Renata, João Paulo, Luiza, Pim, Manza, Marcão, Lúli e os outros jovens com quem tinha ido no ônibus para o Sambódromo -uma plêiade de rapazes e moças da zona sul, entre 20 e 27 anos, todos inteligentes e bonitos, com suas fantasias de dados e naipes de baralho evocando a glória de Carmen Miranda nos cassinos.

Mais à frente, estava a ala dos Zé Cariocas; perto dali, a que representava Carmen no rádio e nos discos; na outra esquina, a ala de Hollywood e, equilibrando-se no carro da Broadway, os meninos do elenco do musical "Sassaricando". Todos subitamente tão imperianos quanto o pessoal da Serrinha e de Madureira, que compõe o grosso da escola e sofre e luta por ela o ano inteiro.

Todos ignorando a chuva e cantando o samba, antes mesmo que a bateria entrasse em cena -na certeza de que a única maneira de fazer o Império subir era "dizendo" no gogó e no pé, com um entusiasmo que não podia dar confiança à chuva, ao vento ou ao cansaço.

O alto-falante anunciou a entrada do Império Serrano na Marquês de Sapucaí. Eram cinco e meia da manhã. Os garotos saíram cantando o samba como se estivessem indo para uma batalha em que o único resultado possível era vencer ou vencer. Ao observá-los, eu não sabia se o que escorria de seus olhos eram lágrimas ou a chuva. Empolgado, fui atrás."

P.S. Este texto foi publicado na Folha de S. Paulo na terça-feira passada...

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Avante, imperianos! Escrito em 01 de fevereiro de 2008
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Antes de qualquer coisa, quero confessar minha extrema, desmensurada, tensão. Nunca havia participado tão de perto de um carnaval do Império Serrano como fiz neste ano (e acho que é o caso de todos nós, do grupo que se reuniu para ajudar a escola), nunca havia me envolvido tanto. E o nervosismo não se deve à falta de confiança. Pelo contrário: temos um ótimo enredo e um ótimo 'chão', a melhor bateria do país, um samba 'valente' (apud Andreazza), carros deslumbrantes e fantasias com a cara da história a ser contada: leves, alegres, divertidas.

Mas sei o quão é importante ganhar e voltar ao Grupo Especial, nosso lugar de direito. Até para que os passos adiante que foram dados este ano, aprendendo com os erros passados, continuem. Até para que se renove a crença num carnaval que não se dobre às falsas celebridades, que não tenha vergonha da tradição, que não se deixe dominar pela politicagem mais baixa - um carnaval com a cara e a alma do Império Serrano.

A luz de Deus, com a ajuda de São Jorge, vai iluminar a Serrinha, e romperemos a madrugada na Sapucaí com a felicidade suprema de cantar, nos requebrados de Carmen Miranda, essa força que nos constitui e que garante que não cansemos. Nunca.

Avante, imperianos!

P.S. Por motivos óbvios, este blog entra em recesso até a próxima quarta-feira

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Olhos bem abertos Escrito em 01 de fevereiro de 2008
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Ja faz algum tempo que tenho ouvido comentários à boca pequena sobre uma espécie de 'boa vontade' com a Caprichosos de Pilares antes mesmo do resultado do Grupo de Acesso. Não levei a muito sério porque costumo ingorar boatos desse tipo. Mas ao saber do acordo de última hora feito entre o presidente da escola, Paulo de Almeida, e a Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro para viabilizar a transmissão de seu desfile pela CNT (a agremiação recusava-se a permitir o televisionamento) e, mais, da justificativa que o sustentou ("Me pagaram o que eu queria. Não vou aceitar R$ 1 mil, nem R$ 2 mil. Não sou filho de pai assustado, nem nasci de véspera”), coloquei as barbas de molho. O negócio é manter os olhos bem abetos.

P.S. O Carlos Andreazza também escreveu sobre o assunto (leia aqui).

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