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João Sem Medo Escrito em 02 de janeiro de 2008
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A crônica do post abaixo trata, em essência, de paixões que independem de maiorias eventuais. Pois o assunto volta agora, já que terminei de ler João Saldanha - Uma vida em jogo. O João Sem Medo foi, sobretudo, um apaixonado: pelo Botafogo, pela Portela, pelo marxismo.

A biografia escrita pelo jornalista André Iki Siqueira tem problemas de redação e de copidesque. Muitas vezes, Siqueira repete palavras numa mesma frase, ou informações que já foram dadas no próprio livro. Além disso, vale-se excessivamente de expressões gastas, recorrendo a termos como “Demais!” (assim mesmo, com ponto de exclamação) para expressar sentimentos, num tom efusivo que destoa de uma reportagem. A coisa se agrava quando o erro é de informação: ao comentar sobre a divisão do PCB, ele afirma que dela se origina um partido chamado PCB do B.

A vida de Saldanha, no entanto, compensa esses equívocos. Aprendi a admirá-lo quando ainda menino, por causa do meu pai. O velho o adorava, o que me espantava pela imensa barreira que havia entre os dois no âmbito da política. O pai sempre foi lacerdista radical; Saldanha era comunista ferrenho. O Botafogo, contudo, os aproximava. Ademais, eles tinham um temperamento parecido, dado a explosões. No estudo de Siqueira, descobri um terceiro ponto em comum, o signo de Câncer, este que também me rege.

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Já conhecia Os subterrâneos do futebol, do próprio Saldanha, e o perfil feito pelo João Máximo para a Relume Dumará, mas a leitura de Uma vida em jogo me permitiu conhecer melhor esse extraordinário personagem. Não tinha idéia, por exemplo, de que Saldanha voara tão alto dentro da engrenagem do Partidão, chegando efetivamente a postos diretivos. Tampouco sabia dos pormenores do célebre embróglio em torno de sua saída do comando da Seleção às vésperas da Copa de 1970, ou dos detalhes de rompantes como o que aconteceu, já na velhice, quando mandou bala em cima do gerente de uma farmácia, que havia destratado sua empregada

Entre as tantas e divertidas histórias, está uma briga com o então colega de jornal Maurício Azedo. Os dois entraram na redação discutindo sobre futebol e quase chegaram às vias de fato. Separados pelos outros jornalistas, foram para seus postos. Quando se pensava que Saldanha voltara ao trabalho e se esquecera do conflito, ele surge com a máquina de escrever nas mãos, pronto para acertá-la sobre a cabeça de Azedo. Os colegas conseguiram evitar o golpe, para sorte da quase vítima. Confrontado com o ato de 'covardia', Saldanha retrucou: "O que tem regra é judô, boxe, jiu-jtsu. Porrada não tem regra"

Confesso que fiquei comovido ao terminar o capítulo que trata de sua morte. Biografias têm esse poder: ao condensar em algumas centenas de páginas toda uma vida, nos dão uma dimensão mais aguda do ciclo que iremos cumprir, do nascimento à morte, do auge à decadência (ao menos corporal). O que posso garantir é que, após a leitura, mesmo sem tê-lo acompanhado de perto como os mais velhos, fiquei com saudade do grande Saldanha. Que tremenda falta ele nos faz...

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