
. Foi ótimo o debate de anteontem com o Alexei Bueno e o amigo Henrique Rodrigues na Livraria Leonardo da Vinci. Em certo momento, a conversa derivou para certa tendência dos poetas atuais em privilegiar a 'perfomance' e o 'visual' no lugar do 'literário'. Sobre o assunto, aliás, o Alexei falou bastante em recente entrevista concedida ao Paiol Literário (do jornal Rascunho) no mês de outubro, cuja leitura recomendo, com entusiasmo. Entre as muitas ótimas frases da entrevista, há pelo menos uma definitiva: "A internet é igual ao Exu na macumba: não faz nem para bem nem para mal; você utiliza como quiser". Seguem alguns trechos. Leia a íntegra aqui.
A função da poesia - "(...) Acho que a função da poesia é engrandecer, não no sentido megalômano da palavra, mas no sentido de você conseguir sair desta miserável condição humana, que é nascer neste mundo outorgado, algo completamente absurdo. Algo existir é um absurdo científico e filosófico. Nós nos encontramos nesta coisa estarrecedora, num lapso de tempo entre duas eternidades das quais nós não sabemos nem o que aconteceu antes nem o que vai acontecer depois - se é que vai acontecer alguma coisa. Isso tudo me deixa profundamente angustiado e apavorado. E num dos poucos momentos em que sinto certo alívio disso é com a arte, que consegue me tirar um pouco da ratoeira metafísica em que todos nos encontramos (...)".
Panorama atual - "(...) Angustia-me fazer um panorama da atualidade poética. Há muita coisa que não li. E há aquelas coisas que categoricamente não me interessam: a videopoesia, poesia visual, poesia no computador. Para mim, isso está ligado às artes visuais e não à poesia. Uma vez me perguntaram sobre estas possibilidades híbridas e eu falei uma frase do Dalí, que é muito reacionária e muito engraçada: "o mínimo que se espera de uma escultura é que ela não se mexa (...)".
Os concretistas - "(...) A atual poesia brasileira tem uma grande variedade. Há certa atomização em estilos pessoais. O estilo de época praticamente se desfez. Não sei se isso é uma coisa ruim. Há grupos sociológicos que identifico perfeitamente: um grupo é ligado às chamadas vanguardas paulistas dos anos 50. São os discípulos dos concretistas de São Paulo, que se espalham pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais. Esse grupo é uma espécie de seita. São como seguidores do Bispo Edir Macedo. O concretismo é a versão poética das igrejas neopentecostais. Alguém ligado aos concretistas tem respostas implacavelmente iguais. Se falar de cinema, ele vai falar de Julio Bressane. Se falar de tradução de poesia, ele vai falar de Odorico Mendes. Se falar de música popular, ele vai falar de Caetano Veloso. Conheço a receita de bolo integral desses caras. São como a linha de produção de uma montadora de carros: são todos absolutamente iguais.(...)"
. O amigo Fernando Molica, autor de livros como Notícias do Mirandão e Bandeira negra, amor, voltou a atualizar seu blog, o Pontos de partida. Lá, ele trata de literatura, música, política, jornalismo, Botafogo (fazer o quê?) e Rio de Janeiro, entre muitos outros assuntos, com aquela visão divertidav e aguçada que o caracteriza. Confiram!
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